Porque ainda precisamos falar da paralisia infantil

Porque ainda precisamos falar da paralisia infantil

Em 24 de outubro, o Dia Mundial de Combate à Poliomielite nos convida a celebrar uma das grandes conquistas da saúde pública e a renovar um compromisso: proteger todas as crianças contra uma doença que pode deixar sequelas permanentes. Para muitas famílias, a paralisia infantil parece pertencer a um passado distante. Essa percepção é fruto do sucesso da vacinação, mas não significa que a ameaça tenha desaparecido.

O Brasil registrou seu último caso de poliomielite causada pelo vírus selvagem quase quatro décadas atrás, em 1989 e, em 1994, recebeu, junto com os demais países das Américas, a certificação de eliminação de sua circulação. Essa vitória foi construída com exitosas campanhas de vacinação, trabalho das equipes de saúde e participação das famílias. Preservá-la exige o mesmo compromisso coletivo.

O que é a poliomielite?

A poliomielite, ou paralisia infantil, é uma doença causada pelo poliovírus. Ele passa de pessoa para pessoa, principalmente pelas fezes, pela água e por alimentos contaminados. Também pode passar, com menos frequência, por gotículas da fala, da tosse e do espirro.

A maioria das pessoas infectadas pelo poliovírus não tem sintomas ou tem apenas sintomas leves e passageiros, como febre, mal-estar, dor de garganta, dor de cabeça e enjoo. Mesmo sem sintomas, essas pessoas eliminam o vírus nas fezes e nas secreções da boca e podem transmiti-lo. Por isso o vírus circula sem ser percebido. Em uma pequena parcela dos casos, o vírus atinge o sistema nervoso e pode causar meningite. Em menos de 1% dos infectados, provoca paralisia súbita, geralmente nas pernas, que frequentemente deixa sequelas permanentes. Quando atinge os músculos da respiração, a doença pode matar. Crianças pequenas são as mais atingidas.

Não existe cura, mas existe proteção

A poliomielite não tem tratamento capaz de reverter a paralisia. Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação é a única forma de prevenção. E ela funciona muito bem. Desde 1988, as campanhas de vacinação no mundo reduziram de forma dramática os casos causados pelo vírus selvagem em mais de 99%.

Então por que a data ainda importa e por que continuar vacinando se não temos casos no Brasil?

Porque o vírus não desapareceu do planeta. Afeganistão e Paquistão continuam registrando casos em 2026. Os dois países são os últimos onde o vírus selvagem ainda circula e provoca casos da doença.

Viagens internacionais podem levar o vírus para qualquer lugar. Um exemplo recente é a Alemanha. Em novembro de 2025, o país encontrou poliovírus selvagem em uma amostra de esgoto em Hamburgo, sem casos em pessoas. Esse achado veio depois de outras detecções no esgoto de vários países europeus. A agência europeia de controle de doenças (ECDC) considerou o risco muito baixo justamente porque as taxas de vacinação na população da região são altas.

Essa é a lição principal: o vírus pode chegar, mas só causa surtos onde encontra pessoas desprotegidas, em particular crianças não vacinadas ou sem esquemas completos.

O alerta no Brasil

A cobertura vacinal no Brasil, apesar da recuperação vista nos últimos três anos, ainda não é a ideal. Ela está abaixo da meta de 95% em muitos Estados e Municípios. No Estado de São Paulo, por exemplo, a cobertura está em torno de 89% na terceira dose. Quando muitas crianças deixam de ser vacinadas ou quando temos em uma determinada região fragilidades na cobertura vacinal, abre-se espaço para a volta de uma doença que muitos pais e mães nunca viram, mas que deixou milhares de pessoas com sequelas no passado.

Como vacinar seu filho

O esquema atual tem três doses da vacina inativada (VIP), que é injetável, aos 2, 4 e 6 meses de vida. Depois vêm dois reforços, aos 15 meses e aos 4 anos. O segundo reforço, aos 4 anos, entrou no calendário em 3 de agosto de 2026. A antiga “gotinha” foi substituída, e todo o esquema passou a ser feito com a VIP.

A vacina é gratuita e está disponível o ano todo nas Unidades Básicas de Saúde.

Dicas práticas para as famílias

  • Confira a caderneta de vacinação. Se alguma dose estiver atrasada, procure a UBS. Não é preciso recomeçar o esquema, basta completar as doses que faltam.
  • Leve a caderneta às consultas com o pediatra. Ele pode orientar sobre a situação vacinal da criança.
  • Atualize as vacinas antes de viajar. Isso vale principalmente para viagens a países com circulação do vírus.
  • Desconfie de notícias falsas sobre vacinas. Busque informação com seu pediatra e em fontes oficiais.

Uma conquista que depende de todos

A poliomielite está perto de ser erradicada do mundo, mas “perto” não é suficiente. Enquanto houver vírus circulando em algum lugar, toda criança não vacinada adequadamente está em risco.

Neste Dia Mundial de Combate à Poliomielite, a Sociedade de Pediatria de São Paulo reforça: vacinar no tempo certo é um ato de cuidado com o seu filho e com toda a comunidade.

Saiba mais:

-Organização Mundial da Saúde (OMS), Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI). Disponível em: https://polioeradication.org/

-UNICEF. 85% das crianças afetadas pela pólio em 2023 viviam em países frágeis e afetados por conflitos. No Dia Mundial de Combate à Pólio, o UNICEF alerta que os casos de pólio nesses ambientes mais do que dobraram nos últimos cinco anos. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/innocenti/comunicados-de-imprensa/85-das-criancas-afetadas-pela-polio-em-2023-viviam-em-paises-frageis-e-afetados-por-conflitos

-Centers for Disease Control and Prevention (CDC). About Global Polio Eradication. Disponível em: https://www.cdc.gov/global-polio-vaccination/about/index.html

-European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Polio dashboard. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/polio-dashboard

-Ministério da Saúde (NOTA TÉCNICA Nº 64/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS). Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Coordenação-Geral de Incorporação Científica e Imunização. Disponível em: https://sbim.org.br/images/SEI_0056071763_Nota_Tecnica_64.pdf_2026-06-23.pdf

Relator:

Marco Aurélio P. Sáfadi

Membro do Departamento Científico de Imunizações da SPSP