Políticas – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 15 May 2026 12:35:55 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Políticas – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Família – local de escuta e de cuidado https://spsp.org.br/familia-local-de-escuta-e-de-cuidado/ Fri, 15 May 2026 12:23:24 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=56995 ]]>

O Dia Internacional da Família convida à reflexão sobre um dos núcleos mais fundamentais da vida social. Em um contexto marcado por rápidas transformações culturais, econômicas e tecnológicas, a família permanece como espaço central de cuidado, proteção e desenvolvimento humano. As famílias contemporâneas expressam a pluralidade da sociedade. São constituídas por diferentes arranjos, trajetórias e desafios, mas compartilham a mesma relevância na formação de indivíduos, na transmissão de valores e na construção de vínculos de pertencimento. Permanecem como um dos últimos espaços onde ainda se pode experimentar o tempo lento: o tempo da escuta, do cuidado, da presença que não se terceiriza.

A família contemporânea já não cabe em molduras rígidas. Ela se reorganiza entre ausências, reinvenções e sobrevivências. Há famílias que se constroem apesar da distância; outras, apesar do silêncio; outras, ainda, apesar das feridas que insistem em não fechar. Há lares onde o amor é aprendido aos poucos, quase como uma língua estrangeira. E há aqueles em que ele precisa ser reconstruído diariamente, como quem levanta uma casa sobre terreno instável.

Celebrar a família, então, não é “fechar os olhos” para suas contradições, mas reconhecê-las sem desistir dela. É compreender que amar, nesse contexto, não é um estado permanente, mas uma prática profundamente transformadora. Num mundo que frequentemente nos empurra para o isolamento, talvez a família continue sendo essa decisão, nem sempre fácil, de permanecer, cuidar e tentar de novo.

E isso, longe de ser pouco, talvez seja essencial.

A família, no entanto, não existe de forma isolada. Ela é atravessada pelas condições sociais, econômicas e políticas do seu tempo. O desemprego, a precarização do trabalho, as jornadas exaustivas, a violência urbana e as desigualdades históricas entram pela porta de casa, moldam relações, tensionam afetos, redefinem papéis. Não se pode exigir da família aquilo que a sociedade não sustenta.

Nesse sentido, a valorização da família ultrapassa o campo simbólico e exige compromisso concreto da sociedade e do poder público. O fortalecimento de políticas públicas voltadas à proteção social, à promoção da saúde, à educação de qualidade e ao apoio às diferentes configurações familiares é essencial para garantir condições dignas de vida e o pleno desenvolvimento de seus membros.

Celebrar o Dia Internacional da Família é reafirmar a importância das famílias como base das relações sociais, ao mesmo tempo em que se reconhece a responsabilidade coletiva na construção de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Igualdade, inclusão e respeito https://spsp.org.br/igualdade-inclusao-e-respeito/ Sat, 01 Mar 2025 10:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50418 ]]>

O Dia Mundial da Discriminação Zero, celebrado em 1º de março, foi instituído pelo UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS) em 2014. A data tem o objetivo de promover igualdade, inclusão e respeito aos direitos humanos, independentemente de gênero, raça, orientação sexual, condição de saúde ou qualquer outra característica.

O símbolo da campanha é uma borboleta, representando transformação e liberdade. A iniciativa incentiva indivíduos, comunidades e governos a adotarem práticas mais inclusivas e a combaterem qualquer tipo de discriminação.

Que a borboleta não voe para longe do alcance das nossas vistas.

A questão da discriminação ganha ainda mais relevância no contexto geopolítico atual, onde há um crescimento de movimentos nacionalistas, políticas identitárias excludentes e certo retrocesso no ideal do multiculturalismo que, nas últimas décadas, foi um modelo de coexistência pacífica, valorizando a diversidade e garantindo espaço para diferentes culturas, religiões e modos de vida dentro das sociedades.

No entanto, muitos governos estão se afastando desse ideário, adotando posturas mais fechadas, pautadas em nacionalismo, protecionismo e discursos de “identidade nacional”, que frequentemente excluem minorias e imigrantes.

Podemos listar algumas razões.

O aumento dos fluxos migratórios, impulsionados por guerras, crises climáticas e desigualdades econômicas, gerou reações adversas em muitos países. Em vez de políticas de acolhimento, há um endurecimento de fronteiras e o crescimento de retóricas xenófobas. Cresce o medo do “outro”, que alimenta o discurso de alguns líderes populistas, caracterizado pela óptica do “eu contra eles”, que apresenta as minorias como ameaça à estabilidade econômica, cultural e social. É o famoso “bode expiatório”.

Em algumas partes do mundo, há um claro enfraquecimento de instituições que protegiam direitos fundamentais. Leis que garantiam igualdade de gênero, proteção a refugiados e combate ao racismo estão sendo revogadas ou enfraquecidas.

A internet potencializou bolhas ideológicas e discursos de ódio, dificultando o diálogo e promovendo a polarização social. Movimentos extremistas encontram terreno fértil para disseminar preconceitos e teorias da conspiração, que deslegitimam a convivência multicultural.

O fim do multiculturalismo na política não significa necessariamente que as sociedades deixarão de ser diversas, mas pode indicar um desafio maior na promoção da inclusão e no combate à discriminação. Isso torna datas como o Dia Mundial da Discriminação Zero ainda mais importantes, pois reforçam a necessidade de resistência e de ações concretas para garantir que direitos fundamentais não sejam desmontados.

Fernando Pessoa (sob o heterônimo Bernardo Soares) escreveu em ‘Metamorfose’: “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre”. A vida é movimento e transformação, por certo. É um processo contínuo que demanda sabedoria e vigilância. A lagarta gera a borboleta, que precisa de espaço para voar, apesar das barreiras que nos cercam.

 

Saiba mais:

– O Dia Mundial da Discriminação Zero, celebrado em 1º de março, foi instituído pelo UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS)

Fonte:

Fonte:  UNAIDS Brasil https://unaids.org.br › zero-discriminacao

– Fernando Pessoa (sob o heterônimo Bernardo de Campos) escreveu em ‘Metamorfose’: PESSOA, F. Livro do Desassossego, por Bernardo Soares. Vol. II. Mem Martins: Europa-América, 1986.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Gravidez na Adolescência https://spsp.org.br/gravidez-nas-adolescencias/ Thu, 26 Sep 2024 13:49:54 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48147 ]]>

26 de setembro é o Dia Mundial da Prevenção da Gravidez na Adolescência.

A gravidez “nas adolescências” é um problema complexo, multifacetado e transgeracional (fenômeno que se refere à transmissão de padrões, valores, expectativas e outros elementos familiares de uma geração para outra), que impacta na estrutura econômica e contribui para a manutenção do ciclo de desigualdade social e pobreza. É uma questão de Saúde Pública que requer uma abordagem multidimensional.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 16 milhões de adolescentes de 15 a 19 anos engravidam anualmente, das quais 95% são de países de rendimento baixo e médio e 2,5 milhões têm menos de 16 anos. No Brasil, em 2024, a taxa de gravidez na adolescência entre 15 e 19 anos atual é de 53 adolescentes grávidas a cada mil, acima da média mundial, que é de 41 por mil. Essa diminuição começou a ser observada após 2019, com uma queda média de 18% até 2022. No entanto, o número de nascimentos entre adolescentes ainda é significativo e preocupante.

As maiores taxas de gravidez “nas adolescências” se concentram em regiões de baixa renda, principalmente em lugares onde o acesso aos serviços de saúde é precário, tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo. A acessibilidade não é só uma questão de falta de rede de apoio, mas principalmente de falta de formação qualificada de profissionais de saúde, em Saúde Sexual e anticoncepção, e que respeitem o adolescente como sujeito autônomo pleno de direitos.

Para compreender as causas de gravidez na adolescência além das questões políticas-econômicas-sociais, é preciso adentrar nas motivações, desejos, cultura, grupos e nas oportunidades nas quais cada adolescente está inserido. Qual o lugar daquele adolescente em seu território? Há lugares em que ser “mãe” garante maior segurança e aceitação do que ser “só” uma adolescente? Como a adolescente pode exercer a autonomia e manter sua autoestima frente às possibilidades limitadas de futuro que esse lugar oferece?

Diante dessa complexidade, todas as estratégias de prevenção da gravidez devem considerar as questões “das adolescências” de cada lugar. Cabe aos pediatras obterem conhecimento técnico sobre anticoncepção para orientar, acolher os adolescentes, além de cobrar Políticas Públicas que garantam Equidade de gêneros e de oportunidades, que erradiquem lugares políticos-econômicos-psíquico-sociais onde a maternidade na adolescência seja considerada o único projeto de vida.

 

Relatoras:

Maíra Terra
Lília D’Souza-Li
Departamento Científico de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Uma sociedade saudável cuida de seus filhos  https://spsp.org.br/uma-sociedade-saudavel-cuida-de-seus-filhos/ Sat, 13 Jul 2024 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=46935 No país das muitas siglas, esta é facilmente identificada – ECA. É benquista. Seu mérito é reconhecido. Traduz uma Lei que “pegou”. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)]]>

No país das muitas siglas, esta é facilmente identificada – ECA. É benquista. Seu mérito é reconhecido. Traduz uma Lei que “pegou”. O  Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),  lei de nº 8.069/1990, promulgada em julho de 1990, tem o objetivo de proteger integralmente a infância e adolescência, ao promover a assistência integral às crianças e adolescentes e a proteção dos seus direitos básicos.

O Brasil tem uma base sólida em termos de legislação e políticas públicas para a proteção de crianças e adolescentes, comparável a muitos países desenvolvidos. No entanto, a eficácia dessas políticas é prejudicada por desafios estruturais, socioeconômicos e de implementação. A redução da desigualdade, o aumento do investimento em saúde e educação e a melhoria na execução das políticas são áreas críticas para que o país possa alcançar níveis de proteção semelhantes aos do mundo desenvolvido.

O ECA é um dos diversos componentes da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, entre os crimes não letais contra crianças e adolescentes de zero a 17 anos, foram registrados no Brasil, em 2021, 45.076 casos de estupro, 7.908 casos de abandono de incapaz, 19.136 de maus-tratos e 18.461 de lesões corporais em violência doméstica, entre outras violações de direitos. O registro contabiliza 2.555 crianças ou adolescentes vítimas fatais de violência, sendo que 81% dos crimes dos maus-tratos ocorreram nas residências.

Ainda há muito o que fazer…..


Direitos básicos da criança e dos adolescentes:

  • Não sofrer nenhum tipo de violência, seja ela física ou psicológica;
  • Poder expressar seus pensamentos, gostos e religião;
  • Ter acesso a condições dignas de saúde, com assistência médica e odontológica desde a fase de gestação até a adolescência;
  • Conviver em família e com a comunidade;
  • Ter acesso à educação de qualidade, cultura, lazer e esporte;
  • Ser protegido contra o trabalho infantil;
  • Ter a proteção de uma família, seja ela natural ou adotiva;
  • Desde o dia em que nascer, ter o direito ao nome e à nacionalidade, tornando-se, assim, um cidadão brasileiro.
  • São deveres dos pais e responsáveis, dos educadores, do Estado e da sociedade como um todo zelar para que todas as crianças e adolescentes brasileiros tenham seus direitos fundamentais resguardados.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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1º de março – Dia Mundial de Zero Discriminação https://spsp.org.br/1o-de-marco-dia-mundial-de-zero-discriminacao/ Fri, 01 Mar 2024 17:30:56 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=42848 “Eu sou porque nós somos, mas também somos porque cada um de nós é.” É pelo diálogo que descobrimos como relacionar a história da comunidade e a do indiví]]>

“Eu sou porque nós somos, mas também somos porque cada um de nós é.”

É pelo diálogo que descobrimos como relacionar a história da comunidade e a do indivíduo. Ninguém constrói uma história sozinho: sempre há mais alguém nela inserido. Nenhum grupo é um ente abstrato isolado: ele existe e age na dependência de seus integrantes. Enfim, é através do ‘Nós’ que nos acolhe, que aprendemos a reconhecer o ‘Eu’ que nos define.

Desde pequenos temos necessidade de pertencimento. Precisamos da família, dos amigos da escola, dos diversos grupos nos quais nos engajamos – por afinidades e objetivos. No decorrer dessas vivências percebemos que somos várias “personas”, desempenhando diversos papéis sociais.

Ao discriminar, exercemos um julgamento peremptório de caracterização, determinando que o mundo se reparta em duas partes: nós e os outros (ou o outro). Pode haver, veladamente, nesse julgamento uma condenação, também, que qualifica o lado oposto pela sua qualia, o seu valor. Criam-se, então, dois universos opostos: Nós e eles; o correto e o errado; o belo e o feio; o inteligente e o burro; o vencedor e o perdedor; o útil e o descartável; o normal e a aberração, o que deve ser e o intolerável.

“Eu contra o meu irmão, o meu irmão e eu contra o meu primo, o meu primo, o meu irmão e eu, contra o mundo”. Provérbio árabe.

Esse caminho discriminatório sempre acaba em tragédia, não conduz à vida, mas à morte. Para quem é discriminado, essa nuvem sombria é facilmente apercebida, para o discriminador, essa face nebulosa é mais velada e insidiosa, mas a autossuficiência e o poder que esse arbítrio confere vão, aos poucos, minando a consciência e enrijecendo o caráter, impedindo que desenvolva outras compreensões sobre a vida.

A vida é diversidade. A complexidade é diversidade. A diversidade é humildemente criativa. A discriminação é entrópica e fria, arrogantemente destruidora. Os discriminadores julgam-se donos de toda a verdade. Os discriminados tentam suportar com resiliência.

Ao longo dos últimos 2.000 anos no mundo ocidental, a questão da discriminação evoluiu significativamente, refletindo mudanças sociais, políticas, culturais e legais. Essa evolução reflete uma jornada que é complexa e precisa ser contínua em direção a uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva.

O século XX testemunhou avanços significativos na luta contra a discriminação, incluindo o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, o movimento sufragista, o fim do apartheid na África do Sul e a luta contra o colonialismo. Leis antidiscriminatórias foram promulgadas em muitos países, visando proteger os direitos das minorias e promover a igualdade de oportunidades.

No século XXI, nos últimos anos, houve um aumento da conscientização sobre questões de discriminação, incluindo racismo, sexismo, homofobia, transfobia e discriminação religiosa. Movimentos sociais como #BlackLivesMatter e #MeToo trouxeram essas questões para o centro do debate público, pressionando por mudanças legislativas, políticas e culturais mais profundas.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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