síndrome de Asperger – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Tue, 28 Mar 2023 13:07:09 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png síndrome de Asperger – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Dia Internacional da Síndrome de Asperger https://spsp.org.br/dia-internacional-da-sindrome-de-asperger-2/ Wed, 22 Feb 2023 17:28:42 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=36288 ]]>

Desde 2007 comemora-se em 18 de fevereiro o Dia Internacional da Síndrome de Asperger, com o objetivo de conscientizar a sociedade a respeito dessa síndrome. A data, na ocasião, havia sido escolhida em homenagem ao aniversário de Johann Hans Friedrich Karl Asperger, pediatra, psiquiatra e pesquisador austríaco da Universidade de Viena. Hans Asperger estudava crianças consideradas “anormais” e foi quem primeiro descreveu as características dessa síndrome, em 1944.

No entanto, extremamente revoltante foi a revelação dos métodos utilizados por esse médico, que estraçalharam os princípios éticos mais básicos da medicina, o que justifica o questionamento tanto do dia escolhido para a comemoração, como o uso do termo epônimo que dá o nome Asperger ao transtorno. Historiadores encontraram dados que apontam ligações e contribuições de Hans Asperger ao nazismo, em seu empenho para eliminar crianças com deficiências, na busca de uma “raça pura”.

Segundo o livro “Asperger’s Children: The Origins of Autism in Nazi Vienna”, de Edith Sheffer, traduzido para o português por Alessandra Borrunquer e editado em 2019 com o nome “Crianças de Asperger: As Origens do Autismo na Viena Nazista”, o médico Hans Asperger foi responsável por encaminhar muitas crianças para experimentos médicos que as levariam à morte.

O nome “síndrome de Asperger” consta na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças – CID-10 (F84.5), mas foi retirado no CID-11. Em janeiro de 2022, a CID-11 deveria ter passado a valer no Brasil. Com isso, o termo deveria ter entrado em desuso. Além disso, o diagnóstico de “síndrome de Asperger” foi retirado da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais (DSM-5).

Atualmente, os sintomas estão incluídos nas perturbações do espectro autista, a par do autismo e perturbação global do desenvolvimento sem outra especificação (PGD-SOE), considerando o diagnóstico como um tipo de autismo de grau mais leve.

O correto é se referir a esse transtorno como fazendo parte dos Transtornos do Espectro Autista (TEAs) e falamos atualmente em “Autismos” e não apenas em “Autismo”.

O que vêm então a ser os TEAs? São compreendidos como um conjunto heterogêneo de déficits no desenvolvimento comportamental, motor ou de linguagem, de causa multifatorial. Os indivíduos considerados dentro do espectro apresentam certas características, entre elas:

  • Dificuldades na socialização (baixa capacidade de fazer amizades);
  • Maneira peculiar de pensar e atuar, muitas vezes com linguagem pouco usual; e com dificuldade de entender uma linguagem mais abstrata ou figurativa;
  • Conversa unilateral, geralmente sem muita troca com o interlocutor;
  • Intenso foco em determinado assunto ou conhecimento. Ainda que muitas vezes possam mostrar-se extremamente capazes intelectualmente em uma determinada área, podem vir a apresentar inclusive dificuldades de aprendizagem em questões fora do foco determinado, principalmente quando é exigida uma compreensão mais simbólica;
  • Falta de empatia, por apresentarem dificuldades em se colocar no lugar do outro, de entenderem as necessidades e perspectivas emocionais daqueles;
  • Alguns apresentam movimentos descoordenados;
  • Muitos se isolam em “seus próprios mundos”.

Há uma tendência, em certa medida irresponsável, de considerar algumas pessoas com traços de genialidade, que se destacam significativamente em certas áreas, como algumas portadoras desse transtorno, ainda que sem um diagnóstico de TEA comprovado por especialista.

A experiência de vida dos indivíduos com diagnóstico realmente comprovado não é exatamente fácil, ainda que se destaquem em algumas especialidades. Muitos sofrem de depressão, de crises de ansiedade e dificuldade de serem incluídos num universo que nem sempre lida bem com as diferenças. Acrescente-se o fato de que os portadores da síndrome necessitam de regras mais rígidas, mostram-se em inúmeras situações incapazes de regular suas respostas emocionais e de antecipar e entender o comportamento alheio, fato que pode gerar angústia e afastá-los do convívio social.

Há crianças e até adultos que podem apresentar algumas características da síndrome, e ainda assim não cumprirem muitos dos requisitos estabelecidos para um diagnóstico.

Mas, em todos esses casos, é sempre importante a avaliação de um especialista e cada vez mais está comprovado o quanto essas crianças e mesmo adultos dentro do espectro se beneficiam de terapias de abordagem psicanalítica. Estas não se dedicam a ensinar ao portador da síndrome como ser “normal’, com respostas adequadas e convenientes ao mundo: elas os auxiliam ao ouvi-los como indivíduos, ajudando-os na busca da subjetividade, e no encontro de maneiras próprias de estar no mundo sem tanto sofrimento e angústia.

É importante destacar o fato de que se estivermos atentos às alterações de desenvolvimento já nos bebês, ou o mais precocemente possível, maiores serão as chances de que os casos tenham um prognóstico mais favorável.

 

Relatora:
Fatima Maria Vieira Batistelli
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Dia Internacional da Síndrome de Asperger https://spsp.org.br/dia-internacional-da-sindrome-de-asperger/ Fri, 18 Feb 2022 15:32:31 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=31358 18 de fevereiro destaca a Síndrome de Asperger, como se manifesta, como suspeitar e o que fazer uma vez que o diagnóstico foi estabelecido. É considerada uma das formas do transtorno do espectro autista.]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 18/02/2022


O dia 18 de fevereiro destaca a Síndrome de Asperger, seus muitos desafios, como se manifesta, como suspeitar e o que fazer uma vez que o diagnóstico foi estabelecido.

A síndrome de Asperger é considerada uma das formas do transtorno do espectro autista (TEA). Trata-se de um distúrbio do desenvolvimento que afeta a forma como o cérebro da pessoa processa as informações e, embora possa causar atraso na maturidade social e no raciocínio em crianças, é considerada de alto funcionamento, sendo que muitas das pessoas com Asperger têm inteligência e habilidades verbais acima da média.

A síndrome de Asperger é considerada uma das formas do transtorno do espectro autista (TEA). Trata-se de um distúrbio do desenvolvimento que afeta a forma como o cérebro da pessoa processa as informações e, embora possa causar atraso na maturidade social e no raciocínio em crianças, é considerada de alto funcionamento, sendo que muitas das pessoas com Asperger têm inteligência e habilidades verbais acima da média.

É frequentemente identificada durante a infância e afeta o comportamento, a interação social, a comunicação, a capacidade de entender o que os outros podem estar pensando e a sensibilidade sensorial. A síndrome de Asperger é mais comum no gênero masculino, sendo oito vezes mais diagnosticada nesse grupo do que no feminino.

As pessoas afetadas podem ser muito talentosas, suas habilidades podem variar muito, concentram-se num campo específico e podem ter muito sucesso acadêmico e no ambiente de trabalho escolhido.

Dentre outras questões, podem ter problemas em se comunicar, dificuldade de se expressar, muitas vezes não entendem dicas sociais e verbais, interpretam o que foi dito “ao pé da letra”, têm incapacidade de “ler” outras pessoas, fazem muito esforço para fazer contato visual, são extremamente sensíveis a luzes fortes e sons altos, apresentam dificuldade de entender a linguagem corporal (podem não reconhecer quando alguém está com raiva ou frustrado) e tendem a aderir a uma rígida rotina. Lutar com as tarefas da vida cotidiana pode tornar a vida desafiadora.

A história nos mostra que muitas pessoas têm ou tiveram a síndrome, como: Charles Darwin (Teoria da Evolução), Michelangelo (pintor e escultor), Vincent van Gogh (pintor), Marie Curie (Radiação e Radioatividade), Alan Turing (“Pai do Computador” e decifrou o código Enigma dos nazistas), Albert Einstein (físico e cientista), Sir Isaac Newton (cientista), Hans Christian Andersen (escritor infantil), Bobby Fischer (campeão mundial de xadrez), Satoshi Tajiri (criou o Pokémon), Bill Gates (CEO da Microsoft), Sir Anthony Hopkins, Dan Aykroyd e Daryl Hannah (atores), Greta Thunberg (Doutora em Estudos da Cultura, ativista ambiental).

E não podemos deixar de comentar a excelente atuação da atriz Sara Mortensen, na série francesa “Bright Minds” (episódios vão ao ar toda quarta-feira, no canal AXN), no papel da Astrid Nielsen, personagem com Síndrome de Asperger que trabalha na documentação criminal da polícia e possui memória assombrosa. Sem dar spoilers, Astrid, que tem grande incapacidade de socializar e se comunicar, é encontrada pela comandante Raphaelle Coste que, quando percebe o brilhantismo da Astrid, acaba recrutando-a e as duas passam a investigar crimes ainda não solucionados – com isso, mesmo com tantas diferenças – uma tem a força e a destreza, enquanto a outra tem o saber e a mente extraordinária, elas se completam e as habilidades de ambas ajudam nas resoluções dos casos.

Outro personagem de destaque é Sheldon Cooper, na série “The Big Bang Theory”: extremamente inteligente, ele tem dificuldade em lidar com situações consideradas simples no cotidiano, como a de socializar e entender ironias, por exemplo, além de ter comportamentos compulsivos e repetitivos que, às vezes, incomodam quem está ao seu redor.

E também a série protagonizada pelo Dr. Shawn Murphy, personagem interpretado pelo ator Freddie Hihgmore em “The Good Doctor”, é outro exemplo de sucesso.

Muitos comportamentos de crianças com síndrome de Asperger são bastante comuns em crianças pequenas – é quando tais comportamentos acontecem com frequência que a síndrome pode ser diagnosticada. Pais, familiares, professores e pessoas próximas à criança são mais propensos a notar tais comportamentos, embora possa levar anos até que o diagnóstico seja feito. A partir da suspeita, rotinas devem ser ajustadas e deve-se buscar ajuda especializada.

Terapias práticas como Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Psicologia e Fonoaudiologia são importantes, além de outras atividades, como: histórias sociais, apoio ao comportamento positivo, suportes visuais, ensino incidental, modelo sociopragmático de desenvolvimento (terapia que usa interações cotidianas entre cuidadores e crianças para promover a comunicação).

E para que se desenvolvam no campo profissional, suas aptidões devem ser detectadas e desenvolvidas com os objetivos de construir confiança, resiliência e rotina, desenvolver melhores relacionamentos, melhorar as tarefas e atividades da vida diária, participar de atividades da comunidade.

Esperamos que tenha ficado claro que o TEA não é uma barreira para alcançar o sucesso, pessoas com Asperger devem inspirar os outros a perseguir seus sonhos e perseverar em qualquer campo que possam imaginar.

Saiba mais:

Parent guide: therapies for autistic Children. https://raisingchildren.net.au/autism/therapies-guide

Asperger’s Syndrome. https://www.psych4schools.com.au/free-resources/aspergers-syndrome/

International Asperger’s Day. https://www.slq.qld.gov.au/blog/international-aspergers-day

History’s 30 Most Inspiring People on the Autism Spectrum. https://www.appliedbehavioranalysisprograms.com/historys-30-most-inspiring-people-on-the-autism-spectrum/

Celebrating 9 Asperger’s Heroes on International Asperger’s Day. https://calmingmoments.com.au/celebrating-9-aspergers-heroes-on-international-aspergers-day/

Relatora:
Renata D Waksman
Coordenadora do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: photographee.eu | depositphotos.com

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