Homem – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Wed, 05 Feb 2025 19:22:11 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Homem – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Três desejos https://spsp.org.br/tres-desejos/ Mon, 03 Feb 2025 19:17:58 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50104 ]]>

“Ah, seu eu tivesse o …”. Nesses três pontinhos – as famosas reticências, se encaixam uma profusão de anelos (desejos intensos) humanos. São tantos e tão diferentes, que o conto de fadas faz uma condição: são apenas três desejos que serão atendidos. O conto original escocês “Três Desejos” talvez seja uma das mais conhecidas histórias sobre desejos.

Se lhe fosse concedido o direito de satisfazer três desejos, quais seriam eles?

Pense bem e não desperdice essa oportunidade rara.

Nesse conto,” um homem recebe esse favor”, só que ele faz pouco caso dele. De volta ao lar, a esposa lhe serve a sopa de todo dia no jantar. “Sopa de novo! Queria um pudim”, diz ele, e prontamente o pudim aparece. A mulher exige saber como isso aconteceu, ele narra sua aventura. Furiosa por ele ter desperdiçado um dos desejos com tal ninharia, ela exclama: “Queria que o pudim estivesse sobre sua cabeça!”, um desejo que é imediatamente satisfeito. “Lá se vão dois desejos! Queria que o pudim não estivesse sobre a minha cabeça”, diz o homem. E lá se foram os três desejos”.

Está implícito, neste conto, que desejar é uma atitude que necessita ser encarada com responsabilidade: afinal, o desejo pode vir a ser realizado. Seja por vias naturais, de esforço pessoal, por dádiva de alguém ou por um poder sobrenatural, como nos contos de fadas.

A vontade de transformar a realidade de maneira súbita, sem esforço, por meio de uma estratégia sobrenatural, está no imaginário das pessoas, movendo-as a apostar na loteria ou participar de programas como o “Big Brother”. O problema é que a felicidade pode não estar na realização de tais desejos. Podemos pedir mal.

Afinal o que é essa tal “felicidade”?

Os contos de fadas podem transmitir algumas lições valiosas para as crianças e para todos nós:

  1. Cuidado com o que deseja. Este conto, em particular, destaca a importância de ser cuidadoso ao pedir algo. As consequências podem ser negativas, devido à forma como o desejo foi expressado.
  2. Gratidão e contentamento. O conto pode ensinar às crianças serem gratas pelo que têm, em vez de sempre desejar mais. Mostra como a ganância e o desejo constante por mais podem levar a problemas.
  1. Responsabilidade. Ao ver os resultados dos desejos dos personagens, as crianças podem aprender sobre responsabilidade e pensar nas possíveis ramificações de suas próprias ações antes de agir.
  2. Valorização das relações. Em alguns contos de fadas os personagens podem desejar riquezas ou poder, mas, eventualmente, percebem que o verdadeiro tesouro está nas relações e nas coisas simples da vida. Isso pode ensinar às crianças a importância da amizade, família e amor.
  3. Autoconhecimento. Às vezes, os personagens descobrem que o que realmente desejam está dentro de si mesmos, como coragem, bondade ou sabedoria. Isso pode inspirar as crianças a buscar autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
  4. Consequências das ações. Os contos de fadas muitas vezes mostram repercussões e impactos tanto para nós mesmos quanto para os outros ao nosso redor.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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O caminho da escravidão à liberdade https://spsp.org.br/o-caminho-da-escravidao-a-liberdade/ Wed, 20 Nov 2024 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48991 A escravidão de africanos começou a ganhar força em meados do século XV, com o início do tráfico transatlântico de escravizados, um sistema brutal que perdurou por cerca de 400 anos]]>

A escravidão de africanos começou a ganhar força em meados do século XV, com o início do tráfico transatlântico de escravizados, um sistema brutal que perdurou por cerca de 400 anos. A escravidão no Brasil começou oficialmente no início do período colonial, por volta de 1530, com a chegada dos primeiros colonizadores portugueses. Estima-se que aproximadamente 4,8 milhões de africanos foram trazidos ao Brasil ao longo dos mais de 300 anos de escravidão, o que fez do Brasil o país que mais recebeu pessoas escravizadas no mundo.

Os homens negros africanos viraram escravos, pela força do colonizador, em diversos países. Não nasceram escravos. Nesse ato, revela-se uma das principais mazelas da escravidão: destituir o homem negro e a mulher negra da sua humanidade.

Frederik Douglass, nascido em Maryland em 1817, filho de mãe escrava e pai desconhecido, tornou-se um grande orador e uma voz contundente contra a escravidão na América do Norte. Com uma frase lapidar, Douglass denunciou essa mazela: “Vocês já viram como um homem virou escravo. Agora vocês verão como um escravo virou homem”.1 

O sacerdote Desmond Tutu, na África do Sul, uma forte liderança contra a segregação racial, juntamente a Nelson Mandela, disse em 1960: “É uma regra terrível, inexorável, que uma pessoa não pode negar a humanidade de uma outra sem diminuir a própria.”

Zumbi dos Palmares é uma figura central na história da resistência negra no Brasil. Ele foi o líder do Quilombo dos Palmares, o maior e mais duradouro quilombo do período colonial, localizado na região onde hoje é o Estado de Alagoas. Zumbi nasceu livre em 1655 em Palmares, mas foi capturado e entregue a um padre, por quem foi batizado e educado. Aos 15 anos, no entanto, fugiu e retornou ao quilombo, onde se tornou um guerreiro e, mais tarde, o líder da resistência contra as forças coloniais. Zumbi é celebrado por sua coragem e liderança, pois lutou até sua morte em 20 de novembro de 1695, para defender a liberdade de Palmares e a autonomia dos quilombos.

No Brasil, os movimentos abolicionistas ganharam força especialmente a partir do século XIX, quando ativistas, intelectuais, ex-escravizados e outros setores da sociedade começaram a lutar pela abolição. Esse processo ocorreu de forma gradual. Seguindo o exemplo da Inglaterra, que em 1807 estabeleceu a Lei Britânica de Abolição do Comércio de Escravos, o Brasil promulgou a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibia o tráfico de escravizados da África para o Brasil, embora ele tenha continuado de forma ilegal. Nos 38 anos seguintes, aprovaram-se outras leis: Lei do Ventre Livre (1871), que determinou que os filhos de mulheres escravizadas, nascidos a partir daquela data, seriam livres; Lei dos Sexagenários (1885), que libertou pessoas escravizadas com mais de 60 anos de idade.  Esse movimento abolicionista culmina na promulgação da Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil. O país foi o último das Américas a abolir o sistema escravocrata.

No Dia da Consciência Negra, que homenageia a vida de Zumbi dos Palmares, na data de sua morte, o país recorda sua história e dignifica todos aqueles que resistiram e contribuíram para a extinção da escravidão no Brasil. Um primeiro passo, no caminho da liberdade, foi dado. Cabe-nos continuar caminhando por essa estrada, lembrando que:

“A diversidade sem a ideia de humanidade universal isolaria todos nós, deixaria-nos com poucas possibilidades de contato. Uma aprimora a outra. E quando essas premissas somem em uma sociedade opressiva, normalmente somem juntas. Regimes que desrespeitam as diferenças humanas também tendem a ser incapazes de reconhecer os ‘espelhos’ universais nas vidas humanas, através dos quais enxergamos nós mesmos e os outros.”2

 

Saiba mais:

  1. Frederik Douglass,1817-1895.
  2. Sarah Bakewell, in: Humanamente Possível. Sete séculos de pensamento humanista. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, p. 187.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Dia Internacional do Homem https://spsp.org.br/dia-internacional-do-homem/ Sun, 19 Nov 2023 18:08:26 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=40784 “O que é ser homem hoje?” “A vida nos interroga” – esta frase, utilizada reiteradamente por Victor Frankl, criador da Logoterapia, é sempre instigante, pois nos convida à reflexão. A vida pergunta]]>

 “O que é ser homem hoje?”

“A vida nos interroga” – esta frase, utilizada reiteradamente por Victor Frankl, criador da Logoterapia, é sempre instigante, pois nos convida à reflexão. A vida pergunta. Temos que responder individualmente – como pessoa e coletivamente – como espécie humana.

A cultura é, ao mesmo tempo, a lente com a qual interpretamos e compreendemos este assunto, quanto ao viés determinante das diversas opiniões sobre o tema. Dentre as inúmeras perguntas que a vida nos faz, está esta: “Que é ser homem hoje?” A palavra homem aqui, se refere a gênero e não à espécie humana.

A resposta não é simples e nem óbvia.

Para analisar esta pergunta, duas aves podem nos ajudar: o Guará – brasileira, encontrada principalmente nos manguezais da costa setentrional da América do Sul e o Flamingo – encontrado em várias partes do mundo.

Ambos biologicamente nasceram com características próprias que identificam cada espécie e, no entanto, a grande marca identificadora, que sobressai para os olhares externos, é a sua cor, que não é característica biológica, mas sim sua “marca registrada”. Esse fenótipo é fruto do ecossistema em que habitam, da disponibilidade da comida rica em caroteno, dada pela oferta generosa de crustáceos nos mangues – para os guarás, e de algas e crustáceos, nos alagados, lagoas, manguezais, estuários e algumas regiões beira-mar – para os flamingos. A grande quantidade presente desse pigmento (caroteno) na dieta é a responsável pela cor avermelhada dessas aves.

No caso dos humanos, a biologia não explica uma série muito grande de peculiaridades da nossa espécie, nem do nosso comportamento. A cultura – fruto da linguagem – gera símbolos que auxiliam a conhecer e interpretar o mundo, a vida. Esse fato explica por que a resposta àquela pergunta acima é complexa. É através da lente da cultura que essa resposta poderá ser dada.

Fica implícita na pergunta “O que é ser homem hoje?”, a possibilidade de entender que o homem de ontem é diferente do homem de hoje e, por inferência, este também será diverso do homem de amanhã. Esta pergunta se refere à questão comportamental do homem e não ao seu aspecto biológico evolutivo. Em outras palavras: quais são os papéis do homem na sociedade de hoje? Aqui entra o universo da cultura.

A construção da masculinidade é complexa e multifacetada, sendo moldada por normas culturais, crenças, valores e expectativas em uma determinada sociedade e num determinado tempo. O que é considerado “masculino” em uma cultura pode ser diferente do que é valorizado em outra.

Ser homem na ‘cultura antiga’ consistia em ser o provedor econômico da família; ser o protetor da família – se necessário, “dar porrada”; ser o macho reprodutor e pegador; tomar a iniciativa nas relações sexuais; ser conquistador; fazer os trabalhos braçais; ser o tomador de decisões; impor regras e colocar limites para o outro e para si mesmo; enfrentar, racionalmente, situações e tentar não se desesperar; conquistar respeito e admiração (poder); ter corpo robusto e falar com voz grossa; ser valente e corajoso; ser livre, astuto e dono de si.

Através desse estereótipo, culturalmente construído, foi gestado um fruto indesejado, que colhemos à larga, nos dias de hoje – o feminicídio, o abuso e assédio sexual, a homofobia, a pedofilia, a segregação de gênero, entre outras mazelas.

“O Homem com H”, da música de Antônio Barros, de 1981, magistralmente interpretada por Ney Matogrosso à época da banda “Secos & Molhados”, retrata muito bem esse estereótipo da cultura dita “machista”:

“Nunca vi rastro de cobra / Nem couro de lobisomem / Se correr o bicho pega / Se ficar o bicho come / Porque eu sou é home / Porque eu sou é home / Menino eu sou é home / Menino eu sou é home / E como sou!

Quando eu estava pra nascer / De vez em quando eu ouvia / Eu ouvia a mãe dizer / Ai meu Deus como eu queria / Que esse cabra fosse home /
Cabra macho pra danar / Ah! Mamãe aqui estou eu / Mamãe aqui estou eu / Sou homem com H / E como sou!

Eu sou homem com H / E com H sou muito home / Se você quer duvidar
Olhe bem pelo meu nome / Já tô quase namorando / Namorando pra casar

Ah! Maria diz que eu sou / Maria diz que eu sou / Sou homem com H
E como sou!

Cobra! Home! / Pega! Come!”

O homem, antes de mais nada, é “ser humano” e, como tal, possui fragilidades, pontos fortes e fracos. Nos dias atuais é “coisa de homem”: entrar em contato com as emoções e buscar um encontro genuíno com o outro, que pode ser o filho, o amigo, a mulher; permitir-se deliberar não ‘paquerar ou ficar’ por obrigação, não pagar todas as contas e, mesmo assim, continuar se sentindo um homem forte e não um ‘frouxo’; ser sensível aos sentimentos dos outros, perceber as sutilezas das relações humanas, ser empático; participar na criação dos filhos e nas tarefas domésticas; respeitar e promover a igualdade de gênero.

Finalizo com a música “Man in the Mirror“, de Michael Jackson, que fala da importância de refletir sobre si mesmo e fazer mudanças pessoais para tornar o mundo um lugar melhor:

“I’m starting with the man in the mirror / I’m asking him to change his ways / And no message could’ve been any clearer / If they wanna make the world a better place / Take a look at yourself and then make a change.”

“Estou começando com o homem no espelho / Estou pedindo a ele que mude de atitude / E nenhuma mensagem poderia ter sido mais clara / Se eles querem fazer do mundo um lugar melhor / Dê uma olhada em si mesmo e faça uma mudança.” (tradução livre)

Este é um chamamento para que busquemos uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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