Respirar é tão natural que muitas vezes só percebemos a importância dos nossos pulmões quando alguma coisa não vai bem. Cuidar da saúde respiratória não deveria começar quando surgem a tosse, a falta de ar ou uma crise de asma. Na verdade, a proteção dos pulmões começa muito antes do nascimento e acompanha toda a infância, adolescência e se estende à vida adulta.
No Dia Mundial do Pulmão, celebrado em 25 de setembro, vale lembrar que os pulmões estão em desenvolvimento desde a gestação e que diferentes fatores ao longo da vida podem influenciar seu crescimento e funcionamento. Por isso, falar em saúde pulmonar na pediatria é falar em prevenção desde o início da vida – e até mesmo antes dela.
Antes da gestação: preparar um ambiente saudável
A saúde da criança começa antes da gravidez. Hábitos de vida, alimentação, exposição ao cigarro, álcool, poluentes e outras substâncias podem influenciar a saúde dos futuros pais e, indiretamente, o desenvolvimento do bebê.
A ciência também vem mostrando como fatores ambientais podem influenciar a forma como determinados genes funcionam, fenômeno conhecido como epigenética. Isso não significa que nosso destino esteja determinado pelos genes, mas que o ambiente em que vivemos pode participar da construção da nossa saúde.
Durante a gestação: proteger dois pulmões que estão se formando
Durante a gravidez, evitar o cigarro e outras fontes de fumaça é fundamental. A exposição materna à poluição, à fumaça do tabaco e a outras substâncias pode interferir no desenvolvimento fetal e está associada a diferentes problemas de saúde respiratória.
Por isso, pré-natal adequado, alimentação equilibrada, atividade física orientada e vacinação da gestante são importantes não apenas para a saúde da mãe, mas também para a proteção do bebê.
O nascimento e os primeiros meses: cada cuidado conta
O período neonatal é uma fase especialmente importante. Prematuridade, baixo peso ao nascer e algumas complicações respiratórias podem interferir no desenvolvimento pulmonar. O acompanhamento pediátrico desde os primeiros dias de vida permite identificar precocemente situações que merecem atenção.
O aleitamento materno, quando possível, também faz parte desse cuidado. Além de oferecer nutrientes, ele contribui para a proteção contra infecções e para o desenvolvimento saudável da criança.
Vacinar é também proteger os pulmões
Muitas doenças respiratórias podem ser prevenidas por meio da vacinação. Manter o calendário vacinal atualizado é uma das medidas mais simples e eficazes para reduzir o risco de infecções respiratórias potencialmente graves.
Influenza, coqueluche, pneumococo, covid-19 e outras doenças preveníveis por vacinação podem representar riscos importantes para crianças, especialmente para aquelas que apresentam doenças respiratórias crônicas.
Vacinar é um ato individual, mas também uma forma de proteger toda a comunidade.
Alimentação, crescimento e movimento
Uma alimentação variada e adequada para cada fase da infância contribui para o crescimento e o desenvolvimento de todo o organismo, inclusive dos pulmões.
Da mesma forma, criança precisa se movimentar. Brincar, correr, nadar, andar de bicicleta, praticar esportes e manter uma rotina fisicamente ativa são hábitos importantes para a saúde respiratória e cardiovascular.
A prática esportiva também ajuda a criança a conhecer seu próprio corpo. Falta de ar, tosse ou chiado durante ou após o exercício não devem simplesmente ser atribuídos à “falta de condicionamento”. Em alguns casos, podem ser sinais de uma doença respiratória que precisa ser avaliada.
Um pulmão saudável precisa de ar saudável
As crianças são particularmente vulneráveis à poluição porque seus pulmões ainda estão crescendo e a exposição à poluição do ar pode prejudicar esse desenvolvimento pulmonar e aumentar o risco de problemas respiratórios.
Por isso, precisamos cuidar da qualidade do ar dentro e fora de casa: evitar ambientes com fumaça, melhorar a ventilação, combater mofo e umidade e reduzir, sempre que possível, a exposição à poluição ambiental.
Cigarro, narguilé e vape: não existe fumaça ou vapor inocente
Uma das principais mensagens de prevenção deve começar cedo: criança não deve ser exposta à fumaça do cigarro.
O tabagismo passivo está associado a maior risco de infecções respiratórias, pior controle da asma e outros problemas pulmonares. Não existe nível seguro de exposição à fumaça do tabaco.
E precisamos falar também com os adolescentes. Narguilé e cigarros eletrônicos não são alternativas inofensivas. Esses dispositivos podem liberar nicotina e diversas substâncias potencialmente tóxicas, além de favorecer a dependência. A nicotina é especialmente preocupante durante a infância e a adolescência, quando o cérebro ainda está em desenvolvimento.
A prevenção precisa começar antes do primeiro contato com esses produtos. Conversar com crianças e adolescentes, ouvir suas dúvidas e oferecer informação baseada em ciência é uma importante estratégia de proteção.
Cuidar do pulmão é cuidar do futuro
A saúde respiratória é construída ao longo da vida. Antes da gestação, durante a gravidez, no nascimento, na primeira infância, na idade escolar e na adolescência, cada escolha pode contribuir para que uma criança desenvolva todo o seu potencial respiratório.
Proteger os pulmões significa vacinar, alimentar bem, praticar atividade física, evitar fumaça e nicotina, reduzir a exposição à poluição, manter ambientes saudáveis e procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes.
Neste Dia Mundial do Pulmão, a mensagem é simples: pulmão saudável se constrói desde cedo. Proteger a respiração de uma criança hoje é investir na saúde do adulto de amanhã.
Relator:
Breno Giuseppe Prates Pimentel Lioi
Vice-Presidente do Departamento de Pneumologia da SPSP
