Dívida cognitiva – cognitive debt

Dívida cognitiva – cognitive debt

“Dívida cognitiva” é uma metáfora conceitual que descreve algo que pode acontecer quando uma ferramenta assume parte do esforço mental que normalmente seria realizado pela própria pessoa.

Imagine que escrever uma redação exige várias operações: pensar → lembrar → selecionar → organizar → formular → revisar → corrigir. Quando escrevemos sem nenhum auxílio tecnológico, cada uma dessas etapas exige algum trabalho cognitivo. Com o uso das IAs, podemos transferir algumas delas para a máquina, através de prompts, como estes: “Organize minhas ideias”, “Crie uma introdução”, “Melhore este argumento”, “Resuma isso”, “Escreva de forma mais elegante”. O resultado pode ser melhor e mais rápido. Mas existe uma pergunta que deve ser feita: “o que acontece conosco quando deixamos de fazer determinada parte do trabalho mental?”

É aí que aparece a metáfora da dívida. A pessoa recebe o benefício imediatamente, mas pode deixar de realizar determinados processos cognitivos que contribuiriam para sua aprendizagem. “A ‘dívida’ corresponderia àquilo que deixou de ser construído durante o processo e que poderá exigir um esforço posterior de desenvolvimento.”

Há uma diferença enorme entre estas duas frases: A. “Tenho uma ideia. Vou escrevê-la e depois pedir à IA que a critique” e B. “Tenho que escrever sobre esse assunto. ChatGPT, escreva para mim”. Nos dois casos houve uso de IA. Mas cognitivamente são situações muito diferentes.

No primeiro caso, a IA funciona como interlocutora. No segundo, pode funcionar como substituta do esforço intelectual. Essa distinção é fundamental.

Com a IA generativa isso se torna muito mais sofisticado porque ela não apenas calcula; ela escreve, resume, argumenta, traduz, compara, organiza, explica, cria hipóteses, produz código, sintetiza informações. Ou seja: pela primeira vez temos uma tecnologia capaz de ocupar uma parcela considerável do território que tradicionalmente chamávamos de “trabalho intelectual”. É isso que torna o fenômeno novo.

O esforço não é necessariamente desperdício. Nós frequentemente imaginamos que o objetivo da educação é chegar ao resultado. Mas talvez, em muitos casos, o caminho seja parte do resultado. Uma criança que lê uma história lentamente não está apenas descobrindo o que aconteceu. Ela está aprendendo a: imaginar, antecipar, inferir, suportar ambiguidades, reconhecer emoções, construir imagens mentais, estabelecer relações, lembrar personagens, interpretar intenções.

Se entregarmos imediatamente um resumo perfeito, teremos economizado tempo. Mas talvez tenhamos também eliminado o lugar onde essas capacidades seriam exercitadas. Informação adquirida não é necessariamente conhecimento construído. E conhecimento construído não é necessariamente sabedoria.


Relator:

Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP