Zero Álcool – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Thu, 12 Feb 2026 19:07:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Zero Álcool – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Bebidas alcoólicas: vamos conhecer o que bebemos? https://spsp.org.br/bebidas-alcoolicas-vamos-conhecer-o-que-bebemos/ Wed, 11 Feb 2026 18:43:08 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55080 As bebidas alcoólicas apresentam como seu principal componente o etanol, ou álcool etílico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o álcool etílico é a substância psicoativa]]>

As bebidas alcoólicas apresentam como seu principal componente o etanol, ou álcool etílico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o álcool etílico é a substância psicoativa mais consumida em todo o mundo e de grande importância e preocupação para a saúde pública do planeta.

Como qualquer substância psicoativa, ao entrar no corpo o álcool atua no cérebro e pode mudar a forma como a pessoa pensa, sente, percebe ou se comporta.

Pela OMS, o uso nocivo do álcool é um dos principais fatores de risco para a saúde da população mundial, incluindo riscos para a saúde materno-infantil, doenças infecciosas (vírus da imunodeficiência humana, hepatite viral, tuberculose), doenças não transmissíveis, saúde mental, lesões e intoxicações. Responsável, também, por grande número de mortes e diminuição da expectativa de vida.

Quando consumido pelas mulheres grávidas, o etanol atravessa a placenta e pode levar a problemas no desenvolvimento e crescimento do embrião/feto, causando os chamados Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal. São condições permanentes, sem tratamento, que se manifestam por inúmeras alterações, como anomalias físicas e congênitas, atraso no crescimento, alterações cognitivas, comprometimento da linguagem, dificuldades de aprendizado, distúrbios de comportamento, grande vulnerabilidade social e dependência de terceiros.

A história do homem e o consumo de bebidas alcoólicas caminham juntos. Fontes arqueológicas evidenciam que as bebidas alcoólicas surgiram por volta de 7.000–6.600 a.C., de forma acidental e natural, quando leveduras, do meio ambiente, fermentaram açúcares presentes em cereais, frutas ou mel, dando origem ao etanol.

Ao contrário das bebidas fermentadas, as bebidas destiladas vêm de um processo tecnológico, não espontâneo, pela manipulação das primeiras. A destilação surgiu entre os séculos I e IX d.C., para fins medicinais e alquímicos, e apenas no século XIII d.C. começou a ser usada para fins recreativos, sociais e comerciais.

Além de serem classificadas em fermentadas e destiladas, as bebidas também podem ser denominadas de acordo com a concentração de álcool etílico/etanol que contêm. Embora essa classificação possa variar de acordo com a legislação dos diversos países, a maioria deles considera “bebidas alcoólicas” aquelas que contêm 0,5% ou mais de álcool por volume, “não alcoólicas/sem álcool” as que têm menos de 0,5% de álcool por volume, e as “zero álcool” as com menos de 0,05% de álcool por volume.

Sugestão de classificação e das características das bebidas encontra-se no quadro 1.

Quadro 1. Sugestão de definição e comparação entre os diferentes tipos de bebidas

CategoriaABVProcesso de produçãoExemplosRelevância clínica
Fermentadas3%-15%Fermentação de açúcaresCerveja, vinho, hidromel, chicha, espumantes, kombucha alcoólicaNão indicado para população vulnerável*
Espirituosas (Destiladas)≥ 15% (geralmente  35%-50%)Destilação de bebidas fermentadasWhisky, gin, vodka, rum, cachaça, tequila, conhaque, brandy, grappa, aguardentes de frutasNão indicado para população vulnerável*
Baixo teor alcoólico (Low-alcohol)0,05-1,2%DesalcoolizaçãoVinho desalcoolizadoNão indicado para população vulnerável*
Não alcoólicas (non-alcoholic beverage)< 0,5%  Desalcoolização Fermentação controladaCerveja não alcoólica, kombucha, vinho desalcoolizadoNão indicado para população vulnerável*
Zero álcool (Alcohol-free)< 0,05%Desalcoolização completaCervejaPode ser uma alternativa mais segura para gestantes, motoristas, adolescentes, indivíduos em uso de medicamentos incompatíveis com o álcool
Light< 30% de álcool do produto similar da mesma marca  Não indicado para população vulnerável*

ABV – Alcohol by Volume (concentração de álcool/volume)

* População vulnerável – menores de 18 anos, grávidas, pessoas com condições de saúde que possam ser prejudicadas pelo álcool, uso de medicamentos incompatíveis com o álcool, motoristas.

 Fonte: elaborado pela autora (MAM).

Quanto maior a concentração de álcool em uma bebida, piores os efeitos a que ele leva. Segundo a OMS, não existe nenhum nível seguro de seu consumo em relação a várias doenças, incluindo câncer, doenças imunológicas, cardiovasculares e os Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal.

Temos que ter ciência de que bebida “não alcoólica” é diferente de “0% de álcool”. Mesmo sendo chamada de “não alcoólica”, pode conter traços de etanol resultantes da fermentação. A diferença entre 0,0% e 0,5% pode parecer pequena do ponto de vista percentual, mas é clinicamente relevante em situações em que a recomendação é de exclusão total de etanol, como na gestação e nos transtornos por uso de álcool.

Compreender as diferenças entre “bebidas alcoólicas”, “não alcoólica/sem álcool” e “zero álcool” é fundamental, a fim de escolhermos o que queremos e/ou podemos beber com o objetivo de reduzir os danos à nossa saúde e, muitas vezes, à saúde dos outros, como do embrião/feto.

Devemos nos acostumar a ler os rótulos das bebidas, para verificarmos a concentração do álcool nelas contido e, se possível, consultarmos a ficha técnica do seu fabricante. Temos a responsabilidade de prevenirmos e reduzirmos os malefícios que as bebidas alcoólicas podem causar.

Relatora:
Maria dos Anjos Mesquita
Médica Neonatologista
Mestre em Ciências da Saúde
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos dos Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF) da SPSP

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Mitos e verdades sobre o consumo de álcool na gravidez https://spsp.org.br/mitos-e-verdades-sobre-o-consumo-de-alcool-na-gravidez/ Wed, 23 Aug 2023 19:24:56 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39110 Apesar de atualmente a conscientização sobre o consumo de bebidas alcoólicas por gestantes ser maior e haver mais divulgação sobre o tema, muitas mulhe]]>

Apesar de atualmente a conscientização sobre o consumo de bebidas alcoólicas por gestantes ser maior e haver mais divulgação sobre o tema, muitas mulheres ainda desconhecem a gravidade dos riscos à saúde do bebê da exposição pré-natal ao álcool e acreditam que beber eventualmente não oferece prejuízos.

No Brasil, estima-se que 15% das gestantes consomem bebidas alcoólicas, enquanto na região das Américas a prevalência é de 11,2% e, globalmente, de 9,8%. Além disso, mais brasileiras em idade fértil estão bebendo, o que representa um sinal de alerta. Por isso, para chamar a atenção de gestantes e futuras mães, a Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), por meio do Núcleo de Estudos dos Efeitos do Álcool na Gestante, no Feto e no Recém-Nascido, e o CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (uma das principais referências no Brasil sobre este tema), esclarecem cinco mitos e verdades sobre a ingestão alcoólica na gravidez.

  1. O consumo de álcool na gestação não afeta a saúde da gestante.

MITO: A própria gestante consumidora de álcool está sujeita a consequências sérias, tais como diminuição dos reflexos, aumento da acidez gástrica e maior risco de broncoaspiração. Além disso, o álcool interfere no apetite da grávida, levando-a à má nutrição, provocando constrição dos vasos da placenta, tendo como consequência a dificuldade na passagem de nutrientes e oxigênio para o feto. Esses efeitos resultam em restrição do crescimento fetal e ocorrência de malformações congênitas.

  1. Mesmo o consumo eventual de bebida alcoólica pode causar danos ao feto.

 VERDADE: Não há evidências científicas que indiquem se há alguma quantidade segura de consumo; portanto, a gestante deve se abster completamente de todo tipo de bebida alcoólica durante toda a gravidez. O álcool atravessa a placenta, o que permite que, em pouco tempo, a concentração dessa substância no sangue fetal se torne equivalente à materna. Entretanto, o organismo do feto – ainda em formação – não consegue metabolizar o álcool, que permanece no seu sangue por mais tempo, até ser eliminado pela circulação materna. O consumo de álcool na gestação é a principal causa de deficiência mental não congênita, sendo a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) a forma mais grave.

  1. A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) é algo raro e não deve preocupar a gestante.

MITO: Estima-se que a frequência de SAF entre crianças e jovens na população geral ultrapassa 1% em 76 países, incluindo o Brasil. No entanto, nem 1% das crianças afetadas são diagnosticadas. Além da SAF, podem ocorrer disfunções mais sutis, englobadas no Transtorno do Espectro Alcoólico Fetal (em inglês, FASD – Fetal Alcohol Spectrum Disorders), como malformações da face e/ou de outros órgãos, como coração, rins, membros, distúrbios do desenvolvimento do cérebro.

  1. Grávidas podem ingerir bebidas de baixo teor alcoólico ou “zero álcool”.

MITO: Bebidas de baixo teor alcoólico possuem uma certa quantidade de álcool, até mesmo as “zero álcool”. De acordo com a legislação brasileira, bebidas zero álcool podem ter no máximo 0,5% de álcool em sua composição, portanto não é recomendável seu consumo. No entanto, estudos internacionais mostraram que essas bebidas podem conter nível maior de etanol do que o indicado nos rótulos, podendo chegar a 1,8% de teor alcoólico. Ainda sobre bebidas, um outro alerta é sobre o kombucha, bebida fermentada feita a partir do chá verde ou chá preto, açúcar e uma cultura de leveduras e bactérias, conhecida como SCOBY. No processo de fermentação são produzidos ácido acético, gás carbônico e outros compostos, que dão ao kombucha um sabor ácido e ligeiramente adocicado. Se os processos de produção e armazenamento forem adequados, a bebida não deve apresentar teor alcoólico superior a 0,5%. Mas se eles não forem devidamente controlados, como numa produção caseira, a quantidade de álcool pode aumentar. De qualquer forma, seu consumo é contraindicado durante a gestação

  1. Crianças diagnosticadas com problemas de aprendizado ou distúrbios de comportamento podem ser vítimas da exposição pré-natal ao álcool.

VERDADE: Além da SAF e da FASD, também há evidências de que o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) pode ser reflexo do consumo de álcool na gestação, estando presente em 50% a 80% das crianças afetadas. Outros comprometimentos cognitivos são frequentes, como os problemas no aprendizado de matemática, atrasos na linguagem e motricidade, dificuldades de integração e comunicação, além de risco aumentado de doenças psiquiátricas na vida adulta.

O álcool é considerado atualmente a principal causa de deficiência mental e de anomalias congênitas: 5% a 10% dos fetos expostos ao álcool durante a gestação apresentarão prejuízos em seu desenvolvimento. É algo totalmente evitável! Portanto, mulheres grávidas ou que desejam engravidar não devem beber álcool, em qualquer quantidade e em qualquer fase da gestação.

 

Relatora:
Helenilce de Paula Fiod Costa
Presidente do Núcleo de Estudos dos Efeitos do Álcool na Gestante, no Feto e no Recém-Nascido (SAF) da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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