reflexões – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 22 Oct 2021 14:31:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png reflexões – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Para onde caminha o vento? https://spsp.org.br/para-onde-caminha-o-vento/ Thu, 29 Oct 2020 21:38:29 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3478 O Filme Mary Poppins, produção da Disney baseada em livro homônimo e estrelado por Julie Andrews e Dick Van Dyke, teve a sua primeira exibição no Brasil em novembro de 1964.  Remonta a Londres de 1910, descrevendo uma sociedade estratificada, hierarquizada e imperialista, surfando nas ondas da revolução industrial. Descreve a vida de uma família de classe média alta, cujo patriarca vivia para o trabalho e para sua carreira no banco e cuja mãe era ativista empolgada do movimento sufragista que se iniciava. Enfim, uma família com pais ausentes, que terceirizavam para diversas babás e auxiliares os cuidados dos filhos.

Nesse sentido, a história é bem apropriada para os nossos dias. As crianças pareciam não ter limites. A governanta, exaurida em sua paciência, pediu demissão, pois não suportou o desafio de educar segundo os rígidos padrões do patrão, que acreditava que tudo “deveria ser igual ao banco – sério e preciso: obedecer, controlar, dominar, ser firme, ter rigor, ensinar pontualidade, ordem, limpeza, etc.”

egal | depositphotos.com

No contexto daquela sociedade, em que o mundo era dos homens, o pai reinava como soberano no lar: sempre sabia o que fazer e tomava a decisão final sobre tudo. Neste caso, muito metódico, chegava em casa do trabalho às 18:00 horas, encontrava as crianças alimentadas, que deveriam ir dormir 10 minutos depois: dispunha, pois, de dez minutos para estar e dar um pouco de atenção aos filhos.

Ao lado dessa casa estava outra, em forma de navio, do Almirante Boom que personificava a ordem, o rigor e a regularidade, cabendo-lhe anunciar para onde os ventos sopravam. Através de um método peculiar – o disparo de tiros de canhão – ele fazia o anúncio das mudanças de direção dos ventos. Ao detectar que os ventos mudaram para o sul, o comandante prenuncia mudanças à vista.

Descendo das nuvens em sua sombrinha voadora, Mary Poppins pousou de forma suave perto da casa da família relatada acima. O mundo mágico se configura já em sua entrada triunfal, que demonstra que veio à Terra com uma missão especial: mudar aquela família, notadamente, aqueles pais. Admitida como a nova babá, ela transforma a casa, subvertendo os hábitos e a cultura da família, ensinando aqueles pais a serem “preparadores emocionais”, inserindo alegria, naturalidade, espontaneidade e responsabilidade, por meio do lúdico, da surpresa e do encantamento. No início, Mary Poppins foi acusada de subverter a ordem, a calma e trazer o caos – o novo sempre incomoda!

Ao final, mãe, pai e filhos são resgatados para uma vida em que os laços emocionais e familiares são fortalecidos. O pai, que vivia em função do trabalho e do dinheiro, ganha um novo sentido para a sua vida, antes vazia.

O método pedagógico utilizado por ela baseou-se em dois pilares principais: o amor e o respeito à criança. Consolidou-se através do prazer e da espontaneidade, além de revelar que a disciplina não é antagônica ao amor.

Então, o Almirante Boom anunciou que os ventos mudaram para o norte. Missão cumprida. Mary Poppins decola com a sua sombrinha, sem despedidas.

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Relator
Fernando Manuel Freitas de Oliveira
Membro da Comissão de Ensino e Pesquisa da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo



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Reflexões: 2020 – um ano para ser esquecido ou para ser lembrado? https://spsp.org.br/reflexoes-2020-um-ano-para-ser-esquecido-ou-para-ser-lembrado/ Tue, 27 Oct 2020 21:10:10 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3475 A Covid-19, em 2020, colocou a humanidade no “olho do furacão”. Aos poucos, esse vendaval foi perdendo força, deixando em seu percurso rastros de dor, incredulidade, estresse, sofrimento, algumas alegrias, mas também perdas e angústias. O “novo normal” é a hashtag que quer expressar que a vida continuará, porém de um jeito diferente do anterior. É verdade: algumas coisas com certeza vão mudar. A questão é identificar quais serão essas mudanças e por quanto tempo perdurarão. Outra questão, que antecede todas as outras, é identificar o que já mudou por causa desta pandemia. Fomos confrontados de maneira impactante com o tempo. Para alguns, este tempo está demorando uma eternidade, para outros não está trazendo nenhum trauma. E, por falar em tempo, para alguns “não passou” e para outros, voou! Uma correlação inevitável aconteceu com a finitude da vida: a morte se tornou mais real, está mais próxima do que nunca. O confinamento trouxe a noção de que a vida tem que ser melhor aproveitada. Isso equivale a fazer (tudo?) o que se deseja, ocupar o tempo com algo que seja agradável, que dê prazer e tenha relevância. Em decorrência dessa tragédia sanitária e econômica, tivemos que encontrar alternativas à nossa rotina habitual e, de alguma forma, encontrar conforto na quietude e no silêncio. Nessa pandemia também podemos estar sendo “religiosos” de um jeito diferente – não vamos mais ao templo. Esta mudança pode trazer uma compreensão maior em encontrar a fé em nossa própria casa. O mundo virtual aprofundou ainda mais as suas marcas, deixando claro que veio para ficar e a tudo afetar: os processos relacionais, as relações interpessoais, educacionais, o trabalho, lazer, cuidados com a saúde, enfim, tudo terá uma interface nova, mediada por algoritmos, aplicativos, etc. Nesta pandemia tivemos que aprender a viver em família, a reconhecer as dificuldades inerentes ao papel que cada membro executa e valorizar a tarefa de cada um. Aprendemos a desenvolver habilidades emocionais, como resiliência, paciência, respeito, senso de organização, capacidade de perdoar e empatia. Nunca fomos tão desafiados em nossos papéis de mãe, pai, criança e adolescente.  E tivemos algumas oportunidades que, se aproveitadas, significam adotar novos valores e classificá-los quanto à sua essencialidade. ___RelatorFernando Manuel Freitas de OliveiraMembro da Comissão de Ensino e PesquisaCoordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo]]>

A Covid-19, em 2020, colocou a humanidade no “olho do furacão”. Aos poucos, esse vendaval foi perdendo força, deixando em seu percurso rastros de dor, incredulidade, estresse, sofrimento, algumas alegrias, mas também perdas e angústias.

O “novo normal” é a hashtag que quer expressar que a vida continuará, porém de um jeito diferente do anterior. É verdade: algumas coisas com certeza vão mudar. A questão é identificar quais serão essas mudanças e por quanto tempo perdurarão. Outra questão, que antecede todas as outras, é identificar o que já mudou por causa desta pandemia. Fomos confrontados de maneira impactante com o tempo. Para alguns, este tempo está demorando uma eternidade, para outros não está trazendo nenhum trauma.

vitalik radko | depositphotos.com

E, por falar em tempo, para alguns “não passou” e para outros, voou! Uma correlação inevitável aconteceu com a finitude da vida: a morte se tornou mais real, está mais próxima do que nunca. O confinamento trouxe a noção de que a vida tem que ser melhor aproveitada. Isso equivale a fazer (tudo?) o que se deseja, ocupar o tempo com algo que seja agradável, que dê prazer e tenha relevância.

Em decorrência dessa tragédia sanitária e econômica, tivemos que encontrar alternativas à nossa rotina habitual e, de alguma forma, encontrar conforto na quietude e no silêncio.

Nessa pandemia também podemos estar sendo “religiosos” de um jeito diferente – não vamos mais ao templo. Esta mudança pode trazer uma compreensão maior em encontrar a fé em nossa própria casa.

O mundo virtual aprofundou ainda mais as suas marcas, deixando claro que veio para ficar e a tudo afetar: os processos relacionais, as relações interpessoais, educacionais, o trabalho, lazer, cuidados com a saúde, enfim, tudo terá uma interface nova, mediada por algoritmos, aplicativos, etc.

Nesta pandemia tivemos que aprender a viver em família, a reconhecer as dificuldades inerentes ao papel que cada membro executa e valorizar a tarefa de cada um. Aprendemos a desenvolver habilidades emocionais, como resiliência, paciência, respeito, senso de organização, capacidade de perdoar e empatia. Nunca fomos tão desafiados em nossos papéis de mãe, pai, criança e adolescente. 

E tivemos algumas oportunidades que, se aproveitadas, significam adotar novos valores e classificá-los quanto à sua essencialidade.

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Relator
Fernando Manuel Freitas de Oliveira
Membro da Comissão de Ensino e Pesquisa
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo



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