Pessoa – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 22 Sep 2023 19:17:25 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Pessoa – SPSP https://spsp.org.br 32 32 “Eu sou tão grande para mim quanto você é grande para você!” https://spsp.org.br/eu-sou-tao-grande-para-mim-quanto-voce-e-grande-para-voce/ Sat, 23 Sep 2023 11:14:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39432 Em comemoração ao Dia dos Filhos queremos abordar um tema de relevância fundamental para o desenvolvimento dos mesmos – a autoestima.]]>

Em comemoração ao Dia dos Filhos queremos abordar um tema de relevância fundamental para o desenvolvimento dos mesmos – a autoestima.

I met a little elfin once/ Down where the lilies blow/ I asked him why he was so short/ and why he did not Grow/ With his eyes he looked me thru and thru then said/ “I’m just as big form me as you are big for you”!(John Kendrick Bangs – Golden Book of Verse. Escritor americano (1862-1922).

Numa tradução livre: “Eu conheci um pequeno elfo uma vez/ Por baixo de onde os lírios sopram/ Perguntei por que ele era tão baixo/ e porque ele não cresceu/ Com seus olhos, ele me olhou profundamente, em seguida, disse/”Eu sou tão grande para mim quanto você é grande para você”!”

 Creio que este poema resume o que é autoestima e retrata a sua importância para o desenvolvimento de qualquer pessoa. Como sempre, os poetas, com economia de palavras, dizem mais do que os outros só conseguem dizer com muito discurso, como o descrito abaixo:

A autoestima é um aspecto fundamental da saúde mental e emocional de um indivíduo. Ela se refere à avaliação subjetiva e emocional que uma pessoa faz de si mesma, influenciando sua percepção de autovalor, autoconfiança e autossuficiência. A importância da autoestima é imensa, pois desempenha um papel crucial em vários aspectos da vida de uma pessoa, incluindo relacionamentos, desempenho acadêmico e profissional, bem-estar psicológico e tomada de decisões.

A autoestima é especialmente significativa durante o desenvolvimento da criança. Durante os primeiros anos de vida, as crianças formam sua identidade e constroem a base para sua autoimagem e autovalor à medida que percebem a si mesmas e o mundo ao seu redor.

Uma autoestima positiva permite que as crianças desenvolvam um autoconceito saudável. Isso significa que elas têm uma compreensão realista de suas próprias habilidades, interesses e características, facilitando suas próprias tomadas de decisões.

Crianças com autoestima elevada têm mais probabilidade de explorar o mundo ao seu redor de maneira confiante. Elas não têm tanto medo de cometer erros, pois veem os erros como oportunidades de aprendizado. Isso é crucial para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança.

A autoestima está diretamente relacionada às habilidades sociais da criança. Uma criança que se sente bem consigo mesma é mais propensa a se envolver em interações sociais saudáveis, expressar suas opiniões de forma assertiva e desenvolver amizades positivas.  Quando uma criança se sente capaz e valorizada, ela é mais propensa a se dedicar aos estudos, buscar desafios e ter confiança para enfrentar situações de aprendizado.  A autoestima positiva atua como uma fonte interna de motivação.

Uma autoestima sólida atua como um amortecedor emocional. Crianças com boa autoestima estão mais preparadas para lidar com rejeição, críticas construtivas e fracassos. Elas têm maior capacidade de se recuperar emocionalmente e seguir em frente.

A autoestima também envolve aprender a aceitar as próprias imperfeições. Crianças que cultivam a autoaceitação desde cedo têm menos probabilidade de desenvolver padrões rígidos de perfeccionismo e autocrítica prejudicial.

Uma autoestima positiva encoraja a criatividade e a expressão individual. As crianças se sentem mais à vontade para mostrar quem são, o que leva ao desenvolvimento de habilidades artísticas, linguísticas e criativas.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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21/9, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência: como construir soluções transformadoras para um desenvolvimento infantil inclusivo https://spsp.org.br/21-9-dia-nacional-de-luta-da-pessoa-com-deficiencia-como-construir-solucoes-transformadoras-para-um-desenvolvimento-infantil-inclusivo/ Wed, 20 Sep 2023 18:39:29 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39386 Datas comemorativas são ocasiões-chave para discutirmos temas que trazem]]>

Datas comemorativas são ocasiões-chave para discutirmos temas que trazem preocupação para uma parcela da sociedade. Além de comemorar e reiterar conquistas, falar sobre deficiência nesses momentos é uma oportunidade de construir e aumentar a visibilidade do assunto, para que esforços e recursos, públicos e privados, sejam direcionados aos problemas existentes.

A pandemia do coronavírus 19 ressaltou ainda mais as complexidades de um mundo ainda com extensas disparidades. Vivemos diferentes crises e, em todos os cenários, são as populações mais vulneráveis que frequentemente são deixadas de lado. A construção de uma sociedade mais acessível, pautada pela equidade e empatia em relação à diversidade humana, depende da busca por soluções inclusivas nos mais diversos campos, tendo como início a infância: o potencial inerente ao desenvolvimento infantil é chave para um futuro mais inclusivo.

O centro de qualquer discussão sobre pessoas com deficiência deve incluir a participação ativa de diversos grupos com necessidades específicas, respeitando o princípio fundamental que diz «nada sobre nós, sem nós», lema de conscientização em campanhas de diferentes países e instituições.

Estima-se que há no mundo mais de 20 milhões de pessoas abaixo de 18 anos com algum tipo de deficiência. Uma deficiência é uma condição ou função que traz prejuízos sensoriais ou cognitivos na relação do indivíduo com o ambiente. Os domínios principais que reduzem a interação individual com seu cotidiano podem estar relacionados às dificuldades físicas ou de mobilidade, de visão, de audição, cognitivas ou de aprendizado e psicológicas.

O escopo do trabalho do pediatra tem sua base no indivíduo. É necessário enxergar a deficiência como uma característica e não como algo que impõe limites ou define destino. Desde o momento em que se comunicam os diagnósticos às famílias, passando por toda a trajetória de conversas e orientações aos responsáveis, o pediatra exerce um papel modificador no que concerne ao desenvolvimento da criança e suas potencialidades.

Assim, a proposta pediátrica de cuidado deve ter como marcos:

  • Aumentar o entendimento familiar com respeito à deficiência e às necessidades específicas de seu filho;
  • Criar uma cultura com foco em habilidades e engajar o desenvolvimento das mesmas;
  • Divulgar informações corretas e embasadas na ciência, desmistificando falas capacitistas sobre a deficiência;
  • Ampliar a visão sobre a diversidade, entendendo a deficiência como algo inerente à vida humana;
  • Enxergar a infância como um mar de possibilidades, onde não há como entender, independente da deficiência, se há limites e onde estão;
  • Facilitar, durante a infância de todas as crianças, a construção da habilidade de enxergar as diferenças de forma positiva; 
  • Disseminar terminologias corretas e promover a linguagem simples. A linguagem é uma ferramenta poderosa na criação de entendimento, sedimentação de tolerância e oportunidade.

Neste Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, desejamos que ninguém fique para trás e que a Pediatria seja líder no caminho de um futuro inclusivo. 

 

Relatora:
Anna Dominguez Bohn
Pediatra e Vice-Presidente do Núcleo de Estudos sobre a Criança e o Adolescente com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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“Quem dá o tapa esquece com facilidade, quem leva nunca esquece” https://spsp.org.br/quem-da-o-tapa-esquece-com-facilidade-quem-leva-nunca-esquece/ Fri, 18 Nov 2022 17:26:50 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=35537 Três recados para lembrar o Dia da Consciência Negra – 20 de novembro O antigo ditado popular, que dá título a este artigo, auxilia a abordar o tema preconceito racial de forma adequa]]>

Três recados para lembrar o Dia da Consciência Negra – 20 de novembro

O antigo ditado popular, que dá título a este artigo, auxilia a abordar o tema preconceito racial de forma adequada: quem não tem a pele preta, só pode falar sobre o tema, porque está de fora; quem tem a pele escura pode falar do assunto, porque o experimenta na pele e, especialmente, debaixo dela.

Escrevo, então, sob a perspectiva do primeiro grupo citado. Comento, fazendo uma análise, fruto de leitura, observação, reflexão. Começo enfatizando que todo ser humano tem potencial para o preconceito, uma vez que ao se deparar com um fato, o interpreta sob uma lente própria, calcada na sua história de vida, na sua cultura, no seu país, no local onde reside, nas condições sociais e políticas vigentes, enfim, é sob um ponto de vista – o seu. No entanto, a mesmo fato pode ser visto de outros pontos de observação – o ponto de vista de onde está cada observador, com a lente pessoal de cada um. Tem razão Leonardo Boff quando diz que “um ponto de vista é a vista a partir de um ponto”.

1º Recado: temos que ser vigilantes para não cair na armadilha do preconceito, que muitas vezes nos pega despercebidos. Desde a Abolição (1988) muito pouco tempo se passou até aqui. Convivemos com inúmeras consequências desse fato histórico e, sub-repticiamente, repetimos no falar, no comportamento, nas relações interpessoais, na mídia, nas piadas, nas estruturas institucionais, as mazelas desse tempo. Por isso, embora a história já tenha acabado, há herdeiros hoje, após cinco gerações, que experimentam sob a pele a mesma dor dos que foram escravizados (Lembrete óbvio: escravo não é uma condição natural, nem normal. A África não é o lugar onde moravam os escravos que poderiam ser buscados lá). Há uma dívida sim, histórica a ser resgatada, no aqui e agora. Além do simbolismo que as políticas afirmativas desempenham, elas também cumprem a busca da equidade, pressuposto básico para o tratamento digno devido a qualquer pessoa. É uma questão de justiça.

O preconceito é um fenômeno passional, movido por inúmeros fatores, muitas vezes não percebidos pelo indivíduo (fato que não o exime de culpa) que faz diminuir a capacidade de conviver, de refletir, de trazer novidade, de partilhar.

O preconceito empobrece a vida.

O ponto fulcral do preconceito é que ele desqualifica o outro, ao classificá-lo como ser de menor valia, inferior. Nessa assimetria, o outro deixa de ser pessoa e passa a ser “coisa” – objeto de manipulação ou de descarte. A pessoa preconceituosa acredita ser o único tipo válido de ser humano e relaciona-se com o outro como se ele fosse algo menor. Os motivos para esse comportamento abrangem um leque grande de opções: o dinheiro acumulado, a cor da pele, o nível de escolaridade, a religião professada, o sotaque que ostenta, o time para o qual torce etc.

Mário Sergio Cortella faz um comentário interessante em seu livro Ser Humano – é Ser – Junto: “O que são os outros para nós mesmos? O mesmo que nós somos para os outros, ou seja, outros”. Todos somos o um e, também, o outro.

Paulo Freire, em seu livro Pedagogia do Oprimido, diz: “O preconceito torna vítima tanto aquele que sofre quanto o autor da ação. Porque se o preconceito humilha a vítima, ele diminui a dignidade do agressor”.

2º Recado: A linha que separa o preconceito da discriminação é estreita, por isso cabe vigilância por parte de todos. O combate ao preconceito precisa se dar em várias frentes: na autoavaliação de cada um, na escola, na família, nas instituições sociais, na construção de leis e punições adequadas aos infratores, na política. O preconceito pode ser superado; erradicado, provavelmente, não.

O preconceito é uma forma de intolerância, que não admite a diversidade; no entanto, beleza e diversidade são inseparáveis. A intolerância abre as portas do confronto e cerra as portas do diálogo. A intolerância ergue muros, o diálogo constrói pontes. A intolerância afasta, o diálogo aproxima.

O preconceito é feio. É fratricida, matando, às vezes sem derramar sangue, em outras tantas, vertendo-o.

3º Recado: “Ética é a vida boa para todas as pessoas, em instituições justas”, citando Paul Ricoeur. Cito a seguir trecho do livro do Cortella, antes referido: “O que é vida boa? É aquela que o indivíduo não é humilhado pela falta de trabalho digno, não é ofendido pela ausência de lazer sadio, não é vitimado pela falta de moradia adequada, não é atingido pela falta de comida, de escolaridade aceitável, de religiosidade livre, de sexualidade autônoma. Isso é vida boa. E o que são “Instituições justas? São as que conseguem garantir vida boa para todas as pessoas. Só assim, a escola, a família, o poder público, a mídia, a religião, a empresa, etc., poderão se denominar justos”.

Vida boa para todos e todas, de todas as cores, de todas as crenças e ideologias. Basta ser humano para merecê-la. Aos intolerantes, entretanto, fico com Karl Popper: “Devemos, então, nos reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante” (A sociedade aberta e seus inimigos).

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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