Dia 20 de outubro é o Dia Mundial de Combate ao Bullying. O bullying é definido como uma prática de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, adotadas com motivação (como aparência, etnia, vestimentas, materiais escolares, alguma deficiência) ou mesmo sem motivação evidente por um ou mais indivíduos contra outro(s), em uma relação desigual de poder. O bullying tradicional manifesta-se de forma direta ou indireta, física, verbal, escrita, moral/psicológica e material. São fundamentais três elementos: intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder.
O cyberbullying amplia o alcance da violência ao ambiente digital, por meio de redes sociais e mensagens. Caracteriza-se pelo potencial de difusão massiva e instantânea, pelo anonimato frequente do agressor e pela permanência das publicações no ciberespaço. Devido ao seu alto poder de replicação, uma única agressão virtual já pode ser considerada cyberbullying.
No Brasil, o combate ao problema baseia-se na Lei Federal nº 13.185/2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, e na Lei nº 14.811/2024, que criminalizou o bullying e o cyberbullying, prevendo penas de reclusão de 2 a 4 anos e multa para atos cometidos no ambiente virtual.
A dimensão do fenômeno é evidenciada em diversos levantamentos populacionais e estudos acadêmicos. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE/IBGE) de 2024 apontou que 27% dos estudantes brasileiros relataram ter sido alvo de bullying, enquanto 13% afirmaram ter atuado como perpetradores. Uma pesquisa em Recife (PE) com estudantes de 13 a 15 anos identificou que 32% tinham sido alvo de cyberbullying nos dois meses anteriores ao estudo. A presença de cyberbullying mostrou uma forte associação com sintomas depressivos e bullying presencial tradicional.
A dinâmica da intimidação envolve quatro papéis principais: o autor (agente), o alvo, o espectador (testemunha) e o alvo/agente, no qual o indivíduo é simultaneamente alvo em um contexto e autor em outro. No cyberbullying, o espectador desempenha seu papel ao compartilhar, curtir ou comentar material ofensivo, tornando-se um participante ativo da agressão. A exposição ao bullying e ao cyberbullying acarreta graves consequências para o bem-estar psicológico e físico dos adolescentes. Alvos de cyberbullying tiveram quase três vezes mais chances de desenvolver depressão do que jovens que não foram alvos. Os alvos de ambos os tipos de bullying apresentam um quadro depressivo agravado e podem manifestar sintomas comportamentais e orgânicos, como dor abdominal, insônia, dor de cabeça, fadiga, queda no desempenho escolar, isolamento social, perda de autoestima, desespero e sentimento de impotência, podendo, em casos mais graves, levar à autolesão (chamada de cutting) e a pensamentos suicidas. As testemunhas também sofrem com o bullying.
Adolescentes em sofrimento tendem a recorrer à internet e às telas para escapar de emoções negativas. No entanto, o uso excessivo de telas e mídias aumenta a exposição a novas agressões, retroalimentando o ciclo de cyberbullying, depressão e dependência digital.
A abordagem ao bullying e ao cyberbullying requer um esforço coordenado entre a escola, a família, os profissionais de saúde e a sociedade. Nas escolas, a prevenção ao bullying deve ser integrada de forma transversal, com espaços permanentes de escuta e mediação de conflitos. Medidas puramente punitivas devem ser evitadas, pois marginalizam o autor e não promovem o desenvolvimento de competências socioemocionais. O acompanhamento ativo dos pais, incluindo refeições em família, monitoramento das tarefas escolares e regulação do tempo de tela, funciona como um fator protetor, reduzindo a probabilidade tanto de agressão quanto de vitimização. É importante estimular a higiene do sono, a supervisão do conteúdo consumido online e a denúncia imediata de conteúdos ilícitos. Os profissionais de educação e saúde (professores, pediatras, psicólogos escolares) devem ser capacitados para identificar sinais precoces de sofrimento emocional, garantindo o acolhimento e encaminhando para atendimento especializado. A interação social em grupos de amigos com interesses em comum também serve de apoio, mitigando a intensidade do sofrimento e da insegurança. Deve-se estimular o envolvimento de testemunhas para que quebrem o silêncio e assumam um papel ativo na defesa e no apoio aos alvos, intervindo, interrompendo e defendendo. Isso pode ser assustador, mas se as testemunhas se unirem, o risco de retaliação diminuirá. Pequenos atos de suporte moral e apoio no ambiente escolar podem servir de modelo para outras testemunhas de como agir para apoiar os alvos e reduzir a vitimização.
Saiba mais:
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Relatoras:
Lilia Li
Isabella Papis
Departamento Científico de Adolescência da SPSP
