Estresse – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 27 Feb 2026 19:35:19 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Estresse – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Discriminação: muitos ainda ficam de fora https://spsp.org.br/discriminacao-muitos-ainda-ficam-de-fora/ Sun, 01 Mar 2026 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55233 Segundo o dicionário, a palavra “discriminar” significa perceber diferenças ou distinguir. Podemos encontrar também outra definição, que diz que “discriminar é colocar à]]>

Segundo o dicionário, a palavra “discriminar” significa perceber diferenças ou distinguir. Podemos encontrar também outra definição, que diz que “discriminar é colocar à parte por algum critério”. Infelizmente, quando pensamos em diversos aspectos da sociedade, ainda é amplamente presente a segunda definição, que exclui e priva crianças e adultos de direitos básicos.

O Dia Mundial de Zero Discriminação é celebrado no dia 1º de março em todo o mundo, a fim de promover igualdade, inclusão e respeito aos direitos de todos, sem distinção de raça, gênero, idade ou características físicas e cognitivas. Quando a discriminação atinge a infância, colocamos em risco o futuro de toda uma geração, pois comprometemos o direito a aprender, a brincar, à saúde e, consequentemente, ao desenvolvimento em pleno potencial.

Estudos demonstram que a discriminação está associada a desfechos negativos na saúde infantil. Experiências de racismo, por exemplo,  levam a maior risco de depressão, ansiedade, baixa autoestima, além de problemas comportamentais e pior estado geral de saúde em crianças e adolescentes.

Outras evidências recentes também relacionam a discriminação a alterações em biomarcadores inflamatórios, maior índice de massa corporal (IMC), obesidade, aumento da pressão arterial e maiores níveis de cortisol, indicando ativação de vias biológicas relacionadas ao estresse.

Sabemos também que o momento e a duração da exposição à discriminação durante a infância e a adolescência são fatores que contribuem em níveis distintos para mudança da arquitetura cerebral. O chamado estresse tóxico, causado pela discriminação sistemática e contínua, está associado a maior tendência a comportamentos de risco e abuso de substâncias. Estudos demonstram efeitos negativos sobre a saúde mental, uma vez que a discriminação aumenta o risco de ansiedade e depressão, que, por sua vez, estão associadas a pior saúde global.

Quanto maior a vulnerabilidade da criança ou do adolescente, as diferentes camadas de discriminação se sobrepõem, aumentando o risco de exclusão e impacto negativo em saúde.

Um estudo publicado na revista Pediatrics em 2025 mostrou que em adultos, a discriminação em saúde leva a perda de confiança, evitação de cuidados e mudança no comportamento de busca por assistência. Dados pediátricos eram escassos, até que em 2025 uma grande análise, usando um banco de dados com mais de 14 milhões de crianças, observou que 1 em cada 10 crianças com necessidades específicas sofre discriminação na saúde. Esse cenário está associado a uma chance duas vezes maior de abandono de cuidados e 45% maior de ida ao pronto-socorro por agravamento de questões que não foram direcionadas. Daqueles que sofrem discriminação constante nos serviços de saúde, 87% referiram impacto funcional significativo nas atividades diárias. Uma em cada cinco crianças com deficiência tem seu cuidado negado ou abandona o seguimento em saúde por mais de 12 meses e praticamente metade das crianças discriminadas eram adolescentes. Com frequência, é quem mais precisa do cuidado coletivo que fica à margem.

São inúmeras as evidências de que quanto maior o investimento na infância, buscando equiparar desigualdades e garantir direitos em saúde, educação e na construção de ambientes livres de violência, menores serão os gastos necessários para frear as consequências dos impactos negativos que a falta desses recursos traz.

Não são apenas as barreiras estruturais, como as dificuldades de acesso físico, as restrições de atendimento ou tratamento e a falta de profissionais preparados, que discriminam determinadas populações. A repercussão do ciclo negativo de cuidado acaba por trazer evitação ativa de cuidados, por parte das crianças e famílias envolvidas, que perdem a confiança no sistema, têm medo de novas experiências ruins que os exponham novamente à discriminação.

No Dia Mundial de Zero Discriminação, que possamos entender que um mundo em que não cabe um, não caberá nenhum de nós eventualmente.

 

Saiba mais:

  1. Ames et al. Disability-based discrimination and forgone health care in children with special health care needs. Pediatrics 2025;156(1).
  2. Trent et al. The impact of racism on child and adolescent health. Pediatrics 2019;144(2):e20191765.
  3. Priest et al. Racism and health and wellbeing among children and youth – An updated systematic review and meta-analysis.
    Soc Sci Med 2024 Nov:361:117324.

 

Relatora:
Anna Dominguez Bohn
Presidente do Núcleo de Estudos Sobre a Criança e o Adolescente com Deficiência da SPSP

 

 

 

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Combate ao sedentarismo: um alerta para a saúde de crianças e adolescentes https://spsp.org.br/combate-ao-sedentarismo-um-alerta-para-a-saude-de-criancas-e-adolescentes/ Mon, 10 Mar 2025 18:03:51 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50492 No dia 10 de março, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate ao Sedentarismo, um momento importante para refletirmos ]]>

No dia 10 de março, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate ao Sedentarismo, um momento importante para refletirmos sobre o impacto da falta de movimento na vida das crianças e adolescentes. Com o avanço da tecnologia e a rotina cada vez mais conectada, a infância ativa está sendo substituída por longos períodos diante das telas. Brincadeiras ao ar livre, que antes faziam parte do dia a dia, estão dando lugar a horas seguidas no celular, no videogame ou no computador. Mas o que parece inofensivo pode ter consequências sérias para a saúde.

O sedentarismo não se resume apenas à falta de exercício: ele é um dos principais fatores de risco para doenças crônicas, como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e problemas cardiovasculares. Além disso, a ausência de atividade física compromete a saúde mental, contribuindo para quadros de ansiedade, estresse e depressão. O impacto também é notado na escola, já que crianças que se movimentam pouco podem apresentar dificuldades de concentração, pior rendimento acadêmico e maior propensão à fadiga.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças e adolescentes pratiquem pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a intensa. No entanto, estudos apontam que grande parte deles não atinge essa meta. O aumento do tempo de tela, a falta de espaços seguros para brincar e até a rotina acelerada das famílias são alguns dos fatores que levam ao sedentarismo infantil. O problema é sério, mas há uma boa notícia: reverter esse quadro é mais fácil do que parece!

Estimular o movimento desde cedo traz benefícios para a vida toda. Crianças ativas fortalecem músculos e ossos, desenvolvem melhor a coordenação motora e crescem com hábitos mais saudáveis. Além disso, o exercício físico libera hormônios do bem-estar, como a endorfina e a serotonina, ajudando a combater o estresse e promovendo mais alegria e disposição. Outro ponto essencial é a socialização: esportes coletivos e brincadeiras ao ar livre ensinam valores como disciplina, cooperação e respeito, fundamentais para a formação emocional dos pequenos.

Mas como incentivar as crianças e adolescentes a se movimentarem mais? Pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença. Atividades simples, como pular corda, brincar de pega-pega, andar de bicicleta e brincar de esconde-esconde são formas eficazes e naturais de combater o sedentarismo. Praticar esportes também é uma excelente alternativa, e há opções para todos os gostos, desde futebol, basquete e vôlei até natação e artes marciais. O importante é encontrar algo que a criança goste, para que o movimento se torne um hábito prazeroso e não uma obrigação.

O exemplo dos pais e responsáveis é fundamental. Crianças que veem seus familiares se exercitando têm maior tendência a seguir o mesmo caminho. Se a família caminha junta, passeia de bicicleta ou aproveita parques e praças nos momentos de lazer, as chances de a criança crescer ativa aumentam consideravelmente. Além disso, é essencial estabelecer limites para o tempo de tela. Definir horários para o uso de dispositivos eletrônicos e incentivar atividades físicas no tempo livre são atitudes que ajudam a equilibrar a rotina.

O Dia Nacional de Combate ao Sedentarismo é um convite para refletirmos sobre os hábitos das novas gerações. Crianças precisam correr, brincar, gastar energia e explorar o mundo além das telas. Estimular a prática de atividades físicas não é apenas um conselho médico, mas uma necessidade real para garantir um futuro mais saudável e equilibrado. Pequenos gestos podem transformar a qualidade de vida dos jovens e prepará-los para a vida adulta com mais disposição e bem-estar. Afinal, o movimento não é só importante para o corpo – ele também faz bem para a mente e para o coração.

 

Relator:
Núcleo de Estudos da Prática de Atividade Física e Esportes na Infância e Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo 

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Quarentena: fazendo do limão uma limonada https://spsp.org.br/quarentena-fazendo-do-limao-uma-limonada/ Wed, 29 Apr 2020 21:26:49 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3170 O novo coronavírus chegou ao Brasil e vem mostrando toda a sua agressividade. Embora os idosos sejam o maior grupo afetado, o vírus mostrou que não respeita idade e espalha-se com enorme rapidez. É invisível aos nossos olhos, um inimigo inodoro, incolor e impalpável, porém suas consequências são bastante evidentes e desastrosas.

Um conjunto de complicações orgânicas pode ocorrer no corpo humano, podendo ser muito grave quando atinge os pulmões, causando pneumonia, devido ao grande processo de inflamação que se instala no local e muita falta de ar. Nesses casos, é necessário o uso dos respiradores artificiais – as máquinas mais preciosas do momento – para a manutenção da vida. E haja estrutura emocional para dar conta do medo, das angústias e do risco de morte daquelas pessoas que estão passando por esses momentos.

No setor de saúde, providências vêm sendo adotadas na ampliação de espaços de atendimento, recursos humanos, aparelhagem eletrônica, equipamentos de proteção individual (EPIs), medicamentos e outros recursos no tratamento dos pacientes.

Como atitude de prevenção à disseminação do vírus, foi determinada a quarentena, enfatizando que as pessoas ficassem em suas casas, permanecendo em atividade somente os serviços essenciais. Por força dessa crise, a família voltou a reunir-se e conviver diariamente por várias horas, o que, possivelmente, será por prazo longo. Numa apreciação inicial, dentro do contexto social, um ganho valioso para o desenvolvimento das crianças, já que pais e filhos voltaram a ter contato próximo e frequente.

monkeybusiness | depositphotos.com

Novo padrão de convivência familiar

Trata-se de um novo padrão de convivência familiar estabelecido de modo rápido, sem ter havido qualquer planejamento prévio. Como, então, dar conta das atividades de cuidados da casa diariamente, prover alimentos e prepará-los, administrar o orçamento (entradas e saídas) e cuidar também dos filhos? Como lidar com a ansiedade e insegurança geradas pela Covid-19 não só na própria casa, mas também nos avós e outros parentes em condição de risco? E ainda, como lidar com as crianças vivendo continuamente no mesmo ambiente, dia após dia, distantes de outros parentes e amigos?

É natural que o nível de ansiedade aumente devido a essa situação inusitada. O desejado é que esse convívio pouco a pouco se harmonize, com opções diversas de interesses individuais e/ou mútuos.

No entanto, o que estamos tomando consciência é que esse estado de isolamento não tem duração prevista e vem sendo ampliado sucessivamente de acordo com a evolução da doença. O grupo familiar continuará em quarentena e demandará condições emocionais e de criatividade para suportá-la.

Como lidar com o estresse que se acentua, inicialmente pela necessidade de estar nesta nova situação de isolamento que se alonga, para depois ser um estresse chamado tóxico (ansiedade excessiva e continuada), no qual poderão se agregar alterações no aprendizado, no comportamento e também igualmente orgânicas, trazendo prejuízos tanto para as crianças como para os adultos?

A produção de hormônios do estresse – como a adrenalina e o cortisol – mostra-se exagerada, levando ao aumento dos batimentos cardíacos, hipertensão arterial, que quando prolongada, é capaz de alterar a estrutura e funções cerebrais, gerando prejuízos no processo de desenvolvimento, mais especificamente das crianças. Mesmo não tendo Covid-19, o prejuízo funcional poderá ser considerável.

Organize uma nova rotina

Se não houve planejamento para organizar as novas atividades diárias da família, não seria hora de estabelecê-lo e tirar proveito da situação? Com a mudança recente das rotinas, decorrente do isolamento social, o novo dia a dia necessitará ser repensado: tomando o modelo empresarial, é uma questão de ajustes da gestão familiar.

Como sugestão, fazer uma programação diária e estabelecer por escrito as atividades desde o período da manhã até o final do dia, definindo e limitando programas dos pais com os filhos, outros em que os filhos farão independentemente e pai e mãe poderão ocupar-se com interesses próprios ou trabalhos profissionais online, havendo um respeito mútuo às prévias combinações da programação. As variações seriam introduzidas de acordo com os gostos e aptidões de cada família.  Assim, ao mesmo tempo, ficarão todos interessados, ocupados e usufruindo de momentos para divertir-se e tranquilizar-se. Dessa forma, inclusive os pais, estarão incentivando e construindo a sua individualidade e autonomia e também a de seus filhos.

É bom lembrar: lidar com a realidade é um atributo do desenvolvimento emocional da criança. Torna-se essencial que reconheçam que a realidade que temos no momento é esta, gostemos ou não, e é com ela que teremos que aprender a lidar com a experiência que nos impõe.

Pode ser estressante, difícil, complexo, mas a situação poderá ser revertida em uma melhoria para toda a família em termos de entrosamento, conhecimento mútuo, como lidar com mudanças, como tolerar frustrações.

Como diz a sabedoria popular, “faça do limão uma limonada”. Dessa forma, pode-se minimizar os contras e potencializar os prós, “tirando proveito de um mau negócio”.

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Relator:
Dr. Saul Cypel
Departamento Científico de Neurologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Grupo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo



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O estresse do excesso de atividades na criança https://spsp.org.br/o-estresse-do-excesso-de-atividades-na-crianca/ Thu, 22 Nov 2018 17:30:28 +0000 http://www.pediatraorienta.org.br/?p=2370 O estresse é uma resposta fisiológica a uma situação adversa. Quando produzido, desencadeia mudanças químicas em nosso corpo que afetam os sistemas imunológico, endócrino e neurológico. Todos nós passamos por momentos de estresse durante a vida. Porém, atualmente, estamos submetendo muito precocemente nossas crianças a uma vida agitada, com uma agenda repleta de atividades extracurriculares, como aulas de idiomas, balé, futebol. Nossas crianças estão sem tempo para se divertir, brincar e descansar. Podemos também acrescentar o uso do tablet para assistir desenhos. Essa busca pela performance pode desencadear o estresse tóxico, que ocorre quando há uma estimulação constante do sistema de respostas ao estresse trazendo prejuízos futuros para essas crianças. Além dessa carga excessiva de atividades, outros fatores como o bullying, discussões tanto na escola como na família, a morte de um ente querido ou a separação dos pais, por exemplo, podem desencadear esse quadro. O Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, cita três tipos diferentes de estresse: positivo, tolerável e tóxico, dependendo da intensidade, da frequência e da duração do efeito que essa reação tem sobre o corpo. No positivo, há pouca elevação dos hormônios e se manifesta por pouco tempo. O tolerável é caracterizado pela reação temporária e que pode ser contornado quando a criança recebe ajuda. Já o estresse tóxico é o mais perigoso, porque tem efeito prolongado no organismo, associado à falta de suporte à criança. A vivência de experiências adversas, sem a presença de uma rede de apoio e proteção, é uma importante fonte de estresse tóxico que tem efeitos muitas vezes irreversíveis. O cérebro é particularmente sensível ao estresse tóxico nos períodos em que há maiores transformações, sobretudo na gestação e durante os primeiros anos de vida. A depressão durante a gravidez leva à produção de grande quantidade de hormônios de estresse, que afeta negativamente o feto, aumentando o risco de parto prematuro, baixo peso de nascimento e alterações do desenvolvimento e do comportamento da criança. Ainda que o maior prejuízo das experiências adversas ocorra na primeira infância (dos 0 aos 6 anos), é também nesse período em que há maior possibilidade de intervenções, mudando o curso para um desenvolvimento saudável. Para a criança, a existência de uma relação afetuosa e responsiva nos primeiros anos de vida com seus pais/cuidadores pode ser um importante fator de proteção. A qualidade das primeiras relações familiares contribui para o desenvolvimento de uma série de competências na infância e na vida adulta, proporciona a autoestima, o autocontrole, a manutenção de relações afetuosas estáveis e prazerosas e até o gosto por aprender. ___ Relatora: Dra. Lygia Mendes dos Santos Border Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da SPSP Publicado em 22/11/2018. Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos. Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.]]>

O estresse é uma resposta fisiológica a uma situação adversa. Quando produzido, desencadeia mudanças químicas em nosso corpo que afetam os sistemas imunológico, endócrino e neurológico. Todos nós passamos por momentos de estresse durante a vida.

Porém, atualmente, estamos submetendo muito precocemente nossas crianças a uma vida agitada, com uma agenda repleta de atividades extracurriculares, como aulas de idiomas, balé, futebol. Nossas crianças estão sem tempo para se divertir, brincar e descansar. Podemos também acrescentar o uso do tablet para assistir desenhos. Essa busca pela performance pode desencadear o estresse tóxico, que ocorre quando há uma estimulação constante do sistema de respostas ao estresse trazendo prejuízos futuros para essas crianças.

Além dessa carga excessiva de atividades, outros fatores como o bullying, discussões tanto na escola como na família, a morte de um ente querido ou a separação dos pais, por exemplo, podem desencadear esse quadro.

O Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, cita três tipos diferentes de estresse: positivo, tolerável e tóxico, dependendo da intensidade, da frequência e da duração do efeito que essa reação tem sobre o corpo. No positivo, há pouca elevação dos hormônios e se manifesta por pouco tempo. O tolerável é caracterizado pela reação temporária e que pode ser contornado quando a criança recebe ajuda. Já o estresse tóxico é o mais perigoso, porque tem efeito prolongado no organismo, associado à falta de suporte à criança.

AdinaVoicu | Pixabay

A vivência de experiências adversas, sem a presença de uma rede de apoio e proteção, é uma importante fonte de estresse tóxico que tem efeitos muitas vezes irreversíveis. O cérebro é particularmente sensível ao estresse tóxico nos períodos em que há maiores transformações, sobretudo na gestação e durante os primeiros anos de vida. A depressão durante a gravidez leva à produção de grande quantidade de hormônios de estresse, que afeta negativamente o feto, aumentando o risco de parto prematuro, baixo peso de nascimento e alterações do desenvolvimento e do comportamento da criança.

Ainda que o maior prejuízo das experiências adversas ocorra na primeira infância (dos 0 aos 6 anos), é também nesse período em que há maior possibilidade de intervenções, mudando o curso para um desenvolvimento saudável. Para a criança, a existência de uma relação afetuosa e responsiva nos primeiros anos de vida com seus pais/cuidadores pode ser um importante fator de proteção. A qualidade das primeiras relações familiares contribui para o desenvolvimento de uma série de competências na infância e na vida adulta, proporciona a autoestima, o autocontrole, a manutenção de relações afetuosas estáveis e prazerosas e até o gosto por aprender.

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Relatora:
Dra. Lygia Mendes dos Santos Border
Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da SPSP

Publicado em 22/11/2018.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

Licença Creative Commons
Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.

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Ansiedade e vida moderna https://spsp.org.br/ansiedade-e-vida-moderna/ Wed, 09 Oct 2013 19:58:38 +0000 http://comunidadespsp.wordpress.com/?p=227 Pagamos um preço alto pelas facilidades advindas com a modernidade. O rápido avanço tecnológico, que permite que sejamos vistos e ouvidos ao mesmo tempo por pessoas localizadas em diferentes lugares, não garante a nós mesmos uma atenção sobre nosso modo de viver, esse cada vez mais pressionado pelo tempo. Muitas vezes nos esquecemos que estamos sendo observados e imitados por nossas crianças e adolescentes. Nas escolas nunca se falou tanto em déficits de atenção, TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), hiperatividade e falta de limites. Pais e educadores fazem coro na dificuldade em atrair as crianças e os jovens para a aprendizagem dos conteúdos escolares. Não é por acaso que a palavra estresse tornou-se lugar-comum na boca do homem moderno, que vive segundo a ordem do discurso social: tudo ao mesmo tempo! A consequência direta desse modus vivendi é uma grande dose de ansiedade, muitas vezes, de difícil administração tanto para os adultos quanto para as crianças e jovens. Não serão os exageros, o consumismo e a pressa da nossa vida cotidiana uma tentativa de resposta – fracassada a priori – para o alto grau de ansiedade que nos imputamos? Como compreender a relação entre o tempo apressado e a ansiedade exagerada? A aceleração das máquinas, da informação e das ideias pediu um homem mais dinâmico e ágil na resolução de problemas visando atingir metas preestabelecidas. No entanto, o tempo que o sujeito precisa para fazer-se um sujeito do desejo, com intenções claras diante do mundo moderno, não coincide com o tempo apressado do discurso social. Esse tempo do sujeito do desejo implica tempo para o faz de conta, para o sonhar, o devanear, o conhecer, mas esse tempo não pode ser marcado pelo relógio. Oferecer oportunidades para as crianças e adolescentes de conhecer o novo a partir de experiências significativas parece ser um bom caminho na prevenção dos estados patológicos de ansiedade. Neste sentido, cabe aos adultos: ajudar crianças pequenas para que coloquem em cena toda a curiosidade e o desejo de saber sobre si e sobre o mundo, permitir que as crianças maiores liberem sua imaginação e coloquem em prática o faz de conta dos super-heróis e das princesas e, em fase mais avançada, testemunhar os adolescentes no ensaio para uma vida adulta. A aposta dos pais em suas crianças e adolescentes é o passo inicial para que eles consigam viver o presente com toda intensidade favorecendo sua ligação com a história passada e com o futuro, duas dimensões aniquiladas pelo mundo moderno. Desse modo, a cada situação, somente a ansiedade básica para movê-la. ___ Relatora: Gislene Jardim Presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da SPSP (2007-2009). Publicado no site da SPSP em 24/03/2009. photo credit: Sukanto Debnath via photopin cc Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos. Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.]]>

medium_3762206605Pagamos um preço alto pelas facilidades advindas com a modernidade. O rápido avanço tecnológico, que permite que sejamos vistos e ouvidos ao mesmo tempo por pessoas localizadas em diferentes lugares, não garante a nós mesmos uma atenção sobre nosso modo de viver, esse cada vez mais pressionado pelo tempo. Muitas vezes nos esquecemos que estamos sendo observados e imitados por nossas crianças e adolescentes.

Nas escolas nunca se falou tanto em déficits de atenção, TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), hiperatividade e falta de limites. Pais e educadores fazem coro na dificuldade em atrair as crianças e os jovens para a aprendizagem dos conteúdos escolares.

Não é por acaso que a palavra estresse tornou-se lugar-comum na boca do homem moderno, que vive segundo a ordem do discurso social: tudo ao mesmo tempo! A consequência direta desse modus vivendi é uma grande dose de ansiedade, muitas vezes, de difícil administração tanto para os adultos quanto para as crianças e jovens. Não serão os exageros, o consumismo e a pressa da nossa vida cotidiana uma tentativa de resposta – fracassada a priori – para o alto grau de ansiedade que nos imputamos? Como compreender a relação entre o tempo apressado e a ansiedade exagerada?

A aceleração das máquinas, da informação e das ideias pediu um homem mais dinâmico e ágil na resolução de problemas visando atingir metas preestabelecidas. No entanto, o tempo que o sujeito precisa para fazer-se um sujeito do desejo, com intenções claras diante do mundo moderno, não coincide com o tempo apressado do discurso social. Esse tempo do sujeito do desejo implica tempo para o faz de conta, para o sonhar, o devanear, o conhecer, mas esse tempo não pode ser marcado pelo relógio.

Oferecer oportunidades para as crianças e adolescentes de conhecer o novo a partir de experiências significativas parece ser um bom caminho na prevenção dos estados patológicos de ansiedade. Neste sentido, cabe aos adultos: ajudar crianças pequenas para que coloquem em cena toda a curiosidade e o desejo de saber sobre si e sobre o mundo, permitir que as crianças maiores liberem sua imaginação e coloquem em prática o faz de conta dos super-heróis e das princesas e, em fase mais avançada, testemunhar os adolescentes no ensaio para uma vida adulta. A aposta dos pais em suas crianças e adolescentes é o passo inicial para que eles consigam viver o presente com toda intensidade favorecendo sua ligação com a história passada e com o futuro, duas dimensões aniquiladas pelo mundo moderno. Desse modo, a cada situação, somente a ansiedade básica para movê-la.

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Relatora:
Gislene Jardim
Presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da SPSP (2007-2009).

Publicado no site da SPSP em 24/03/2009.
photo credit: Sukanto Debnath via photopin cc

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