Escola – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Wed, 26 Aug 2026 10:18:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Escola – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Educação é direito e cuidado https://spsp.org.br/educacao-e-direito-e-cuidado/ Tue, 25 Aug 2026 17:37:53 +0000 https://spsp.org.br/?p=58538 Celebrar o Dia Nacional da Educação Infantil, em 25 de agosto, é lembrar que educar não significa apenas transmitir conteúdos. Desde os primeiros anos de vida, educação é cuidado, vínculo, estímulo à curiosidade e oportunidade de desenvolver capacidades físicas, emocionais, sociais e cognitivas. A educação infantil, prevista na Lei de Diretrizes e Bases, deve promover o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade.1 O Brasil tem uma rede ampla e diversa. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo 9,2 milhões na educação infantil e 25,8 milhões no ensino fundamental. Também contabilizou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Esses números revelam avanços, mas não garantem, sozinhos, uma experiência educacional de qualidade. Persistem diferenças importantes entre regiões, cidades, áreas urbanas e rurais, redes públicas e privadas e grupos definidos por renda, raça, deficiência e condições de moradia.2 Na infância, os desafios se tornam ainda mais complexos. Professores e profissionais de saúde acompanham crianças com diferentes ritmos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual, TDAH e dificuldades de linguagem. Identificar sinais precocemente é importante, mas não devemos transformar toda diferença em doença. O caminho é observar, escutar a família, avaliar com cuidado e construir, com a escola, estratégias individualizadas de apoio e inclusão. A criança precisa de recursos e oportunidades, não de rótulos que limitem seu futuro. Outro desafio atual é o uso excessivo de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas até os dois anos e, dos dois aos cinco, limitar seu uso a até uma hora diária, sempre com a presença de um adulto. Mais importante que contar minutos é proteger o sono, as refeições, o movimento, a leitura, o brincar e a convivência olho no olho. A escola também pode estabelecer regras claras, formar educadores e orientar as famílias, sem culpar quem enfrenta rotinas exaustivas ou falta de espaços seguros para brincar.3 Solucionar esses problemas exige investimento contínuo em creches e escolas, valorização e formação dos professores, equipes multiprofissionais, acessibilidade, transporte, alimentação e políticas que reduzam a pobreza. Exige ainda aproximar pediatras, educadores e famílias, compartilhando observações e responsabilidades. Educação de qualidade não é privilégio nem tarefa isolada: é uma construção coletiva e um compromisso com a saúde, a autonomia e a cidadania. Defender esse direito é oferecer a cada criança a possibilidade real de aprender, participar e florescer. Saiba mais: Relator:Fausto Flor CarvalhoVice-Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP]]>

Celebrar o Dia Nacional da Educação Infantil, em 25 de agosto, é lembrar que educar não significa apenas transmitir conteúdos. Desde os primeiros anos de vida, educação é cuidado, vínculo, estímulo à curiosidade e oportunidade de desenvolver capacidades físicas, emocionais, sociais e cognitivas. A educação infantil, prevista na Lei de Diretrizes e Bases, deve promover o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade.1

O Brasil tem uma rede ampla e diversa. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo 9,2 milhões na educação infantil e 25,8 milhões no ensino fundamental. Também contabilizou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Esses números revelam avanços, mas não garantem, sozinhos, uma experiência educacional de qualidade. Persistem diferenças importantes entre regiões, cidades, áreas urbanas e rurais, redes públicas e privadas e grupos definidos por renda, raça, deficiência e condições de moradia.2

Na infância, os desafios se tornam ainda mais complexos. Professores e profissionais de saúde acompanham crianças com diferentes ritmos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual, TDAH e dificuldades de linguagem. Identificar sinais precocemente é importante, mas não devemos transformar toda diferença em doença. O caminho é observar, escutar a família, avaliar com cuidado e construir, com a escola, estratégias individualizadas de apoio e inclusão. A criança precisa de recursos e oportunidades, não de rótulos que limitem seu futuro.

Outro desafio atual é o uso excessivo de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas até os dois anos e, dos dois aos cinco, limitar seu uso a até uma hora diária, sempre com a presença de um adulto. Mais importante que contar minutos é proteger o sono, as refeições, o movimento, a leitura, o brincar e a convivência olho no olho. A escola também pode estabelecer regras claras, formar educadores e orientar as famílias, sem culpar quem enfrenta rotinas exaustivas ou falta de espaços seguros para brincar.3

Solucionar esses problemas exige investimento contínuo em creches e escolas, valorização e formação dos professores, equipes multiprofissionais, acessibilidade, transporte, alimentação e políticas que reduzam a pobreza. Exige ainda aproximar pediatras, educadores e famílias, compartilhando observações e responsabilidades. Educação de qualidade não é privilégio nem tarefa isolada: é uma construção coletiva e um compromisso com a saúde, a autonomia e a cidadania. Defender esse direito é oferecer a cada criança a possibilidade real de aprender, participar e florescer.

Saiba mais:

  1. [gov](https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/saeb/dia-nacional-da-educacao-infantil-e-celebrado-nesta-segunda-25)
  2. [gov](https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-escolar/conheca-o-perfil-dos-46-milhoes-de-estudantes-da-educacao-basica-no-dia-do-estudante/)
  3. [sbp.com](https://www.sbp.com.br/nova-lei-sobre-protecao-digital-reforca-recomendacoes-da-sbp-para-a-primeira-infancia/)

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Vice-Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

]]>
As causas das expulsões na educação infantil e os caminhos possíveis https://spsp.org.br/as-causas-das-expulsoes-na-educacao-infantil-e-os-caminhos-possiveis/ Tue, 11 Aug 2026 11:40:26 +0000 https://spsp.org.br/?p=58197 Comportamentos desafiadores na primeira infância podem sinalizar necessidades que ainda não encontram palavras. Antes de afastar uma criança, precisamos compreender o que está acontecendo. Sem esquecer que proteger toda a comunidade escolar também é responsabilidade de todos. Uma criança de três, quatro ou cinco anos pode ser afastada da escola por seu comportamento? A pergunta incomoda. Talvez porque, quando pensamos em suspensão ou expulsão, imaginamos alguém que já deveria compreender regras, controlar impulsos e responder por suas escolhas. Mas estamos falando de crianças pequenas. Crianças que ainda estão aprendendo a esperar, dividir, perder, ouvir “não”, lidar com a frustração e transformar emoções em palavras. A primeira infância é um período de intenso desenvolvimento. Habilidades de autorregulação, linguagem, comunicação e convivência ainda estão em construção. É nesse contexto que precisamos discutir o afastamento de crianças pequenas de creches e pré-escolas em razão de comportamentos considerados difíceis de manejar. Em 2024, a Academia Americana de Pediatria publicou uma declaração de política sobre suspensão e expulsão escolar, incluindo a educação infantil. O documento alerta para os potenciais efeitos negativos de práticas disciplinares excludentes e recomenda estratégias preventivas e alternativas à exclusão. No Brasil, essa discussão precisa ser contextualizada à nossa realidade educacional e ao marco legal de proteção integral da criança. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a proteção integral e assegura à criança o direito à educação, com igualdade de condições para acesso e permanência na escola, além do direito de ser respeitada por seus educadores. Isso não significa que a escola deva ignorar comportamentos que coloquem outras crianças ou adultos em risco. A segurança de toda a comunidade escolar é fundamental. Mas significa que decisões que impliquem o afastamento de uma criança precisam ser analisadas com responsabilidade, considerando não apenas o comportamento apresentado, mas também os direitos da criança, seu estágio de desenvolvimento e as possibilidades de intervenção e suporte. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: Quando uma criança pequena apresenta um comportamento difícil, estamos diante de uma criança que precisa ser afastada ou de uma criança que precisa ser compreendida e ajudada? Antes do comportamento, existe uma criança Uma criança que morde, bate, grita, empurra, entra em crise ou desafia regras pode estar expressando algo que ainda não consegue comunicar de outra maneira. Pode estar frustrada, cansada, assustada, sobrecarregada ou simplesmente sem recursos para lidar com uma situação. Isso não significa que todo comportamento deva ser aceito. Crianças precisam aprender limites. Bater ou machucar alguém não pode ser permitido. Mas também precisam de adultos que as ajudem, progressivamente, a desenvolver outras formas de expressar raiva, medo e frustração. Acolher não é permitir tudo. Estabelecer limites não é excluir. O comportamento infantil também não acontece no vazio. Pode estar relacionado ao desenvolvimento, a dificuldades de linguagem e comunicação, a desafios de autorregulação, a alterações sensoriais ou, em alguns casos, a condições do neurodesenvolvimento. Mas pode refletir também aquilo que acontece fora da escola: uma separação, a chegada de um irmão, uma perda, conflitos familiares, mudanças importantes ou uma experiência potencialmente traumática. Até fatores cotidianos, como privação de sono, fome, excesso de estímulos ou mudanças inesperadas na rotina podem interferir na capacidade de uma criança se autorregular. Por isso, diante de um comportamento que preocupa, precisamos ampliar o olhar. Quando acontece? O que aconteceu antes? O que desencadeia a crise? Como os adultos respondem? Essas perguntas ajudam a compreender a função daquele comportamento. Uma criança que entra em crise sempre que precisa interromper uma brincadeira pode precisar de mais previsibilidade. Outra que se desorganiza em ambientes muito barulhentos pode estar enfrentando uma dificuldade sensorial. Uma criança que parece não obedecer pode não estar compreendendo adequadamente uma instrução. O comportamento é um sinal que merece ser compreendido. Não necessariamente um diagnóstico. E, principalmente, não é uma identidade. Quando é preciso investigar Uma das armadilhas de uma abordagem exclusivamente disciplinar é punir antes de compreender. Uma criança com dificuldades persistentes de comunicação, interação social, atenção, impulsividade ou processamento sensorial pode ser rapidamente classificada como “malcriada”, “agressiva” ou “desobediente”. Mas nem todo comportamento difícil é sinal de um transtorno. E nem todo transtorno explica todo comportamento difícil. Quando os comportamentos são persistentes, intensos ou interferem significativamente na participação da criança, uma avaliação individualizada pode ser necessária. Nesse processo, o pediatra pode ter um papel importante: reunir informações da família e da escola, avaliar o desenvolvimento global, investigar sono, linguagem, comportamento e saúde emocional e, quando necessário, encaminhar para avaliação multiprofissional. Não se trata de procurar um rótulo. Trata-se de compreender melhor para cuidar melhor. A escola também precisa ser olhada Quando uma criança apresenta um comportamento desafiador, olhamos para ela. Precisamos também olhar para o ambiente em que esse comportamento acontece. Estudos mostram que decisões de suspensão e afastamento na educação infantil podem estar relacionadas não apenas ao comportamento da criança, mas também às preocupações com segurança, às políticas disciplinares e à disponibilidade de suporte para lidar com situações complexas. Isso não significa ignorar comportamentos que colocam outras pessoas em risco. Nem significa culpar professores. O professor também precisa de apoio. Uma equipe com formação, suporte e recursos pode ter melhores condições para identificar gatilhos, prevenir crises, mediar conflitos e construir estratégias individualizadas. Talvez, diante de uma criança que apresenta comportamentos desafiadores, precisemos olhar para três histórias ao mesmo tempo: a história da criança, a história da família e a história da escola. Essa visão não retira a responsabilidade de ninguém. Amplia a responsabilidade de todos. E quando existe agressividade? Precisamos ter cuidado para não romantizar o comportamento infantil. Uma criança que machuca outra precisa ser contida. Uma criança que coloca colegas ou adultos em risco precisa de intervenção. A segurança de todos é inegociável. Mas existe uma diferença entre interromper um comportamento perigoso e afastar definitivamente uma criança. A primeira pode ser necessária. A segunda precisa ser cuidadosamente analisada. Pode ser necessário afastar momentaneamente a criança de uma situação de risco, garantir supervisão, mediar o conflito, conversar com a família, investigar os fatores envolvidos e construir um plano...]]>

Comportamentos desafiadores na primeira infância podem sinalizar necessidades que ainda não encontram palavras. Antes de afastar uma criança, precisamos compreender o que está acontecendo. Sem esquecer que proteger toda a comunidade escolar também é responsabilidade de todos.

Uma criança de três, quatro ou cinco anos pode ser afastada da escola por seu comportamento?

A pergunta incomoda. Talvez porque, quando pensamos em suspensão ou expulsão, imaginamos alguém que já deveria compreender regras, controlar impulsos e responder por suas escolhas.

Mas estamos falando de crianças pequenas. Crianças que ainda estão aprendendo a esperar, dividir, perder, ouvir “não”, lidar com a frustração e transformar emoções em palavras.

A primeira infância é um período de intenso desenvolvimento. Habilidades de autorregulação, linguagem, comunicação e convivência ainda estão em construção. É nesse contexto que precisamos discutir o afastamento de crianças pequenas de creches e pré-escolas em razão de comportamentos considerados difíceis de manejar.

Em 2024, a Academia Americana de Pediatria publicou uma declaração de política sobre suspensão e expulsão escolar, incluindo a educação infantil. O documento alerta para os potenciais efeitos negativos de práticas disciplinares excludentes e recomenda estratégias preventivas e alternativas à exclusão.

No Brasil, essa discussão precisa ser contextualizada à nossa realidade educacional e ao marco legal de proteção integral da criança.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a proteção integral e assegura à criança o direito à educação, com igualdade de condições para acesso e permanência na escola, além do direito de ser respeitada por seus educadores.

Isso não significa que a escola deva ignorar comportamentos que coloquem outras crianças ou adultos em risco. A segurança de toda a comunidade escolar é fundamental. Mas significa que decisões que impliquem o afastamento de uma criança precisam ser analisadas com responsabilidade, considerando não apenas o comportamento apresentado, mas também os direitos da criança, seu estágio de desenvolvimento e as possibilidades de intervenção e suporte.

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:

Quando uma criança pequena apresenta um comportamento difícil, estamos diante de uma criança que precisa ser afastada ou de uma criança que precisa ser compreendida e ajudada?

Antes do comportamento, existe uma criança

Uma criança que morde, bate, grita, empurra, entra em crise ou desafia regras pode estar expressando algo que ainda não consegue comunicar de outra maneira.

Pode estar frustrada, cansada, assustada, sobrecarregada ou simplesmente sem recursos para lidar com uma situação.

Isso não significa que todo comportamento deva ser aceito. Crianças precisam aprender limites. Bater ou machucar alguém não pode ser permitido.

Mas também precisam de adultos que as ajudem, progressivamente, a desenvolver outras formas de expressar raiva, medo e frustração.

Acolher não é permitir tudo. Estabelecer limites não é excluir.

O comportamento infantil também não acontece no vazio. Pode estar relacionado ao desenvolvimento, a dificuldades de linguagem e comunicação, a desafios de autorregulação, a alterações sensoriais ou, em alguns casos, a condições do neurodesenvolvimento.

Mas pode refletir também aquilo que acontece fora da escola: uma separação, a chegada de um irmão, uma perda, conflitos familiares, mudanças importantes ou uma experiência potencialmente traumática.

Até fatores cotidianos, como privação de sono, fome, excesso de estímulos ou mudanças inesperadas na rotina podem interferir na capacidade de uma criança se autorregular.

Por isso, diante de um comportamento que preocupa, precisamos ampliar o olhar.

Quando acontece? O que aconteceu antes? O que desencadeia a crise? Como os adultos respondem?

Essas perguntas ajudam a compreender a função daquele comportamento.

Uma criança que entra em crise sempre que precisa interromper uma brincadeira pode precisar de mais previsibilidade. Outra que se desorganiza em ambientes muito barulhentos pode estar enfrentando uma dificuldade sensorial. Uma criança que parece não obedecer pode não estar compreendendo adequadamente uma instrução.

O comportamento é um sinal que merece ser compreendido. Não necessariamente um diagnóstico. E, principalmente, não é uma identidade.

Quando é preciso investigar

Uma das armadilhas de uma abordagem exclusivamente disciplinar é punir antes de compreender.

Uma criança com dificuldades persistentes de comunicação, interação social, atenção, impulsividade ou processamento sensorial pode ser rapidamente classificada como “malcriada”, “agressiva” ou “desobediente”.

Mas nem todo comportamento difícil é sinal de um transtorno. E nem todo transtorno explica todo comportamento difícil.

Quando os comportamentos são persistentes, intensos ou interferem significativamente na participação da criança, uma avaliação individualizada pode ser necessária.

Nesse processo, o pediatra pode ter um papel importante: reunir informações da família e da escola, avaliar o desenvolvimento global, investigar sono, linguagem, comportamento e saúde emocional e, quando necessário, encaminhar para avaliação multiprofissional.

Não se trata de procurar um rótulo. Trata-se de compreender melhor para cuidar melhor.

A escola também precisa ser olhada

Quando uma criança apresenta um comportamento desafiador, olhamos para ela. Precisamos também olhar para o ambiente em que esse comportamento acontece.

Estudos mostram que decisões de suspensão e afastamento na educação infantil podem estar relacionadas não apenas ao comportamento da criança, mas também às preocupações com segurança, às políticas disciplinares e à disponibilidade de suporte para lidar com situações complexas.

Isso não significa ignorar comportamentos que colocam outras pessoas em risco. Nem significa culpar professores.

O professor também precisa de apoio.

Uma equipe com formação, suporte e recursos pode ter melhores condições para identificar gatilhos, prevenir crises, mediar conflitos e construir estratégias individualizadas.

Talvez, diante de uma criança que apresenta comportamentos desafiadores, precisemos olhar para três histórias ao mesmo tempo:

a história da criança, a história da família e a história da escola.

Essa visão não retira a responsabilidade de ninguém.

Amplia a responsabilidade de todos.

E quando existe agressividade?

Precisamos ter cuidado para não romantizar o comportamento infantil.

Uma criança que machuca outra precisa ser contida. Uma criança que coloca colegas ou adultos em risco precisa de intervenção.

A segurança de todos é inegociável.

Mas existe uma diferença entre interromper um comportamento perigoso e afastar definitivamente uma criança.

A primeira pode ser necessária.

A segunda precisa ser cuidadosamente analisada.

Pode ser necessário afastar momentaneamente a criança de uma situação de risco, garantir supervisão, mediar o conflito, conversar com a família, investigar os fatores envolvidos e construir um plano de intervenção.

A criança precisa aprender:

“Eu não posso bater.”

Mas também precisa aprender:

“O que eu posso fazer quando estou com raiva?”

É nessa segunda pergunta que começa o verdadeiro trabalho educativo.

Afastar resolve?

Talvez resolva a crise daquele dia.

A criança sai. A sala fica mais tranquila. O professor retoma a rotina.

Mas o que acontece depois?

A criança leva consigo aquilo que originou o comportamento: a dificuldade de comunicação, a desregulação, a impulsividade, a ansiedade ou a sensação de não pertencer.

E, muitas vezes, o problema reaparece em outro lugar.

A Academia Americana de Pediatria destaca que práticas de suspensão e expulsão podem ter consequências negativas e recomenda estratégias preventivas e alternativas à exclusão.

Os estudos disponíveis vêm, em grande parte, da realidade norte-americana e não podem ser simplesmente transferidos para o Brasil. Mas ajudam a formular uma pergunta necessária:

Estamos certos de que o comportamento é o único problema?

Ou precisamos também olhar para a forma como interpretamos e respondemos a ele?

Antes de afastar, precisamos compreender

Encontrar alternativas não significa aceitar qualquer comportamento.

Significa ampliar o repertório de respostas: avaliar o desenvolvimento, investigar possíveis dificuldades, identificar gatilhos, antecipar mudanças, adaptar a rotina, ensinar habilidades sociais, mediar conflitos e construir estratégias individualizadas.

Pode significar também buscar apoio especializado e envolver o pediatra e outros profissionais da saúde quando necessário.

Nenhum desses caminhos é simples. Nenhum funciona da mesma maneira para todas as crianças.

Mas todos partem de um princípio comum:

antes de afastar, precisamos tentar compreender.

Talvez seja hora de mudar a pergunta.

Em vez de:

“O que há de errado com essa criança?”

Perguntar:

“O que essa criança está tentando nos mostrar?”

E depois:

“O que nós, adultos, podemos fazer diferente?”

Isso não significa retirar da criança a responsabilidade de aprender regras e respeitar limites.

Significa reconhecer que educar é um processo. Que a autorregulação é ensinada. Que habilidades sociais são construídas. E que crianças pequenas precisam de adultos capazes de ensinar tudo isso.

A primeira infância é um período de construção: da linguagem, da autonomia, da autorregulação, das relações e da capacidade de conviver.

Talvez o maior desafio não seja encontrar uma forma de fazer uma criança difícil caber na escola.

Talvez seja construir escolas capazes de acolher diferentes crianças sem abrir mão dos limites, da segurança e do respeito.

Porque educar também é ensinar a conviver.

E, na primeira infância, ensinar a pertencer também faz parte de educar.


Relatora:

Betina Lahterman
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP

]]>
Vamos falar de cigarro? De novo? https://spsp.org.br/vamos-falar-de-cigarro-de-novo/ Mon, 01 Jun 2026 19:43:24 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=57270 ]]>

Mãe de adolescente sabe bem: a rotina nunca é fácil. Naquela manhã, ela acordou com pressa e com a sensação de que o tempo voava. Ao entrar no quarto da filha – que acabara de sair para a escola –, tentou apenas minimizar a bagunça diária. Como de costume, entrar ali parecia uma visita a uma loja de departamentos (não faltam piadas sobre isso): saía sempre carregando duas canecas, um copo, uma calça e três moletons espalhados. Ao recolher a bolsa usada na festa do fim de semana, que estava aberta em um canto, veio a surpresa: no fundo, encontrava-se um maço de cigarros aberto. Era daquela marca antiga, que ela mesma usava para fazer piada, lembrando dos tios fumando na sua infância. Que situação inesperada! O que fazer? A primeira reação, movida pelo impulso, era a de buscar a filha na escola naquele exato momento para confrontá-la (na verdade, queria tomar uma atitude bem brusca!).

Embora essa seja uma cena fictícia, ela ilustra uma realidade enfrentada por algumas famílias. O tabaco continua sendo uma das substâncias de abuso mais frequentes em nosso meio. Estatísticas brasileiras apontam para um aumento explosivo no consumo de nicotina por meio de dispositivos eletrônicos, os famosos vapes. No entanto, muitos adolescentes ainda recorrem aos cigarros convencionais e a alternativas que ganharam espaço, como os cigarros de palha (na moda em algumas festas da moçada).

Esse consumo tende a crescer conforme a idade avança e, como já destacado em publicações anteriores do nosso departamento, é fortemente influenciado pelo grupo social em que o jovem se insere. O desejo de pertencimento muitas vezes diminui o julgamento crítico.

A partir do momento da descoberta, o que fazer?

Não existe uma receita mágica, mas algumas estratégias podem ajudar os pais:

  1. manter um diálogo aberto – a proibição isolada ou a punição raramente mudam o comportamento; pelo contrário, podem afastar o jovem e criar uma cultura de segredos);
  2. conhecer o entorno do seu filho – saiba quem são os amigos, quais são os seus espaços de convivência e participe ativamente da sua rotina),
  3. apoiar em vez de punir – pais acolhedores e que compreendam a raiz do problema, deixando os julgamentos de lado;
  4. monitorar o universo digital – o adolescente de hoje é hiperconectado. A publicidade do tabaco não está mais na TV aberta, mas camuflada em plataformas de streaming, redes sociais e influenciadores digitais;
  5. conversar abertamente sobre o que eles consomem na internet.

 

Além disso, fortaleça a parceria com a escola: as instituições de ensino podem adotar o conceito de “campus saudável”, fiscalizando o uso de substâncias em seus perímetros, e capacitando professores para identificar sinais de vulnerabilidade. Pais e escolas devem formar uma rede única de apoio. Cada um fazendo a sua parte.

Descobrir que um filho adolescente está fumando pode evocar sentimentos de falha, medo e frustração. Contudo, esse momento crítico deve ser transformado em uma oportunidade de aproximação e não de ruptura. O combate ao tabagismo jovem não se faz na força da autoridade, mas sim no vínculo familiar. Ao substituir o confronto pelo acolhimento e a punição pela informação, os pais conseguem desarmar o adolescente. Proteger essa geração exige presença ativa, escuta atenta e a construção de uma rede de cuidado que envolva a família, a escola e a sociedade. Afinal, educar dá trabalho, mas é sinônimo de afeto.

 

Relatora:
Ana Paula Pascalicchio Bertozzi
Membro do Núcleo de Estudos do Combate ao Uso de Drogas da SPSP

]]>
Desporto escolar: uma ferramenta de saúde e desenvolvimento https://spsp.org.br/desporto-escolar-uma-ferramenta-de-saude-e-desenvolvimento/ Mon, 25 May 2026 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=57045 ]]>

O Dia Nacional do Desporto Escolar, celebrado em 25 de maio e instituído pela Lei nº 14.579/2023, reforça um ponto essencial: o esporte na escola não é complemento. É parte da formação.

Quando falamos em desporto escolar, não estamos falando de rendimento ou de formar atletas. Estamos falando de um espaço educativo – onde a criança experimenta o movimento, aprende regras, convive, erra, tenta de novo e se desenvolve.

É nesse contexto que entra um conceito ainda pouco explorado na prática: a alfabetização física.

Alfabetizar fisicamente significa dar à criança as ferramentas básicas para se movimentar com confiança e competência: correr, saltar, arremessar, receber, equilibrar, mudar de direção. Essas habilidades motoras fundamentais têm uma janela de desenvolvimento privilegiada entre os 3 e 8 anos de idade – período em que a plasticidade motora é maior e a base se consolida para toda a vida ativa que virá.

E os números mostram por que isso importa. A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos. No Brasil, a maioria não chega perto desse alvo e o tempo de tela em pré-escolares, com frequência, ultrapassa três horas diárias – o triplo do limite recomendado para essa faixa etária.

Crianças que não desenvolvem competência motora tendem a evitar a atividade física. E esse afastamento não atinge apenas o corpo: impacta a autoestima, a função executiva, gera sintomas ansiosos e depressivos, atrapalha o sono e convivência social. A literatura é consistente em mostrar que crianças mais ativas apresentam melhor desempenho cognitivo e maior bem-estar emocional.

O desporto escolar tem papel central nesse cenário. É, muitas vezes, o primeiro – e em alguns casos o único – contato estruturado da criança com o esporte. Quando bem conduzido, ensina a lidar com frustração, respeitar regras, trabalhar em grupo e persistir. Valores que não aparecem em boletins, mas formam comportamento, autonomia e convivência.

Diferente do esporte competitivo, aqui o foco não é resultado. É vivência. É processo.

O que cada um de nós pode fazer

  • Pediatras: incluir, na puericultura de rotina, perguntas sobre tempo ativo, aulas de Educação Física e tempo de tela – com a mesma naturalidade com que perguntamos sobre alimentação e sono.
  • Famílias: valorizar e priorizar a Educação Física escolar; criar oportunidades diárias de brincar ativo, ao ar livre sempre que possível.
  • Escolas: garantir tempo, espaço e qualidade nas aulas de Educação Física, e formar professores capazes de promover alfabetização física com prazer e segurança.

No fim, não é só sobre esporte. É sobre promover saúde e formar crianças mais seguras, confiantes e preparadas para a vida.

 

Relatora:
Brizza Valeria Foianini Biassi
Membro do Núcleo de Estudos da Prática de Atividade Física e Esportes na Infância e Adolescência da SPSP

]]>
Celebrando o espaço onde o cuidado e o aprendizado se encontram https://spsp.org.br/celebrando-o-espaco-onde-o-cuidado-e-o-aprendizado-se-encontram/ Sun, 15 Mar 2026 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55461 O Dia da Escola, celebrado em 15 de março, é mais do que uma data no calendário. É um convite a reconhecer a importância desse espaço na forma]]>

O Dia da Escola, celebrado em 15 de março, é mais do que uma data no calendário. É um convite a reconhecer a importância desse espaço na formação de crianças e adolescentes, não apenas como local de ensino formal, mas como ambiente essencial de desenvolvimento humano.

A escola é um dos principais cenários da infância e da adolescência. É ali que se constroem conhecimentos acadêmicos, habilidades sociais, emocionais e cognitivas, que acompanham o indivíduo por toda a vida. Aprender a ler e escrever é fundamental. Aprender a conviver, cooperar, argumentar, respeitar diferenças, construir autonomia e lidar com frustrações é igualmente transformador. Esses aprendizados não estão apenas no currículo, estão nas interações diárias, nas regras compartilhadas, nos combinados coletivos.

Sob a perspectiva da saúde e do desenvolvimento infantil, a escola ocupa papel estratégico. Ambientes estruturados, com rotina previsível e adultos de referência, favorecem segurança emocional e autorregulação. A convivência com pares estimula empatia, comunicação e senso de pertencimento.

Ao longo das diferentes fases do crescimento, a escola assume funções específicas. Na infância, o brincar e a descoberta estruturam a aprendizagem e estimulam o desenvolvimento neurológico. No ensino fundamental, consolidam-se competências acadêmicas e habilidades sociais mais complexas. Na adolescência, a escola se torna espaço de construção de identidade, valores, autonomia e projeto de vida.

Mais do que transmitir conteúdos, a escola desenvolve o pensamento crítico, a capacidade de resolução de problemas, responsabilidade e consciência social. Forma cidadãos.

A integração entre família e escola é uma parceria essencial para o desenvolvimento saudável. Comunicação aberta, alinhamento de expectativas e escuta ativa contribuem para que crianças e adolescentes se sintam seguros e apoiados. Também é na escola que, muitas vezes, se identificam precocemente dificuldades de aprendizagem, alterações comportamentais ou sinais de sofrimento emocional. Quando integrada a uma rede de cuidado, que inclui família e profissionais de saúde, a escola atua como potente fator de proteção.

Acompanhar o cotidiano escolar não se resume a avaliar notas. Envolve observar bem-estar emocional, relações interpessoais e adaptação às demandas de cada fase.

 

No Dia da Escola, um convite à reflexão

Celebrar o Dia da Escola é reconhecer o valor dos educadores, das equipes pedagógicas e de todos os profissionais que sustentam esse ambiente diariamente. É também lembrar que a experiência escolar impacta profundamente a autoestima, a saúde emocional e a trajetória de vida das crianças e adolescentes.

É, sobretudo, reafirmar que educação e desenvolvimento caminham juntos. Investir na escola é investir na saúde, na cidadania e nas oportunidades das próximas gerações.

Neste 15 de março, que a escola seja celebrada como aquilo que verdadeiramente é: um dos pilares mais importantes na formação integral de crianças e adolescentes. Um espaço de crescimento, descobertas e construção de futuro.

 

Relatora:
Betina Lahterman
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP

]]>
Conhecer, identificar e tratar a dislexia o mais precocemente possível é fundamental para se obter melhores resultados https://spsp.org.br/conhecer-identificar-e-tratar-a-dislexia-o-mais-precocemente-possivel-e-fundamental-para-se-obter-melhores-resultados/ Sun, 16 Nov 2025 10:30:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=54208 16 de novembro é o Dia Nacional de Atenção à Dislexia, uma condição relacionada ao desenvolvimento ]]>

16 de novembro é o Dia Nacional de Atenção à Dislexia, uma condição relacionada ao desenvolvimento do cérebro que torna a leitura mais difícil do que o esperado, mesmo para crianças que têm inteligência normal, motivação e uma boa escolaridade. Na prática, ela causa dificuldades na hora de reconhecer palavras rapidamente, soletrar corretamente e entender o que se está lendo, o que pode ser frustrante, tanto para os pequenos quanto para os adultos.

Por que isso acontece? A dislexia tem uma origem neurológica, ou seja, ela está relacionada a diferenças na estrutura e funcionamento de algumas áreas do cérebro que lidam com a linguagem escrita. Além disso, ela costuma ser herdada, com uma chance de até 70% de passar de geração em geração.

Estudos mostram que a dislexia afeta cerca de 5% a 10% das crianças em idade escolar, podendo chegar a 17,5%, dependendo do grupo estudado. Acomete meninos e meninas, embora meninos sejam mais frequentemente encaminhados para avaliação, devido a outras dificuldades comportamentais que podem estar presentes.

O impacto da dislexia vai além da escola. Crianças e adultos com esse transtorno podem ter mais dificuldades na autoestima, sofrer de ansiedade ou até depressão, e encontrar dificuldades para manter boas relações com colegas, amigos e familiares. Quando o diagnóstico e o início do apoio chegam tarde, essas dificuldades podem se ampliar, levando a desigualdades na educação, problemas emocionais e maior estresse na família.

Por isso, conhecer e identificar a dislexia cedo é fundamental. Quanto mais cedo ela for reconhecida, maiores as chances de se oferecer o suporte adequado, ajudando a pessoa a superar essas dificuldades e a desenvolver todo seu potencial, com mais confiança e bem-estar, na escola e na vida.

Para entender como se identifica e se trata a dislexia, é importante saber que o diagnóstico envolve uma avaliação detalhada, realizada por uma equipe especializada. Essa avaliação inclui conversar com os pais e professores, observar o histórico escolar da criança e aplicar testes padronizados, que avaliam habilidades de leitura, escrita, linguagem e raciocínio. O objetivo é detectar dificuldades específicas na leitura e na escrita, que não sejam apenas decorrentes de questões sensoriais, neurológicas ou falta de oportuna instrução. A equipe recomendada é composta por educadores, psicólogos, fonoaudiólogos e médicos (pediatras, foniatras e neurologistas), trabalhando juntos para uma avaliação que permita identificar a dislexia cedo, oferecendo apoio antes que as dificuldades afetem seu desempenho escolar de forma mais grave.

O tratamento da dislexia é baseado em métodos educacionais desenvolvidos especialmente para cada pessoa. Essas intervenções focam na conscientização fonológica, no entendimento do princípio alfabético, na prática da fonética, na decodificação, na leitura fluente, no fortalecimento do vocabulário e na compreensão do texto. É fundamental que esse trabalho seja feito por profissionais treinados, com prática constante e feedbacks que ajudem a criança a evoluir. Quanto mais cedo a intervenção começar, melhores os resultados. A adaptação escolar também é importante: podem ser necessários tempo extra para provas, uso de tecnologia assistiva e materiais adaptados, tudo com o objetivo de garantir o aprendizado e a inclusão do aluno.

Quando a criança também apresenta dificuldades emocionais, como ansiedade ou depressão, o apoio psicológico pode ser necessário. Além disso, programas de exercícios visuais, atenção e recursos digitais vêm mostrando benefícios no desenvolvimento da fluência de leitura e na compreensão do texto. Vale destacar que, atualmente, não há evidências de que medicamentos ou terapias alternativas sejam eficazes para tratar a dislexia, recomendando-se a combinação de estratégias educativas e apoio terapêutico individualizado.Parte superior do formulário

 

Relatora:

Sulene Pirana
Médica Otorrinolaringologista e Foniatra
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da SPSP

]]>
O que significa “deficiência” para você? https://spsp.org.br/o-que-significa-deficiencia-para-voce/ Sun, 21 Sep 2025 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=53256 Hoje, 21 de setembro, é o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A data é comemorativa, mas o verbo é de trabalho: lutar. Avançamos nas últimas décadas – leis, políticas, narrativa]]>

Hoje, 21 de setembro, é o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A data é comemorativa, mas o verbo é de trabalho: lutar. Avançamos nas últimas décadas – leis, políticas, narrativas –, porém a trilha da inclusão continua diária e árdua. Para incluir, é necessário registrar e compreender: de quantas pessoas estamos falando, onde estão e que barreiras encontram. Ao mesmo tempo, a deficiência – como toda condição humana – é diversa. Entender as singularidades de cada criança e de sua família requer escuta, tempo e respostas ajustadas. Não há solução única: há adaptações e apoios que respeitam diferentes modos de funcionar.

Crianças e famílias seguem enfrentando barreiras de acesso à saúde, à educação e à proteção. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 240 milhões de crianças no mundo – uma em cada dez – vivem com alguma deficiência e, em média, apresentam os piores indicadores nesses três campos. Em 2021, a UNICEF reforçou o alerta com um retrato que não podemos ignorar: crianças com deficiência têm 24% menos probabilidade de receber estimulação precoce e cuidados responsivos, 42% menos chances de alcançar habilidades fundamentais de leitura e matemática e 49% mais probabilidade de nunca frequentar a escola. Em saúde, há 25% mais chances de desnutrição, 34% mais de prejuízos no crescimento e ganho de peso e 53% mais de sintomas de infecção respiratória aguda. No bem-estar e na proteção, há 51% mais probabilidade de se sentirem infelizes no dia a dia, 41% mais de sofrer discriminação e 32% mais de punição corporal severa.

Esses números não definem pessoas: expõem barreiras. Crianças que precisam de mais apoio para comunicação e autocuidado estão entre as que mais ficam fora da escola. Quando há múltiplas deficiências, a evasão cresce ainda mais. A resposta pública e institucional, portanto, precisa sair da lógica do “padrão” e assumir o desenho universal, com acessibilidade arquitetônica, comunicacional, atitudinal e pedagógica, além de ajustes razoáveis que tornem ambientes e serviços utilizáveis por todas as pessoas.

Educação inclusiva não é utopia – é base de cidadania. Atenção integral à saúde não é favor – é direito. E direitos reais pedem orçamento, formação continuada, protocolos intersetoriais e monitoramento. Também pedem humildade institucional para aprender com as famílias e com as próprias crianças o que funciona, quando e como. Na prática, isso significa registrar adequadamente, mapear necessidades com participação das famílias, garantir acessibilidade e recursos de apoio, ajustar fluxos de cuidado e formar equipes para acolher sem infantilização nem estigma. E, sobretudo, sustentar políticas com continuidade e avaliação de impacto, em corresponsabilidade entre saúde, educação e assistência – porque a vida não cabe em uma secretaria só.

Quando perguntamos “o que significa deficiência para você?”, não buscamos uma definição de dicionário, mas um compromisso: reconhecer a pluralidade humana e, diante dela, escolher práticas que não deixem ninguém para trás. Hoje – e todos os dias – que a nossa resposta seja concreta: olhar, contar e cuidar. O resto é discurso. E discurso, sem acesso real, segue produzindo aquilo contra o que diz lutar: invisibilidade.

 

Saiba mais:

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Global report on children with disabilities. Geneva: World Health Organization, 2021.
  • Seen, Counted, Included: Using data to shed light on the well-being of children with disabilities. New York: United Nations Children’s Fund, 2021.

 

Relatora:
Anna Dominguez Bohn
Carolina Videira
Núcleo de Estudos sobre a Criança e o Adolescente com Deficiência da SPSP

]]>
Lanche escolar: atenção para a saúde geral e bucal https://spsp.org.br/lanche-escolar-atencao-para-a-saude-geral-e-bucal/ Mon, 07 Jul 2025 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=52123 Atualmente, a alimentação infantil é motivo de grande preocupação dos pais e profissionais de saúde, devido a um aumento alarmante no consumo de alimentos altamente calóricos]]>

Atualmente, a alimentação infantil é motivo de grande preocupação dos pais e profissionais de saúde, devido a um aumento alarmante no consumo de alimentos altamente calóricos e de baixa qualidade nutricional.

É fundamental estimular a formação de hábitos alimentares saudáveis desde os primeiros anos de vida, para garantir o crescimento e desenvolvimento adequados, a manutenção da saúde e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade e cárie dentária.

Vale lembrar que as crianças não apresentam maturidade e conhecimento suficiente para fazerem suas escolhas alimentares, sendo os pais e cuidadores os principais responsáveis pela escolha, aquisição, preparo e oferta alimentar.

Hábitos alimentares se desenvolvem em casa e são moldados constantemente nos ambientes onde a criança está inserida: escola, casa de amigos e familiares, locais de esporte, praças de alimentação, etc. As preferências alimentares presentes na infância podem se perpetuar na vida adulta. O consumo de carboidratos fermentáveis, em especial a sacarose (açúcar), é um dos fatores que interferem no desenvolvimento de lesões de cáries. O consumo de bebidas e alimentos ácidos em alta frequência pode favorecer a erosão do esmalte dentário, levando à sensibilidade e perda de parte de sua estrutura.

Além das refeições feitas em casa, o lanche escolar, levado de casa ou comprado na escola, também tem um papel muito importante na rotina alimentar. Ele oferece nutrientes e energia para garantir o aproveitamento escolar e permite que a criança chegue com maior controle do apetite na refeição seguinte.

A rotina atarefada das famílias e a crescente seletividade alimentar das crianças têm resultado na confecção de lanches altamente calóricos, compostos na maioria das vezes por alimentos processados e ultraprocessados. A praticidade, durabilidade, alta palatabilidade e embalagens chamativas exercem grande influência no consumo.

É importante destacar que o lanche escolar não precisa ser uma refeição completa, com alimentos de todos os grupos, visto que do ponto de vista energético ele deve representar apenas 10% a 15% do consumo energético diário.

Normalmente o valor energético exibido no pacote de um alimento ultraprocessado refere-se a uma porção muito pequena, que não expressa o tamanho das porções consumidas e confunde o consumidor com frases enganosas, como “Enriquecidos com…”, “Livre de gorduras”, “Zero gorduras trans”, etc.; iludindo os pais em relação à verdadeira composição dos produtos.

Sendo assim, propomos dicas básicas para o seu planejamento:

  • O lanche escolar deve suprir as necessidades nutricionais de cada faixa etária e ser constituído por 2 ou 3 alimentos ou preparações;
  • Alimentos ultraprocessados devem ser evitados;
  • A criança deve ser estimulada a hidratar-se com água. A garrafa de água é item obrigatório e deve ser consumida! Ela pode ser levada cheia e a família deve estimular a criança a tomar com frequência e completar quando acabar;
  • Oferecer frutas em vez de sucos. Elas são importantes fontes de energia, vitaminas, minerais e fibras. As fibras estimulam a mastigação e favorecem o crescimento e desenvolvimento adequado das arcadas dentárias; sendo assim, incluir sempre uma porção de fruta ou hortaliça (tomate, palitos de cenoura e pepino, etc.);
  • Escolher uma fruta prática para ser consumida com casca ou cuja casca possa ser retirada com facilidade (maçã, banana, pera, pêssego, ameixa, morango, mexerica, uva, etc.). Algumas frutas podem ser levadas inteiras, enquanto outras devem ser descascadas e levadas picadas em recipientes com tampa: abacaxi, melão, melancia, manga, etc. Em caso de necessidade de corte, fazê-lo o mais perto possível do consumo. Lembrar que, conforme a idade, frutas como a uva devem ser cortadas, para evitar engasgos, e todos os itens devem ser pré-lavados, secos e bem embalados;
  • Caso a escolha seja suco, sempre eleger o natural ou integral ou 100% da fruta. Vale lembrar que esses sucos não contêm açúcar, mas na maioria dos casos podem ser diluídos na proporção de 2 partes de suco para 1 de água, já que são altamente concentrados. No caso de sucos naturais, preparar bem perto do consumo e lembrar-se que esse tipo de alimento tem quantidade máxima a ser consumida por dia consumo máximo ao dia;
  • Enviar um alimento fonte de proteína: leite, iogurte, queijo, ovo cozido, ovo de codorna (5 unidades = 1 ovo de galinha), crepioca, sanduíche de atum, frango, etc.;
  • Compor com uma fonte de carboidrato: pão francês, pães integrais (aveia, grãos, centeio, integral, preto), pão sírio, torrada integral, torrada, bolo caseiro, tapioca, cereal matinal sem adição de açúcar, pipoca de panela, wrap, cookie integral, panqueca caseira, snack de batata, batata-doce, mandioca, mandioquinha, etc.; restringindo o consumo das versões ultraprocessadas, como bisnaguinha, pão egg sponge, bolinhos prontos, ;
  • Sugestões de recheio: queijo minas, queijo meia-cura, mussarela de búfala, manteiga, requeijão, fritada (ex.: ovo mexido com tomate), patês de ricota temperada, frango, geleia de frutas sem adição de açúcar, pasta de amendoim, etc.;
  • É importante utilizar lancheiras de material térmico ou gelo em placas para manter a qualidade dos alimentos e evitar que gêneros perecíveis fiquem sem refrigeração por mais de três horas.

Alimentos e preparações que não devem entrar na rotina alimentar da criança. Caso algum item seja eleito para o lanche escolar, restringir a oferta para 1 vez por semana:

  • Sucos e refrescos de caixinha;
  • Snacks e salgadinhos de pacote;
  • Leite fermentado, tipo Yakult (EVITAR);
  • Achocolatados prontos (Toddynho e similares);
  • Doces em geral (chocolate, sorvete cremoso, pirulito, balas, etc.);
  • Pães e bolos com recheios e cremes;
  • Pães doces;
  • Salgados fritos (coxinha, risole, bolinha de queijo, etc.) e assados (pão de queijo, enrolado de salsicha, enrolado de frios, empada, croissant, etc.);
  • Bolachas em geral, especialmente as recheadas;
  • Waffle;

Bebidas isotônicas, como Gatorade e similares, são contraindicadas, devido aos altos teores de sódio.

Lembrar que os lanches não consistem em refeições inteiras. Cada item é apenas uma parte do conjunto; então não se deve exagerar nas quantidades.

 

Relatora:
Vera Regina M. Dishchekenian
Especialista em Nutrição Materno-Infantil
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Colaboradoras:
Ana Flavia Calvo
Cristina Giovannetti Del Conte
Patricia Roulet
Núcleo de Estudos de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Tecnologias na Educação – Expectativas e frustrações https://spsp.org.br/tecnologias-na-educacao-expectativas-e-frustracoes/ Thu, 19 Dec 2024 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=49661 A vovó tirou do seu ‘fundo do baú’ histórias interessantes e que parecem, hoje, inacreditáveis. Vejam estas: -Thomas Edison, industrial americano e inventor da lâmpada elétrica]]>

A vovó tirou do seu ‘fundo do baú’ histórias interessantes e que parecem, hoje, inacreditáveis. Vejam estas:

-Thomas Edison, industrial americano e inventor da lâmpada elétrica, disse em 1913: “livros logo se tornarão obsoletos nas escolas (…) Nosso sistema escolar mudará completamente dentro de dez anos”. Parece até atual! O deslumbramento demonstrado por ele dizia respeito às várias potencialidades pedagógicas do cinema, opinião corroborada por muita gente naquela época, que até diziam: “o cinema está destinado a revolucionar nosso sistema educacional e, graças a ele, será possível ensinar todas as ramificações do conhecimento humano”.

-Em 1930, a tecnologia revolucionária foi o rádio e dizia-se sobre ele:  “o rádio está destinado a levar o mundo para a sala de aula, a fim de tornar universalmente disponíveis os serviços dos melhores professores”.

-Em 1960, foi a vez da televisão: “é possível multiplicar nossos melhores instrutores, isto é, selecionar um único professor excelente e oferecer a todos os estudantes os benefícios resultantes de uma instrução de qualidade superior (…) A TV transforma todas as salas de estar, de jantar, sótão, etc., numa sala potencial de aula”.

Percebe-se nesse recordatório, que muita expectativa sempre foi projetada em cada nova tecnologia que ia surgindo como esperança para solucionar os problemas educacionais nos países, pelo mundo afora. Hoje, continua se fazendo a mesma coisa: a televisão foi substituída pelas “tecnologias de informação e de comunicação para o ensino” – as famosas TIC.

Em 2011, um parlamentar alardeou que estas são “como uma resposta adaptada aos desafios da educação do século XXI: lutar contra o fracasso na escola, favorecer a igualdade de oportunidades, devolver aos alunos o prazer de ir à escola e aprender, revalorizar a profissão do magistério, que deve retomar seu lugar com esse papel de ‘diretor de cena’ (…). Pois não será sobre a educação de ontem que edificaremos os talentos de amanhã”.

As muitas expectativas trouxeram muitas frustações. Nem o cinema, nem o rádio ou a televisão resolveram os enormes problemas educacionais na grande maioria dos países. Nem mesmo hoje, a Informatização no ensino, trouxe o ganho tão esperado e propalado.

“A síntese do último relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), solicitado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, enfatiza: “professores são o mais importante recurso nas escolas de hoje…”. Essa afirmação foi feita após os especialistas constatarem que os países que mais investiram em tecnologias digitais foram os que viram a performance de seus alunos diminuir, mais severamente, em matemática, leitura e ciências.

Conclusão final:

“Um Professor qualificado continua sendo uma tecnologia de ensino resiliente e insuperável”.

 

Saiba mais:

  1. Edison T. In: Saettler P. The evolution of American educacional techonology. (S.I.): IAP, 1990.
  2. Darrow B. In: Cuban L. Teachers and the machines. New York: Teachers College Press, 1986.
  3. Wischener G et al. Some thoughts on television as na educacional tool. American Psychologist. 1955;10.
  4. Fourgous J. Oser la pédagogie numérique!. Le Monde, 2011. Disponível em: lemonde.fr. Acesso em: 27 jul. 2021.
  5. Spitzer M. M-learning? When it comes to learning, smartphones are a liability, not an asset. Trends in Neuroscience and Education. 2015;4.
  6. OECD. Effective teacher policies: insights from PISA. OECD, 2018. Disponível em: oecd.org. Acesso em: 27 jul.2021.
  7. OCDE. Connectés pour appendre? Les élèves et les nouvelles technologies (principaux résultats). OCDE, 2015. Disponível em: oecd.org. Acesso em: 27 jul. 2021.

 

Relator:

Fernando MF Oliveira

Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

]]>
Dia do Professor https://spsp.org.br/dia-do-professor/ Tue, 15 Oct 2024 13:58:32 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48482 ]]>

A figura do professor ocupa um espaço grande e especial em nossas vidas. Começa na infância e continua até a maturidade. Ao longo da vida continuamos, sempre, aprendendo alguma coisa com alguém. Todos somos alunos e professores, em última análise. Mas alguns dedicam seu tempo, seus esforços, seu conhecimento e sabedoria com a finalidade de ensinar. Têm como objetivo profissional e de vida repartir o que aprenderam. Temos que reforçar a importância que desempenham na vida das pessoas e de uma nação.

Recorro a alguns personagens da ficção, que permanecem em nossa memória afetiva, para traduzir nossa gratidão e reconhecimento. Obrigado a você, professor, que de alguma forma tem um pouco de todos esses professores queridos, que elencamos abaixo:

Professor Pardal – personagem criado pelos Estúdios Disney – é inventor e cientista. É tido como excêntrico, alcunha dada para definir seu jeito desorganizado ou distraído. Tem ideias brilhantes e fora do comum. Possui muita criatividade, mas às vezes falha em lidar com a realidade prática ou cotidiana. É um ardoroso e apaixonado defensor da tecnologia e da ciência. É motivado por perguntas e quer encontrar soluções para tudo. É um profissional multitarefa.

Professor Frink – É um cientista excêntrico e gênio maluco da cidade de Springfield, nos desenhos dos Simpsons. É outra versão do Professor Pardal.

Professor Raimundo – criado e interpretado pelo genial Chico Anysio, lida com uma classe diversificada de alunos, inquieta, bagunceira. Ele aguenta de tudo e o “salário é ó …” – aquele espaço definido entre o polegar e o indicador quantifica – sim, pequenininho.

Professor Xavier – O fundador da escola para jovens superdotados, que também atua como mentor dos X-Men. Os “fora da curva” encontram naquele ambiente aquilo de que necessitam para desabrocharem seus talentos. Na escola há professores com empatia e notória competência, que não temem um aluno curioso e questionador. Para necessidades diferentes, propõem tratamentos diferenciados.

Professor Girafales – O professor da turma do Chaves, conhecido por sua paciência (e por seu romance com Dona Florinda). Professor é gente, que também se apaixona e sabe que é mortal.

Professor John Keating – O inspirador professor de literatura que ensina seus alunos a pensarem de forma independente e a valorizarem a poesia, no filme Sociedade dos Poetas Mortos. Ensina a pensar. Incute valores fundamentais.

Professor Indiana Jones – arqueólogo aventureiro e professor universitário. “Topa qualquer parada” pelo encontro de uma peça arqueológica rara. Foco obstinado. O trabalho lhe dá alegria e prazer.

Dois professores da série Harry Potter: Alvo Dumbledore, professor sábio e poderoso, e o Snape, enigmático e complexo professor de poções, que mais tarde ensina Defesa Contra as Artes das Trevas.

A você, que exerce a função docente, em especial em Pediatria e no universo do Adolescente, nossa homenagem, admiração, reconhecimento e gratidão.

A quem honra, honra.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

]]>