O que são alimentos OGM? Quando a sigla OGM (Organismos Geneticamente Modificados) é mencionada, é comum que surjam dúvidas ou preocupações. Mas na prática, o que isso implica?
Alimentos OGM são aqueles derivados de plantas ou microrganismos cujo material genético foi modificado em laboratório. Essa modificação pode ter diversos propósitos, como aumentar a resistência da planta a pragas, elevar a produtividade, melhorar a resistência à seca ou enriquecer os nutrientes que normalmente estão em níveis insuficientes.
No Brasil, os OGMs mais frequentes na alimentação são a soja, o milho e o algodão geneticamente modificados. Esses ingredientes estão presentes de forma discreta em uma variedade de produtos industrializados que consumimos diariamente — desde óleos vegetais e farinhas até alimentos destinados a bebês e crianças.
Por que essa questão é especialmente relevante para crianças? As crianças não são apenas adultos em miniatura. Seus corpos ainda estão em desenvolvimento — incluindo o cérebro, o sistema imunológico e o sistema digestório —, o que pode torná-las mais suscetíveis a algumas substâncias do que os adultos.
Em 2023, a revista Pediatrics — publicação oficial da Academia Americana de Pediatria — apresentou as opiniões de especialistas em saúde infantil e ambiental. A conclusão foi equilibrada: os alimentos OGM aprovados pelas agências reguladoras não demonstram risco direto comprovado à saúde das crianças. Entretanto, os especialistas destacaram um alerta importante: o uso extensivo de herbicidas nas lavouras, como o glifosato, pode deixar resíduos nos alimentos, o que é motivo de preocupação real na Pediatria.
Os benefícios reais são:
•Maior produção de alimentos: plantas resistentes a pragas geram mais, com menos perdas. Em áreas onde a fome ainda é um problema, isso impacta diretamente a disponibilidade de alimentos;
•Alimentos enriquecidos: pesquisadores estão criando culturas biofortificadas — como o “Arroz Dourado”, enriquecido com vitamina A — voltadas para crianças de regiões com carências nutricionais;
•Ingredientes seguros para fórmulas infantis: a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) já aprovou ingredientes produzidos por microrganismos geneticamente modificados para uso em fórmulas infantis, como a 3-fucosilactose, um açúcar naturalmente presente no leite materno.
Os riscos que preocupam os especialistassão:
• Resíduos de herbicidas: a maior preocupação em relação à saúde infantil é o aumento no uso de herbicidas associado a determinadas culturas OGM. O glifosato pode permanecer nos alimentos e, quando consumido em quantidades acumuladas, gera incertezas sobre seus efeitos no desenvolvimento neurológico e hormonal das crianças.
• Alergenicidade – Quando um gene é inserido em uma planta, surge a questão: a nova proteína produzida pode provocar reações alérgicas? Estudos recentes indicam que, até o momento, não houve reações alérgicas clinicamente comprovadas associadas aos OGMs aprovados. No entanto, especialistas defendem a necessidade de avaliações de segurança contínuas e rigorosas.
• Falta de estudos de longo prazo em crianças — essa é a grande incógnita: ainda não há pesquisas de acompanhamento que avaliem os efeitos do consumo contínuo de OGMs ao longo da infância e da adolescência. A ciência disponível é boa — mas ainda não é completa.
O que ainda não sabemos — a ciência é sincera ao reconhecer seus próprios limites. Entre as questões que necessitam de mais investigação estão:
Quais são os efeitos cumulativos dos resíduos de herbicidas durante o crescimento infantil? Como os OGMs interagem com a microbiota intestinal das crianças — essenciais para a imunidade? Existem grupos mais vulneráveis — como crianças prematuras, com sistemas imunológicos comprometidos ou com doenças intestinais — que precisam de orientações específicas? Essas indagações não indicam que os OGMs sejam perigosos. Elas mostram que a ciência ainda está em busca de respostas — e que, nesse ínterim, a precaução é uma abordagem sensata.
Dicas práticas para pais e cuidadores
- Optem por alimentos in natura ou minimamente processados. Frutas, legumes, verduras, ovos, carnes e grãos inteiros têm menos aditivos e resíduos, independentemente de serem OGM ou não.
- Verifiquem os rótulos. No Brasil, produtos que contenham mais de 1% de ingrediente transgênico devem exibir o símbolo do triângulo amarelo com a letra “T”.
- Diminuam o consumo de ultraprocessados. Grande parte da exposição infantil a ingredientes OGM provém de biscoitos recheados, salgadinhos, cereais açucarados e bebidas industrializadas. Reduzi-los faz diferença — e não apenas por conta dos OGMs.
- Variem a alimentação. A diversidade alimentar é uma proteção. Uma criança que consome uma ampla gama de alimentos naturais está menos exposta a substâncias específicas — e é mais bem nutrida.
- Consultem o pediatra. Se seu filho tem alergias, doenças intestinais ou imunidade comprometida, discuta essas questões com o médico. Cada criança tem sua própria história.
- Desconfiem de extremos. Tanto o alarmismo (“OGM é veneno!”) quanto a complacência total (“não há nenhum risco”) são posturas equivocadas diante da ciência atual. A posição crítica equilibrada é a mais honesta.
Conclusão
Os alimentos OGM são uma realidade na mesa das famílias brasileiras. Com base nas evidências científicas disponíveis, os que foram aprovados por agências reguladoras não apresentam risco comprovado à saúde das crianças. Contudo, a questão dos resíduos de herbicidas, as lacunas nos estudos de longo prazo e a necessidade de monitoramento contínuo são motivos válidos para cautela e atenção.
Informação de qualidade, diversificação alimentar e acompanhamento pediátrico regular permanecem as melhores formas de proteger a saúde de nossos filhos.
Relator:
Mauro Fisberg
Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA), do Instituto Pensi – São Paulo
Professor Sênior Doutor do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo.
Presidente do Departamento Científico de Nutrição da SPSP
