rotina do sono – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 15 Jul 2022 14:36:24 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png rotina do sono – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Uso de melatonina em crianças https://spsp.org.br/uso-de-melatonina-em-criancas/ Fri, 15 Jul 2022 14:36:23 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=33345 A melatonina é um hormônio secretado após a diminuição da luz e que nos ajuda a “pegar no sono”. Em muitos países, ela é vendida sem a necessidade de prescrição médica e considerada um suplemento alimentar. Sua indicação formal ocorre em dois casos: pacientes com alterações no ritmo circadiano (ritmo das 24 horas do dia) e insônia em adultos. Apesar dessas duas indicações formais, vemos o uso generalizado da melatonina, inclusive em crianças. Os principais distúrbios do sono em Pediatria são a dificuldade em iniciar o sono sem a presença dos pais e os múltiplos despertares noturnos, em que a criança necessita da presença de um dos pais para voltar a adormecer. A melatonina muitas vezes é utilizada nesses casos, com ou sem prescrição médica, na esperança de melhorar as queixas de sono. No entanto, essas queixas comuns são questões comportamentais, que podem ser trabalhadas com orientações de rotinas de sono aos pais e geralmente não respondem ao uso da melatonina. Estudo recente nos Estados Unidos da América mostrou o risco de intoxicação por melatonina em crianças. Foi observado um aumento de 530% nos casos de intoxicação entre 2012 a 2021 (260.500 casos), com um aumento maior durante o período da pandemia. A maioria das intoxicações (94%) ocorreu por ingestão não intencional, em crianças menores de 5 anos. Cerca de 83% dessas intoxicações foram assintomáticas (sem apresentar sintomas). As intoxicações que apresentaram sintomas (sintomáticas) envolveram os sistemas digestório, cardíaco ou neurológico (sintomas gástricos, cardíacos ou neurológicos). Houve necessidade de internação em 15% dos casos sintomáticos, sendo que 1% necessitou de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ocorreram duas mortes, em crianças menores de 2 anos. O aumento do número de casos de intoxicação pode ser atribuído a um maior consumo da melatonina, tanto na população adulta quanto em crianças, o que explica o crescimento mais importante durante o período pandêmico, em que as queixas de sono se intensificaram. Melatonina é uma medicação e merece todos os cuidados dedicados a outras medicações: utilização apenas por indicação médica, acompanhamento médico durante o uso e armazenamento adequado e longe do acesso de crianças. Relatora: Cristiane Fumo dos Santos Departamento Científico de Medicina do Sono da Criança e do Adolescente da Sociedade de Pediatria de São Paulo Foto: igordoon-primus I unsplash.com]]>

A melatonina é um hormônio secretado após a diminuição da luz e que nos ajuda a “pegar no sono”. Em muitos países, ela é vendida sem a necessidade de prescrição médica e considerada um suplemento alimentar.

Sua indicação formal ocorre em dois casos: pacientes com alterações no ritmo circadiano (ritmo das 24 horas do dia) e insônia em adultos.

Apesar dessas duas indicações formais, vemos o uso generalizado da melatonina, inclusive em crianças.

Os principais distúrbios do sono em Pediatria são a dificuldade em iniciar o sono sem a presença dos pais e os múltiplos despertares noturnos, em que a criança necessita da presença de um dos pais para voltar a adormecer.

A melatonina muitas vezes é utilizada nesses casos, com ou sem prescrição médica, na esperança de melhorar as queixas de sono. No entanto, essas queixas comuns são questões comportamentais, que podem ser trabalhadas com orientações de rotinas de sono aos pais e geralmente não respondem ao uso da melatonina.

Estudo recente nos Estados Unidos da América mostrou o risco de intoxicação por melatonina em crianças. Foi observado um aumento de 530% nos casos de intoxicação entre 2012 a 2021 (260.500 casos), com um aumento maior durante o período da pandemia.

A maioria das intoxicações (94%) ocorreu por ingestão não intencional, em crianças menores de 5 anos. Cerca de 83% dessas intoxicações foram assintomáticas (sem apresentar sintomas). As intoxicações que apresentaram sintomas (sintomáticas) envolveram os sistemas digestório, cardíaco ou neurológico (sintomas gástricos, cardíacos ou neurológicos). Houve necessidade de internação em 15% dos casos sintomáticos, sendo que 1% necessitou de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ocorreram duas mortes, em crianças menores de 2 anos.

O aumento do número de casos de intoxicação pode ser atribuído a um maior consumo da melatonina, tanto na população adulta quanto em crianças, o que explica o crescimento mais importante durante o período pandêmico, em que as queixas de sono se intensificaram.

Melatonina é uma medicação e merece todos os cuidados dedicados a outras medicações: utilização apenas por indicação médica, acompanhamento médico durante o uso e armazenamento adequado e longe do acesso de crianças.

Relatora:
Cristiane Fumo dos Santos
Departamento Científico de Medicina do Sono da Criança e do Adolescente da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: igordoon-primus I unsplash.com

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As crianças crescem enquanto dormem? https://spsp.org.br/as-criancas-crescem-enquanto-dormem/ Thu, 12 May 2022 16:36:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=32458 A falta de horário regular para o adormecer e despertar interfere na concentração de crianças e adolescentes, repercutindo na aprendizagem, nas alterações de humor, no estresse.]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 12/05/2022


Episódio 11: “A vovó já dizia que as crianças crescem enquanto dormem!”

Arthur Schopenhauer escreveu que “sono é para o indivíduo o mesmo que dar corda em um relógio”. Em tempo digital esta imagem analógica, mecânica, ainda serve para resgatar a importância fisiológica do sono para o indivíduo. Essa frase evoca, também, a noção conhecida como “relógio biológico”, os ritmos de nosso corpo, que foram comprometidos duramente durante a pandemia.  O horário regular, tanto para o adormecer quanto para o despertar, ficou atrapalhado no ambiente familiar, interferindo na capacidade de concentração das crianças e dos adolescentes, repercutindo na aprendizagem, nas alterações de humor, no estresse.

 A sabedoria popular traduziu esse conhecimento de muitas formas. A vovó já dizia que as crianças crescem enquanto dormem. Há muita sabedoria nessa frase, embora a vovó nem imaginasse que a ciência viesse a explicar o porquê que isso acontece – é durante o sono que ocorre a liberação de 2/3 da produção do GH (hormônio do crescimento). Em decorrência disso, uma ou várias noites mal dormidas, ir dormir de madrugada e acordar cedo, ou ainda uma sequência de noites com vários despertares e interrompidas podem acarretar consequências na saúde das crianças e adolescentes, como por exemplo: falta de atenção, alterações de humor, crises de ansiedade, agitação e inquietude, dificuldade de aprendizado e até déficit de crescimento.

A vovó também dizia para “não encher a pança na hora do jantar”, coma menos, prefira alimentos mais leves, menos gordurosos e menos doces. Ela estava certa, de novo!

A sabedoria popular, encarnada por nossas avós, intuía as noções que hoje preconizamos como hábitos saudáveis para que se desfrute de uma noite de repouso:  

1. Criança tem que ter horário certo para dormir. Sinalize através de hábitos e rotina que a hora do sono está chegando: diminua o barulho, desacelere o ritmo das atividades.

2. Nada de brincadeiras ou atividades que agitem e excitem a criança perto da hora de dormir.

3. Conte histórias, leia um livro para elas ou ponha para tocar uma música suave.

4. Diminua a intensidade da iluminação no ambiente (a vovó nem sabia que a melatonina – que é o hormônio relacionado ao sono – é retardado quando há exposição à luz).

 

Insônia

A insônia, que habitualmente afeta, segundo a Academia Americana de Medicina do Sono, de 20-30% das crianças no mundo, pode ser provocada por dois tipos de fatores: (A) retardo do início do adormecer por comportamentos inadequados, (B) falta de estabelecimento de limites. O primeiro tipo (A) ocorre quando a criança aprende a dormir sob uma condição muito específica, por exemplo: andar de carro, ninar no carrinho ou no colo, tomar mamadeira. Já o segundo tipo (B) se caracteriza pela dificuldade dos pais em estabelecer regras para a hora de dormir ou de fazer com que sejam respeitadas. Uma criança que não tem limites durante o dia não os aceitará na hora de dormir. O pequeno “tirano” vence todas!

A dinâmica é simples: a criança chora e os pais não dão o que ela quer, chora mais alto e os pais resistem, mais alto ainda e os pais não aguentam e cedem. Então, ela aprende que, se chorar alto o suficiente, conseguirá o que quer.

As crianças “respiradoras bucais”, que apresentam, em geral, hipertrofia de amigdalas e/ou adenoides, têm com frequência apneia (interrupções da respiração) durante o sono. Cerca de 10% das crianças roncam e, dessas, aproximadamente 3% tem apneia obstrutiva do sono, quando ocorrem breves e repetidas interrupções da respiração, enquanto a criança dorme. Esse fator ocasiona um sono de má qualidade, levando aos desdobramentos que mencionamos antes.

Distúrbios do sono

Outros distúrbios de sono comuns em crianças são o “sonambulismo” e o “terror noturno”, que fazem parte do grupo das parassonias. Nestes casos há forte correlação com fatores genéticos e a ansiedade é um fator desencadeante importante. Em geral, esses casos não necessitam de nenhuma intervenção (apesar de parecerem assustadores para os que presenciam o evento) e resolvem-se naturalmente com o tempo.

Pais: relaxem, não fiquem nervosos e nem obcecados! Tentem trabalhar em uma coisa de cada vez, mantenham a calma e tenham mais paciência, esta fase vai passar!

Relator:
Fernando Manuel Freitas de Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

O QUE OS ESPECIALISTAS DIZEM SOBRE O ASSUNTO?
Gustavo Moreira
Membro do Departamento Científico de Medicina do Sono na Criança e no Adolescente da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

O sono infantil nos tempos atuais

As transformações do estilo de vida da população nas últimas décadas tiveram impacto importante nos padrões de sono de lactentes e crianças. Diversos aspectos contribuem para a redução do tempo de sono, como o tempo excessivo gasto no deslocamento para escola/trabalho – típicos do ambiente urbano – a exposição excessiva à luz artificial e a crescente ocupação feminina no ambiente de trabalho, retirando-a de tarefas antes desempenhadas na criação dos filhos. Assim, o horário que biologicamente é mais adequado para as crianças dormirem, entre 19 e 21 horas, foi gradativamente atrasado nas últimas gerações. Como o horário de acordar pela manhã é fixo e cedo nos dias de semana, a oportunidade de dormir diminui. O aumento do tempo das sonecas diurnas só compensa esta perda parcialmente. A desvalorização do tempo de descanso e a competitividade do mundo moderno contribuem para a minimização do sono das crianças, como é observado em vários países asiáticos.

A pandemia pelo coronavírus trouxe novos fatores que influenciam nos hábitos diurnos e noturnos de adultos e crianças, entre eles: a necessidade de isolamento social, o deslocamento de trabalho para a residência (home-office), as preocupações em relação à insegurança financeira, a saúde pessoal e de familiares. Os horários de início e fim do sono foram atrasados em 1 a 2 horas, pois não havia mais a necessidade de deslocamento para a escola. Algumas crianças reduziram o tempo de sono, pois permaneceram em atividades de lazer em telas (videogames, navegando pela Internet, filmes e séries na TV). A luz emitida por estes dispositivos reduz a secreção da melatonina, o hormônio que é liberado à noite para regular o sono. Outras crianças aumentaram o tempo de sono, principalmente naquelas famílias que conseguiram organizar o tempo de estudo, lazer e descanso nestes tempos difíceis. Um estudo de monitorização contínua por vídeo nos Estados Unidos mostrou que lactentes aumentaram o tempo de sono no ano de 2020 quando comparado ao ano de 2019.

 Problemas de saúde mental foram identificados em adultos no período de isolamento social, como estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. Isso foi especialmente observado em profissionais de saúde, pessoas com doenças crônicas, pacientes com covid-19 e pessoas em quarentena. Por outro lado, exercício físico, maiores níveis de renda, habilidades de enfrentamento, participação social e relacionamento interpessoal foram identificados como fatores de proteção.

É importante destacar que as crianças também foram bastante afetadas nesse período, com grandes mudanças negativas no estilo de vida. Elas foram submetidas a menos atividade física, maior tempo de tela e mudanças em padrões alimentares e de sono, sendo que a população economicamente mais vulnerável foi a que apresentou maiores dificuldades. Com a realidade do isolamento social, as crianças precisaram se adaptar às aulas on-line e muitas tiveram dificuldades; além disso, houve aumento de consumo de comidas processadas, sintomas significativos de ansiedade, problemas de humor e autorregulação e piora na qualidade e quantidade de sono, tanto de crianças, quanto de suas mães.

Foto: new africa | depositphotos.com

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