Sofrimento – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Thu, 10 Sep 2026 19:56:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Sofrimento – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Um chamado à escuta e à conexão https://spsp.org.br/um-chamado-a-escuta-e-a-conexao/ Thu, 10 Sep 2026 19:56:56 +0000 https://spsp.org.br/?p=58975 Dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio e assistimos, entristecidos, a um aumento de casos entre jovens. Pensando nesse cenário, é importante refletirmos tanto sobre os sinais de atenção que devemos perceber quanto a respeito das ações que possam contribuir para a transformação desse quadro atual. De partida, é fundamental esclarecer que o suicídio tem causa multifatorial. Trata-se de um fenômeno complexo que não pode ser reduzido a explicações únicas e simplistas. Diante da dor que causa tanto ao sujeito quanto a todos que fazem parte de sua vida, é um tema que exige extrema delicadeza ao ser abordado. Todo respeito ao tema, porém, não deve afastar a importância de tratarmos dele. Pensar sobre o assunto é uma tentativa de avançarmos socialmente em um diálogo que, de tão sensível, historicamente permanece entre as subnotificações de causa mortis. O que já era delicado adquiriu caráter ainda mais desafiador nos tempos atuais, ao assistirmos, nos meios digitais e redes sociais, jovens criando fóruns de compartilhamento de conteúdo que vão desde o incentivo a desafios potencialmente mortíferos até transmissões ao vivo de suicídio. Diante desse cenário sócio-histórico, refletir sobre a sua prevenção, torna-se ainda mais urgente. Existem sinais de alerta e fatores associados a um maior risco de suicídio de forma geral, como tentativas anteriores, dependência ou abuso de álcool e drogas, comportamento autolesivo, histórico de abusos e traumas e transtornos mentais. É fundamental alertar que nenhum desses sinais, isoladamente, sentencia que algo dessa ordem acontecerá; eles podem, apenas, ser tomados como sinalizadores para um maior cuidado. A adolescência é um período em que ocorrem transformações velozes e grandiosas na vida de uma pessoa, tanto do ponto de vista biológico quanto psíquico. As transformações do corpo caminham de mãos dadas com a necessidade de maturidade psíquica para lidar com o complexo mundo dos relacionamentos e com as expectativas da futura vida adulta – com todos os desafios que ela envolve: a dimensão da vida sexual, os relacionamentos interpessoais mais refinados com os pares, a escolha da futura profissão e as exigências acadêmicas. O adolescente é convidado pelo mundo a abandonar seus aspectos infantis e seguir rumo a uma jornada da qual ele ainda tem poucas respostas. Ele experimenta um luto pela criança que foi e tem diante de si indagações sobre quem será. Junto desse processo de luto e transformações, é esperado – ainda que transitoriamente – que ele experiencie oscilações de sentimentos diante do turbilhão que vive. Nesse sentido, é fundamental estarmos atentos às conexões que o jovem estabelece com várias dimensões de sua vida, observando suas interações sociais de forma geral. É preciso ir além do âmbito do rendimento escolar e estar atento também aos engajamentos em grupos sociais (sejam amigos, esportes, música ou religião). São justamente essas conexões afetivas e sociais os grandes fatores de proteção nessa etapa da vida. Durante a adolescência, a noção de pertencimento ao grupo ganha uma importância enorme. Estar engajado com seus pares e ter ideais pelos quais se sinta conectado é o que contribuirá para que o jovem se sinta amarrado ao seu futuro e aos sonhos que eleger sonhar. De outro lado, existem situações que, quando presentes, exigem um olhar mais atento. Embora façam parte do período de experimentações de qualquer adolescência, podem traduzir uma expressão de sofrimento maior: isolamento súbito ou excessivo, compulsões em geral (por comida, telas, jogos, álcool ou drogas), praticar ou sofrer bullying, colocar-se constantemente em situações de risco e transtornos alimentares. Por ser a adolescência um período tão desafiador e importante, é fundamental olhar e acolher com atenção esses sinais quando surgem, interpretando-os como oportunidades de cuidado. Um sofrimento psicológico não precisa ser agravado para que possa ser acolhido como demanda de cuidado. Criar oportunidades de escuta ativa e qualificada para as angústias e desafios dessa fase da vida, portanto, é um elemento protetor quando pensamos em prevenção ao suicídio. Quando um sujeito se sente acompanhado e compartilha suas angústias, já não está mais só. Isso, em situações-limite de grande angústia, pode fazer toda a diferença no desfecho de um período de maior sofrimento. Pensando em elementos que contribuam para a prevenção ao suicídio entre os jovens, é interessante refletir como os tempos atuais e as configurações sociais a que estamos expostos impõem um grande desafio a essa discussão. Vivemos em uma era de extrema aceleração, em que os cuidadores de crianças e adolescentes, na maioria das configurações familiares, trabalham. Quando a família se reúne no fim do dia, em geral todos estão conectados em mídias digitais, muito cansados e atarefados, e invariavelmente não compartilham vivências e angústias uns com os outros. As muitas ferramentas digitais e sociais se tornaram incontornavelmente parte da vida de todos, inclusive de crianças e adolescentes. Se a escuta do sofrimento é parte fundamental da prevenção, devemos estar atentos ao tipo de escuta que podemos ter e oferecer a eles. Buscar conexões com os filhos, nesse sentido, é elemento fundamental nessa equação. É um desafio no nosso cenário sócio-histórico, porém essencial. Essa conexão pode não ser de longas horas diárias, mas deve se traduzir em uma busca por interesse mútuo, na criação de um espaço de diálogo e de algum prazer que possam usufruir juntos. A escola também terá papel fundamental se puder proporcionar espaços de conexão e reflexão entre os adolescentes sobre seus sentimentos e desafios. Ampliar todas essas redes de apoio faz com que o jovem não fique restrito à versão única que ele eventualmente possa encontrar em interações potencialmente nocivas nas mídias digitais, como os tais fóruns de incentivo a toda sorte de crueldades e situações perigosas. Por fim, e não menos importante, é fundamental ampliarmos a discussão sobre políticas públicas que respaldem as famílias nesse cuidado e na proteção digital dos jovens, com o intuito de evitar situações de risco como as que temos assistido atualmente. É igualmente importante que as redes de atenção em saúde mental forneçam informações pertinentes sobre a prevenção ao suicídio de forma permanente, disponibilizando dados sobre os locais...]]>

Dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio e assistimos, entristecidos, a um aumento de casos entre jovens. Pensando nesse cenário, é importante refletirmos tanto sobre os sinais de atenção que devemos perceber quanto a respeito das ações que possam contribuir para a transformação desse quadro atual.

De partida, é fundamental esclarecer que o suicídio tem causa multifatorial. Trata-se de um fenômeno complexo que não pode ser reduzido a explicações únicas e simplistas. Diante da dor que causa tanto ao sujeito quanto a todos que fazem parte de sua vida, é um tema que exige extrema delicadeza ao ser abordado. Todo respeito ao tema, porém, não deve afastar a importância de tratarmos dele. Pensar sobre o assunto é uma tentativa de avançarmos socialmente em um diálogo que, de tão sensível, historicamente permanece entre as subnotificações de causa mortis.

O que já era delicado adquiriu caráter ainda mais desafiador nos tempos atuais, ao assistirmos, nos meios digitais e redes sociais, jovens criando fóruns de compartilhamento de conteúdo que vão desde o incentivo a desafios potencialmente mortíferos até transmissões ao vivo de suicídio. Diante desse cenário sócio-histórico, refletir sobre a sua prevenção, torna-se ainda mais urgente.

Existem sinais de alerta e fatores associados a um maior risco de suicídio de forma geral, como tentativas anteriores, dependência ou abuso de álcool e drogas, comportamento autolesivo, histórico de abusos e traumas e transtornos mentais. É fundamental alertar que nenhum desses sinais, isoladamente, sentencia que algo dessa ordem acontecerá; eles podem, apenas, ser tomados como sinalizadores para um maior cuidado.

A adolescência é um período em que ocorrem transformações velozes e grandiosas na vida de uma pessoa, tanto do ponto de vista biológico quanto psíquico. As transformações do corpo caminham de mãos dadas com a necessidade de maturidade psíquica para lidar com o complexo mundo dos relacionamentos e com as expectativas da futura vida adulta – com todos os desafios que ela envolve: a dimensão da vida sexual, os relacionamentos interpessoais mais refinados com os pares, a escolha da futura profissão e as exigências acadêmicas.

O adolescente é convidado pelo mundo a abandonar seus aspectos infantis e seguir rumo a uma jornada da qual ele ainda tem poucas respostas. Ele experimenta um luto pela criança que foi e tem diante de si indagações sobre quem será. Junto desse processo de luto e transformações, é esperado – ainda que transitoriamente – que ele experiencie oscilações de sentimentos diante do turbilhão que vive.

Nesse sentido, é fundamental estarmos atentos às conexões que o jovem estabelece com várias dimensões de sua vida, observando suas interações sociais de forma geral. É preciso ir além do âmbito do rendimento escolar e estar atento também aos engajamentos em grupos sociais (sejam amigos, esportes, música ou religião). São justamente essas conexões afetivas e sociais os grandes fatores de proteção nessa etapa da vida. Durante a adolescência, a noção de pertencimento ao grupo ganha uma importância enorme. Estar engajado com seus pares e ter ideais pelos quais se sinta conectado é o que contribuirá para que o jovem se sinta amarrado ao seu futuro e aos sonhos que eleger sonhar.

De outro lado, existem situações que, quando presentes, exigem um olhar mais atento. Embora façam parte do período de experimentações de qualquer adolescência, podem traduzir uma expressão de sofrimento maior: isolamento súbito ou excessivo, compulsões em geral (por comida, telas, jogos, álcool ou drogas), praticar ou sofrer bullying, colocar-se constantemente em situações de risco e transtornos alimentares.

Por ser a adolescência um período tão desafiador e importante, é fundamental olhar e acolher com atenção esses sinais quando surgem, interpretando-os como oportunidades de cuidado. Um sofrimento psicológico não precisa ser agravado para que possa ser acolhido como demanda de cuidado. Criar oportunidades de escuta ativa e qualificada para as angústias e desafios dessa fase da vida, portanto, é um elemento protetor quando pensamos em prevenção ao suicídio. Quando um sujeito se sente acompanhado e compartilha suas angústias, já não está mais só. Isso, em situações-limite de grande angústia, pode fazer toda a diferença no desfecho de um período de maior sofrimento.

Pensando em elementos que contribuam para a prevenção ao suicídio entre os jovens, é interessante refletir como os tempos atuais e as configurações sociais a que estamos expostos impõem um grande desafio a essa discussão. Vivemos em uma era de extrema aceleração, em que os cuidadores de crianças e adolescentes, na maioria das configurações familiares, trabalham. Quando a família se reúne no fim do dia, em geral todos estão conectados em mídias digitais, muito cansados e atarefados, e invariavelmente não compartilham vivências e angústias uns com os outros.

As muitas ferramentas digitais e sociais se tornaram incontornavelmente parte da vida de todos, inclusive de crianças e adolescentes. Se a escuta do sofrimento é parte fundamental da prevenção, devemos estar atentos ao tipo de escuta que podemos ter e oferecer a eles. Buscar conexões com os filhos, nesse sentido, é elemento fundamental nessa equação. É um desafio no nosso cenário sócio-histórico, porém essencial. Essa conexão pode não ser de longas horas diárias, mas deve se traduzir em uma busca por interesse mútuo, na criação de um espaço de diálogo e de algum prazer que possam usufruir juntos.

A escola também terá papel fundamental se puder proporcionar espaços de conexão e reflexão entre os adolescentes sobre seus sentimentos e desafios. Ampliar todas essas redes de apoio faz com que o jovem não fique restrito à versão única que ele eventualmente possa encontrar em interações potencialmente nocivas nas mídias digitais, como os tais fóruns de incentivo a toda sorte de crueldades e situações perigosas.

Por fim, e não menos importante, é fundamental ampliarmos a discussão sobre políticas públicas que respaldem as famílias nesse cuidado e na proteção digital dos jovens, com o intuito de evitar situações de risco como as que temos assistido atualmente. É igualmente importante que as redes de atenção em saúde mental forneçam informações pertinentes sobre a prevenção ao suicídio de forma permanente, disponibilizando dados sobre os locais disponíveis para acolhimento e escuta em situações-limite. Um jovem cercado de múltiplas referências, conexões e possibilidades de escuta terá maiores chances de ser acolhido em um eventual momento de maior desamparo.

Relatora:

Flavia Schimith Escrivão
Psicóloga e Psicanalista
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP

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Qual o valor da sua vida? https://spsp.org.br/qual-o-valor-da-sua-vida/ Wed, 10 Sep 2025 15:36:39 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=53107 ]]>

O dia 10 de setembro foi instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela International Association for Suicide Prevention (IASP) como o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, mobilizando profissionais de saúde e a sociedade em torno de ações de conscientização, prevenção do suicídio e valorização da vida. A campanha Setembro Amarelo é realizada desde 2015 no Brasil. A cor amarela, inspirada na história de Mike Emme e seu Mustang amarelo, nos EUA, tornou-se símbolo de esperança e acolhimento, representando a luz que atravessa as sombras da depressão e do sofrimento psíquico. Seu objetivo principal é reduzir o estigma, promover a discussão aberta sobre saúde mental e divulgar canais de apoio para pessoas em risco.

No Brasil, observa-se aumento das taxas de suicídio entre adolescentes e jovens, representando a terceira maior causa de morte entre a população masculina na faixa etária de 15 a 29 anos e a oitava maior causa de mortalidade entre a população feminina nessa mesma faixa.

A adolescência é um período de intensas mudanças, marcado por busca de identidade, maior sensibilidade a pressões externas e vulnerabilidade emocional. Assim, a travessia entre a infância e a vida adulta é, ao mesmo tempo, uma aventura e uma tormenta. Durante a adolescência, tudo parece girar depressa demais – o corpo se expande, as emoções se chocam e velhos referenciais desmoronam. É nesse momento que muitos jovens esbarram na pergunta: “para que tudo isso?” Quando a resposta não vem, o vazio existencial se torna terreno fértil para a depressão.

A depressão vai muito além da tristeza. Pode se manifestar como apatia, irritabilidade, alterações de humor, sentimento de desesperança e falta de motivação para o futuro, dificuldade em sentir prazer em atividades do dia a dia.

O adolescente vive um ciclo da falta de sentido, de falta de propósito na vida e de pertencimento e isso pode agravar a depressão. A depressão, por sua vez, obscurece a busca por sentido e o encontro de um propósito. E a ausência de propósito contribui para a solidão e o isolamento.

Hoje a depressão é denominada como transtorno no DSMV, porém é importante dizer que não foi sempre assim. Os sintomas e o tratamento da depressão na Idade Média eram objeto de disputa de padres e médicos, descritos pela Igreja como obra do demônio. Atualmente, vários medicamentos estão disponíveis e, quando bem indicados, melhoram os sintomas que surgem e persistem decorrentes da depressão. Apesar de não termos um exame laboratorial ou de imagem capaz de diagnosticar essa entidade nosológica, o insight psiquiátrico pode salvar uma vida – um indivíduo prestes a saltar de uma ponte, certo de que só assim pode se livrar de seu sofrimento, precisa saber que seu cérebro não está funcionando bem e que há possibilidades diversas de tratamento.

A depressão nunca tem causa única: biologia, ambiente, história pessoal e cultural se entrelaçam. Todavia, existe um elo invisível que frequentemente passa despercebido – a falta de sentido. Sem um “porquê”, cada obstáculo parece insuportável, cada vitória soa vazia. Valores que antes forneciam bússola (família, religião, amizades estáveis) entram em choque. A formação da identidade – inacabada – carece de algo novo para colocar no lugar. Redes sociais amplificam o desconforto: comparações constantes, pressa pelo “sucesso” e relações descartáveis reforçam o sentimento de não pertencimento. Surge o trio clássico da depressão existencial: isolamento, inutilidade e desesperança. O mundo interno perde “o norte”, tornando-se demasiadamente pesado e sem sentido para o adolescente, causando um insustentável sentimento de não pertencimento.

Assim, vêm os questionamentos: Qual seu valor na vida? O que faz a vida valer a pena?

Numa tentativa de suicídio, o desejo não é realmente acabar com a vida, mas com o sofrimento e a angústia na qual está mergulhado. Esse gesto sinaliza que o jovem está enfrentando um sofrimento intenso, com ideias e impulsos de autodestruição que não devem ser minimizados ou rotulados como simples “dramatização”. A sensação de vazio que atravessa essas vivências não só impede a descoberta de novos caminhos como também obstrui a percepção de que a vida pode ter valor e significado. É importante, sempre, se lembrar de transmitir aos jovens o valor de ser e não apenas de ter, especialmente através de exemplos que falam mais que mil palavras.

Descobrir um propósito na vida passa pela redescoberta de si mesmo.

A presença de um sentido pessoal – um propósito – funciona como um mecanismo protetor, que oferece a possibilidade de transformar a dor em uma oportunidade de crescimento.

O apego exerce um papel essencial como fator de proteção. O apego refere-se ao vínculo emocional que o adolescente estabelece com figuras de cuidado, principalmente pais ou responsáveis, e se forma nos primeiros anos de vida, por meio de interações que combinam sensibilidade, disponibilidade e resposta consistente às necessidades básicas e afetivas do jovem. Fortalecer o apego seguro não apenas diminui o risco de suicídio, mas também potencializa o desenvolvimento emocional saudável. O suporte social – compreendendo qualidade de amizades, envolvimento escolar e coesão familiar – é um fator protetor robusto contra a ideação e tentativas de suicídio.

Qual o valor da vida? A resposta se encontra em um processo íntimo e contínuo de autoconstrução, não pode ser imposto de fora para dentro. Cada indivíduo precisa descobrir seus próprios motivos para persistir – seja ele o amor, a paixão por uma causa, a busca por conhecimento ou a simples alegria de viver. O enfrentamento e o confronto com a própria vulnerabilidade são uma oportunidade para o jovem, gradativamente, reescrever sua história e encontrar um pertencimento.

Esse caminho envolve o autoconhecimento, mas também a coragem de buscar  apoio, da família, da escola, de profissionais de saúde, o que pode se tornar difícil para o jovem, quando ele percebe seus sentimentos e seus atos como algo que os outros desaprovam, julgam, repudiam. É fundamental a presença de um outro, capaz de escutá-lo sem pressa e sem exigências, sem atribuição de culpa ou desvalorização, para permitir que, ao contar, ao falar sobre o que o aflige, isso permita que ele “se escute” e possa construir novos significados para suas vivências. Ter ferramentas capazes de ajudar na construção da autoestima e de uma identidade faz a diferença no vínculo com os familiares, os profissionais de saúde e a sociedade.

Mas é preciso destacar que indivíduos que se sentem sobrecarregados e com muita dificuldade, e principalmente os deprimidos, muitas vezes comunicam seu sofrimento e seu apelo por ajuda de forma não tão escancarada; eles vão dando sinais sutis. Então, cabe ao interlocutor – seja a família, o educador ou o pediatra – estar muito atento aos sinais e manifestações que indiquem essa sobrecarga e esse sofrimento.

A prevenção começa com escuta, vínculo e presença.

Pais e educadores não precisam ter todas as respostas, mas precisam estar disponíveis para caminhar junto com o adolescente, sustentando e acompanhando a busca por ajuda, que representa a possibilidade de encontrar novas razões para viver, para fazer a vida valer a pena.

Propiciar a construção de uma narrativa pessoal que ressignifique a própria existência é dar ao adolescente uma oportunidade para descobrir um verdadeiro valor para sua vida, aquele que ilumina o futuro.

 

Relatoras:

Cristiane da Silva Geraldo Folino
Fernanda Pilate Kardosh
Vera Ferrari Rego Barros
Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP

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Dia Mundial da Prevenção do Suicídio https://spsp.org.br/dia-mundial-da-prevencao-do-suicidio/ Tue, 10 Sep 2024 17:48:15 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47956 O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio ocorre no dia 10 de setembro e visa ampliar a conscientização da população acerca do tema. Esse debate é cada vez mais importante, sendo essa]]>

O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio ocorre no dia 10 de setembro e visa ampliar a conscientização da população acerca do tema. Esse debate é cada vez mais importante, sendo essa a percepção da Sociedade de Pediatria de São Paulo, pois o suicídio, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma das principais causas de morte em todo o mundo e, entre jovens de 15 a 29 anos, a quarta causa de morte.

De partida, é fundamental reforçar que o suicídio tem causa multifatorial, em que interferem elementos psicológicos, sociais e culturais. Entre os fatores de risco para o suicídio mais conhecidos estão: transtornos mentais, dependências químicas, abusos, traumas, perdas econômicas e tentativas anteriores.

Diante desse cenário, é inevitável nos perguntarmos se é possível falar em efetivas medidas de prevenção. Cuidar da saúde mental, não só da criança, mas de todos que a cercam, é o primeiro passo desse caminho. A saúde mental precisa estar ligada aos cuidados cotidianos, onde a presença do cuidador demanda ser além da presença física, uma presença implicada, emocionalmente presente. Esse primeiro cuidado pode contribuir para que mais tarde, na adolescência, mesmo diante de tantos desafios para crescer e construir sua subjetividade, o jovem encontre amparo psíquico que lhe permita fazer escolhas e suportar as adversidades. Não é incomum que casos de bullying estejam conectados e façam parte do cenário de agravamento da saúde mental de um adolescente. O enfrentamento a essas situações sem dúvida é necessário. Para uma criança ou adolescente que experimenta maior dificuldade no enfrentamento de situações de angústia psíquica, o bullying pode se tornar um excesso impossível de ser suportado.

Vivemos em um país marcado por diferenças sociais e econômicas drásticas, no qual o acesso aos recursos de saúde, educação e moradia são muito desiguais, sendo possível assim imaginar o quão desafiador pode ser para muitas famílias administrarem suas exigentes jornadas de trabalhos e ainda assim cuidarem da saúde e bem-estar de seus vínculos familiares. É um enorme desafio!

Quando assistimos entristecidos os casos de suicídio em jovens, surgem as inúmeras perguntas e apontamentos automáticos, culpas e recomendações. Todo cuidado é pouco ao abordarmos tema tão delicado e complexo. Ao observarmos os fatores de risco para o suicídio, surge a recomendação para que jovens que estejam em evidente sofrimento sejam acompanhados e recebam auxílio psicológico. Porém, quando levamos em consideração a adolescência e a velocidade de transformações que ela imprime no indivíduo, podemos considerar que mesmo um jovem aparentemente ‘’bem-sucedido’’ do ponto de vista dos anseios sociais pode estar sofrendo grande pressão. Somadas a isso temos as crescentes exigências dos mercados de trabalho, os apelos estéticos e de consumo (impulsionados e veiculados pelas redes sociais), encaixando o jovem num ‘‘padrão’’: um aluno de alta performance, por exemplo, mas em franco sofrimento, ainda que não aparente. É importante, nesse sentido, nos atentarmos enquanto pais, profissionais de saúde e de educação, para outras formas de adoecimento menos evidentes, mas com grande potencial de risco. Estas situações descritas já são potencialmente deletérias e vêm moldando a forma de ser e sofrer dos jovens e dos adultos na atualidade. Também observamos, com certa frequência, que tanto os pais quanto os profissionais de saúde e de educação se veem perdidos frente aos seus impactos. Há um esgarçamento social em curso, no qual há carência de recursos de amparo no meio social mais amplo. E no desamparo procuramos e precisamos de amparo.

É importante considerar que o desenvolvimento, desde a infância, não se processa de forma linear e que ao longo da vida crianças e adolescentes podem evoluir ou regredir em função do modo como são cuidados e das adversidades que encontram pelo caminho. Crescimento não significa apenas ganhos e é preciso estar atento, porque eles podem dar sinais sutis de que não estão conseguindo elaborar os desafios e as perdas que o crescimento também implica.

Uma dessas vias de expressão de sofrimento é o corpo, que o adolescente utiliza para várias coisas e que está no cerne de sua relação com o mundo, o que podemos constatar não apenas no modo como a imagem é cultuada, mas também nos comportamentos de autolesão, e em última instância, no suicídio.

Na autolesão, o corpo se torna o cenário de expressão dos conflitos internos e de descarga das experiências emocionais dolorosas, o que propicia um alívio momentâneo, frente a vivência de um caos emocional e da dificuldade de transformá-lo em palavras. Com isso, o jovem continua conseguindo se manter agarrado à vida, à realidade que o circunda e ao grupo ao qual pertence. Mas, como o alívio é transitório, o ato tende se repetir, agravando o sofrimento.

O suicídio é o desfecho mais grave da junção entre um excesso de dor, de perturbação e de pressão emocional, de falta de sentido no viver, e revela um enfraquecimento dos vínculos reais do jovem com as pessoas que lhe são significativas e que poderiam lhe proporcionar os recursos de proteção.

Os recursos de proteção são construídos no meio familiar e social e estão intimamente relacionados com os vínculos afetivos na família, na escola e na comunidade na qual o jovem se insere, mas também estão atrelados às percepções e senso de si que ele constrói desde a infância: os sentimentos de autoestima, autoconfiança, as perspectivas de futuro e as habilidades afetivas, sociais e cognitivas.

O principal fator de proteção é o sentimento de estar conectado, numa relação de intimidade e confiança, bem-estar e apoio, de referência para as escolhas e enfrentamento dos desafios que a vida coloca. Em suma, saber que pode contar com alguém, ao longo do percurso da vida e não apenas nos momentos de crise ou de enorme sofrimento.

Ter um sentido para a vida previne e protege do suicídio.

 

Relatoras:
Cristiane da Silva Geraldo Folino
Flávia Schimith Escrivão
Vera da Penha M. Ferrari Rego Barros
Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio https://spsp.org.br/dia-mundial-de-prevencao-ao-suicidio-2/ Mon, 11 Sep 2023 18:40:41 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39255 O dia 10 de setembro é destinado mundialmente à prevenção do suicídio. Conscientizar a população e os profissionais de saúde é importante pois, segundo dados da OMS – Organização]]>

O dia 10 de setembro é destinado mundialmente à prevenção do suicídio. Conscientizar a população e os profissionais de saúde é importante pois, segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, em 2018, o suicídio foi a causa de 56% das mortes violentas no mundo, sendo que, no Brasil, entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio figura como segunda maior causa de morte. Outro recorte, pertinente ao Município de São Paulo, recentemente publicado no jornal Folha de S. Paulo, na edição de 25/8/2023, dá conta de que, no primeiro semestre deste ano, o número de tentativas de suicídio e casos de autoagressão foi 82% maior se comparado ao mesmo período no ano de 2019. Essas transformações tornaram o dia a dia dos profissionais de saúde mais desafiador, tornando o suicídio uma questão de saúde pública.

O suicídio é um acontecimento de extrema complexidade e de causa multifatorial. O que observamos no dia a dia da clínica em saúde mental é que é um tema que não admite respostas óbvias e uniformes. Atribuir o suicídio a um evento único na vida da pessoa, como, por exemplo, ao término de um relacionamento, é uma leitura ingênua. Podemos elencar alguns fatores correlacionados a maior risco de suicídio: tentativas anteriores, dependência química, transtornos mentais, histórico de abusos e traumas.  

Não é possível antever um suicídio, mas podemos auxiliar a todos que estão envolvidos na vida das crianças e adolescentes a cuidarem, desde o início da infância, preventivamente, de situações que levem a pessoa a um momento de tamanha dor, a ponto de ela sentir que está “sem saída”, enxergando no suicídio a única opção para lidar com suas angústias. O Estado, a escola, as famílias, pediatras e os profissionais de saúde mental se tornam, nesse sentido, as redes de proteção e auxílio aos jovens, contribuindo para que eles lidem melhor com as adversidades inerentes ao seu desenvolvimento.

Pensando nos aspectos de prevenção, famílias e pediatras podem observar com atenção situações durante a infância indicativas de um maior sofrimento mental, que podem ganhar expressão em sintomas tais como as compulsões (por comida, jogos, uso de telas, uso de álcool, cigarro e outras drogas), comportamentos autolesivos, transtornos alimentares e de ansiedade, desinvestimento e isolamento excessivo da própria família e de amigos, envolvimento em bullying, tanto como autor, quanto como vítima. Esses sinais podem ganhar colorido mais intenso na adolescência, período que envolve uma série de transformações de ordem física e mental. Aumento da impulsividade de forma geral, somado a maior exigência em demandas acadêmicas (vestibular, escolha da futura profissão), bem como as descobertas e vivências sexuais, todas situações que, concomitantes, demandam, em um curto espaço de tempo, uma transformação e maturidade enormes.

Todos os sintomas elencados acima podem ser interpretados como dificuldade de elaboração de sentimentos, os quais indicam a ocorrência de um sofrimento maior. Uma importante orientação aos pais, em relação à prevenção das situações-limite em saúde mental, é que não deixem para depois esse tipo de cuidado: não esperem até que uma situação se agrave para contarem com ajuda de profissionais de saúde mental. Não é possível, a nenhuma família, impedir um filho de viver as adversidades inerentes e que surgem na vida de qualquer criança, porém é possível ajudá-lo a construir recursos para lidar com suas angústias de uma maneira mais saudável.

É importante ressaltar que uma tentativa de suicídio pode representar não apenas a vontade de colocar fim a um sofrimento extremo, como também a comunicação de um sofrimento, um pedido urgente de ajuda. A todos os envolvidos em situações-limite como essas, sejam famílias, pediatras ou escola, é fundamental cuidar para também não se moverem por angústia, não fazerem movimentos bruscos e impulsivos, algo que esse tipo de situação grave inevitavelmente mobiliza.

É também necessário cuidar para que um jovem que passou por tal situação não seja estigmatizado, pois isso pode contribuir para uma maior dificuldade em se conectar com aqueles que estão lhe oferecendo ajuda, aumentando seu isolamento e desespero. O maior fator de contribuição nesses casos é cuidar inicialmente para que essa pessoa seja amparada e esteja fora de risco, para que então, estabilizada a situação, seu sofrimento seja devidamente escutado.

Quem passa por tal experiência deve ter a oportunidade de se conectar a profissionais de saúde que o auxiliem, construindo novas possibilidades de enfrentamento de suas dores, transtornos mentais e sintomas. É fundamental que a família da pessoa que tentou suicídio seja incluída no tratamento pós-evento, pois os familiares também precisarão construir outros caminhos, novas formas de ajudar e reconhecer os sinais de sofrimento de seus filhos, além de lidar com a própria angústia e sofrimento que tais situações geram neles.

 

Relatora:
Flavia Schimith Escrivão
Psicóloga Especialista em Psicologia Clínica e Psicanalista.
Membro dos Núcleos de Estudos de Saúde Mental e de Depressão entre Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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