luto – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Mon, 22 Aug 2022 18:37:24 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png luto – SPSP https://spsp.org.br 32 32 “Vendem-se sapatos de bebês, nunca usados” https://spsp.org.br/vendem-se-sapatos-de-bebes-nunca-usados/ Mon, 22 Aug 2022 13:50:17 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=33965 O título deste texto é uma tradução livre daquele que é considerado o conto mais curto que já foi escrito, atribuído a Ernest Hemingway. Tem apenas seis palavras na língua original: “For sale]]>

O título deste texto é uma tradução livre daquele que é considerado o conto mais curto que já foi escrito, atribuído a Ernest Hemingway. Tem apenas seis palavras na língua original: “For sale: baby shoes, never worn”.

Há múltiplos entendimentos ou interpretações sobre o que este conto sugere. Pessoalmente, remeteu-me a esta imagem, bastante dramática: “sapatinhos de um enxoval de RN que nunca foi utilizado porque a criança não sobreviveu”. Cena de um luto prematuro. Cena de uma tragédia familiar.

Os sapatinhos foram o mote para escrever sobre este tema: a taxa de mortalidade infantil no Brasil. Tal qual a dramaticidade do conto é a tragédia de mortes prematuras que poderiam ser evitadas: “duas a cada três mortes de crianças com menos de 1 ano de idade no Brasil poderiam ter sido evitadas com medidas básicas de atenção à saúde” (Fiocruz, publicado em 11/05/2022).

Essas medidas incluem pré-natal adequado, incentivo à amamentação, incentivo à vacinação. Estamos regredindo, uma vez que em 2015 o Brasil alcançou e comemorou um dos objetivos do milênio, que era o de reduzir pela metade as mortes infantis.

A taxa de mortalidade infantil no Brasil, medida pelo número de mortes antes de completar um ano de idade, chegou a ficar em 12,4. A tabela abaixo revela o aumento desses números.

Taxa de Mortalidade Infantil no Brasil. Fonte: Boletim Epidemiológico. Secretaria de Vigilância em Saúde. MS. Volume 52/0utubro 2021.

Ano   1990 2015 2016 2017/2019
Taxa   47,1 13,3 14,0 13,3

 

A doença do “sarampo” é emblemática para expressar a deterioração de conquistas anteriores no campo da saúde pública. A região das Américas, após ter sido declarada, em 2016, a primeira região livre do sarampo, voltou em 2017 a conviver com essa doença. A Venezuela enfrenta desde julho de 2017 um surto de sarampo, sendo a maioria dos casos provenientes do Estado de Bolívar. A situação sociopolítica e econômica enfrentada pelo país ocasionou um intenso movimento migratório, que contribuiu para a propagação do vírus para outras áreas geográficas.

Brasil, desde fevereiro de 2018, também enfrenta um surto de sarampo (genótipo D8, circulante na Venezuela desde 2017). No ano de 2019, o Brasil perdeu a certificação de “país livre do vírus do sarampo”, dando início a novos surtos, com a confirmação de 20.901 casos da doença. Em 2020 foram confirmados 8.448 casos e, em 2021, até a Semana Epidemiológica (SE) 52, foram confirmados dois óbitos por sarampo no Estado do Amapá, ambos em crianças menores de um ano – uma delas com 7 meses de idade, não vacinada (com orientação da Dose Zero em Estados com surto) e sem comorbidades e a outra com quatro meses de idade (não indicada vacinação, por ser menor de seis meses), nascida de parto prematuro, gemelar, baixo peso, com síndrome de Down e pertencente à terra indígena Waiãpi.

 

Saiba mais:

 

  1. Nikola Budanovic, “For sale, baby shoes, never worn”: Tracing the history of the shortest story ever told. Sep 24, 2017. Disponível em: https://www.thevintagenews.com/2017/09/24/for-sale-baby-shoes-never-worn-tracing-the-history-of-the-shortest-story-ever-told/?chrome=1
  1. “Duas a cada três mortes de crianças com menos de 1 ano de idade no Brasil poderiam ter sido evitadas com medidas básicas de atenção à saúde” (Fiocruz. Publicado 11/05/2022 pela RedeBrasilAtual). Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2022/05/brasil.
  2. Taxa de Mortalidade Infantil no Brasil. Fonte: Boletim Epidemiológico. Secretaria de Vigilância em Saúde. MS. Volume 52/0utubro 2021.
  3. Boletim Epidemiológico 03. Secretaria de Vigilância em Saúde. Volume 53/Jan.2022.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

Foto: @wirestock/br.freepik.com

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Depressão, é possível prevenir? https://spsp.org.br/depressao-e-possivel-prevenir/ Thu, 28 May 2020 22:04:05 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3264 Crianças e adolescentes também podem e necessitam vivenciar o luto, sendo essencial o acolhimento dos sentimentos decorrentes. Falar sobre prevenção da depressão se configura uma tarefa desafiadora. A depressão nos impõe uma série de diferenciações e, além de não existir um único tipo, sua origem não é unívoca, passando por fatores de vulnerabilidade neurobiológica, situações familiares e existenciais. Manifesta-se de formas distintas, havendo a presença ou não de tristeza.A tristeza é um afeto como outro qualquer. Ela é fundamental em muitos casos quando ocorre uma perda para aquele que sofre. O luto nada mais é do que o processo que possibilita ao sujeito dar conta da perda, exige um tempo e, ao seu término, o permite investir na retomada de sua vida. A tristeza surge, pois a aceitação do desaparecimento de algo ou alguém importante não é feita sem dor.Não é privilégio dos adultos passarem por processos desse tipo, crianças e adolescentes também podem e necessitam vivenciar o luto, sendo essencial o acolhimento dos sentimentos decorrentes, tais como o fazemos com os de alegria ou qualquer outro. Aliás, a adolescência é por si só repleta de experiências desse tipo.Há risco em não legitimar e evitar a todo custo o encontro da criança e do adolescente com frustrações, faltas e perdas, que são inerentes ao caminhar da vida.Na verdade, entrar em contato com a tristeza pode ser um bom sinal de saúde mental e poderá refletir numa capacidade de não se deprimir frente à certas experiências penosas.A depressão poderá advir quando esse processamento das perdas, das dores e dos impactos fica dificultado ou impedido, ou seja, na impossibilidade de fazer o luto. Ela é uma condição emocional prolongada, com manifestações distintas e que afeta o sujeito de maneira contundente, podendo atingir alguns aspectos da personalidade.Já no início da vida, o bebê terá que lidar com o processamento de perdas e separações. Ele vai precisar se ligar à sua mãe para posteriormente se diferenciar, se separar dela ou de quem faz tal função. O primeiro luto ocorre aí e a partir da combinação entre “presenças”, traduzidas no cuidado afinado às suas necessidades, e depois “ausências” é que poderá se formar uma representação interna da mãe, como se sua mãe em suas funções continentes, cuidadoras e alertadoras pudesse estar de certa forma dentro dele. Essa capacidade se torna importante para que o bebê possa paulatinamente ser amparado de dentro para fora, tendo condições de aceitar gradativamente que sua mãe é uma outra pessoa, fazendo com que possa investir ele mesmo em outros interesses, impactando positivamente em sua capacidade de lidar com a vida de maneira geral, mas principalmente na elaboração dos lutos recorrentes que a vida o desafiará. Seria possível então a prevenção? Parte da prevenção possível seria poder cuidar da quantidade e da qualidade de oferta de apoio emocional e social para os pais na vinda de um filho. Sabemos que uma rede de suporte nessa época mostra-se fundamental, porque, amparados, podem estar mais livres nessa função e cuidar de melhor forma do desafio que implica um filho que nasce. No entanto, talvez isso tudo não possa garantir a prevenção, uma vez que a depressão é multifacetada, mas certamente lançará um olhar mais cuidadoso para a importância dos primeiros tempos de vida de um bebê e de sua família, reverberando positivamente na construção do processo de subjetivação da criança, que tem ligação direta com a forma como lidará ao longo da vida com os desafios que as perdas cotidianas impõem a todos. ___RelatoraDra. Cristiane da Silva Geraldo FolinoNúcleo de Estudos sobre Depressão em Crianças e Adolescentes – SPSP]]>

Crianças e adolescentes também podem e necessitam vivenciar o luto, sendo essencial o acolhimento dos sentimentos decorrentes.

Falar sobre prevenção da depressão se configura uma tarefa desafiadora. A depressão nos impõe uma série de diferenciações e, além de não existir um único tipo, sua origem não é unívoca, passando por fatores de vulnerabilidade neurobiológica, situações familiares e existenciais. Manifesta-se de formas distintas, havendo a presença ou não de tristeza.
A tristeza é um afeto como outro qualquer. Ela é fundamental em muitos casos quando ocorre uma perda para aquele que sofre.

sonsedskaya | depositphotos.com


O luto nada mais é do que o processo que possibilita ao sujeito dar conta da perda, exige um tempo e, ao seu término, o permite investir na retomada de sua vida. A tristeza surge, pois a aceitação do desaparecimento de algo ou alguém importante não é feita sem dor.
Não é privilégio dos adultos passarem por processos desse tipo, crianças e adolescentes também podem e necessitam vivenciar o luto, sendo essencial o acolhimento dos sentimentos decorrentes, tais como o fazemos com os de alegria ou qualquer outro. Aliás, a adolescência é por si só repleta de experiências desse tipo.
Há risco em não legitimar e evitar a todo custo o encontro da criança e do adolescente com frustrações, faltas e perdas, que são inerentes ao caminhar da vida.
Na verdade, entrar em contato com a tristeza pode ser um bom sinal de saúde mental e poderá refletir numa capacidade de não se deprimir frente à certas experiências penosas.
A depressão poderá advir quando esse processamento das perdas, das dores e dos impactos fica dificultado ou impedido, ou seja, na impossibilidade de fazer o luto. Ela é uma condição emocional prolongada, com manifestações distintas e que afeta o sujeito de maneira contundente, podendo atingir alguns aspectos da personalidade.
Já no início da vida, o bebê terá que lidar com o processamento de perdas e separações. Ele vai precisar se ligar à sua mãe para posteriormente se diferenciar, se separar dela ou de quem faz tal função. O primeiro luto ocorre aí e a partir da combinação entre “presenças”, traduzidas no cuidado afinado às suas necessidades, e depois “ausências” é que poderá se formar uma representação interna da mãe, como se sua mãe em suas funções continentes, cuidadoras e alertadoras pudesse estar de certa forma dentro dele. Essa capacidade se torna importante para que o bebê possa paulatinamente ser amparado de dentro para fora, tendo condições de aceitar
gradativamente que sua mãe é uma outra pessoa, fazendo com que possa investir ele mesmo em outros interesses, impactando positivamente em sua capacidade de lidar com a vida de maneira geral, mas principalmente na elaboração dos lutos recorrentes que a vida o desafiará.

Seria possível então a prevenção?

Parte da prevenção possível seria poder cuidar da quantidade e da qualidade de oferta de apoio emocional e social para os pais na vinda de um filho. Sabemos que uma rede de suporte nessa época mostra-se fundamental, porque, amparados, podem estar mais livres nessa função e cuidar de melhor forma do desafio que implica um filho que nasce. No entanto, talvez isso tudo não possa garantir a prevenção, uma vez que a depressão é multifacetada, mas certamente lançará um olhar mais cuidadoso para a importância dos primeiros tempos de vida de um bebê e de sua família, reverberando positivamente na construção do processo de subjetivação da criança, que tem ligação direta com a forma como lidará ao longo da vida com os desafios que as perdas cotidianas impõem a todos.

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Relatora
Dra. Cristiane da Silva Geraldo Folino
Núcleo de Estudos sobre Depressão em Crianças e Adolescentes – SPSP



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