pai – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 22 Aug 2025 19:13:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png pai – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Para celebrar o Dia dos Pais, recorro a um antigo conto dos irmãos Grimm: João de Ferro https://spsp.org.br/para-celebrar-o-dia-dos-pais-recorro-a-um-antigo-conto-dos-irmaos-grimm-joao-de-ferro/ Fri, 08 Aug 2025 14:27:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=52672 Diz a história que, num reino distante, caçadores começaram a desaparecer misteriosamente em uma floresta sombria. Um dia, descobrem a causa]]>

Diz a história que, num reino distante, caçadores começaram a desaparecer misteriosamente em uma floresta sombria. Um dia, descobrem a causa: um ser peludo, com corpo de ferro – ou coberto de pelos espessos – que vive no fundo de um lago. É capturado e trancado em uma jaula no castelo.

Anos depois, o jovem príncipe, ainda menino, deixa cair sua bola dourada dentro da jaula. Para recuperá-la, precisa libertar João de Ferro, usando uma chave escondida debaixo do travesseiro do rei. Para fazer isso, precisa desobedecer a autoridade real e cruzar um limite – este é o começo simbólico de toda iniciação.

O menino liberta João e parte com ele para a floresta. É lá, longe do conforto do castelo, que sua jornada de crescimento começa. João de Ferro o coloca à prova com tarefas desafiadoras. Quando o menino falha, é enviado ao mundo, com a recomendação de aprender com a vida, trabalhar e amadurecer.

Ele vive então uma trajetória de humildade: trabalha como jardineiro, ocultando sua origem real e enfrenta as lutas silenciosas do cotidiano. Com o tempo, revela coragem, sabedoria e virtude. Seu valor é reconhecido, ele se casa com a princesa e assume um novo lugar no mundo.

Ao fim, João de Ferro reaparece: não mais um selvagem, mas um ser livre. Revela-se, enfim, como um rei encantado, que só poderia ser libertado por alguém de coração puro.

Esse conto é uma poderosa metáfora do amadurecimento. Cada um de nós carrega uma floresta interior a ser atravessada. Todos temos um lago escuro onde moram o medo e a coragem. Uma bola dourada que, às vezes se perde. E um João de Ferro que espera ser libertado – não pela força bruta, mas pela escuta amorosa.

Ser pai, ser filho, ser humano… é isso: é crescer por dentro. É errar de verdade. Amar com presença. É voltar do poço, não com ouro nas mãos, mas com sabedoria nos olhos. É aceitar o chamado para entrar em si mesmo, visitar feridas, escutar emoções esquecidas, reconhecer a própria vulnerabilidade – e, ao fazer isso, abrir espaço para o outro também crescer.

Pai não é só quem provê. É quem inicia. Quem compartilha a alma, ensina a amar sem medo e caminha ao lado, sem apagar o passo do filho.

Neste Dia dos Pais, não precisamos celebrar um modelo perfeito ou heroico. Celebremos o pai possível: aquele que se arrisca a estar inteiro, com mãos ainda aprendendo, coração disponível e olhos atentos e cheios.

Porque é nesse gesto – imperfeito, mas real – que a vida se transmite e o amor se faz caminho.

Feliz Dia dos Pais.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

]]>
Crianças Desaparecidas https://spsp.org.br/criancas-desaparecidas/ Mon, 26 May 2025 12:27:42 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=51507 ]]>

Criança desaparecida é considerada qualquer pessoa menor de 18 anos cuja localização é desconhecida, de acordo com o International Centre FOR MISSING & EXPLOITED CHILDREN – ICMEC (Centro Internacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas).

Crianças podem desaparecer por uma variedade de razões. É importante que se defina bem “criança desaparecida”, de acordo com o risco e as circunstâncias, uma vez que isto ajudará na resposta investigativa.

As categorias de “crianças desaparecidas” incluem, mas não estão limitadas a:

 – Menor em Perigo: uma criança que está longe de casa sem a permissão de seu(s) pai(s) ou responsável(is). A criança pode ter deixado a casa voluntariamente por uma variedade de razões;

– Sequestro Familiar: consiste na remoção, retenção ou ocultação de uma criança ou crianças por um pai, outro membro da família, tutor ou seu agente, em detrimento dos direitos de custódia, incluindo direitos de visita, de outro pai ou membro da família;

– Sequestro Não Familiar: trata-se da remoção forçada e não autorizada de uma criança por alguém que não seja um membro da família;

– Perdido, Ferido ou de Outra Forma Desaparecido: é a criança que desapareceu em circunstâncias desconhecidas, cujos fatos são insuficientes para determinar a causa de seu desaparecimento;

– Menor Abandonado ou Não Acompanhado: acontece quando uma criança não é acompanhada por um adulto legalmente responsável por ela, incluindo aqueles menores que viajam sozinhos sem permissão de custódia, aqueles separados por uma emergência, aqueles em situação de refúgio e aqueles que foram abandonados ou deixadas sem cuidados de qualquer adulto.

As estatísticas de crianças e adolescentes desaparecidos são aterradoras: mais de um milhão de jovens a cada ano no mundo. Nos Estados Unidos são 2.300 crianças por dia e, no Brasil, cerca de 50 mil crianças e adolescentes somem todos os anos.

O leitor pode encontrar informações sobre os principais fatos sobre crianças desaparecidas, informações para mantê-las seguras, o envolvimento do mundo virtual e das telas e o que fazer se uma criança for sequestrada no texto: Dia Internacional das Crianças Desaparecidas, publicado em maio de 2022, no Blog Pediatra Orienta (link de acesso abaixo).

Existem vários centros e redes que foram criados para atuar nesta questão: o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC) é uma organização privada e sem fins lucrativos, criada em 1984 pelo Congresso dos Estados Unidos; em 1998 foi lançada a Global Missing Children’s Network (GMCN) –  Rede Global de Crianças Desaparecidas – como uma joint venture (empreendimento conjunto) do NCMEC e do ICMEC (Centro Internacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas), que trabalham com a comunidade global na busca de crianças desaparecidas.

O Brasil assinou, em 2017, o acordo de cooperação técnica com o ICMEC e passou a participar da Rede Global de Prevenção ao Desaparecimento de Crianças e Adolescentes, destinada à proteção da criança contra o desaparecimento, sequestro internacional, subtração parental e violência sexual.

Atualmente, o GMCN é composto por 29 países em 5 continentes. Seus membros trabalham para aumentar a conscientização entre as comunidades locais, regionais e globais sobre a questão das crianças desaparecidas e sequestradas e fornecer acesso a um banco de dados global destas crianças. Além da tecnologia, o GMCN oferece aos membros várias oportunidades para compartilhar suas experiências, práticas, técnicas/ferramentas de investigação e projetos de pesquisa uns com os outros, como por exemplo ao se ajudarem mutuamente a construir sistemas de alerta de emergência para crianças (o AMBER Alert e Child Rescue Alert).

Para finalizar, cito frases de autores anônimos que refletem bem esta questão grave, angustiante e que causa tanta consternação: 

“Não há nada mais generoso do que ajudar uma criança desaparecida a encontrar sua família; é preciso muita luta e trabalho duro para encontrá-las e todos que tornam isso possível são verdadeiros heróis.”

“As crianças que estão com os pais têm sorte, mas aquelas que desapareceram e foram encontradas têm mais sorte ainda.”

 

Saiba mais:

– Mobilizing the Global Community to Find Missing Children. Disponível em: https://globalmissingkids.org/about-us

– International Centre FOR MISSING & EXPLOITED CHILDREN (ICMEC). Disponível em: https://www.icmec.org/global-missing-childrens-center/the-definition-of-missing

– Dia Internacional das Crianças Desaparecidas. Blog Pediatra Orienta. Disponível em: https://www.spsp.org.br/dia-internacional-das-criancas-desaparecidas

– Desaparecimento de crianças: o que fazer nas primeiras 24 horas? Disponível em: https://fadc.org.br/noticias/desaparecimento-criancas-o-que-fazer

 

Relatora:

Renata D Waksman
Coordenadora do Blog Pediatra Orienta da SPSP

]]>
Tudo começa em casa https://spsp.org.br/tudo-comeca-em-casa/ Wed, 15 May 2024 18:05:28 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=46094 O título deste breve texto em comemoração ao Dia Internacional da Família, celebrado em 15 de maio, é uma homenagem ao pediatra e psicanalista Donald Winnicott. Seu legado contém inúmeras publicações sobre a importância que a família tem no processo de amadurecimento de um indivíduo, incluindo o livro homônimo Tudo começa em casa. 1 Para esse importante autor, a família é a base estruturante da condição de um indivíduo se tornar uma pessoa, com condições plenas de se socializar e manter relações de respeito e consideração com um outro. Em sua teoria do desenvolvimento emocional primitivo, o bebê nasce em um estado físico e psíquico de absoluta dependência, sem nenhuma condição de sobrevivência sem que um adulto totalmente disponível possa se ocupar de seus cuidados essenciais. O bebê, nesse primeiro estágio, experimenta a sensação de estar aos pedaços, como se seu corpo não fosse uma unidade. A angústia é de desamparo e somente os braços de um cuidador que possa se identificar com suas necessidades, vai permitir que ele viva a experiência de estar contido por uma pele. Em geral é a mãe quem ocupa essa função e se dedica plenamente ao bebê durante os primeiros meses de vida. Ela precisa estar muito perto e atenta, numa relação quase fusional, tal a adaptação que estabelece com ele, que inclui um estado de regressão aos seus próprios registros inconscientes de ter sido um bebê. De acordo com Winnicott, a mãe no último mês de gestação e durante o puerpério adquire uma condição especial para essa função, a preocupação materna primária, que é um estado de regressão e identificação com o bebê, quase como uma “doença”. Uma doença saudável de mães saudáveis. Porém, se a mãe ocupa um lugar protagonista junto ao bebê, só pode exercer plenamente essa função e entrar nesse estado mental primitivo se houver um suporte que a sustente também. É essa a tarefa do pai ou de alguém que ocupe esse lugar de função paterna. Refiro-me à função de guardião do ambiente mãe-bebê, para que ele tenha um mínimo de desconfortos. O estado emocional do bebê é de extrema fragilidade e não pode sofrer grandes abalos, que nessa fase representam ameaças à sua existência psíquica. Portanto, esse terceiro, que é o pai ou substituto, precisa cuidar do ambiente e do suprimento para quem se ocupa do bebê na função mãe. Toda essa configuração vai mudando à medida que o bebê cresce e vai adquirindo condições mais estruturadas de lidar com desconfortos, dores, frustrações e, principalmente, com a ausência gradativa da mãe. Essa mudança de etapa e readaptação do ambiente familiar às novas necessidades do bebê é o que vai construindo a condição para o indivíduo se desenvolver plenamente e alcançar o estágio de independência. Na primeira infância, independência significa autonomias básicas de andar, comer, dormir em seu quarto e cama, separar-se dos pais por períodos maiores. A mesma estrutura desse modelo que vemos durante os dois primeiros anos de vida da criança vai se repetir ao longo de sua vida e permitir que na idade adulta esse filho possa sair de casa e construir sua própria vida adulta e uma nova família. A família é a base e o modelo fundamental para que cada indivíduo seja um “sujeito”, com plenas condições de se relacionar com seus grupos e desenvolver relações de intimidade. Quando algo não vai bem nas relações familiares, há um comprometimento nessas condições de desenvolvimento das crianças, complicando também seus futuros descendentes. É a estabilidade familiar que oferece o continente seguro para a saúde de seus membros. Isso não significa que não existam conflitos, que são parte de uma vida saudável. Nos conflitos familiares, a criança e o adolescente aprendem a se relacionar e desenvolver ferramentas de articulação com um outro. É preciso aprender a lidar com frustrações, ceder, negociar, atender às demandas da realidade e não apenas das expectativas pessoais. Adultos saudáveis e responsáveis podem ser os pilares de uma organização familiar que favoreça o desenvolvimento contínuo de seus membros. O grupo familiar então serve de base para as relações nos grupos mais amplos da sociedade. Conhecemos algumas das razões que fazem essa longa e exigente tarefa – o trabalho dos pais de compreender os filhos – valer a pena! E, de fato, acreditamos que esse trabalho provê a única base real para a sociedade, sendo o único fator para a tendência democrática do sistema social de um país.2 (Winnicott, 1986 – pág. 98) A vivência dos conflitos familiares oferece a possibilidade de lidar internamente com emoções intensas e transbordantes em um ambiente seguro e amoroso. Para tanto, é fundamental que os pais possam ser capazes de sustentar as leis que organizam o convívio grupal e ajudar os filhos na experiência da frustração que deriva dos limites que a realidade impõe aos desejos individuais. Atualmente há um equívoco no que tange à educação dos filhos, que é a ideia de que os pais devam buscar um mínimo de incômodo aos filhos, evitando a todo custo expressões de tristeza, dor, raiva, tomadas como emoções “negativas”. Com essa premissa, temos cada vez mais crianças e jovens que não desenvolvem condições de lidar com a realidade e seus infortúnios. Isso pode gerar um sentimento de vazio e impotência, contribuindo para várias patologias, como a depressão, que pode até levar ao suicídio. A depressão não é necessariamente negativa, como muito bem desenvolveu Winnicott em seu artigo O valor da depressão. Paradoxalmente, esse estado pode ser a condição de um processo de desenvolvimento, desde que possa ser vivido e superado dentro de um ambiente que acolha e suporte as dores que nele estão contidas. A família é uma referência para isso. Se a pessoa que sofre pode contar com um sentimento amoroso de sustentação, a depressão pode evoluir para um processo de cura, como afirmou Winnicott.3 Muito poderia ser ainda desenvolvido sobre o valor da estrutura familiar para o desenvolvimento saudável de uma pessoa, mas o assunto de tão rico e vasto não pode se esgotar em tão poucas...]]>

O título deste breve texto em comemoração ao Dia Internacional da Família, celebrado em 15 de maio, é uma homenagem ao pediatra e psicanalista Donald Winnicott. Seu legado contém inúmeras publicações sobre a importância que a família tem no processo de amadurecimento de um indivíduo, incluindo o livro homônimo Tudo começa em casa. 1

Para esse importante autor, a família é a base estruturante da condição de um indivíduo se tornar uma pessoa, com condições plenas de se socializar e manter relações de respeito e consideração com um outro.

Em sua teoria do desenvolvimento emocional primitivo, o bebê nasce em um estado físico e psíquico de absoluta dependência, sem nenhuma condição de sobrevivência sem que um adulto totalmente disponível possa se ocupar de seus cuidados essenciais. O bebê, nesse primeiro estágio, experimenta a sensação de estar aos pedaços, como se seu corpo não fosse uma unidade. A angústia é de desamparo e somente os braços de um cuidador que possa se identificar com suas necessidades, vai permitir que ele viva a experiência de estar contido por uma pele.

Em geral é a mãe quem ocupa essa função e se dedica plenamente ao bebê durante os primeiros meses de vida. Ela precisa estar muito perto e atenta, numa relação quase fusional, tal a adaptação que estabelece com ele, que inclui um estado de regressão aos seus próprios registros inconscientes de ter sido um bebê.

De acordo com Winnicott, a mãe no último mês de gestação e durante o puerpério adquire uma condição especial para essa função, a preocupação materna primária, que é um estado de regressão e identificação com o bebê, quase como uma “doença”. Uma doença saudável de mães saudáveis.

Porém, se a mãe ocupa um lugar protagonista junto ao bebê, só pode exercer plenamente essa função e entrar nesse estado mental primitivo se houver um suporte que a sustente também. É essa a tarefa do pai ou de alguém que ocupe esse lugar de função paterna.

Refiro-me à função de guardião do ambiente mãe-bebê, para que ele tenha um mínimo de desconfortos. O estado emocional do bebê é de extrema fragilidade e não pode sofrer grandes abalos, que nessa fase representam ameaças à sua existência psíquica. Portanto, esse terceiro, que é o pai ou substituto, precisa cuidar do ambiente e do suprimento para quem se ocupa do bebê na função mãe.

Toda essa configuração vai mudando à medida que o bebê cresce e vai adquirindo condições mais estruturadas de lidar com desconfortos, dores, frustrações e, principalmente, com a ausência gradativa da mãe.

Essa mudança de etapa e readaptação do ambiente familiar às novas necessidades do bebê é o que vai construindo a condição para o indivíduo se desenvolver plenamente e alcançar o estágio de independência.

Na primeira infância, independência significa autonomias básicas de andar, comer, dormir em seu quarto e cama, separar-se dos pais por períodos maiores.

A mesma estrutura desse modelo que vemos durante os dois primeiros anos de vida da criança vai se repetir ao longo de sua vida e permitir que na idade adulta esse filho possa sair de casa e construir sua própria vida adulta e uma nova família.

A família é a base e o modelo fundamental para que cada indivíduo seja um “sujeito”, com plenas condições de se relacionar com seus grupos e desenvolver relações de intimidade. Quando algo não vai bem nas relações familiares, há um comprometimento nessas condições de desenvolvimento das crianças, complicando também seus futuros descendentes.

É a estabilidade familiar que oferece o continente seguro para a saúde de seus membros. Isso não significa que não existam conflitos, que são parte de uma vida saudável. Nos conflitos familiares, a criança e o adolescente aprendem a se relacionar e desenvolver ferramentas de articulação com um outro. É preciso aprender a lidar com frustrações, ceder, negociar, atender às demandas da realidade e não apenas das expectativas pessoais. Adultos saudáveis e responsáveis podem ser os pilares de uma organização familiar que favoreça o desenvolvimento contínuo de seus membros. O grupo familiar então serve de base para as relações nos grupos mais amplos da sociedade.

Conhecemos algumas das razões que fazem essa longa e exigente tarefa – o trabalho dos pais de compreender os filhos – valer a pena! E, de fato, acreditamos que esse trabalho provê a única base real para a sociedade, sendo o único fator para a tendência democrática do sistema social de um país.2 (Winnicott, 1986 – pág. 98)

A vivência dos conflitos familiares oferece a possibilidade de lidar internamente com emoções intensas e transbordantes em um ambiente seguro e amoroso. Para tanto, é fundamental que os pais possam ser capazes de sustentar as leis que organizam o convívio grupal e ajudar os filhos na experiência da frustração que deriva dos limites que a realidade impõe aos desejos individuais.

Atualmente há um equívoco no que tange à educação dos filhos, que é a ideia de que os pais devam buscar um mínimo de incômodo aos filhos, evitando a todo custo expressões de tristeza, dor, raiva, tomadas como emoções “negativas”. Com essa premissa, temos cada vez mais crianças e jovens que não desenvolvem condições de lidar com a realidade e seus infortúnios. Isso pode gerar um sentimento de vazio e impotência, contribuindo para várias patologias, como a depressão, que pode até levar ao suicídio.

A depressão não é necessariamente negativa, como muito bem desenvolveu Winnicott em seu artigo O valor da depressão. Paradoxalmente, esse estado pode ser a condição de um processo de desenvolvimento, desde que possa ser vivido e superado dentro de um ambiente que acolha e suporte as dores que nele estão contidas. A família é uma referência para isso. Se a pessoa que sofre pode contar com um sentimento amoroso de sustentação, a depressão pode evoluir para um processo de cura, como afirmou Winnicott.3

Muito poderia ser ainda desenvolvido sobre o valor da estrutura familiar para o desenvolvimento saudável de uma pessoa, mas o assunto de tão rico e vasto não pode se esgotar em tão poucas linhas. Fica então a mensagem central dessa importância e o necessário olhar para que a sociedade contribua para o trabalho fundamental do qual cabe à família se ocupar.

Saiba mais:

  1. Winnicott D. Tudo começa em casa, 1996, Editora Martins Fontes.
  2. Winnicott D. A contribuição da mãe para a sociedade. In: Tudo começa em casa, 1996, Editora Martins Fontes.
  3. Winnicott D. O valor da depressão. In: Tudo começa em casa, 1996, Editora Martins Fontes.

 

Relatora:
Denise de Sousa Feliciano
Presidente do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Álcool, cigarro eletrônico, maconha? Que droga! https://spsp.org.br/alcool-cigarro-eletronico-maconha-que-droga/ Mon, 28 Aug 2023 19:52:47 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39145 Neste mês, um pecuarista e seu filho morreram em um acidente aéreo em Rondônia. Um vídeo que circulou dois dias antes nas redes sociais mostra este]]>

Neste mês, um pecuarista e seu filho morreram em um acidente aéreo em Rondônia. Um vídeo que circulou dois dias antes nas redes sociais mostra este senhor de 42 anos bebendo cerveja e instruindo seu filho, de apenas 12 anos, a pilotar um avião bimotor. No vídeo, o pai está bebendo uma cerveja e coloca a garrafa entre suas pernas para instruir seu filho a pilotar o avião (é bom destacar que é proibido pilotar qualquer tipo de avião sem a devida autorização, instrução e formação para tal e que, no Brasil, a pilotagem só é permitida a partir dos 16 anos). Ainda no vídeo, é possível ver o pai usando a mão para esconder a matrícula do avião, para que não fosse identificado pelas autoridades. Os dois morreram no último sábado, 29, após um acidente aéreo no interior de Rondônia.

Uma jovem de 22 anos foi abandonada, desacordada, por um motorista de aplicativo na porta de casa no Bairro Santo André, na Região Noroeste de Belo Horizonte, na madrugada de domingo (30/7). Foi estuprada em seguida. O crime chama a atenção pela sucessão de erros que culminaram no estupro da jovem, como apontam os investigadores do caso. Conforme o boletim de ocorrência, no sábado (29/7), a vítima estava em um evento de pagode que aconteceu no Mineirão, na Região da Pampulha, quando, por volta das 2h decidiu ir embora. Ela teria ingerido grande quantidade de bebida alcoólica e, na volta do show, seus amigos a colocaram, sozinha, em um carro de aplicativo e compartilharam a localização da viagem com o irmão dela. A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) afirmou que, além do agressor, outras pessoas serão investigadas e podem ser responsabilizadas pelo caso. Entre elas estão o motorista de aplicativo, o motociclista que passou pelo local e ajudou a retirar a vítima do carro e deixá-la no meio-fio, e o amigo que a colocou no carro, sozinha. Por tê-la deixado nessa situação, o motorista pode responder pela omissão de socorro.

Na minha opinião, nos dois casos há um agravante que não foi discutido ou responsabilizado: a ingestão de bebida alcoólica, que colocou ambos em situação de vulnerabilidade.

Não se omite a responsabilidade de um pai que permite um filho menor de idade ter o controle de um avião em voo, tapando o número de série da aeronave e usando bebida alcoólica, ridicularizando a legislação em questão. Não se omite a responsabilidade dos amigos da outra jovem, do motorista que a abandonou na rua, mas pouco se discute a regulamentação da bebida alcoólica, ou responsabilização dos que vendem ou fornecem bebida alcoólica em excesso para outros. Não somos contra a bebida alcoólica, mas sim somos contra a falta de regulamentação do seu uso no Brasil, como é feito em outros países. A impunidade característica do nosso meio estimula excessos, que levam a situações de risco.

O exemplo dos pais é um fator importantíssimo na orientação das crianças e dos jovens. Se o pai não cumpre as normas legais da sociedade, haverá muita chance dos filhos também não seguirem. Isto vale não só em relação às drogas, mas a toda a educação dos nossos filhos.

O cigarro eletrônico está tomando um vulto grande demais para que não nos coloquemos na prevenção de algo que faz mal à saúde, tanto ou mais do que o cigarro normal, porque ele está sendo utilizado pela juventude, que acredita que não vicia e desconhece o efeito maléfico que pode produzir. É a mesma situação dos nossos avós com o cigarro normal!

Em relação à liberação do porte de maconha, acho incrível que não se faça ao mesmo tempo uma ampla campanha sobre o possível malefício que ela pode trazer, com os mesmos problemas pulmonares do cigarro e a possível lesão cerebral irreversível que pode produzir.

Nossos políticos tentam tapar o sol com a peneira, retardando ou engavetando qualquer possibilidade de regulamentação do uso de álcool no Brasil, fechando os olhos para a proibição do cigarro eletrônico, proibido no país, mas não fiscalizado, e aprovando a descriminalização do porte de maconha sem ampla campanha de orientação.

Exemplos não faltam: Amsterdã tem zonas livres do álcool, do tabaco e da maconha; nos EUA não se consome bebida alcoólica na rua e antes dos 21 anos e nós continuamos vendendo bebida na rua, onde o menor de idade a compra sem pudores.

O uso das drogas começa dentro de casa. Abramos os olhos. Prevenção é tudo!

 

Relator:
João Paulo Lotufo
Presidente do Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas por Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
O “umbigo” caiu! O que eu faço agora, doutor? https://spsp.org.br/o-umbigo-caiu-o-que-eu-faco-agora-doutor/ Thu, 08 Apr 2021 20:51:42 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=27965 Mãe e filha entraram no consultório para tirar uma dúvida crucial. No caso, a filha era a mãe do paciente - um lindo recém-nascido de 8 dias de vida, que estava no colo da avó (a mãe da mãe). ]]>

Episódio 5: O “umbigo” caiu! O que eu faço agora, doutor?

Mãe e filha entraram no consultório para tirar uma dúvida crucial. No caso, a filha era a mãe do paciente – um lindo recém-nascido de 8 dias de vida, que estava no colo da avó (a mãe da mãe).
A mais importante e angustiante das dúvidas, para aquela avó, foi a pergunta que deu início à nossa conversa: – Doutor, eu até trouxe comigo, neste vidrinho aqui (e mostrou o recipiente). O umbigo do meu netinho caiu hoje… ele estava por um fio e depois do banho, ao colocar a fralda, ele caiu.
Interajo, naturalmente, dizendo: – Caiu no tempo habitual…
Não houve oportunidade para mais comentários, logo, a avó emendou:
– E, agora, doutor, o que vamos fazer? Minha filha queria jogar o “coitadinho” no lixo. Eu não deixei.
– A senhora está se referindo ao coitadinho do coto umbilical, é claro! Tentei fazer uma brincadeira para descontrair, mas fui malsucedido.
– Claro, doutor!  Como é que se joga no lixo uma “coisa viva” que é do meu neto?!
Nós pediatras costumamos vivenciar episódios assim. A preocupação quanto ao que fazer com o coto umbilical reflete o que está no imaginário popular, em especial, das gerações mais velhas.
O rol de simpatias é variado: o “umbigo” deveria ser enterrado nos pés de uma roseira para que a criança cresça bonita e saudável; deveria ser enterrado junto a uma bananeira para que o bebê tenha muito dinheiro no futuro; se enterrar junto a uma porteira de fazenda, será fazendeiro; se jogar no mar, serámarinheiro; se guardar com você, o seu filho ficará sempre por perto; se jogar no lixo, um rato pode pegar o “umbigo” e vai se tornar ladrão quando crescer.
Os mais novos já se desvencilham das crenças e buscam razões baseadas na ciência e no seu contínuo progresso, para justificar a guarda do cordão umbilical, pois pensam que nele estão células que no futuro poderão ajudar o próprio indivíduo em alguma enfermidade.
O “umbigo” simboliza a dependência do bebê à sua mãe – pelo cordão umbilical recebe alimento, oxigênio, enfim, tudo que necessita. Há uma sensação de controle, de segurança. O corte do cordão rompe esse mundo idealizado, como se agora o filho ficasse desprotegido e entregue a sua própria sorte, aqui fora. É a primeira de muitas outras separações necessárias para o desenvolvimento desse outro ser, que é único, que só vai ganhar alteridade e maturidade, exatamente nesse processo de individuação.
O “umbigo”, que na verdade é a cicatriz restante do corte do cordão umbilical, é a ferida dessa separação; ele lembra os pais, de forma mais intensa as mães, dessa impotência de controle. Anuncia de forma estridente que aquele bebê não será mais deles, mas do mundo. Pode ser por isso que pareça ser tão difícil lidar com o umbigo, pois ele reflete a complexidade que envolve o cuidar de uma vida.
Ao final, quem caiu não foi o “umbigo”, ele é o que fica. Quem caiu foi o resquício do cordão umbilical que fora cortado ao nascimento – o coto umbilical mumificado, um tecido já morto.
O “universo umbilical” é cheio de mitos, medos e histórias (como a do “mal dos sete dias”) e de polêmicas, até teológicas, como a que envolve a pintura de Adão feita por Michelangelo na Capela Sistina. Nesta arte, Adão tem umbigo, o que foi criticado pelos teólogos, pois, pela narrativa bíblica, ele não foi gerado em ventre de mulher, portanto não houve placenta.
Essa cicatriz no corpo humano e na de todos os mamíferos (com exceção do ornitorrinco e do canguru), por estar na parte central do corpo, remete à ideia de centralidade. Embora a palavra signifique protuberância, ele pode ser fundo, representando uma concavidade. Apenas 10% dos umbigos são proeminentes, o restante é mais fundo – o que é esteticamente mais aceito.
A seguir desbravaremos um pouco mais deste universo curioso.

Relator:
Fernando Manuel Freitas de Oliveira
Membro da Comissão de Ensino e Pesquisa da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A limpeza da região umbilical

A limpeza da região umbilical é importante para evitar infecção. Logo nos primeiros dias de vida, o cordão é gelatinoso, depois seca progressivamente, mumifica entre o 3º ou 4º dia e cai habitualmente entre o 6º e 15º dia de vida.A utilização de antissépticos no coto umbilical ainda é polêmica na literatura, mas sabe-se que o uso da clorexidina 0,5% é eficaz na redução da colonização e da infecção, mas atrasa a mumificação. Já o uso do álcool 70% acelera a mumificação, mas não interfere na colonização.

A Organização Mundial da Saúde recomenda manter a região do coto sempre seca para facilitar a cicatrização e sempre limpa para evitar infecção. A limpeza do coto deverá ser realizada várias vezes ao dia, principalmente após troca de fraldas, com água e sabonete neutro. Depois de secá-lo bem, o uso de um cotonete com álcool 70% em todo umbigo ajudará na cicatrização.

Importante salientar que o produto deve sempre ser armazenado em frasco de uso individual. Situações de preocupação incluem: o atraso na queda do coto umbilical, após a terceira semana de vida, que pode ser manifestação de outras doenças como o hipotireoidismo congênito e as imunodeficiências primárias; a infecção, caracterizada pela presença de secreção purulenta na região do coto, edema e hiperemia da parede abdominal. Nesses casos a avaliação do pediatra é imprescindível para o diagnóstico e conduta adequados. 

Maria Regina Bentlin
Presidente do Departamento Científico de Neonatologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: aynur_sib | depositphotos.com.br

]]>
Terçol e calázio: o que são e quais os tratamentos? https://spsp.org.br/tercol-e-calazio-o-que-sao-e-quais-os-tratamentos/ Tue, 06 Apr 2021 13:07:14 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=27953 Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 06/04/2021


O terçol que aparece nas crianças, até mesmo em bebês, incomoda pela dor que causa quando a criança pisca e preocupa os pais, tanto pelo aspecto estético, quanto pelo tempo que leva para sarar.

O terçol é a inflamação que ocorre nas glândulas que temos na borda da pálpebra. Quando uma bactéria penetra na glândula e inflama por dentro, ela incha e dói, formando uma “bolinha” vermelha na pálpebra, muitas vezes com um ponto amarelo.

Em geral, essa contaminação ocorre pelas mãozinhas da criança ou por uma blefarite crônica (inflamação que afeta a borda da pálpebra, no local onde emergem os cílios), que forma crostas e seborreia no local, favorecendo o crescimento das bactérias.

O terçol só sara com a drenagem do conteúdo da glândula inflamada, que pode ser por dentro, via conjuntiva, ou pela pele. Essa drenagem deve ser espontânea, com ajuda de compressas mornas que amolecem o conteúdo e abrem o orifício de saída da glândula. Aplicar as compressas logo que se percebe o terçol, três a quatro vezes ao dia, de 5 a 10 minutos, inclusive aproveitando a hora do banho, o que ajuda na drenagem.

Quando existe uma blefarite associada, formando crostas e “caspinhas” na raiz dos cílios, que pode causar oclusão dos orifícios de saída da glândula, é necessária a limpeza com a espuma fina do shampoo neutro, para evitar a formação de novos terçóis. Fazer essa higiene nas crianças com blefarite no final do banho é um ótimo hábito que deve ser mantido.

Em alguns casos mais persistentes faz-se necessário associar pomada de antibiótico ocular tópico. E, nas crianças com múltiplos terçóis de repetição, o uso de antibióticos orais com efeito de quebra da gordura das glândulas por período prolongado pode ser indicado pelo oftalmologista.

Outras medidas que podem ajudar são a dieta sem frituras, sem chocolate e rica em alimentos com ômega 3.

Alguns terçóis não drenam totalmente e “sobra” uma bolinha sem inflamação, durinha, encapsulada, que é o calázio – que também pode ser causado pela obstrução da glândula pela própria gordura, que não se infecta, mas vai formando um granuloma endurecido.

Quando o calázio for pequeno, não se faz nada, pois o próprio organismo vai absorver com o tempo. No entanto, quando for grande, pode comprimir a córnea da criança e causar um astigmatismo, por mudança na curvatura. Por isso, deve ser diagnosticado e tratado com óculos.

A cirurgia de retirada da glândula doente ou a injeção de corticoide dentro do calázio pode ser realizada nos casos de calázio grande e persistente.

___
Relatora:
Márcia Keiko Uyeno Tabuse
Presidente do Departamento Científico de Oftalmologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Elsa satânica? Um alerta sobre segurança da criança na internet https://spsp.org.br/elsa-satanica-um-alerta-sobre-seguranca-da-crianca-na-internet/ Thu, 25 Mar 2021 19:20:37 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=27883 Apesar de redes sociais como Tik Tok, Instagram e Snapchat serem proibidas para menores de 13 anos, sabemos que o acesso a essas plataformas é de difícil controle, mesmo as crianças não tendo contas. ]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 25/03/2021

Apesar de redes sociais como Tik Tok, Instagram e Snapchat serem proibidas para menores de 13 anos, sabemos que o acesso a essas plataformas é de difícil controle. Mesmo que as crianças não tenham contas, podem chegar até elas vídeos vindos dessas mídias, inclusive através de mensagens por WhatsApp.

Um comediante, cujo foco é o público adulto, fez vídeos utilizando um filtro da “princesa Elsa” dirigindo-se a crianças, incitando brincadeiras de cunho “satânico”. Nesse caso, o autor dos vídeos foi intimado a retirar esse material do ar.

Porém, trata-se de uma questão recorrente. Já vivemos outras trends como Momo, Baleia Azul e jogo de asfixia. Mídias sociais não são para crianças: elas não têm maturidade nem discernimento para escolherem um conteúdo adequado, estão sujeitas a “sugestões” que o próprio aplicativo faz para elas e, muitas vezes, sofrem consequências fatais por sua imaturidade.

Especialmente em um ano no qual crianças e adolescentes foram “jogados para as telas”, a supervisão dos pais em relação ao conteúdo consumido é essencial.

Seguem algumas dicas para monitorar o uso de aplicativos pelas crianças e adolescentes:

  1. Eduque-se e conheça os aplicativos: entenda como funcionam, veja quem as crianças seguem e por quem são seguidas, cheque as configurações de privacidade.
  2. Mantenha “combinados” em relação ao uso, antes de baixar os aplicativos.
  3. Explique que tudo que se posta ou que se repassa poderá ter consequências persistentes.
  4. Comunique-se com frequência e monitore as atividades das mídias.

É preciso consciência das famílias sobre os perigos constantes que o mundo da internet oferece às crianças.


___
Relatora:
Luciana Issa
Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: natacha fedorova | depositphotos.com

]]>
Meu bebê nasceu prematuro: como vai ser seu desenvolvimento no primeiro ano de vida? https://spsp.org.br/meu-bebe-nasceu-prematuro-como-vai-ser-seu-desenvolvimento-no-primeiro-ano-de-vida/ Fri, 05 Mar 2021 19:00:15 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3637 Campanha Março Lilás – Atenção ao cuidado do bebê prematuro

No Brasil, nascem cerca de 340 mil prematuros por ano. A sobrevida de bebês prematuros aumenta a cada ano, com foco cada vez maior na melhor qualidade de vida. Assim, a prematuridade é uma preocupação crescente tanto para saúde pública brasileira e mundial quanto para a sociedade, os pais e as famílias.

O nascimento de um recém-nascido prematuro é quase sempre uma surpresa e junto com ele muitas questões são levantadas pelos pais:

  • Meu filho terá um desenvolvimento normal?
  • Irá correr, comer, falar e brincar?
  • O que posso fazer para mantê-lo saudável?
  • O que esperar do seu crescimento e desenvolvimento?
jolopes | depositphotos.com

Você se identificou com essas dúvidas? Vamos tentar diminuir sua ansiedade com esse texto.

Afinal, quando um bebê é considerado prematuro?

Prematuro é todo recém-nascido que nasce antes de completar a idade gestacional de 37 semanas. Muitos bebês prematuros vão se desenvolver normalmente, porém alguns podem apresentar dificuldades motoras, sensoriais e de comportamento, desde atraso para se sentar, andar e falar até cegueira, surdez e paralisia cerebral. Isso vai depender do grau de prematuridade e das intercorrências pelas quais passou durante a internação, como infecção, necessidade de ventilação mecânica, além de suas condições nutricionais.

O grau da prematuridade influencia diretamente no desenvolvimento, ou seja, quanto menor a idade gestacional e o peso ao nascimento do seu bebê, mais imaturo seus órgãos, como o coração, o pulmão, o cérebro e o intestino. Assim, maior será sua dependência de cuidados especiais, mais vulnerável a agressões externas e maior o risco de alterações no desenvolvimento desta criança.

Já ouviu falar em idade corrigida?

Para avaliar o desenvolvimento de uma criança prematura, é importante considerarmos a idade corrigida.

Idade corrigida: Idade que a criança estaria se tivesse nascido de 40 semanas.   Por exemplo, um prematuro de 30 semanas, após 16 semanas, estaria com idade corrigida de 6 semanas. Nesse caso, as 10 semanas que faltaram para completar a gestação são descontadas do tempo de vida do bebê. Isso significa que o seu desenvolvimento deve ser o esperado para um bebê de 6 semanas e não de 16 semanas. 

A avaliação do desenvolvimento por meio da “idade corrigida” é importante nos primeiros 2 a 3 anos de vida do prematuro para compararmos o comportamento esperado de acordo com a maturidade de seu cérebro e ajustar os estímulos adequados e as nossas expectativas em relação àquela criança. 

Lembre-se! Seu bebê é único! A avaliação de seu desenvolvimento deve ser feita por um profissional capacitado, respeitando as particularidades de cada criança.

O acompanhamento regular do prematuro é fundamental para avaliações precoces, início de terapias em tempo oportuno e estímulos adequados para o melhor desenvolvimento da criança. Ele deve ser individualizado para aquele bebê e para sua família, englobando não só a consulta pediátrica, mas com fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, oftalmologia, neurologia e outras especialidades, se necessário.

Você já ouviu falar no exame neuromotor? 

No primeiro ano de vida, uma atenção especial é dada à parte motora da criança, avaliando em conjunto sua movimentação, força, postura e reflexos.

O exame neuromotor é um importante indicador do desenvolvimento do seu bebê. Se estiver adequado no segundo semestre de vida, a chance de desenvolvimento motor normal na criança maior é muito grande. 

O que você pode fazer para estimular o melhor desenvolvimento do seu bebê?

  • Manter o acompanhamento multidisciplinar, conforme as demandas de seu filho(a).
  • Manter estímulos adequados de acordo com as orientações para cada fase do bebê.
  • Estimular o crescimento e desenvolvimento em um ambiente alegre, tranquilo e carinhoso.
A participação ativa dos pais influencia em todo o desenvolvimento da criança

Lembre-se: Cada bebê se desenvolve individualmente, no seu próprio ritmo. A melhor comparação é com ele mesmo!

Informe-se em fontes seguras e converse com seu pediatra!

___
Relatora:
Renata Sayuri Ansai Pereira de Castro
Departamento Científico de Neonatologia Sociedade de Pediatria de São Paulo



]]>
03 de março – Dia Mundial dos Defeitos do Nascimento https://spsp.org.br/03-de-marco-dia-mundial-dos-defeitos-do-nascimento/ Wed, 03 Mar 2021 15:58:50 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3632 A Organização Mundial de Saúde definiu como defeitos do nascimento ou anomalias congênitas as situações que envolvem alterações da estrutura ou função dos órgãos, presentes ao nascimento e de origem pré-natal. Alguns destes defeitos são pequenos e não afetam o dia a dia da criança ou de sua família. Por outro lado, as alterações estruturais maiores podem levar a consequências médicas, sociais e estéticas e requerem intervenções clínicas e/ou cirúrgicas. Algumas delas são bastante conhecidas, outras são doenças mais raras, assim o conhecimento sobre esse tema é muito variável.

No Brasil, segundo dados do DATASUS, nos últimos 5 anos, ocorreram 163.109 nascimentos de crianças portadoras das mais variadas anomalias congênitas, o que corresponde a cerca de 1,2% de todos os nascimentos e quase 32.500 casos novos por ano.

alla serebrina | depositphotos.com

Cada uma das alterações possíveis vai exigir diferentes cuidados. Algumas doenças podem ser curadas com uma intervenção cirúrgica logo após o nascimento, mesmo tratando-se de acometimento extenso de algum órgão maior. Para elas, é possível a proposta de um tratamento curativo, ainda que agressivo e com grande intervenção.

Em outros grupos de doenças, os pacientes necessitarão de cuidados constantes direcionados para o controle e alívio de sintomas, já que nestes casos não existe um tratamento curativo possível. Estes pacientes e suas famílias precisam de uma atenção diferenciada e voltada para a adequação das atividades da vida diária e capacitação para inclusão social e participação na vida familiar. Essas crianças precisarão da atenção de especialistas e da assistência da equipe multiprofissional – fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos.

Quando se fala em defeitos do nascimento, é preciso incluir os familiares não só no cuidado com o paciente, mas como indivíduos a serem cuidados também, haja vista que terão que aprender a lidar com algumas doenças crônicas por toda a vida.

No dia Mundial dos Defeitos do Nascimento, o acolhimento, a inclusão e a humanização dos cuidados também devem ser celebrados.

___
Relatora:
Maria Augusta Bento Cicaroni Gibelli 
Departamento Científico de Neonatologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo



]]>
Alimentação infantil e saúde oral em tempos de pandemia https://spsp.org.br/alimentacao-infantil-e-saude-oral-em-tempos-de-pandemia/ Fri, 11 Dec 2020 13:57:04 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3549 As mudanças impostas pela quarentena impactaram os hábitos da família em todos os sentidos: rotina escolar dos filhos, horários de sono e de trabalho dos pais e, consequentemente, a rotina alimentar da casa.
O que parecia provisório tem se estendido ao longo dos últimos meses e as consequências para a saúde das crianças estão vindo à tona. Queixas como ganho de peso e mudança nos hábitos de higiene e saúde oral vêm crescendo e ganhando espaço nas famílias.
Os pais deixaram de fazer algumas refeições nos locais habituais e os filhos deixaram de receber alimentação no berçário, creche ou escola, sendo criada uma nova rotina de compra, preparo e oferta dos alimentos.

wavebreakmedia | depositphotos.com


O confinamento proporcionou maior convivência doméstica e permitiu que os pais conhecessem melhor os hábitos alimentares de seus filhos; com o surgimento de tarefas associadas à compra, preparo e consumo alimentar e aumento das refeições em família. 
Em paralelo, a quarentena colocou as crianças frente a frente com uma nova situação, despertando sentimentos como ansiedade, tédio, mudanças de humor e solidão (pela falta das atividades escolares e físicas, dos amiguinhos e dos pais, que estão “presentes”, mas trabalhando em casa). Em muitos casos, houve mudança total da rotina diária e dos cuidados com as crianças.
A criança ainda não possui conhecimento e autonomia para escolher o que é bom e necessário para o seu corpo e, nos momentos de alteração de humor, pode acabar procurando alívio no alimento. Nessas situações, é essencial que pais e cuidadores ajudem a criança a sair do “comer automático”, orientando-a na identificação de quando ela está sentindo fome e quando está saciada.
Os alimentos disponíveis em casa muitas vezes passaram a servir de conforto e companhia, especialmente os ultraprocessados, caracterizados por alto apelo sensorial, praticidade, disponibilidade, durabilidade e alto teor energético. Dentre eles, destacam-se as bolachas, salgadinhos, sucos prontos, doces, chocolate, congelados, macarrão instantâneo, pipoca de micro-ondas, bolos prontos e guloseimas em geral.
Sua fácil aceitação e consumo exagerado estão associados a altos teores de gordura + açúcar ou gordura + sal, que realçam os sabores; além de baixa demanda mastigatória e embalagens práticas e sedutoras, que favorecem o consumo a qualquer hora e local.
O consumo regular desses alimentos predispõe crianças a um risco maior para excesso de peso, desenvolvimento da cárie dentária e da erosão dental. Atitudes simples como deixar fácil acesso à criança uma fruta cortada, picada ou descascada podem facilitar seu consumo e resgatar um hábito saudável.

A importância da rotina para a saúde oral

Nesse período é essencial que a família estabeleça uma rotina para as crianças, incluindo horários regulares de alimentação, sono, estudo, higiene pessoal e atividade física.  A criança precisa de modelos alimentares e os pais devem assumir esse papel, valorizando os momentos da refeição, sentando à mesa com acolhimento, num ambiente saudável, com uma boa apresentação dos pratos, tempo para uma mastigação adequada, conversas leves, sem cobranças e presença de TV e outras telas que possam distrair a todos. A afetividade e cuidado dos pais são essenciais no processo da alimentação infantil, assim como a manutenção dos hábitos de higiene oral, que ao final constituem-se em cuidados importantes, traduzidos como atos de amor para com as crianças.   
A pandemia trouxe muitos desafios para as famílias. No início, tudo parecia difícil ou até impossível. A convivência no mesmo ambiente 24 horas por dia exige muito diálogo e criatividade e aos poucos as coisas vêm se acomodando. As famílias terão muito aprendizado com essa experiência ímpar na história da humanidade.

___
Relatoras:
Cristina Giovannetti Del Conte
Vera Dishchekenian
Grupo de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo



]]>