Doação de órgãos – um olhar sobre as crianças

Doação de órgãos – um olhar sobre as crianças

Em 27 de setembro, o Brasil celebra o Dia Nacional da Doação de Órgãos, instituído pela Lei nº 11.584/2007. A data abre o “Setembro Verde”, mês dedicado a conscientizar a população sobre um gesto que pode salvar vidas – e, quando falamos de crianças, esse tema ganha contornos ainda mais delicados e urgentes.

Por que falar de doação pediátrica?

Encontrar um órgão compatível para uma criança é mais difícil do que para um adulto. Isso acontece por um motivo bom: a mortalidade infantil por morte encefálica vem caindo nas UTIs pediátricas ao longo dos anos, o que reduz o número de doadores nessa faixa etária. Ao mesmo tempo, mais crianças com doenças crônicas sobrevivem hoje graças aos avanços da medicina – e muitas delas passam a precisar de um transplante para continuar vivendo.

O resultado é um desequilíbrio: existem poucos doadores pediátricos e a demanda não para de crescer. Para uma criança na fila, isso significa meses ou anos de espera, exames frequentes, idas e vindas ao hospital e uma rotina construída em torno de um telefone que pode tocar a qualquer momento.

O transplante renal é um dos mais realizados entre crianças no Brasil, mas a espera também atinge quem precisa de fígado, coração e outros órgãos. Por trás de cada nome nessa lista, há uma família inteira em estado de alerta, tentando manter a vida normal enquanto aguarda uma notícia que pode mudar tudo.

A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mantém o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), que acompanha, desde 1996, todos os transplantes realizados no país – incluindo um capítulo dedicado especificamente ao transplante pediátrico, além de informações sobre lista de espera e doação de órgãos.

Segundo o último levantamento anual da entidade, divulgado em parceria com o Sistema Nacional de Transplantes, o Brasil registrou 15.940 notificações de potenciais doadores e 4.335 doadores efetivos em 2025, um crescimento de 5,7% e 5,2%, respectivamente, em relação ao ano anterior. Ao todo, o país realizou mais de 31 mil transplantes em 2025, um recorde histórico e um avanço de 21% em relação a 2022.

Apesar do crescimento, a ABTO reforça um alerta que se aplica com ainda mais força às famílias com crianças: a taxa média de recusa familiar para a doação de órgãos no Brasil gira em torno de 45%. Sabemos que a recusa não é só uma questão pessoal, mas também de acolhimento e informação oferecidos no momento da conversa com a família.

Diferente de um adulto, que pode manifestar em vida o desejo de ser doador, no caso de uma criança é sempre a família – geralmente os pais – que autoriza (ou não) a doação após o falecimento. É uma decisão tomada em um dos momentos mais dolorosos que existem, muitas vezes de forma repentina, sem tempo para processar a perda.

Por isso, informação e diálogo prévio fazem toda a diferença. Famílias que já conversaram sobre o assunto – mesmo que de forma breve – costumam se sentir mais seguras na hora de decidir, porque sabem que a doação transforma uma tragédia em uma chance real de vida para outra criança e sua família.

Vale lembrar que a doação não compromete o velório nem a aparência do corpo, e o processo é conduzido com todo o respeito e cuidado por equipes especializadas.

Um único doador pode salvar ou melhorar a vida de até oito pessoas, com órgãos como coração, fígado, pulmões, rins e pâncreas, além de beneficiar outros pacientes por meio da doação de tecidos, como córneas e ossos. Quando esse doador é uma criança, o órgão costuma ir para outra criança – muitas vezes, do tamanho exato que ela precisa.

O Brasil tem um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo, majoritariamente financiado pelo SUS, com uma fila organizada por critérios técnicos – compatibilidade, tipo sanguíneo e urgência clínica –, e não por ordem de chegada ou condição financeira.

Neste Setembro Verde, o convite é simples: converse com sua família sobre o assunto, manifeste seu desejo em relação aos filhos. Em situações inesperadas, é melhor que a decisão venha acompanhada de informação e não de dúvida.

Por trás de cada órgão doado existe uma criança esperando – e por trás de cada “sim” existe uma família que transforma sua dor no maior presente que se pode dar a outra pessoa: a chance de continuar vivendo.

Relator:

Paulo Cesar Koch Nogueira

Professor de Pediatria da UNIFESP – Escola Paulista de Medicina Responsável Técnico do Transplante Renal Pediátrico do Hospital Samaritano Higienópolis de São Paulo

Membro do Departamento Científico de Nefrologia da SPSP