O Dia da Criança, em 2026, nos interpela com perguntas incômodas e urgentes

O Dia da Criança, em 2026, nos interpela com perguntas incômodas e urgentes

Texto divulgado em 09/10/2026

A criança é o futuro – diz o ditado popular -, mas o futuro começa hoje. A criança será o adulto de amanhã. Mas o adulto de hoje está construindo o mundo em que essa criança viverá. A criança que precisamos proteger não vive apenas nas ruas. Ela também está dentro de casa, na escola e, cada vez mais, dentro de uma tela.

  1. Que futuro estamos preparando para aqueles que ainda não podem participar plenamente das decisões que determinarão seu futuro?
  2. Que infância estamos construindo em uma sociedade em que a inteligência artificial já participa da maneira como aprendemos, escrevemos, buscamos informação, pensamos, brincamos e nos relacionamos?
  3. Que futuro estamos preparando quando uma parte de nossas crianças sequer consegue chegar ao futuro?
  4. Quando uma criança precisa trabalhar para sobreviver, o presente lhe cobra o futuro antes que ela tenha tempo de construí-lo. Não é mesmo?

Temos bons instrumentos de defesa da criança e do adolescente – Declaração dos Direitos da Criança (1959); Convenção sobre os Direitos da Criança (1989); Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990); ECA Digital (2026). Precisamos concretizá-los na prática – isso é um trabalho diário e contínuo. Promovemos muitos avanços,* mas ainda há muitíssima tarefa a ser executada. Essa é uma responsabilidade dos adultos de hoje; conta que o adulto de amanhã, certamente, nos cobrará.

(*) complemento da informação:

Houve redução da pobreza multidimensional entre 2017 e 2023, de 62,5% para 55,9%. Mas ainda são 28,8 milhões de crianças e adolescentes nessa condição. A fome diminuiu significativamente, mas 24,2% dos domicílios ainda apresentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024. Na Educação, somente 66% das crianças atingiram o padrão nacional de alfabetização ao final do 2º ano em 2025. Portanto, aproximadamente um terço ainda não o atingiu. Na Saúde,oBrasil reduziu fortemente o número de crianças “zero dose”, mas ainda enfrenta coberturas insuficientes em vacinas importantes, como a do sarampo, por exemplo. A violência é um fato – 15.101 mortes violentas foram registradas no grupo etário entre 0–19 anos, no período entre 2021–2023. Os registros de estupro/estupro de vulnerável no período foram de 164.199. Em 2024, 1,65 milhão de crianças e adolescentes estavam em situação de trabalho infantil.

Fernando MF Oliveira

Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP