Ninho – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 08 Dec 2023 19:59:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Ninho – SPSP https://spsp.org.br 32 32 8 de dezembro – Dia Nacional da Família https://spsp.org.br/8-de-dezembro-dia-nacional-da-familia/ Thu, 07 Dec 2023 18:37:39 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=41101 Esta data comemorativa nos constrange a pensar na Família/no Lar como ponto de equilíbrio físico e emocional para um mundo conturbado. Há o nascimento]]>

Esta data comemorativa nos constrange a pensar na Família/no Lar como ponto de equilíbrio físico e emocional para um mundo conturbado.

Há o nascimento biológico e o nascimento cultural. O primeiro se refere ao fato de que um nascituro “veio ao mundo”. O segundo se relaciona com o acolhimento dado ao “produto desse evento”. Idealmente, cabe à família processar esse nascimento cultural: nomear o recém-nascido, dando-lhe uma genealogia; acolher, provendo o bebê com os cuidados necessários para a sua sobrevivência; oferecer os meios adequados para o seu desenvolvimento físico, cultural e ético; equipar com habilidades cognitivas e inteligência emocional; preparar para o futuro (livro Manifesto antimaternalista – informação abaixo) 

Idealmente, a família deve oferecer “ao que veio ao mundo” um Lar – o ninho, o refúgio, o porto seguro, para aquele ser totalmente indefeso e dependente. Família é o primeiro local de “validação” de um ser humano – chancela o “sou gente”, o “sou benquisto”.

Família é o “espaço social” onde se aprende tanto a amar, quanto a odiar; a respeitar ou desrespeitar; a dizer a verdade ou a mentir; a ser ético ou imoral; a ser virtuoso ou maldoso; a ser resiliente ou fraco; a ser generoso ou sovina; a ser humilde ou arrogante; a ser prepotente ou a reconhecer o outro e desenvolver a alteridade.

Esse “espaço social” chamado família deve ser, também, um “espaço sagrado” – bem-aventurado, inviolável, respeitável, “separado – porque diferente e desejado”.

Estamos vivendo tempos que parecem “estranhos”; o mundo deixou de ser um “lugar comum”. Temos a sensação de estar “sem casa”, parecemos “estranhos no ninho”.

A família necessita ser neste mundo em que vivemos um ambiente de intensa e corajosa resistência ao comportamento contemporâneo: apressado, consumista, imediatista, narcisista. Isso, implica em desenvolver uma “outra política de tempo”, necessária para estabilizar a vida – um tempo de qualidade.

As práticas que demandam dedicação de tempo prolongado, como, por exemplo, a busca pela verdade, a confiança, a responsabilidade, a fidelidade, o compromisso, a criação de vínculos, a arte da contemplação, estão desaparecendo hoje em dia. Todos esses elementos exigem dedicação de tempo  (livro Não coisas – reviravoltas do mundo da vida- informação abaixo).

Dedicação de tempo envolve separar no tempo ordinário (contínuo) um tempo qualitativo. Necessitamos adentrar repetidamente nesse espaço diferenciado no tempo.

Separar um tempo qualitativo dá trabalho. É uma cultura que precisa ser desenvolvida pelas famílias e individualmente, como um verdadeiro “ritual”. Os rituais estabelecem um lugar de segurança no tempo e no espaço, de aconchego, onde se “distingue um dia do outro, uma hora da outra”. Os rituais são técnicas de fechamento temporal. Eles transformam o “estar-no-mundo” em “estar-em-casa”. Eles são arquiteturas temporais. Desta forma, eles tornam o tempo habitável. Os rituais são repetitivos.

A repetição é didática, ensina. A expressão francesa “savoir par coeur, que significa ‘saber por intermédio do coração’ – “saber de cor”, é um símbolo poético e bíblico da inteligência, do pensamento, dos sentimentos. Essa expressão surgiu em meados do século XVI e indica um saber por intermédio de experiências.

A seu tempo, busque um tempo para ter tempo, especialmente em família.

 

Saiba mais:

Este texto foi inspirado pela leitura de dois livros que recomendo fortemente a leitura:
. Manifesto antimaternalista: Psicanálise e políticas de reprodução. Vera Iaconelli. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
. Não coisas – reviravoltas do mundo da vida. Byung-Chul Han; Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Para celebrar o Dia da Família – 8 de dezembro https://spsp.org.br/para-celebrar-o-dia-da-familia-8-de-dezembro/ Thu, 08 Dec 2022 11:50:02 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=35812 ]]>

“É preciso um vilarejo para criar uma criança” (provérbio africano)

A frase título deste artigo resvala na famosa colocação de que a família é a célula mater da sociedade. Entretanto, acrescenta a importante e essencial interdependência e mutualidade que deve existir entre as partes: família e sociedade.

A família é o nosso primeiro local de acolhimento para o mundo. É a nossa primeira e mais preciosa escola, local que determina os pilares da nossa construção, em todos os aspectos. É lá, na relação com os outros mais próximos, que aprendemos a nos reconhecer como indivíduos e ampliamos também o nosso olhar para o mundo exterior. A isso damos o nome de educação.

O espaço que chamamos casa, os poetas preferem denominar “ninho”. Como sempre, conseguem dizer e aprofundar sentidos economizando palavras, escolhendo-as com propriedade. “Ninho” lembra aconchego, tempo que transcorre no momento adequado e recorda segurança e tranquilidade. A isso damos o nome de harmonia.

Esse espaço de convívio é fundamental que seja impregnado de alegria, de muitas risadas, de diversão, de brincadeiras, de conversas à volta da mesa nas refeições. É necessário que se cultivem os afetos. A isso damos o nome de convivência com amor.

Cito outro provérbio africano muito interessante: “a chuva cai sobre todos os telhados”. Isso é uma verdade; no entanto, nem todos os telhados suportam a chuva que cai! Debaixo desses telhados moram famílias que, cada uma a seu jeito, suportam a chuva que cai. Quanto mais fortes os laços que sedimentam as relações intrafamiliares, maior será a capacidade de resistência. Quanto mais fortes os laços das relações sociais e comunitárias, maior a capacidade de superação das dificuldades. A isso damos o nome de solidariedade.

A palavra “Ubuntu” tem origem nos idiomas zulu e xhosa, do sul do continente africano, e tem como significado: “a humanidade para com os outros”. Exprime a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Um provérbio encontrado em quase todas as línguas africanas, cuja tradução é: “uma pessoa só é uma pessoa por meio de outras pessoas”, resume a filosofia do Ubuntu. O Arcebispo Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz em 1984, escreveu no prefácio do livro escrito por sua neta*: “O significado fundamental desse provérbio é que tudo o que aprendemos e experimentamos no mundo acontece por meio de nossos relacionamentos com outras pessoas. Somos, portanto, convidados a refletir sobre nossas ações e pensamentos, não apenas pelo que nos proporcionarão, mas pelo impacto que terão sobre os outros com quem nos relacionamos (…). Não devemos ter atenção apenas em relação às nossas ações, mas também à nossa forma de existir no mundo. O modo como vivemos, falamos e caminhamos diz tanto sobre o nosso caráter, como sobre as nossas ações. Portanto, não é simplesmente uma maneira de se comportar: é, de fato, uma maneira de ser!” A isso damos o nome de fraternidade.

Na contemporaneidade brasileira, de imensos desafios, vale a pena resgatar conceitos tão simples e sublinhar o papel fundante para a cidadania, que a família deve desempenhar.

 

Saiba mais:

*Ubuntu todos os dias. Eu sou porque nós somos. Mungi Ngomane. Rio de Janeiro: BestSeller, 2022.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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