Dificuldade – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Thu, 14 Nov 2024 19:34:55 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Dificuldade – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Orientação aos pais sobre dislexia: entendendo e apoiando seu filho https://spsp.org.br/orientacao-aos-pais-sobre-dislexia-entendendo-e-apoiando-seu-filho/ Thu, 14 Nov 2024 16:00:54 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48917 A dislexia é um transtorno de aprendizagem que afeta a habilidade de ler e processar a linguagem escrita. De acordo com as diretrizes da Classificação Internacional]]>

A dislexia é um transtorno de aprendizagem que afeta a habilidade de ler e processar a linguagem escrita. De acordo com as diretrizes da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), é categorizada como um transtorno específico de aprendizagem, caracterizando-se por dificuldades significativas na leitura e na ortografia, que não são atribuíveis a outros fatores.

A dislexia é uma condição neurológica que afeta a capacidade de decodificar palavras e compreender textos. Não está relacionada à inteligência. Crianças com dislexia podem ser muito inteligentes e criativas, mas podem encontrar desafios ao lidar com a leitura.

É essencial que as famílias busquem intervenções educacionais precoces e baseadas em evidências. As terapias e programas educacionais devem incluir instrução específica em decodificação, treinamento de fluência, vocabulário e compreensão. A intervenção precoce e a referência a profissionais qualificados são cruciais para alcançar os melhores resultados possíveis.

O ambiente familiar e o estilo parental também desempenham um papel significativo. Um ambiente de alfabetização em casa deve incluir atividades de leitura regulares e de qualidade entre pais e filhos. Estilos parentais que demonstram calor emocional e evitam superproteção e criação ansiosa estão associados a melhores resultados em aprendizagem acadêmica.

Estudos indicam que a dislexia está frequentemente associada a dificuldades no processamento auditivo básico, especialmente na percepção de sons da fala. A integração audiovisual, que envolve a combinação de informações auditivas e visuais, também é prejudicada em indivíduos com dislexia. Esses déficits auditivos podem ser melhorados com treinamento audiovisual, o que sugere uma plasticidade do sistema auditivo em resposta a intervenções específicas.

Portanto, enquanto a dislexia não é causada por problemas visuais, há evidências de que alterações no processamento auditivo desempenham um papel significativo na manifestação dos sintomas da dislexia. Intervenções educacionais baseadas em evidências que abordam essas dificuldades auditivas podem ser benéficas para indivíduos com dislexia.

Além disso, é importante desmistificar a relação entre dislexia e problemas de visão. Embora problemas de visão possam coexistir com a dislexia, eles não são mais prevalentes do que na população geral e não são a causa da dislexia. Terapias visuais, como exercícios oculares, não têm eficácia comprovada no tratamento da dislexia e podem atrasar a aplicação de intervenções eficazes.

Os sinais de dislexia podem aparecer na infância, mas muitas vezes são reconhecidos mais tarde, quando as demandas escolares aumentam.

Sinais comuns de dislexia:

  • Dificuldade em associar sons às letras.
  • Dificuldade em reconhecer letras e palavras.
  • Leitura lenta e com muitos erros.
  • Problemas para compreender o que é lido ou escrito.
  • Dificuldades na soletração e na escrita.
  • Frustrações quando se trata de atividades relacionadas à leitura.

Como apoiar seu filho:

  1. Informe-se: Conheça mais sobre a dislexia, suas causas e como ela se manifesta. O entendimento é fundamental para lidar com a situação de forma adequada.
  2. Busque avaliação profissional: Caso você perceba dificuldades de aprendizagem, é essencial procurar avaliação com um profissional qualificado, converse com seu pediatra, ele pode orientar e encaminhar para uma avaliação foniátrica. Descartar outras causas de transtorno de aprendizagem, como alterações visuais, auditivas e intelectuais é muito importante, pois o diagnóstico preciso ajudará na escolha das melhores intervenções.
  3. Comunique-se com a escola: É importante manter um diálogo aberto com os professores e a escola. Informe-os sobre o diagnóstico e discuta a implementação de estratégias de ensino adaptativas, como o uso de leituras em voz alta ou a utilização de tecnologias assistivas.
  4. Crie um ambiente positivo: Incentive a leitura em casa, oferecendo livros que sejam interessantes para seu filho e tornando a leitura uma atividade agradável. Valorize os esforços e conquistas dele, por menores que sejam.
  5. Mantenha paciência e apoio: O aprendizado pode ser mais desafiador, e pode levar tempo para que seu filho desenvolva habilidades de leitura. Esteja ao lado dele, oferecendo apoio emocional e ajudando-o a lidar com a frustração que pode surgir.

A dislexia é parte da jornada de aprendizado do seu filho, e com as intervenções corretas e o ambiente de apoio, ele pode alcançar seu potencial pleno durante o processo educativo. O amor, a compreensão e a paciência são essenciais enquanto vocês navegam por esse processo.

 

Relatora:
Sulene Pirana

Secretária do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Mais informação, menos preconceito* https://spsp.org.br/mais-informacao-menos-preconceito/ Mon, 03 Apr 2023 18:59:27 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=36840 Em 2007, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 2 de abril como o “Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo”, com o intuito de difundir informações e consequen]]>

Em 2007, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 2 de abril como o “Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo”, com o intuito de difundir informações e consequentemente reduzir a discriminação e o preconceito que cercam as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O autismo foi descrito pela primeira vez em 1943, mas só em 1980 passou a ser reconhecido como uma condição específica do neurodesenvolvimento, constando no Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM), criado pela Associação Americana de Psiquiatria.

Desde então, temos acompanhado um aumento progressivo na prevalência do TEA no mundo todo. Desde 2000, O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) faz, a cada 2 anos, uma estimativa da prevalência de autismo no país entre crianças de 8 anos. Inicialmente, a prevalência era estimada em 1 para cada 150 crianças. Em 2010, esse número já era de 1 para cada 68 crianças e os dados mais recentes estimam que 1 a cada 36 crianças de 8 anos nos EUA seja autista. Isso corresponde a um aumento na prevalência de TEA de 317% desde 2000.

 

Fonte: https://tacanow.org/press-release/autism-prevalence-is-now-1-in-36/

 

Esses dados nos levam à inevitável reflexão a respeito dos motivos que estariam por trás desse aumento tão significativo. Podemos citar mudanças sociais e culturais que levam a fatores de risco para o TEA, como idade avançada dos pais (principalmente do pai), aumento das taxas de prematuridade extrema, de baixo peso ao nascer e de gestações múltiplas. Outros fatores ambientais são ainda estudados, como mudança dos hábitos alimentares e aumento da poluição.

Entretanto, essa elevação tão relevante na prevalência tem certamente como principal impulsionador o aumento dos diagnósticos de TEA. Isso ocorreu em decorrência do surgimento de melhores ferramentas para uso clínico, maior difusão de conhecimento e capacitação de profissionais de saúde e amplas campanhas para triagem ativa de TEA nas consultas de puericultura, como a realizada pela Academia Americana de Pediatria (AAP) desde 2006 e pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) desde 2017. Isso permitiu uma melhor acuidade no diagnóstico precoce, assim como o diagnóstico de casos com sintomas mais leves e com menor grau de suporte. Somado a isso, passamos por mudanças nos critérios diagnósticos, como a adoção de um termo único “Transtorno do Espectro do Autismo”, em vez de diversos diagnósticos independentes (síndrome de Asperger, transtorno invasivo do desenvolvimento, transtorno desintegrativo da infância, entre outros), a partir do DSM-5, em 2013. Houve também uma mudança acerca do conhecimento da população leiga a respeito do TEA e hoje as famílias e educadores já são muito mais atentos a sinais de alerta e mais aptos a buscar avaliações e terapias precocemente.

Por fim, o desenvolvimento de terapias eficazes direcionadas para o TEA fez necessária a formalização do diagnóstico para que os indivíduos pudessem ter acesso aos tratamentos, seja no setor público, seja no setor privado de saúde.

Além disso, podemos refletir sobre as mudanças na sociedade quanto à inclusão e à valorização das diferenças. Isso possibilitou que mais pessoas passassem a conviver com indivíduos com autismo em suas relações diretas (seja na escola, no trabalho, na família e nos mais diversos equipamentos sociais).

O autismo não é uma doença, não é uma “condição”, mas sim um jeito de funcionar no mundo, com características que podem levar a dificuldades de adaptação a condições usuais, como alterações no processamento sensorial (podendo ser hipo ou hiper-responsivo a estímulos sensoriais); presença de estereotipias ou movimentos repetitivos; presença de rituais e apego a rotinas e organização; dificuldade de interpretação de linguagem não verbal (gestos e expressões); dificuldade de interpretação de metáforas, de expressões não literais e de duplo sentido ou de fazer inferências; hiperfoco em alguma atividade ou assunto.

A maior compreensão do diagnóstico de autismo permite que toda a sociedade possa se adaptar e não restringir o seu olhar às dificuldades, agindo em comunidade para que possamos ter o prazer e os ganhos de vivermos e conhecermos pessoas que contribuem às nossas construções coletivas, muito além de uma impressão reducionista e “pré-julgadora”.

Esse importante movimento, encabeçado principalmente por pais de crianças com diagnóstico e pelos adultos que buscaram essa identificação, mesmo que tardiamente, tem contribuído para uma sociedade mais tolerante, diversa e rica. E esses ganhos se estendem também para outras diferenças e minorias representativas.

 

*tema da campanha de conscientização sobre o autismo de 2023.

 

Relatoras:

Mariana Facchini Granato
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Larissa Rezende Mauro
Membro do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

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