Sentimentos – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 20 Dec 2024 16:15:39 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Sentimentos – SPSP https://spsp.org.br 32 32 “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Ensaio sobre a cegueira) https://spsp.org.br/se-podes-olhar-ve-se-podes-ver-repara-ensaio-sobre-a-cegueira/ Tue, 07 Jan 2025 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=49741 Histórias bem contadas formam pontes entre o passado, o presente e o futuro. É sabedoria humana deixada como herança. É fonte de conhecimento. É memória da humanidade.]]>

Histórias bem contadas formam pontes entre o passado, o presente e o futuro. É sabedoria humana deixada como herança. É fonte de conhecimento. É memória da humanidade. Assim, são os livros.

 “As Mil e Uma Noites, de autor anônimo, exemplifica o que explicitamos acima. É uma coletânea de histórias orais e escritas que se desenvolveram ao longo de séculos, com contribuições de diversas culturas, como a persa, a árabe e a indiana. A figura central da narrativa é Xerazade, a contadora de histórias, cuja voz e inteligência salvaram sua própria vida e, simbolicamente, celebraram o poder da narração.

O autor colombiano Gabriel García Márquez adverte ao leitor: “desde muito cedo, aprendi que não se deve nunca abrir a porta de um livro sem estar preparado para entrar completamente nele”. Acreditava que a leitura era um ato profundo, que exigia total entrega e envolvimento, porque a literatura é uma ferramenta poderosa para explorar a realidade através da imaginação: “a ficção é uma armadilha de mentiras para capturar a verdade”.

José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, disse que o poder dos livros e da leitura é instrumento de autoconhecimento e reflexão crítica: “os livros ajudam-nos a compreender quem somos e como somos, a fazer perguntas. Ao escrever, o autor traduz em palavras aquilo que já existe em nós, pois explora e revela os sentimentos, pensamentos e questões universais que habitam o ser humano”.

Contar histórias é um ato de sobrevivência e cura, tanto para quem conta quanto para quem ouve. As histórias são repletas de elementos fantásticos, como gênios, tesouros escondidos e viagens mágicas. A imaginação nos liberta dos limites da realidade e nos faz sonhar com mundos novos. A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em um lugar. É uma forma de viajar, compreender e transcender os limites da própria experiência.

A leitura é um lugar aconchegante, onde histórias aquecem e iluminam a alma, como uma fogueira em uma noite fria.

As palavras plantam ideias e sentimentos que crescem e se transformam em algo único dentro de cada leitor. Livro é semente que floresce.

Livro é um amigo fiel: Sempre disponível, com palavras que confortam, ensinam e fazem companhia.

Livros nos ensinam a arte da prudência, da coragem e da empatia.

Um livro pode funcionar como espelho no qual nos miramos e conseguimos, então, fazer as correções necessárias em nossa imagem, tanto interna quanto externamente.

No Dia do Leitor, sigamos a recomendação de Saramago: “Leiam! É o que se pode fazer de melhor”.

 

Saiba mais:

  • ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA. José Saramago. Companhia das. Companhia das Letras, 1995
  • AS MIL E UMA NOITES – A versão elaborada por Antoine Galland talvez seja uma das mais completas. É um clássico de mais de 3 séculos lido e admirado ao redor do mundo inteiro. Há muitas versões e a coletânea pode ser encontrada em volumes ou, simplesmente, como histórias avulsas.
  • Gabriel Garcia Marques (1927- 2014) –editorativista e político colombiano. Considerado um dos autores mais importantes do século XX. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982, pelo conjunto de sua obra que, entre outros livros, inclui o aclamado Cem Anos de Solidão.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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A psicanálise e os contos de fadas https://spsp.org.br/a-psicanalise-e-os-contos-de-fadas/ Fri, 01 Nov 2024 19:48:49 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48726 ]]>

Vivendo e aprendendo. Quando eu era criança, minha mãe lia histórias infantis e contos de fadas para os filhos. Quando fui pai, repeti com os meus filhos o que aprendi e vivenciei – li livros infantis para eles. Eu sabia que era uma coisa boa e agora a ciência consegue explicar porquê isso é bom.

A criança vivencia o mundo concreto de forma diferente. Às vezes, a mãezinha querida que a acolhe e a enche de beijos e carinho pode se transformar, de repente, na madrasta má, personagem malévola dos contos de fadas, só porque em dado momento a criança se sentiu humilhada por ter recebido uma bronca, por ter molhado acidentalmente as calças, por exemplo. “Como pode a minha própria mãe agir de modo totalmente diferente?” A criança pequena experimenta o mundo como inteiramente gracioso ou como um total inferno; é como ela coloca alguma ordem em sua visão de mundo – dividindo tudo em opostos.

Os contos de fadas podem ajudar a criança na solução de problemas difíceis de entender como este, do exemplo acima. Nesta situação, a criança, ao ouvir a narrativa de uma história, pode criar duas personagens separadas em sua mente: a ‘mãezinha querida’ e a ‘madrasta má’. A fantasia da ‘madrasta má’ não só conserva intacta a mãe boa, como também impede os sentimentos de culpa em relação aos pensamentos e desejos coléricos a seu respeito – uma culpa que interferiria seriamente na boa relação com a mãe.

As crianças consideram as histórias reais, verídicas e acreditam que possam ocorrer de fato. De acordo com Bruno Bettelheim: “os contos de fadas retratam de forma simbólica os passos essenciais para o crescimento e para a aquisição de uma existência independente”. (pg.106)

Os personagens dos contos de fadas são unidimensionais: são a ferocidade encarnada ou a benevolência altruísta. Um animal ou é só devorador ou só prestativo. Isso possibilita à criança compreender com facilidade suas ações e reações, por meio de imagens simples e diretas. Estas histórias ajudam a criança a organizar seus sentimentos complexos e ambivalentes, de modo que cada um começa a ocupar um lugar separado, em vez de serem todos uma grande mistura.

“Até mesmo Freud não encontrou melhor maneira de ajudar a dar sentido à incrível mistura de contradições que coexistem em nossas mentes e vidas interiores do que criar símbolos para aspectos isolados da personalidade. Chamou-os de id, ego e superego. Se nós, como adultos, temos que recorrer à criação de instâncias separadas para trazer alguma ordem sensível ao caos de nossas experiências interiores, quão maior é essa necessidade na criança!”. (pg. 108)

As abstrações criadas por Freud parecem “entidades” separadas, que muitas vezes são contraditórias. Esses conceitos podem ser abstratos e algumas vezes são convenientes para lidar com ideias que, sem serem “colocadas para fora, seriam difíceis de ser compreendidas. Na realidade, não há nenhuma separação entre elas, assim como não há separação entre corpo e mente.

Essas reflexões não são muito diferentes das imagens e símbolos dos contos de fadas.

Saiba mais:

As páginas assinaladas no corpo deste texto se referem ao livro que recomendo fortemente a leitura: A psicanálise dos contos de fadas. Bruno Bettelheim; tradução Arlene Caetano. 44ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Um terreno que ninguém quer pisar https://spsp.org.br/um-terreno-que-ninguem-quer-pisar/ Wed, 12 Apr 2023 19:28:11 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=36948 O poder curativo e analgésico de uma ‘assoprada’ de mãe sobre um arranhão ou sobre o local de uma pancadinha qualquer, que um filho tenha sofrido, tem um tempo de eficácia restrito na vida de]]>

O poder curativo e analgésico de uma ‘assoprada’ de mãe sobre um arranhão ou sobre o local de uma pancadinha qualquer, que um filho tenha sofrido, tem um tempo de eficácia restrito na vida de uma criança. É igualmente limitado como a crença que a criança tem em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa ou na fada do dente. Esse tempo simbólico, da fantasia, do ‘faz de conta’, da magia, é traço característico da primeira infância (até 6 anos de idade). Gradativamente, o pensamento concreto vai perdendo densidade. Na adolescência, o pensamento abstrato, próprio ao adulto, vai ganhando espaço.

É importante entender essas variações de percepção do mundo pela criança, especialmente quando há necessidade de se lidar com perdas, sejam elas de um brinquedo de estimação, ou de um animal da família e, em particular, da morte de um familiar próximo.

O luto infantil é um tema desafiador para uma família. Como e quando dar a notícia terrível sobre a morte de um parente muito querido? A criança deve ou não assistir à cerimônia de enterro?

Algumas premissas básicas:

  • A criança é capaz de perceber a ausência de alguém querido e as reações dos adultos à sua volta.
  • A criança vive no mesmo mundo que os adultos, estando, portanto, sujeita às mesmas vulnerabilidades, incertezas e possibilidades de sofrimento.
  • O tempo de luto é um tempo de sentimentos e experiências; por isso, é totalmente individual, tem a sua própria cronologia e, em cada indivíduo, a sua singularidade.
  • O luto infantil é diferente do luto do adulto porque o desenvolvimento psicoemocional da criança ainda está acontecendo, por isso se estende ao longo do período de seu crescimento e amadurecimento.
  • A criança pode se sentir desamparada, solitária, se os adultos não a ajudarem a entender a situação. Esse silêncio pode contribuir para que interprete de forma errada, por exemplo: sentir-se culpada pela pessoa querida ter partido.
  • O luto é um processo natural, não é uma doença. Pode, entretanto, ser “complicado”, seja pelo prolongamento do sofrimento, seja pela sua ausência.
  • As eventuais alterações de comportamento da criança, tanto no ambiente intrafamiliar, quanto na escola ou nos espaços sociais que frequenta, são de fundamental valor para indicar aos pais a necessidade de buscar o auxílio de um profissional da área de psicologia infantil.

Caminhando nesse terreno que ninguém quer pisar.

Com o medo de aumentar o sofrimento da criança, tentando protegê-la ou na crença de que ela é incapaz de entender o que está acontecendo, os adultos evitam falar sobre morte com a criança. É um erro, pois o falar sobre o assunto ajuda a elaborar a perda.

Nessa conversa, sempre difícil mas necessária, é condição básica que o adulto seja verdadeiro e claro. Não deve esconder seus próprios sentimentos, nem ter receio de manifestá-los. É importante, acima de tudo, criar um espaço amoroso, de acolhimento, para que a criança possa verbalizar o que está sentindo, expor a sua percepção sobre aquele momento. É fundamental usar as palavras corretas, como “morreu” e “morte”. Muito cuidado com termos como “viajou”, “partiu”, “virou uma estrelinha” ou “Papai do Céu a levou para morar com ele”, pois talvez gerem confusão e falsas expectativas para a criança. Satisfaça a curiosidade da criança quanto aos detalhes do ocorrido, sempre, adequando sua fala à capacidade de entendimento inerente à faixa etária em que ela está. Não é preciso saber as respostas para todas as perguntas que possam surgir. Mas é importante deixar claro que o corpo não funciona mais depois da morte. Não há problema em dizer à criança “não sei”, ou “nunca pensei sobre isso” e abrir espaço para a construção conjunta de um entendimento. (*)

 

Saiba mais

(*) recomendamos para o aprofundamento do assunto: “Cartilha de orientações sobre o luto das crianças [livro eletrônico]: grupo de estudos em luto. [Alessandra Aguiar Vieira, Leila Costa Volpon, Paula da Silva Kioroglo Reine; ilustração Marina da Costa Marques]. Ribeirão Preto, SP: Ed. dos Autores, 2022. PDF”.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Dia Mundial de Combate ao Estresse https://spsp.org.br/dia-mundial-de-combate-ao-estresse/ Mon, 26 Sep 2022 14:29:55 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=34573 O dia 23 de setembro é o Dia Mundial de Combate ao Estresse, ação que visa discutir seus efeitos, manifestações, formas de enfrentamento e prevenção, temas muito relevantes em tempos de pandemia. Definindo o estresse – A palavra estresse origina-se da inglesa, stress, que significa pressão, tensão. É uma denominação moderna para um fenômeno que foi essencial para a adaptação, e consequente evolução, de qualquer forma de vida, especialmente a humana. Define-se o estresse como uma série de respostas do organismo diante de uma situação de ameaça ou de um dano ao seu bem-estar. Ao detectar ameaças, nosso corpo responde com a liberação de hormônios que acarretam o aumento dos batimentos cardíacos, da pressão arterial, da frequência respiratória e da disponibilidade de glicose no sangue, preparando-nos para a crucial questão: lutar ou fugir. Essa decisão envolve também o nosso cérebro, que controla o estado de alerta (afinal, é preciso decidir) e o nosso comportamento (correr ou ficar). Uma vez debandada a ameaça, nosso organismo reorganiza-se, alcançando um novo estado de equilíbrio. Esses mecanismos foram essenciais para a sobrevivência dos nossos antepassados e ainda são importantes nos dias atuais. No entanto, tornam-se prejudiciais quando ocorrem de maneira contínua, intensa e sem a existência de uma rede de suporte que possa, de alguma maneira, diminuir os seus efeitos.  Algum nível de estresse é sempre prejudicial? As crianças podem apresentar certo nível de estresse antes de sua festa de aniversário ou de uma viagem desejada. Levando-se em conta a natureza sociocultural dos seres humanos, as reações desencadeadas pelo estresse ocorrem também diante de situações desconhecidas ou mudanças, mesmo que sejam para melhor. Pequenos desafios são comuns na vida de qualquer criança e querer protegê-las dessas vivências pode ser prejudicial, por não possibilitar que elas aprendam a lidar com essas novas situações em uma fase em que há o respaldo e a proteção da família e da sociedade.   E quando o estresse nas crianças se torna prejudicial? Quando ocorre de forma intensa, prolongada e sem a proteção dos adultos responsáveis por seus cuidados. Essa situação é mais grave quando ocorre mais cedo na vida da criança. Nas crianças pequenas (menores de cinco anos), o estresse pode ser dividido em três tipos, de acordo com sua intensidade e efeitos maléficos: Estresse positivo: quando é breve e sem grande intensidade. Estresse tolerável: relaciona-se com situações que não fazem parte da vida de toda criança, mas que podem ocorrer, como a morte de um familiar ou o divórcio dos pais, por exemplo. Estresse tóxico: ocorre quando a criança é submetida a situações de estresse intensas, frequentes e prolongadas, que ultrapassam sua capacidade de lidar com elas, como nos casos de violência. Esse maior nível de ativação do organismo ao estímulo estressor, principalmente quando associado à ausência de um suporte protetor de um adulto cuidador, pode levar a uma disruptura no circuito cerebral, a alterações nos sistemas metabólicos, imunológicos, entre outros, com suas consequências a curto, médio e longo prazo. Portanto, o fator nuclear que define a gradação do estresse é a existência de uma rede de suporte estável e amorosa formada pelos adultos que cuidam das crianças. Uma pequena frustração pode ser muito estressante se a criança vivenciá-la sozinha, sem a validação dos seus sentimentos (é ruim mesmo quebrar um brinquedo), sem entender o que está sentindo (ninguém nasce sabendo reconhecer o que é tristeza ou raiva, por exemplo) e sem a certeza de que as pessoas que mais ama poderão ajudá-la quando precisar ou continuarão a amá-la, mesmo depois de suas crises de raiva.   Como os pais e as outras pessoas que cuidam da criança podem ajudá-la a aprender a lidar com o estresse? De início, é preciso conhecer o temperamento das crianças. Desde muito pequenas, há grande variabilidade no modo como elas lidam com situações estressantes: algumas choram com facilidade, outras irritam-se e há aquelas que não conseguem se expressar, mas que estão sofrendo. A reação das crianças também varia de acordo com sua idade e período de desenvolvimento. Não podemos esperar que uma criança de quatro anos reaja do mesmo modo que uma criança maior no primeiro dia de aula, mesmo que já tenha frequentado a escola. Em tempos tão estressantes também para as famílias, é preciso lembrar que para as crianças nada substitui o olhar amoroso dos seus pais. Assim, é essencial conhecer a rotina da criança e ter disponibilidade de tempo para saber o que está ocorrendo na sua vida, o que não significa “dominar a cena”, impedindo que a criança adquira autoconfiança para lidar com os seus desafios. Diante dos “bons estresses”, como um aniversário que se aproxima, os pais podem ajudar antecipando o que irá acontecer, conversando sobre o que as crianças estão pensando e sentindo, esclarecendo que “é comum as pessoas se sentirem assim diante de situações desconhecidas” e assegurando que elas poderão contar com a ajuda dos pais se precisarem. Ninguém quer que uma criança sofra, mas é impossível evitar alguns fatos que podem acontecer na vida de qualquer pessoa. Nessas situações, tentar manter alguma rotina, ensinar a criança a praticar manobras de relaxamento, como os exercícios respiratórios, por exemplo, assegurar a presença de momentos de pausa para brincar, encontrar amigos ou ter contato com a natureza são comprovadamente eficazes no enfrentamento do estresse. O contato com a natureza associa-se positivamente com a melhora do sono, da atividade física, de habilidades como a capacidade de atenção e memória. Conversar sobre o que estão sentindo, suas fantasias e preocupações, acolher o sofrimento e reconhecer que os adultos também sofrem é uma das melhores maneiras de ajuda recíproca entre os pais e as crianças. O que torna esse tipo de estresse tolerável é, novamente, a rede protetora das relações afetivas entre as crianças e seus cuidadores.   Em conclusão, o estresse é considerado um dos principais problemas de saúde dos nossos tempos e seu estudo constitui um vasto campo multidisciplinar de pesquisas que evidenciaram a profunda relação entre os fatores sociais e a saúde das pessoas. A...]]>

O dia 23 de setembro é o Dia Mundial de Combate ao Estresse, ação que visa discutir seus efeitos, manifestações, formas de enfrentamento e prevenção, temas muito relevantes em tempos de pandemia.

Definindo o estresse – A palavra estresse origina-se da inglesa, stress, que significa pressão, tensão. É uma denominação moderna para um fenômeno que foi essencial para a adaptação, e consequente evolução, de qualquer forma de vida, especialmente a humana. Define-se o estresse como uma série de respostas do organismo diante de uma situação de ameaça ou de um dano ao seu bem-estar. Ao detectar ameaças, nosso corpo responde com a liberação de hormônios que acarretam o aumento dos batimentos cardíacos, da pressão arterial, da frequência respiratória e da disponibilidade de glicose no sangue, preparando-nos para a crucial questão: lutar ou fugir. Essa decisão envolve também o nosso cérebro, que controla o estado de alerta (afinal, é preciso decidir) e o nosso comportamento (correr ou ficar). Uma vez debandada a ameaça, nosso organismo reorganiza-se, alcançando um novo estado de equilíbrio. Esses mecanismos foram essenciais para a sobrevivência dos nossos antepassados e ainda são importantes nos dias atuais. No entanto, tornam-se prejudiciais quando ocorrem de maneira contínua, intensa e sem a existência de uma rede de suporte que possa, de alguma maneira, diminuir os seus efeitos.

 Algum nível de estresse é sempre prejudicial? As crianças podem apresentar certo nível de estresse antes de sua festa de aniversário ou de uma viagem desejada. Levando-se em conta a natureza sociocultural dos seres humanos, as reações desencadeadas pelo estresse ocorrem também diante de situações desconhecidas ou mudanças, mesmo que sejam para melhor.

Pequenos desafios são comuns na vida de qualquer criança e querer protegê-las dessas vivências pode ser prejudicial, por não possibilitar que elas aprendam a lidar com essas novas situações em uma fase em que há o respaldo e a proteção da família e da sociedade.

 

E quando o estresse nas crianças se torna prejudicial? Quando ocorre de forma intensa, prolongada e sem a proteção dos adultos responsáveis por seus cuidados.

Essa situação é mais grave quando ocorre mais cedo na vida da criança. Nas crianças pequenas (menores de cinco anos), o estresse pode ser dividido em três tipos, de acordo com sua intensidade e efeitos maléficos:

  • Estresse positivo: quando é breve e sem grande intensidade.
  • Estresse tolerável: relaciona-se com situações que não fazem parte da vida de toda criança, mas que podem ocorrer, como a morte de um familiar ou o divórcio dos pais, por exemplo.
  • Estresse tóxico: ocorre quando a criança é submetida a situações de estresse intensas, frequentes e prolongadas, que ultrapassam sua capacidade de lidar com elas, como nos casos de violência. Esse maior nível de ativação do organismo ao estímulo estressor, principalmente quando associado à ausência de um suporte protetor de um adulto cuidador, pode levar a uma disruptura no circuito cerebral, a alterações nos sistemas metabólicos, imunológicos, entre outros, com suas consequências a curto, médio e longo prazo.

Portanto, o fator nuclear que define a gradação do estresse é a existência de uma rede de suporte estável e amorosa formada pelos adultos que cuidam das crianças. Uma pequena frustração pode ser muito estressante se a criança vivenciá-la sozinha, sem a validação dos seus sentimentos (é ruim mesmo quebrar um brinquedo), sem entender o que está sentindo (ninguém nasce sabendo reconhecer o que é tristeza ou raiva, por exemplo) e sem a certeza de que as pessoas que mais ama poderão ajudá-la quando precisar ou continuarão a amá-la, mesmo depois de suas crises de raiva.

 

Como os pais e as outras pessoas que cuidam da criança podem ajudá-la a aprender a lidar com o estresse?

De início, é preciso conhecer o temperamento das crianças. Desde muito pequenas, há grande variabilidade no modo como elas lidam com situações estressantes: algumas choram com facilidade, outras irritam-se e há aquelas que não conseguem se expressar, mas que estão sofrendo. A reação das crianças também varia de acordo com sua idade e período de desenvolvimento. Não podemos esperar que uma criança de quatro anos reaja do mesmo modo que uma criança maior no primeiro dia de aula, mesmo que já tenha frequentado a escola.

Em tempos tão estressantes também para as famílias, é preciso lembrar que para as crianças nada substitui o olhar amoroso dos seus pais. Assim, é essencial conhecer a rotina da criança e ter disponibilidade de tempo para saber o que está ocorrendo na sua vida, o que não significa “dominar a cena”, impedindo que a criança adquira autoconfiança para lidar com os seus desafios.

Diante dos “bons estresses”, como um aniversário que se aproxima, os pais podem ajudar antecipando o que irá acontecer, conversando sobre o que as crianças estão pensando e sentindo, esclarecendo que “é comum as pessoas se sentirem assim diante de situações desconhecidas” e assegurando que elas poderão contar com a ajuda dos pais se precisarem.

Ninguém quer que uma criança sofra, mas é impossível evitar alguns fatos que podem acontecer na vida de qualquer pessoa. Nessas situações, tentar manter alguma rotina, ensinar a criança a praticar manobras de relaxamento, como os exercícios respiratórios, por exemplo, assegurar a presença de momentos de pausa para brincar, encontrar amigos ou ter contato com a natureza são comprovadamente eficazes no enfrentamento do estresse. O contato com a natureza associa-se positivamente com a melhora do sono, da atividade física, de habilidades como a capacidade de atenção e memória.

Conversar sobre o que estão sentindo, suas fantasias e preocupações, acolher o sofrimento e reconhecer que os adultos também sofrem é uma das melhores maneiras de ajuda recíproca entre os pais e as crianças. O que torna esse tipo de estresse tolerável é, novamente, a rede protetora das relações afetivas entre as crianças e seus cuidadores.

 

Em conclusão, o estresse é considerado um dos principais problemas de saúde dos nossos tempos e seu estudo constitui um vasto campo multidisciplinar de pesquisas que evidenciaram a profunda relação entre os fatores sociais e a saúde das pessoas. A vivência de situações de estresse intensas sem uma rede afetiva de suporte, principalmente nos primeiros anos, associa-se com prejuízos na saúde global dos indivíduos por toda a vida. Muitas doenças dos adultos iniciam-se na infância e relacionam-se diretamente com a presença do estresse tóxico nesse período. A pobreza, a insegurança alimentar, o preconceito racial e as disparidades nas oportunidades de acesso a serviços de saúde e educacionais de qualidade são fatores associados a esse tipo de estresse. Para a diminuição das disparidades de saúde e de bem-estar das pessoas em busca de uma sociedade mais justa, o primeiro e, talvez, o mais importante passo nesse sentido seja a construção de uma grande rede de apoio às crianças e suas famílias.

Saiba mais:

  1. Worthman CM. Evolutionary biology of human stress, in basics in human Evolution. Eds.: Muehlenbein MP, Academic Press, 2015, Pages 441-453.
  2. Live Science Staff – Why Stress is Deadly? Disponível em:

https://www.livescience.com/2220-stress-deadly.html#:~:text=Stress%20takes%20its%20toll%20on,review%20essay%20in%20the%20Dec. Acessado em 20/09/2022.

  1. National Scientific Council on the Developing Child. (2005/2014). Excessive stress disrupts the architecture of the developing brain: working paper 3. Updated Edition. Disponível em: https://developingchild.harvard.edu/wp-content/uploads/2005/05/Stress_Disrupts_Architecture_Developing_Brain-1.pdf. Acessado em 20/09/2022.
  2. Shonkoff JP, Garner AS. The Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health, Committee on Early Childhood, Adoption, and Dependent Care, and Section on Developmental and Behavioral Pediatrics. The lifelong effects of early childhood adversity and toxic stress. Pediatrics2012;129(1):e232–e246.
  3. American Academy of Pediatrics. Healthychildren.org. Helping children handle stress. Disponível em: https://www.healthychildren.org/English/healthy-living/emotional-wellness/Pages/Helping-Children-Handle-Stress.aspx. Acessado em 20/09/2022.
  4. Childhood stress: how parents can help. Disponível em: https://kidshealth.org/en/parents/stress.html. Acessado em 20/09/2022.

Relatora:
Rosa Resegue
Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: @freepik / www.freepik.com

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