No início do século passado, uma em cada cinco crianças nascidas nos EUA morria antes mesmo de chegar à idade escolar. Foi nesse contexto que surgiram os primeiros movimentos organizados por mulheres em defesa de direitos específicos para mães e crianças. É também nesse passado relativamente recente que a infância começa a ser compreendida de outra maneira: a criança passa a ser reconhecida não apenas como um adulto em formação, mas como um ser singular, com características próprias, necessidades específicas e diferentes possibilidades de desenvolvimento.
Aos poucos, as pesquisas acadêmicas passaram a demonstrar, com clareza crescente, o peso do ambiente sobre o desenvolvimento infantil. As evidências mostraram que uma boa educação – que está longe de se limitar à escolarização formal – produz efeitos duradouros, que ultrapassam os anos da infância e repercutem na vida adulta da pessoa e, em última instância, na própria sociedade que a acolhe. Hoje, esse entendimento parece consagrado. Não basta oferecer uma boa escola. O tempo que a criança passa fora dela é igualmente decisivo. É nesse espaço que entram em cena as condições de moradia, a alimentação, o acesso a livros e brinquedos, as oportunidades de esporte e lazer, a qualidade das relações familiares e a possibilidade de brincar, conversar, imaginar e descobrir o mundo.
É também nesse espaço que as desigualdades sociais podem se aprofundar. Famílias em situações mais vulneráveis nem sempre dispõem dos recursos – materiais, culturais ou mesmo de tempo – necessários para oferecer às crianças as mesmas oportunidades de desenvolvimento. A parentalidade, portanto, deixou de ser compreendida apenas como uma experiência íntima de um casal ou de uma família. Tornou-se também uma questão pública. Sabemos hoje que o desenvolvimento das crianças produz efeitos que alcançam o futuro econômico, social e político de uma sociedade. Cabe aos pais cuidar dos filhos – tarefa inescusável e insubstituível. Mas ela não é exclusivamente deles. Criar uma criança é, em alguma medida, uma responsabilidade compartilhada.
Parentalidade (parenting) é o termo utilizado para designar o conjunto de responsabilidades envolvidas na criação dos filhos. Em sua dimensão mais íntima, envolve cuidado, proteção, amor, acolhimento e a capacidade de proporcionar segurança e alegria. Mas envolve também a construção de habilidades que vão muito além do desempenho acadêmico: confiança, disciplina, autonomia, resiliência, ética e empatia. Esse processo resulta de uma complexa combinação de tempo, circunstâncias, oportunidades, vínculos, esforço e desafios emocionais. Por isso, o sucesso ou o fracasso de uma criança não pode ser interpretado apenas como mérito ou falha individual de uma família. É preciso considerar também as condições sociais nas quais essa família exerce sua parentalidade.
De acordo com a jornalista Renata Cafardo: “O amor é indispensável, mas não substitui políticas públicas, redes de apoio e investimento coletivo. Se quisermos enfrentar a desigualdade de maneira consistente, será preciso reconhecer que criar crianças é uma tarefa compartilhada.”
Mas chegamos a um momento em que os desafios da parentalidade ganharam uma dimensão inteiramente nova. O escritor Jonathan Haidt chamou o período entre 2010 e 2015 de “a grande reconfiguração da infância”. Para ele, a chegada dos smartphones e das redes sociais desempenhou papel central nessa transformação. As crianças passaram a estar expostas, de maneira inédita, a ambientes digitais cuidadosamente desenhados para capturar e manter sua atenção. Sistemas de recompensa, notificações, estímulos constantes e mecanismos de reforço comportamental tornam a experiência digital particularmente atraente para um cérebro ainda em desenvolvimento.
Não se trata simplesmente de demonizar a tecnologia. O problema é mais profundo: estamos diante de uma transformação cultural que modificou a maneira como as crianças brincam, aprendem, se relacionam, descansam e constroem sua percepção de si mesmas e do mundo. O momento atual é, nesse sentido, singular na história humana. Nunca tivemos simultaneamente tamanha quantidade de conhecimento, tamanha velocidade de transformação e tamanha capacidade tecnológica de interferir na atenção e no comportamento das pessoas.
Talvez estejamos, de fato, atravessando uma transição civilizacional.
E, nesse cenário, surge a Inteligência Artificial, como mais um capítulo de uma transformação que começou com o computador, ganhou velocidade com a internet e alcançou uma nova dimensão com os smartphones e as redes sociais. Um dos grandes desafios da parentalidade contemporânea talvez seja justamente este: o novo tempo pode estar roubando das crianças a infância, das famílias a convivência e de todos nós dois bens preciosos – o tempo e a atenção.
As telas não são apenas objetos que ocupam algumas horas do dia. Elas disputam nossa atenção, reorganizam nossos hábitos e, silenciosamente, podem ocupar o lugar de experiências fundamentais: dormir, brincar, movimentar-se, estudar, conversar, conviver, imaginar. O pediatra americano Michael Rich chama atenção para aquilo que ainda podemos fazer: temos poder sobre os contextos que criamos para nós e para nossos filhos, sobre os hábitos de uso da mídia que modelamos, sobre as habilidades digitais que ensinamos e, sobretudo, sobre as memórias que construímos juntos quando estamos longe das telas. Renata Cafardo, ao comentar essa perspectiva, destaca uma questão essencial: “não basta observar o que crianças e adolescentes fazem diante das telas. É preciso perguntar também o que eles deixam de fazer por causa delas.”
Talvez este seja um dos maiores desafios da parentalidade e da educação neste início de século: não negar o mundo que existe, mas ensinar nossos filhos a atravessá-lo sem que esse mundo lhes roube aquilo que é essencialmente humano. Não se trata de voltar ao passado. Nem de imaginar uma infância protegida de toda tecnologia. Trata-se de presença. De limites. De vínculo. De oferecer às crianças algo que nenhuma tecnologia é capaz de substituir: a experiência de serem vistas, escutadas, cuidadas e amadas por pessoas que estão verdadeiramente presentes em suas vidas.
Por isso, o Dia dos Filhos, comemorado em 23 de setembro, pode ser mais do que uma data para celebrar aqueles que amamos. Pode ser uma oportunidade para lembrar que uma criança não pertence apenas à sua família. Ela pertence também ao futuro. E que o modo como cuidamos das crianças hoje diz muito sobre o tipo de sociedade que desejamos construir amanhã. No Dia dos Filhos, talvez o convite seja este: olhar para nossas crianças – e perguntar não apenas o que estamos deixando para elas, mas também o que estamos deixando de lhes oferecer.Tempo. Presença. Convivência. Infância. E a liberdade necessária para descobrir, pouco a pouco, quem poderão vir a ser.
Textos consultados:
1. Cafardo R. O algoritmo das famílias. Como o mundo digital desafia a parentalidade. São Paulo: Contexto, 2026.
2. Haidt J. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
3. Rich M. O guia do midiatra: como criar crianças saudáveis. Porto Alegre: Artmed, 2019.
Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP
