Contos de Fadas – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Tue, 06 May 2025 17:36:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Contos de Fadas – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Brincar com as ideias https://spsp.org.br/brincar-com-as-ideias/ Fri, 28 Mar 2025 14:24:23 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50732 ]]>

Os contos de fadas descrevem “estados mentais” por meio de imagens e ações. Basta, por exemplo, dizer que “Cinderela todos os dias ia ao túmulo da mãe e chorava”, para externar o grau de infelicidade; ou, dizer que “o herói estava perdido numa floresta impenetrável e densa, sem saber que caminho tomar, desesperado para encontrar uma saída”, para descrever o estado de desconforto.

Um bom conto de fadas deve ter algumas características essenciais: fantasia, recuperação, escape, ameaça à existência física e moral do herói (ou heroína) e consolo profundo, características salientadas por Tolkien e Bruno Bettelheim*. Os contos de fadas apontam em geral, para uma reviravolta feliz, na qual o herói (ou heroína) se sente recompensado (após tanto desconforto e medo) e a pessoa má encontra a merecida sorte, a punição da maldade, para satisfazer o senso comum de justiça. O consolo se completa com a volta ao lar, com o encontro da(o) amada(o), a posse do reino – onde não há sensação de abandono algum.

Toda criança acredita em magia, mas deixa de fazê-lo quando cresce. Por isso, é infundada a preocupação de alguns pais de que a exposição aos contos de fadas possa levar ao arrebatamento de seus filhos pelas fantasias e que passem a crer em encantamentos. Outros temem que a saturação da mente infantil por contos de fadas as atrapalhe a lidar com a realidade. O oposto é que é verdadeiro: as fantasias contêm, sob a forma de imaginação, uma variedade de questões também encontradas na realidade. As fantasias alimentam o ego,  oferecendo um abundante material com que trabalhar, tornando-se essenciais para a formação da personalidade e ajudam a moldar a forma de como ver o mundo.

Os pensamentos de uma criança pequena não acontecem de um modo ordenado, como os do adulto – as fantasias da criança são seus pensamentos. Quando uma criança tenta entender a si própria e aos outros, ou imaginar quais as consequências possíveis de uma ação, ela tece fantasias em torno dessas questões. É sua maneira de “brincar com as ideias”.

Sem fantasias para nos dar esperanças, não temos força para enfrentar as adversidades da vida. A infância é a época em que essas fantasias precisam ser alimentadas. Os contos de fadas são uma ferramenta extraordinária para atingir esse objetivo.

 

Saiba mais:

– J. R. Tolkien. Tree and leaf. Boston: Houghton Mifflin, 1965.

– De Bettelheim, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2009.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Três desejos https://spsp.org.br/tres-desejos/ Mon, 03 Feb 2025 19:17:58 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50104 ]]>

“Ah, seu eu tivesse o …”. Nesses três pontinhos – as famosas reticências, se encaixam uma profusão de anelos (desejos intensos) humanos. São tantos e tão diferentes, que o conto de fadas faz uma condição: são apenas três desejos que serão atendidos. O conto original escocês “Três Desejos” talvez seja uma das mais conhecidas histórias sobre desejos.

Se lhe fosse concedido o direito de satisfazer três desejos, quais seriam eles?

Pense bem e não desperdice essa oportunidade rara.

Nesse conto,” um homem recebe esse favor”, só que ele faz pouco caso dele. De volta ao lar, a esposa lhe serve a sopa de todo dia no jantar. “Sopa de novo! Queria um pudim”, diz ele, e prontamente o pudim aparece. A mulher exige saber como isso aconteceu, ele narra sua aventura. Furiosa por ele ter desperdiçado um dos desejos com tal ninharia, ela exclama: “Queria que o pudim estivesse sobre sua cabeça!”, um desejo que é imediatamente satisfeito. “Lá se vão dois desejos! Queria que o pudim não estivesse sobre a minha cabeça”, diz o homem. E lá se foram os três desejos”.

Está implícito, neste conto, que desejar é uma atitude que necessita ser encarada com responsabilidade: afinal, o desejo pode vir a ser realizado. Seja por vias naturais, de esforço pessoal, por dádiva de alguém ou por um poder sobrenatural, como nos contos de fadas.

A vontade de transformar a realidade de maneira súbita, sem esforço, por meio de uma estratégia sobrenatural, está no imaginário das pessoas, movendo-as a apostar na loteria ou participar de programas como o “Big Brother”. O problema é que a felicidade pode não estar na realização de tais desejos. Podemos pedir mal.

Afinal o que é essa tal “felicidade”?

Os contos de fadas podem transmitir algumas lições valiosas para as crianças e para todos nós:

  1. Cuidado com o que deseja. Este conto, em particular, destaca a importância de ser cuidadoso ao pedir algo. As consequências podem ser negativas, devido à forma como o desejo foi expressado.
  2. Gratidão e contentamento. O conto pode ensinar às crianças serem gratas pelo que têm, em vez de sempre desejar mais. Mostra como a ganância e o desejo constante por mais podem levar a problemas.
  1. Responsabilidade. Ao ver os resultados dos desejos dos personagens, as crianças podem aprender sobre responsabilidade e pensar nas possíveis ramificações de suas próprias ações antes de agir.
  2. Valorização das relações. Em alguns contos de fadas os personagens podem desejar riquezas ou poder, mas, eventualmente, percebem que o verdadeiro tesouro está nas relações e nas coisas simples da vida. Isso pode ensinar às crianças a importância da amizade, família e amor.
  3. Autoconhecimento. Às vezes, os personagens descobrem que o que realmente desejam está dentro de si mesmos, como coragem, bondade ou sabedoria. Isso pode inspirar as crianças a buscar autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
  4. Consequências das ações. Os contos de fadas muitas vezes mostram repercussões e impactos tanto para nós mesmos quanto para os outros ao nosso redor.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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A psicanálise e os contos de fadas https://spsp.org.br/a-psicanalise-e-os-contos-de-fadas/ Fri, 01 Nov 2024 19:48:49 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48726 ]]>

Vivendo e aprendendo. Quando eu era criança, minha mãe lia histórias infantis e contos de fadas para os filhos. Quando fui pai, repeti com os meus filhos o que aprendi e vivenciei – li livros infantis para eles. Eu sabia que era uma coisa boa e agora a ciência consegue explicar porquê isso é bom.

A criança vivencia o mundo concreto de forma diferente. Às vezes, a mãezinha querida que a acolhe e a enche de beijos e carinho pode se transformar, de repente, na madrasta má, personagem malévola dos contos de fadas, só porque em dado momento a criança se sentiu humilhada por ter recebido uma bronca, por ter molhado acidentalmente as calças, por exemplo. “Como pode a minha própria mãe agir de modo totalmente diferente?” A criança pequena experimenta o mundo como inteiramente gracioso ou como um total inferno; é como ela coloca alguma ordem em sua visão de mundo – dividindo tudo em opostos.

Os contos de fadas podem ajudar a criança na solução de problemas difíceis de entender como este, do exemplo acima. Nesta situação, a criança, ao ouvir a narrativa de uma história, pode criar duas personagens separadas em sua mente: a ‘mãezinha querida’ e a ‘madrasta má’. A fantasia da ‘madrasta má’ não só conserva intacta a mãe boa, como também impede os sentimentos de culpa em relação aos pensamentos e desejos coléricos a seu respeito – uma culpa que interferiria seriamente na boa relação com a mãe.

As crianças consideram as histórias reais, verídicas e acreditam que possam ocorrer de fato. De acordo com Bruno Bettelheim: “os contos de fadas retratam de forma simbólica os passos essenciais para o crescimento e para a aquisição de uma existência independente”. (pg.106)

Os personagens dos contos de fadas são unidimensionais: são a ferocidade encarnada ou a benevolência altruísta. Um animal ou é só devorador ou só prestativo. Isso possibilita à criança compreender com facilidade suas ações e reações, por meio de imagens simples e diretas. Estas histórias ajudam a criança a organizar seus sentimentos complexos e ambivalentes, de modo que cada um começa a ocupar um lugar separado, em vez de serem todos uma grande mistura.

“Até mesmo Freud não encontrou melhor maneira de ajudar a dar sentido à incrível mistura de contradições que coexistem em nossas mentes e vidas interiores do que criar símbolos para aspectos isolados da personalidade. Chamou-os de id, ego e superego. Se nós, como adultos, temos que recorrer à criação de instâncias separadas para trazer alguma ordem sensível ao caos de nossas experiências interiores, quão maior é essa necessidade na criança!”. (pg. 108)

As abstrações criadas por Freud parecem “entidades” separadas, que muitas vezes são contraditórias. Esses conceitos podem ser abstratos e algumas vezes são convenientes para lidar com ideias que, sem serem “colocadas para fora, seriam difíceis de ser compreendidas. Na realidade, não há nenhuma separação entre elas, assim como não há separação entre corpo e mente.

Essas reflexões não são muito diferentes das imagens e símbolos dos contos de fadas.

Saiba mais:

As páginas assinaladas no corpo deste texto se referem ao livro que recomendo fortemente a leitura: A psicanálise dos contos de fadas. Bruno Bettelheim; tradução Arlene Caetano. 44ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Contos de fadas – uma dádiva de amor https://spsp.org.br/contos-de-fadas-uma-dadiva-de-amor/ Thu, 05 Sep 2024 15:29:29 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47884 ]]>

Muitos contos de fadas começam com a famosa expressão “Era uma vez…”, acrescida de alguma outra qualificação: “num certo país distante…”, ou “numa época em que os animais falavam…”. “Esses começos sugerem que o que se segue não pertence ao aqui e agora que conhecemos (…) simboliza que estamos deixando o mundo concreto da realidade comum”. A lógica e a causalidade normais estão suspensas. É exatamente por essa peculiaridade que os contos de fadas nos levam, sem nos apercebermos, ao universo do nosso inconsciente, que é igualmente estranho, distante. O conto de fadas leva a criança “para dentro” da história e, através da identificação com algum dos personagens e/ou situações, ocorrem crescimento e amadurecimento.

“Quando todos os anseios da criança passam a ser corporificados numa fada boa; seus desejos destrutivos, numa bruxa má; seus medos, num lobo voraz; as exigências de sua consciência, num homem sábio encontrado numa aventura; sua raiva ciumenta, em algum animal que ataca seus rivais – então ela pode começar a organizar suas tendências contraditórias.” (pg. 95).

O fundador da Psicanálise – Freud, diz “que só o homem consegue extrair um sentido da sua existência”. Isso pressupõe que o mundo real seja reconhecido e identificado, com suas dores e alegrias. Isso vale para crianças, também; entretanto, uma crença prevalente entre os pais é que a criança deve ser poupada, sempre, de situações que lhe tragam desagrado ou dificuldades – é querer que uma criança viva numa bolha de proteção absoluta. É um engano.

“… a mensagem que os contos de fadas transmitem à criança de forma variada é que a luta contra dificuldades na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que, se a pessoa não se intimida e se defronta com as provações, pode conseguir dominar os obstáculos e, ao fim, poderá emergir vitoriosa”. (pg.15)

Por essa razão, Lewis Carrol chamou os contos de fadas de uma “dádiva de amor”.

Ler ou ouvir um conto de fadas tem o poder de incentivar a imaginação da criança. Não é necessário nenhum livro supercolorido, com paisagens em 3D, ou desenhos e mais desenhos. Essa sofisticação pode até roubar aquilo que a própria história poderia suscitar na imaginação da criança.

Siga o gênio!!!

“Se você quer que crianças sejam inteligentes, leia contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Albert Einstein

 

Saiba mais:

As páginas assinaladas no corpo deste texto se referem ao livro, que recomendo fortemente a leitura: A psicanálise dos contos de fadas. Bruno Bettelheim; tradução Arlene Caetano. 44ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

 

Relator:

Fernando MF Oliveira

Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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