Um diálogo da vovó com sua neta:
Vovó – Vou tomar a “tabuada”, hoje. Quero ver essa sabichona responder: quanto é 7 x 1?
Neta – Isso é fácil vó, assim não tem graça – é sete.
Vovó – Então, quanto é 9 x 7?
Neta – Pera aí, vó. Vou pegar meu celular.
Vovó – Não, não. Tabuada tem que saber de cor, de cabeça.
Neta – Pra que isso, vó? Por que tem que decorar se o Google e os chatbots fazem isso pra gente, quase instantaneamente?
Vovó – O seu cérebro precisa ser exercitado, assim como os seus músculos precisam do exercício físico!
Neta – Que radical, vó! Os tempos são outros, viu?
Vovó – São outros, sim. Você sabia que no tempo da sua bisavó, da minha mãe, as professoras tinham uma régua grande, que utilizavam para ajudar a ensinar os preguiçosos e as crianças bagunceiras? Elas batiam na palma das mãos das crianças com aquela régua, para lembrá-las das suas tarefas e obrigações.
Neta – Que absurdo, vó! Ninguém aprende apanhando…
Vovó – Tá vendo… houve uma evolução. Felizmente, aquele tempo da palmada já passou…
Neta – Então, a calculadora do celular é a evolução do nosso tempo, vó!
Vovó – Pera aí! Não é tão simples, assim…”
Essa conversa singela escancara uma faceta da realidade do mundo no qual estamos vivendo. Sim, os tempos são outros. E é nesse universo de novidades que pais são chamados a exercer a parentalidade – uma tarefa desafiadora e angustiante, por vezes. A administração do uso do celular, da exposição às telas, da supervisão escolar, é uma das tarefas da parentalidade.
Voltando ao tema desse diálogo intergeracional, resgato um estudo que pode ajudar a vovó a convencer sua netinha. O estudo, conduzido por pesquisadores do MIT Media Lab em 2025, investigou os efeitos cognitivos do uso do ChatGPT durante a produção de textos.¹ O trabalho acompanhou 54 participantes, divididos em três grupos: um utilizava o ChatGPT, outro realizava pesquisas por meio de mecanismos de busca e um terceiro escrevia sem auxílio de ferramentas digitais. Durante as tarefas, a atividade cerebral era monitorada por eletroencefalografia (EEG). Os pesquisadores encontraram diferenças nos padrões de conectividade cerebral entre os grupos; com menor conectividade global no grupo que utilizava o LLM² e maior conectividade no grupo que escrevia sem ferramentas externas. Também foram observadas diferenças na recordação do conteúdo produzido e na percepção de autoria dos textos.
Então, netinha, a vovó está certa: a calculadora deve entrar depois do seu esforço para memorizar. Esse estudo é muito interessante para sustentar a ideia de que delegar parte do esforço cognitivo a uma IA pode modificar a maneira como pensamos e escrevemos. Esforço e dificuldades não são obstáculos, mas condições essenciais para o crescimento neural. Ao enfrentar desafios, o cérebro cria novas conexões ou fortalece as existentes – é a famosa neuroplasticidade. Quando se está aprendendo, é muito importante enfrentar desafios, errar, corrigir, seguir adiante, cometer mais erros. Aprendemos muito com nossos erros.
Saiba mais:
1. Kos’myna N, Hauptmann E, Yuan YT, Situ J, Liao X-H, Beresnitzky AV et al. Your brain on ChatGPT: accumulation of cognitive debt when using an AI assistant for essay writing task. ArXiv preprint, arXiv:2506.08872, 2025. Publicado no arXiv em 10 de junho de 2025.
2. LLM significa Large Language Model (Modelo de Linguagem em Grande Escala). A sigla se refere a uma ferramenta de IA, utilizada em chatbots, tradução de idiomas e geração de texto.
Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP
