Dependência – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Mon, 31 Aug 2026 19:53:38 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Dependência – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Bets, best e bestas https://spsp.org.br/bets-best-e-bestas/ Mon, 31 Aug 2026 19:51:54 +0000 https://spsp.org.br/?p=58745 Setembro Laranja: Combate à obesidade infantil | SPSP Vocês se lembram da Lei de Gerson (Gerson de Oliveira Nunes, ex-jogador e meio-campista da Seleção Brasileira tricampeã mundial em 1970)? Era a propaganda de uma marca de cigarro, Vila Rica, que dizia algo como “levar vantagem em tudo”. A ideia original da agência de publicidade era remeter à “lei da vantagem” do futebol, sugerindo que o consumidor levava mais produto pagando menos. Com o passar dos anos, a frase foi desvinculada do produto e passou a simbolizar o “jeitinho brasileiro” de agir com malandragem para obter benefício próprio em qualquer situação. O próprio ex-jogador Gerson lamentou publicamente por décadas ter ficado associado a esse sentido negativo, a Lei de Gerson. Na mesma época, Pelé não fez propaganda de cigarro ou bebida alcoólica. O consumo de cigarros caiu muito no nosso meio e a bebida alcoólica vem diminuindo entre os adolescentes (Lenad 2023/25). Mas surgem novas atrações que seguem características semelhantes à dependência de cigarros e álcool. Na Copa do Mundo houve uma avalanche de publicidade de casas de apostas na imprensa e nas transmissões esportivas e sabemos que o resultado disso foi e será atingir a renda e a saúde mental das famílias brasileiras. O sistema de dependência de jogatina e apostas é o mesmo da dependência de álcool, cigarros e outras drogas. Pesquisas recentes já mostraram que essas plataformas geram vício e são uma das principais causas de endividamento no país. Mas Danilo Luiz, o lateral da Seleção Brasileira, contrariou os seus colegas da seleção, ao ser um dos primeiros a utilizar as redes sociais para criticar a divulgação de plataformas de apostas on-line. Filipe Luis, técnico de futebol, também recusou ofertas milionárias que ligariam sua imagem às bets. Pelé seguramente não faria propaganda de bets, pela mesma razão que não fez propaganda das drogas lícitas, álcool e tabaco. Como quase tudo no Brasil, os nossos mandatários vão permitir que a desgraça ocorra no nosso meio para depois vir com medidas protetoras ou tratamento no SUS para a dependência de jogos. Sabemos que uma vez instalada a dependência, muitos não sairão dessa vida, semelhante ao que ocorreu com o tabaco. Comemoramos 17 anos da lei de ambiente fechado livre do tabaco em São Paulo (2009) e 12 anos no Brasil (2014), e mesmo assim estamos presenciando o uso de vapes (cigarros eletrônicos), com propaganda livre na internet. O mecanismo de atrelar o cigarro e a cerveja ao esporte, assim como as bets, é “do mal”. E o setor de marketing continua insistindo nessa tecla. A propaganda de cigarro na mídia está proibida, mas a propaganda indireta continua. Mbappé, jogador francês, não conseguiu passar para a final da Copa, mas deixou uma mensagem muito bonita em vídeo: ele diz com suas próprias palavras que a Seleção Francesa estava promovendo bets e sua seleção estava inspirando muitas pessoas nesse mau caminho. Diz que muitos de nós vêm de lugares onde as bets destroem um número incalculável de pessoas e ele disse à sua equipe e à sua mãe que ele não jogaria pela Seleção. Responderam o que as pessoas pensariam dele, e ele respondeu que não se importava. Venceu! O que faz jogadores ou pessoas famosas se renderem a ofertas de dinheiro, que já possuem de sobra, para ajudar a lesar a população, principalmente os menos afortunados, tanto na área da saúde como na área financeira? Atletas não deveriam associar o uso de drogas lícitas ou ilícitas e mesmo jogos com o esporte. Termino com a frase de Charles Chaplin, que disse: “Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco”. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Gastemos um tempo com nossos filhos ou netos comentando atitudes que previnem e que não serão logo esquecidas. A esses atletas não fica a derrota de uma partida, mas fica a decência e o amor ao próximo. Relator: João Paulo Becker Lotufo Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas da SPSP]]> Setembro Laranja: Combate à obesidade infantil | SPSP

Vocês se lembram da Lei de Gerson (Gerson de Oliveira Nunes, ex-jogador e meio-campista da Seleção Brasileira tricampeã mundial em 1970)? Era a propaganda de uma marca de cigarro, Vila Rica, que dizia algo como “levar vantagem em tudo”. A ideia original da agência de publicidade era remeter à “lei da vantagem” do futebol, sugerindo que o consumidor levava mais produto pagando menos.

Com o passar dos anos, a frase foi desvinculada do produto e passou a simbolizar o “jeitinho brasileiro” de agir com malandragem para obter benefício próprio em qualquer situação. O próprio ex-jogador Gerson lamentou publicamente por décadas ter ficado associado a esse sentido negativo, a Lei de Gerson.

Na mesma época, Pelé não fez propaganda de cigarro ou bebida alcoólica. O consumo de cigarros caiu muito no nosso meio e a bebida alcoólica vem diminuindo entre os adolescentes (Lenad 2023/25). Mas surgem novas atrações que seguem características semelhantes à dependência de cigarros e álcool.

Na Copa do Mundo houve uma avalanche de publicidade de casas de apostas na imprensa e nas transmissões esportivas e sabemos que o resultado disso foi e será atingir a renda e a saúde mental das famílias brasileiras.

O sistema de dependência de jogatina e apostas é o mesmo da dependência de álcool, cigarros e outras drogas. Pesquisas recentes já mostraram que essas plataformas geram vício e são uma das principais causas de endividamento no país.

Mas Danilo Luiz, o lateral da Seleção Brasileira, contrariou os seus colegas da seleção, ao ser um dos primeiros a utilizar as redes sociais para criticar a divulgação de plataformas de apostas on-line. Filipe Luis, técnico de futebol, também recusou ofertas milionárias que ligariam sua imagem às bets. Pelé seguramente não faria propaganda de bets, pela mesma razão que não fez propaganda das drogas lícitas, álcool e tabaco.

Como quase tudo no Brasil, os nossos mandatários vão permitir que a desgraça ocorra no nosso meio para depois vir com medidas protetoras ou tratamento no SUS para a dependência de jogos. Sabemos que uma vez instalada a dependência, muitos não sairão dessa vida, semelhante ao que ocorreu com o tabaco.

Comemoramos 17 anos da lei de ambiente fechado livre do tabaco em São Paulo (2009) e 12 anos no Brasil (2014), e mesmo assim estamos presenciando o uso de vapes (cigarros eletrônicos), com propaganda livre na internet.

O mecanismo de atrelar o cigarro e a cerveja ao esporte, assim como as bets, é “do mal”. E o setor de marketing continua insistindo nessa tecla. A propaganda de cigarro na mídia está proibida, mas a propaganda indireta continua.

Mbappé, jogador francês, não conseguiu passar para a final da Copa, mas deixou uma mensagem muito bonita em vídeo: ele diz com suas próprias palavras que a Seleção Francesa estava promovendo bets e sua seleção estava inspirando muitas pessoas nesse mau caminho. Diz que muitos de nós vêm de lugares onde as bets destroem um número incalculável de pessoas e ele disse à sua equipe e à sua mãe que ele não jogaria pela Seleção. Responderam o que as pessoas pensariam dele, e ele respondeu que não se importava. Venceu!

O que faz jogadores ou pessoas famosas se renderem a ofertas de dinheiro, que já possuem de sobra, para ajudar a lesar a população, principalmente os menos afortunados, tanto na área da saúde como na área financeira? Atletas não deveriam associar o uso de drogas lícitas ou ilícitas e mesmo jogos com o esporte.

Termino com a frase de Charles Chaplin, que disse: “Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco”. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.

Gastemos um tempo com nossos filhos ou netos comentando atitudes que previnem e que não serão logo esquecidas. A esses atletas não fica a derrota de uma partida, mas fica a decência e o amor ao próximo.


Relator:
João Paulo Becker Lotufo

Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas da SPSP

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Maconha: o que pouca gente te conta https://spsp.org.br/maconha-o-que-pouca-gente-te-conta/ Wed, 29 Apr 2026 11:10:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=56769 A maconha costuma ser vista como algo “leve”, “natural” e sem grandes consequências. Mas a realidade, principalmente para quem ainda está em fase de crescimento, é bem diferen]]>

A maconha costuma ser vista como algo “leve”, “natural” e sem grandes consequências. Mas a realidade, principalmente para quem ainda está em fase de crescimento, é bem diferente. O cérebro de adolescentes e jovens continua em desenvolvimento até por volta dos 25 anos. E é exatamente nesse período que a maconha pode causar mais impacto.

O principal componente, o THC (tetra-hidrocanabinol), interfere em áreas importantes do cérebro, como memória, atenção, tomadas de decisões e controle de emoções.

Nem tudo acontece no momento do uso: alguns efeitos vão surgindo com o tempo, como ansiedade e crises de pânico, desmotivação, alterações de sono etc. Alguns jovens podem ter depressão e quadros psicóticos.

“Mas todo mundo usa…”

Mentira. Nem todo mundo usa! E quem usa, nem sempre está bem. Muitos escondem dificuldades na escola, problemas emocionais, dependência. Sim, dependência! Principalmente em quem iniciou o uso cedo.

Fique atento aos sinais de alerta: precisa usar com frequência, sem interesse por outras coisas, não consegue parar, mesmo querendo.

O uso também aumenta riscos de acidentes (dirigir ou andar de bike), decisões impulsivas e outras situações de risco.

A maconha sai caro – e vira prioridade sem você perceber! No começo parece pouco, mas vira gasto fixo. Dinheiro que poderia ser usado em viagens, esportes, namoro. E quando o uso aumenta, o custo acompanha, sendo que em alguns casos a pessoa começa a priorizar a droga acima de outras coisas.

No fim, você paga não só com dinheiro – mas com oportunidades.

Se você ainda não se convenceu que não é uma boa o uso, aqui vão mais alguns pontos:

  • O uso no Brasil não é liberado. A maconha está ligada à Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006). Porte para uso pessoal não é considerado crime com prisão, mas pode gerar abordagem policial, registro, advertência e comparecimento ao juiz. Pode trazer uma quantidade grande de problemas. E na prática, a distinção entre usuário e traficante nem sempre é clara.
  • Você não sabe nem o que está consumindo. Diferente de um remédio, não existe controle de qualidade. Pode ter concentração muito alta de THC, pode estar misturada a outras substâncias e ter até contaminação com bactérias, etc. Ou seja: você nunca sabe exatamente o que está entrando no seu corpo.

Se você está atrás de boas emoções, vá praticar esportes. Ao se exercitar, seu corpo libera endorfinas (causam sensação de bem-estar e redução da dor), dopamina (origina recompensa e motivação), serotonina (gera melhora do humor). É um prazer progressivo e duradouro, diferentemente do prazer artificial do uso da maconha e sem os efeitos deletérios mencionados acima.

Nem todo prazer vale o preço que cobra depois. Você não precisa de química para ser quem você pode ser.

 

Relatora:

Tania Zamataro
Presidente do Núcleo de Estudos do Combate ao Uso de Drogas da SPSP
Coordenadora do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Todo mundo usa https://spsp.org.br/todo-mundo-usa/ Tue, 24 Mar 2026 18:54:54 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55552 ]]>

É muito comum ouvirmos dos jovens que atendemos que todo mundo bebe e todo mundo usa drogas. Talvez naquele grupo que o jovem frequenta a maioria possa ser usuária, mas analisando os dados do LENAD III – UNIFESP, colhidos em 2023 e publicados recentemente, percebe-se que a coisa não é bem como o jovem coloca.

Em relação à bebida alcoólica, 48,8% da população brasileira com mais de 14 anos nunca bebeu, 57,5% não consumiu álcool no último ano e 69,9% não bebeu nada no último mês. Em relação aos adolescentes, apenas 25,8% dos homens e 29,5% das mulheres consumiram álcool na vida; 16,7% e 21,6% no último ano e 12,4% e 8,5% no último mês.

O grande problema, fora a iniciação precoce, é que dos que bebem na população adulta, 35,7% dos homens e 26,8% das mulheres o fazem em BINGE, ou seja, um consumo excessivo e descontrolado (4 ou 5 doses em 2 horas). Não é alcoólico só aquele que bebe todo ou quase todo dia (5,6%), mas também aquele que bebe em binge, ou aquele que tem um consumo pesado episódico (6 ou mais doses em uma única ocasião).

Levando-se em conta que o jovem diz que “todos bebem”, o mesmo ocorre com as outras drogas: Não é todo mundo que usa álcool ou outras drogas, aliás, de longe, a maioria não usa. Os dados do LENAD III mostram que 6,2% da população masculina adolescente usou cannabis na vida. Comparado com 2012, houve um aumento de 1,5%, sendo que a novidade é que as mulheres estão usando mais do que os homens (4,6% p 7,9%). No último ano, apenas 3,4% (2,3% homens e 4,6% mulheres). Os sintomas neuropsiquiátricos autorrelatados associados ao uso de cannabis em usuários de 14 anos foram:

 


 

Ou seja, 85% da população com 14 anos ou mais nunca usou. Dos usuários, um terço continuou usando (6%), e destes, mais de um terço desenvolve dependência.

Dos usuários, de 30% a 40% pode ter distúrbios ou transtornos relacionados à droga, pois os estudos mostram que os dados são maiores do que a autopercepção.

Em relação à cocaína, os dados são menos prevalentes, mas não deixam de ser assustadores: 94,6% da população brasileira nunca experimentou, mas destes que utilizaram alguma vez, um terço seguiu usando e a maioria desenvolveu dependência. Portanto, não é todo mundo que usa; o consumo entre adolescentes está caindo.

A pergunta que se deve fazer AO JOVEM é: “Vale a pena correr o risco?” Se você pertence a um grupo onde “todo mundo bebe”, você está num grupo errado, pois “a maioria não bebe”. Isto vale para todas as drogas.

 

Relator:
João Paulo Becker Lotufo
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas da SPSP

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Alerta aos pais, familiares e adolescentes: cigarros eletrônicos (vapes e pods) não são inofensivos https://spsp.org.br/alerta-aos-pais-familiares-e-adolescentes-cigarros-eletronicos-vapes-e-pods-nao-sao-inofensivos/ Wed, 11 Mar 2026 18:52:51 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55414 Hoje, com o uso cada vez mais comum dos cigarros eletrônicos, muitos jovens – e também seus pais – estão começando a perceber algo]]>

Hoje, com o uso cada vez mais comum dos cigarros eletrônicos, muitos jovens – e também seus pais – estão começando a perceber algo preocupante: a forte dependência de nicotina que esses dispositivos causam. Há adolescentes que já não conseguem assistir a uma aula inteira sem sair da sala para “vaporizar”, ou que usam escondido no fundo da classe, já que a fumaça quase não tem cheiro. Muitos dizem que não fumam – apenas “vaporizam”. Mas o efeito no corpo é real e perigoso.

Esses aparelhos contêm altas doses de nicotina, uma substância que causa vício rapidamente, além de diversos produtos químicos tóxicos que prejudicam os pulmões, o coração e o cérebro – especialmente em crianças e adolescentes, que ainda estão em desenvolvimento.

Quem usa vape pode ter de cinco a seis vezes mais nicotina no sangue do que quem fuma o cigarro tradicional. Com isso, a dependência é maior e parar se torna muito mais difícil.

Esse fenômeno não é por acaso. Existe um marketing bem planejado de uma indústria que aumentou a concentração de nicotina e criou sabores doces e agradáveis para atrair cada vez mais jovens, formando consumidores por muitos anos. Os sabores de frutas, menta e doces facilitam o início do uso e passam a falsa ideia de algo inofensivo. É importante reforçar: vape não é vapor de água! É um aerossol cheio de substâncias prejudiciais, incluindo metais pesados, produtos cancerígenos e compostos que podem causar inflamações graves nos pulmões.

Esses dispositivos foram divulgados como uma alternativa “menos prejudicial”, mas já se sabe que podem causar doenças pulmonares graves e precoces, tão sérias quanto problemas conhecidos, como o enfisema. Além disso, muitas informações falsas circulam nas redes sociais, minimizando os riscos e incentivando o uso entre adolescentes.

Outro ponto preocupante é quando adultos acabam normalizando o consumo – seja usando vape junto com os filhos ou tratando isso como algo sem perigo. O exemplo dentro de casa tem enorme influência.

Estudos mostram que:
 • Quando os pais fumam, cerca de metade dos filhos tende a repetir o hábito
 • Quando os pais não fumam, esse número cai muito
 O mesmo acontece com o consumo de álcool.

Ou seja, o comportamento da família faz grande diferença.

É verdade que nem todas as pessoas que fumam terão doenças graves, mas o risco existe – e aumenta muito quando há histórico familiar de câncer ou problemas respiratórios. O tabagismo pode multiplicar essas chances.

Muitos jovens começam por curiosidade com amigos, às vezes aos 12 ou 13 anos, e quando os pais percebem, o uso já se tornou diário.

O consumo começa cada vez mais cedo e traz riscos reais à saúde.

Vale a pena correr esse risco?

Cuidar hoje é proteger o futuro.

 

Relatores:

Marina Buarque de Almeida
João Paulo Lotufo
Núcleo de Estudos do Combate ao Uso de Drogas da SPSP

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Um convite ao cuidado, ao diálogo e à prevenção https://spsp.org.br/um-convite-ao-cuidado-ao-dialogo-e-a-prevencao/ Fri, 20 Feb 2026 12:09:09 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55136 O Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado em 20 de fevereiro, é mais do que uma data no calendário: é um alerta para famílias, escolas e toda a sociedade sobre]]>

O Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado em 20 de fevereiro, é mais do que uma data no calendário: é um alerta para famílias, escolas e toda a sociedade sobre um tema que começa cada vez mais cedo e pode impactar profundamente o desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Por que falar sobre isso desde cedo?

O uso de álcool e outras drogas na adolescência traz riscos severos e muitas vezes irreversíveis, pois ocorre em uma fase crítica de maturação cerebral. O cérebro humano continua em desenvolvimento até cerca dos 25 anos. Durante a infância e a adolescência, áreas fundamentais para tomada de decisões, controle dos impulsos, planejamento e avaliação de riscos ainda estão amadurecendo. O uso precoce de álcool e outras drogas pode interferir nesse processo e aumentar o risco de desenvolver problemas de memória e atenção, ansiedade e depressão, psicose – incluindo esquizofrenia, comportamentos de risco e dependência química na vida adulta (quanto mais cedo o início de uso de drogas, maior o risco de dependência, do desenvolvimento de transtornos mentais associados e de alterações de comportamento).

Álcool também é droga e das mais perigosas para adolescentes. Existe uma falsa ideia de que o álcool é “menos grave” por ser legalizado. Seu uso está associado a maior impulsividade, redução da capacidade de julgamento, exposição a acidentes, violências, relações sexuais desprotegidas e a maior chance de experimentar outras substâncias. Nenhuma quantidade é segura para adolescentes.

O maior fator de proteção ainda mora dentro de casa: o vínculo familiar é uma das mais poderosas medidas de segurança. O adolescente que se sente ouvido, que tem espaço para conversar sem medo, apresenta menor risco de uso de álcool e drogas. O exemplo fala ainda mais alto. Crianças aprendem muito mais pelo que observam do que pelo que escutam. Portanto, vale a reflexão: como o álcool aparece na rotina da família? Ele está associado à diversão obrigatória? Existe consumo exagerado em frente aos filhos? A família é um espaço de proteção, quando os pais se preocupam com as atitudes dos filhos e os desencorajam a atitudes consideradas de risco.

Prevenir o uso de drogas não significa criar uma redoma, mas formar jovens capazes de fazer escolhas seguras mesmo quando os pais não estão por perto. Muitos pais têm receio de abordar o assunto por medo de “dar ideias”. A ciência mostra exatamente o oposto: crianças e adolescentes que conversam abertamente com seus pais têm menor risco de uso precoce de álcool e drogas. A disponibilidade de informações, adquiridas por diálogos e observação acerca do consumo de drogas e suas complicações, e os laços afetivos entre pais e filhos são importantes para a redução das possibilidades do uso das drogas.

Para você que é adolescente e está lendo este texto:

Ser independente não é fazer tudo que os outros fazem: é ter coragem de dizer não e de fazer o que é melhor para você. Você tem uma vida inteira pela frente. Não arrisque!!!

No Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, transforme o silêncio em conversa, o medo em orientação e a informação em proteção.

De olho no vício!

 

Saiba mais:

  1. Alcohol e-cigarettes, cannabis: concerning trends in adolescent substance use, shows new WHO/Europe report. Disponível em: https://www.who.int/europe/news/item/25-04-2024-alcohol–e-cigarettes–cannabis–concerning-trends-in-adolescent-substance-use–shows-new-who-europe-report
  2. Monteiro MG. Alcohol and public health in the Americas: a case for action. Washington, D.C: PAHO, © 2007. Disponível em -https://www.who.int/docs/default-source/substance-use/alcohol-public-health-americas.pdf?sfvrsn=9227a4f_2
  3. WHO: Neurociencia del consumo y dependencia de sustancias psicoactivas. Washington, D.C: OPS© 2005. Disponível em: https://www.who.int/docs/default-source/substance-use/neuroscience-spanish.pdf

 

Relatora:

Tania Zamataro
Presidente do Núcleo de Estudos do Combate ao Uso de Drogas da SPSP
Coordenadora do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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O Dia dos Filhos em quatro palavras https://spsp.org.br/o-dia-dos-filhos-em-quatro-palavras/ Tue, 23 Sep 2025 16:14:53 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=53283 ]]>

O Dia dos Filhos é celebrado todo dia 23 de setembro. Essa data comemorativa parece um tanto estranha; afinal, todo ser humano é filho (ou filha). Já nasce nessa condição, uma vez que não há vida humana fruto de geração espontânea. Nesse sentido, essa data poderia ser nomeada de ‘Dia do Ser Humano’.

Então, qual é o objetivo dessa comemoração?

A ciência, hoje, nos possibilita gerar descendentes sem que saibamos de que matriz genética o novo ser tenha vindo. As atuais técnicas de inseminação e fertilização garantem o sucesso dessa empreitada. Então, podemos ter filhos (ou filhas) que não sabem quem são seus pais biológicos. Hoje, ainda, necessitamos de um útero de mulher para gerar um novo ser humano. Em teoria e na ficção científica, entretanto, existe a possibilidade de que essa gestação se dê em úteros artificiais. Com o cenário descrito, a figura do(a) genitor(a) pode se tornar confusa e despersonalizada, esmaecendo o protagonismo e o glamour dessa função.

Todos somos filhos(as), porém, nem todos os filhos(as) são pais ou mães.

Uma palavra emerge da ‘desconstrução’ feita acima, neste texto – a palavra CUIDADO. Nossa espécie, diferentemente das outras, não produz descendentes aptos para a vida, plenos para o exercício da sua autonomia. Eles necessitam de cuidados por um período longo até ganharem a sua independência. Outra palavra aflora – DEPENDÊNCIA.

Que ensino, então, deve ser resgatado na data que estamos comemorando?

O que nasce frágil e despreparado necessita de cuidados que devem lhe ser prestados necessariamente, sob o risco de que, em faltando, a vida desse novo ser corre perigo. Há uma relação a ser desenvolvida entre um e outro – o que carece de cuidados e aqueles que os oferecem. Outra palavra surge – RELACIONAMENTO.

Esse relacionamento, entretanto, é um processo peculiar, que deve ser urdido e fundamentado num elemento essencial – AFETO. Essa é mais uma palavra a chamar nossa atenção.

Parece que estas quatro palavras salientadas dão sentido à comemoração deste dia: CUIDADO DEPENDÊNCIA – RELACIONAMENTO – AFETO.

Os filhos são um dom da vida e não uma posse, como bem lembrou o poeta:

“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas do anelo da Vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora estejam convosco, a vós não pertencem.”¹

Filhos nos constrangem a amar e cuidar, educar sem aprisionar. Eles nos convidam a viver o amor de modo inteiro, mesmo nos gestos pequenos – um abraço, uma conversa, uma presença. Outro poeta já nos havia alertado:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”²

O Dia dos Filhos tem como objetivo: Valorizar o papel dos filhos na vida familiar; Fortalecer vínculos afetivos entre pais, mães e filhos; Promover momentos de convivência e diálogo dentro da família; Ressaltar a importância do cuidado, da educação e do afeto na relação entre gerações. É, também, uma maneira de incentivar a reflexão sobre os direitos das crianças e adolescentes, aproximando o sentido da comemoração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 

Saiba mais:

  1. O profeta. Khalil Gibran, 1923.
  2. Odes (reunidas na edição de Poemas de Ricardo Reis, 1946. (Fernando Pessoa utilizou nessa obra um de seus heterônimos.)

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Prevenir é sempre o melhor remédio! https://spsp.org.br/prevenir-e-sempre-o-melhor-remedio/ Thu, 20 Feb 2025 11:38:15 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50299 Em um cenário de crescentes desafios relacionados ao consumo de substâncias, o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo se apresenta como uma oportunidade]]>

Em um cenário de crescentes desafios relacionados ao consumo de substâncias, o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo se apresenta como uma oportunidade indispensável para refletirmos sobre a prevenção do uso indevido de drogas e álcool, sobretudo entre os jovens. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019 do IBGE revelou vários dados sobre o comportamento e a segurança de estudantes de 13 a 17 anos:

  • 22,6% dos estudantes já experimentaram cigarro
  • 26,9% dos estudantes já experimentaram narguilé
  • 16,8% dos estudantes já experimentaram cigarro eletrônico
  • 63,3% dos estudantes já experimentaram bebida alcoólica
  • 13% dos estudantes já experimentaram alguma droga ilícita

Em um contexto em que a adolescência é marcada por intensas transformações físicas e emocionais, a exposição a drogas e ao álcool pode causar consequências devastadoras, afetando não apenas a saúde física, mas também o desenvolvimento psicológico e social dos jovens:

  • Desenvolvimento Cerebral: O cérebro adolescente passa por importantes processos de maturação, especialmente nas áreas de controle de impulsos e funções executivas. A exposição a drogas pode interferir na formação de conexões sinápticas, afetando a aprendizagem, a tomada de decisões e o autocontrole.
  • Risco de Dependência: O sistema de recompensa do cérebro, fortemente influenciado pela dopamina, é particularmente sensível nessa fase, o que aumenta a vulnerabilidade à dependência e ao abuso de substâncias.
  • Consequências a Longo Prazo: Alterações no sistema nervoso central durante o desenvolvimento podem predispor o indivíduo a problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e outros transtornos neuropsiquiátricos.

A falta de informação dos pais e adolescentes é também responsável pelo aumento do uso de drogas. Ainda há um certo clima na sociedade de que o cigarro eletrônico não faz mal à saúde, mas isto não é verdade. As doenças relacionadas ao tabaco estão aparecendo mais cedo e mais intensamente. Será que os pais sabem que o álcool e a maconha podem diminuir o aprendizado e afastar os filhos das escolas? Será que os pais sabem que pode haver destruição cerebral com o uso de álcool e/ou maconha e esta é definitiva? Será que os pais sabem que, depois de grande ingestão de bebida alcoólica, o cérebro encolhe de 2 a 4 mm e demora 7 meses para voltar ao normal?

A Sociedade de Pediatria São Paulo reconhece a ameaça do uso de álcool e drogas na adolescência e apoia a iniciativa do Projeto Dr. Bartô para a prevenção de drogas lícitas e ilícitas.

Aumente seu conhecimento através de literatura médica confiável e tire dúvidas no site: https://www.drbarto.com.br/. Os 12 passos para pais prevenirem o uso de drogas na adolescência são:

  • Passo 1: Família unida e com limites
  • Passo 2: Estimular o diálogo em família
  • Passo 3: Refeição com a família unida
  • Passo 4: Ter o conhecimento do que as crianças fazem no tempo livre
  • Passo 5: Supervisionar os deveres de casa dos filhos
  • Passo 6: Demonstrar que tem orgulho dos filhos
  • Passo 7: Incentivar atividades artísticas, culturais e esportivas
  • Passo 8: Envolvimento em atividades voluntárias e sociais
  • Passo 9: Praticar a espiritualidade
  • Passo 10: Estimular boas amizades
  • Passo 11: Não fumar e não beber em excesso
  • Passo 12: Ser um bom exemplo em todos os sentidos

Em resumo, é fundamental que os pais se mantenham vigilantes e engajados na vida dos seus filhos, criando um ambiente de diálogo aberto e de apoio contínuo, que permita identificar precocemente sinais de risco e oferecer orientações claras sobre os perigos do consumo de drogas. Ao investir em educação, supervisão e comunicação honesta, os responsáveis podem fortalecer a autoestima e a resiliência dos jovens, capacitando-os a fazer escolhas mais conscientes. Dessa forma, o envolvimento parental torna-se um pilar essencial na prevenção do uso de substâncias, contribuindo para o desenvolvimento saudável dos filhos e para a construção de um futuro mais seguro e promissor.

 

Saiba mais:

  1. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020.
  2. Lotufo JPB. Álcool, tabaco, maconha e cigarro eletrônico são drogas pediátricas. 2a edição. 2024.
  3. Sociedade Brasileira de Pediatria. 12 Passos. São Paulo: SBP; 2020. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/12_passos_final_06out2020_final_p_sbp_071020__002_.pdf.

 

Relatores:

Denise Swei Lo
João Paulo Lotufo
Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas por Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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“Nosso cérebro é construído por nós mesmos” https://spsp.org.br/nosso-cerebro-e-construido-por-nos-mesmos/ Tue, 31 May 2022 18:21:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=32746 Quanto mais precoce o início da experimentação dessas drogas, maior o risco da dependência. A fisiologia dessa indução ao vício é a mesma – satisfação do desejo determinante de prazer e a droga é usada para fazer esse papel.]]>

O cérebro vai sendo moldado pelo meio, pelas experiências e por meio de mediadores vai construindo canais neurais e modelando sua plasticidade. Charles Sherrington (Prêmio Nobel 1942) escreveu em Man on his nature: “o cérebro humano parece um tear encantado, em que milhões de lançadeiras muito velozes vão tecendo um padrão que se desfaz, um padrão sempre significativo, mas nunca permanente… Enfim, o cérebro humano acha-se sempre em estado de fluxo.”

Crianças e adolescentes, em especial, são mais suscetíveis a alguns fatores externos que podem interferir na construção dessa máquina extraordinária. 

O tabaco é uma droga, assim como a maconha, a cocaína, o álcool e os meios eletrônicos. Quanto mais precoce o início da experimentação dessas drogas, maior o risco da dependência. A fisiologia dessa indução ao vício é a mesma – satisfação do desejo determinante de prazer.

Aqui damos atenção especial ao tabaco, uma vez que no dia 31 de maio comemora-se o Dia Mundial sem Tabaco.

As primeiras publicações alertando sobre os efeitos do tabaco na saúde foram publicadas na Revista Lancet em 1858, daí em diante o mundo tem se conscientizado dos riscos que os fumantes correm, produzindo leis protetivas. 

 

Alertamos, a seguir, para alguns fatores de risco associados ao uso do tabaco:

 

1.Problemas cognitivos e mentais.

2.Déficit de atenção com hiperatividade.

3.Perda de memória.

4.QI mais baixo em adolescente.

5.Quanto mais se fuma menor é a atividade do córtex pré-frontal (região do cérebro determinante para a tomada de decisões).

6.Plasticidade neural afetada.

7.Transtornos do humor.

8.Nicotina na adolescência danifica as vias produtoras de serotonina no cérebro, facilitando o desenvolvimento de quadros depressivos.

9.A ingestão de nicotina a longo prazo aumenta a tolerância ao álcool, ou seja, é necessário ingerir mais álcool para produzir um mesmo efeito.

10.Adolescentes que fumam são 9 vezes mais suscetíveis a receber o diagnóstico de abuso de álcool e 13 vezes mais suscetíveis a receber o diagnóstico de abuso e dependência de outras drogas.

 

A fumaça de cigarros contém mais de 7.000 substâncias, dentre as quais pelo menos 69 são carcinogênicas, também afeta a saúde das crianças, podendo acarretar: síndrome da morte súbita, otites de repetição, bronquiolite, asma, prematuridade e prejuízo no desenvolvimento cerebral do feto.

A decisão de parar de fumar está também em nossas mãos, juntos devemos apoiar as pessoas com as ferramentas e os recursos necessários, com iniciativas que permitirão salvar vidas e criar sociedades mais saudáveis.

 

Saiba mais:

  1. LOTUFO, João Paulo Becker. Álcool, tabaco e maconha: drogas pediátricas: o envolvimento do pediatra e da família na prevenção. [S.l: s.n.], 2016.
  2. Instituto Nacional do Câncer (INCA). Tabagismo. Disponível em: https://www.inca.gov.br/tabagismo

 

Relator:

Fernando MF Oliveira

Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: piotr marcinski | depositphotos.com

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