Cesárea – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Thu, 10 Dec 2015 14:49:19 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Cesárea – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Permanecer no útero por mais uma semana é vantajoso para o recém-nascido? https://spsp.org.br/permanecer-no-utero-por-mais-uma-semana-e-vantajoso-para-o-recem-nascido/ Thu, 10 Dec 2015 14:49:19 +0000 https://comunidadespsp.wordpress.com/?p=1048 Recentemente, a sociedade brasileira tem sido bombardeada por perguntas que não necessariamente eram feitas há alguns anos por casais aguardando a chegada de seu filho: existe algum risco em se marcar a data do parto? O parto cesáreo pode ser considerado, neste início de século XXI, tão ou mais seguro do que o parto normal? Vários segmentos da sociedade se manifestaram em relação a estes temas, algumas vezes de maneira apaixonada e até passional. Porém, consideramos fundamental que a Sociedade de Pediatria de São Paulo também se manifeste, à luz do conhecimento técnico científico necessário para que a população possa ser informada de maneira isenta e equilibrada. Vamos aos fatos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é atualmente o país com maior incidência de parto cesáreo no mundo. Enquanto que em 1970 as cesáreas representavam 15% do total de nascimentos no País, hoje elas representam cerca de 52% dos três milhões de partos feitos anualmente no Brasil, segundo o estudo Nascer no Brasil, coordenado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reunindo informações de 23.894 gestantes atendidas em 2011 e 2012 em 266 hospitais (públicos, privados e mistos) de 191 municípios brasileiros. Já nas maternidades privadas brasileiras as taxas são tão altas quanto 85-90%. Apenas para comparação, a taxa de parto cesáreo recomendada pela OMS é ao redor de 15%. Estima-se que, no Brasil, pelo menos 20 a 25% dos partos cirúrgicos são decorrentes de cesáreas programadas, sem indicação obstétrica. Embora o parto cesáreo seja fundamental em situações de risco ou de emergência para a mãe ou para o bebê, estas indicações representam apenas uma pequena fração. Em sua maioria, os partos cirúrgicos não são indicados por complicações obstétricas, ou ainda são realizados por solicitação da mãe, que muitas vezes não conhece os riscos desta decisão para si e para seu filho. O risco para o bebê está associado ao nascimento antes do tempo, quando ele ainda não está completamente pronto para a vida fora do útero. Segundo a OMS, uma gestação humana saudável dura entre 37 e 41 semanas, período que recebeu a denominação de Gestação de Termo. Até alguns anos atrás se considerava que todos os bebês de termo tinham o mesmo risco de ficar doentes ou de morrer após o nascimento, e que este risco era muito baixo. Hoje sabemos que isso não é verdade. Os recém-nascidos de termo com menos de 39 semanas de gestação têm um risco maior de desenvolver complicações após o nascimento, principalmente em relação à sua capacidade de respirar normalmente fora do útero. Essa falha de adaptação respiratória após o nascimento é ainda maior quando o bebê nasce de parto cesáreo sem que a mãe tenha entrado em trabalho de parto, pois as contrações (ou o trabalho de parto) contribuem de maneira muito importante para o preparo final dos pulmões do bebê, permitindo uma respiração normal após o nascimento. De fato, pesquisadores brasileiros demonstraram, em um estudo publicado em 2012, que bebês nascidos com 37 semanas de gestação por parto cesáreo sem trabalho de parto tinham maior risco de internação hospitalar e de óbito. Outro problema associado ao excesso de cesáreas é o aumento da taxa de prematuridade (definida pela OMS como nascimento antes de 37 semanas de gestação), pois não é incomum ocorrer um erro no cálculo da idade gestacional do bebê, o que poderia determinar o nascimento uma ou duas semanas antes do tempo adequado. Nesse sentido, (um) outro estudo de pesquisadores brasileiros publicado em 2008 já apontava um aumento nas taxas de prematuridade no Brasil, particularmente o grupo de prematuros tardios (crianças entre 34 e 37 semanas de gestação). A maior prevalência da prematuridade resulta em um maior risco do bebê desenvolver problemas de adaptação à vida fora do útero, particularmente problemas respiratórios, que determinam a sua internação na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Além da preocupação e da frustração dos pais em decorrência da internação de seu bebê na UTIN, há um aumento dos custos associados ao atendimento do recém-nascido, que podem ser significativos. Quais são as alternativas que os pais dispõem hoje para garantir um nascer seguro e saudável para o seu filho? Sem dúvida uma adequada assistência obstétrica é fundamental, evitando-se o nascimento desnecessário antes da hora e escolhendo-se a via de parto mais adequada para cada situação em particular, seja o parto vaginal, em gestações sem complicações, seja o parto cesáreo, quando houver clara e precisa indicação por risco materno ou do bebê. Nesse sentido, o diálogo franco dos pais com o obstetra e, quando possível, com o pediatra que fará o acompanhamento (do recém-nascido) após o nascimento, é a melhor opção para se fazer a escolha mais adequada para o nascimento do bebê. ___ Relator: Dr. Celso Moura Rebello Departamento Científico de Neonatologia da SPSP. Publicado em 10/12/2015. photo credit: ggomang | pixabay.com Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos. Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.]]>

pregnantRecentemente, a sociedade brasileira tem sido bombardeada por perguntas que não necessariamente eram feitas há alguns anos por casais aguardando a chegada de seu filho: existe algum risco em se marcar a data do parto? O parto cesáreo pode ser considerado, neste início de século XXI, tão ou mais seguro do que o parto normal?

Vários segmentos da sociedade se manifestaram em relação a estes temas, algumas vezes de maneira apaixonada e até passional. Porém, consideramos fundamental que a Sociedade de Pediatria de São Paulo também se manifeste, à luz do conhecimento técnico científico necessário para que a população possa ser informada de maneira isenta e equilibrada.

Vamos aos fatos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é atualmente o país com maior incidência de parto cesáreo no mundo. Enquanto que em 1970 as cesáreas representavam 15% do total de nascimentos no País, hoje elas representam cerca de 52% dos três milhões de partos feitos anualmente no Brasil, segundo o estudo Nascer no Brasil, coordenado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reunindo informações de 23.894 gestantes atendidas em 2011 e 2012 em 266 hospitais (públicos, privados e mistos) de 191 municípios brasileiros. Já nas maternidades privadas brasileiras as taxas são tão altas quanto 85-90%. Apenas para comparação, a taxa de parto cesáreo recomendada pela OMS é ao redor de 15%. Estima-se que, no Brasil, pelo menos 20 a 25% dos partos cirúrgicos são decorrentes de cesáreas programadas, sem indicação obstétrica.

Embora o parto cesáreo seja fundamental em situações de risco ou de emergência para a mãe ou para o bebê, estas indicações representam apenas uma pequena fração. Em sua maioria, os partos cirúrgicos não são indicados por complicações obstétricas, ou ainda são realizados por solicitação da mãe, que muitas vezes não conhece os riscos desta decisão para si e para seu filho.

O risco para o bebê está associado ao nascimento antes do tempo, quando ele ainda não está completamente pronto para a vida fora do útero. Segundo a OMS, uma gestação humana saudável dura entre 37 e 41 semanas, período que recebeu a denominação de Gestação de Termo. Até alguns anos atrás se considerava que todos os bebês de termo tinham o mesmo risco de ficar doentes ou de morrer após o nascimento, e que este risco era muito baixo. Hoje sabemos que isso não é verdade. Os recém-nascidos de termo com menos de 39 semanas de gestação têm um risco maior de desenvolver complicações após o nascimento, principalmente em relação à sua capacidade de respirar normalmente fora do útero. Essa falha de adaptação respiratória após o nascimento é ainda maior quando o bebê nasce de parto cesáreo sem que a mãe tenha entrado em trabalho de parto, pois as contrações (ou o trabalho de parto) contribuem de maneira muito importante para o preparo final dos pulmões do bebê, permitindo uma respiração normal após o nascimento. De fato, pesquisadores brasileiros demonstraram, em um estudo publicado em 2012, que bebês nascidos com 37 semanas de gestação por parto cesáreo sem trabalho de parto tinham maior risco de internação hospitalar e de óbito.

Outro problema associado ao excesso de cesáreas é o aumento da taxa de prematuridade (definida pela OMS como nascimento antes de 37 semanas de gestação), pois não é incomum ocorrer um erro no cálculo da idade gestacional do bebê, o que poderia determinar o nascimento uma ou duas semanas antes do tempo adequado. Nesse sentido, (um) outro estudo de pesquisadores brasileiros publicado em 2008 já apontava um aumento nas taxas de prematuridade no Brasil, particularmente o grupo de prematuros tardios (crianças entre 34 e 37 semanas de gestação).

A maior prevalência da prematuridade resulta em um maior risco do bebê desenvolver problemas de adaptação à vida fora do útero, particularmente problemas respiratórios, que determinam a sua internação na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Além da preocupação e da frustração dos pais em decorrência da internação de seu bebê na UTIN, há um aumento dos custos associados ao atendimento do recém-nascido, que podem ser significativos.

Quais são as alternativas que os pais dispõem hoje para garantir um nascer seguro e saudável para o seu filho? Sem dúvida uma adequada assistência obstétrica é fundamental, evitando-se o nascimento desnecessário antes da hora e escolhendo-se a via de parto mais adequada para cada situação em particular, seja o parto vaginal, em gestações sem complicações, seja o parto cesáreo, quando houver clara e precisa indicação por risco materno ou do bebê.

Nesse sentido, o diálogo franco dos pais com o obstetra e, quando possível, com o pediatra que fará o acompanhamento (do recém-nascido) após o nascimento, é a melhor opção para se fazer a escolha mais adequada para o nascimento do bebê.

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Relator:
Dr. Celso Moura Rebello
Departamento Científico de Neonatologia da SPSP.

Publicado em 10/12/2015.
photo credit: ggomang | pixabay.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.

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Cesárea: consequências imediatas e futuras https://spsp.org.br/cesarea-consequencias-imediatas-e-futuras/ Thu, 11 Jun 2015 12:09:58 +0000 https://comunidadespsp.wordpress.com/?p=932 A cesárea é a intervenção mais antiga no campo da cirurgia abdominal, concebida – reza a lenda – 100 anos antes de Cristo e é um procedimento muitas vezes salvador para a mãe e o feto. Porém, ocorre hoje em alta prevalência, sem justificativas, em muitos países (incluindo o Brasil). Além das já conhecidas intercorrências no período neonatal, onde Síndrome de Desconforto Respiratório, Síndrome de Retardo de Absorção de Líquido Pulmonar, Hipertensão Pulmonar e, por vezes, sérias complicações advindas destas situações são, frequentemente, consequência de intervenções mal indicadas, a avaliação errada da idade gestacional pode culminar em nascimentos prematuros. Recentemente, vários estudos vêm encontrando correlação entre esta modalidade de nascimento e ocorrência futura de obesidade, asma, dermatite e diabetes tipo 1, ocorrendo com risco duas vezes maior que em crianças nascidas de parto vaginal (4,8% vs. 2,2%). Estudos brasileiros indicam prevalência mais elevada (33%) de obesidade em crianças nascidas por cesariana e quase 50% mais alta aos 19 anos, quando comparados com as crianças nascidas de parto vaginal. A flora intestinal dos nascidos por cesariana é menos numerosa em bifidobactérias e mais colonizada por outros patógenos, devido à privação do contato com as bactérias encontradas principalmente no canal de parto e reto maternos, com consequente desbalanço no microbioma (inclusive com uma flora semelhante à que se vê em indivíduos diabéticos) – esta é uma das hipóteses que fundamentam os achados. Estudos noruegueses sugerem prevalência de asma significativamente mais elevada nos primeiros 36 meses de vida em crianças nascidas por cesariana. Diante disso, indicações criteriosas devem ser respeitadas e encorajadas, e cesáreas, sem justificativas plausíveis, questionadas, papel este que cabe aos pais e pediatras. ___ Relator: Dr. Paulo Pachi Departamento Científico de Neonatologia da SPSP. Publicado em 11/06/2015. photo credit: GGOMANG | pixabay.com Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos. Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.]]>

pregnant-women-395151_640A cesárea é a intervenção mais antiga no campo da cirurgia abdominal, concebida – reza a lenda – 100 anos antes de Cristo e é um procedimento muitas vezes salvador para a mãe e o feto. Porém, ocorre hoje em alta prevalência, sem justificativas, em muitos países (incluindo o Brasil). Além das já conhecidas intercorrências no período neonatal, onde Síndrome de Desconforto Respiratório, Síndrome de Retardo de Absorção de Líquido Pulmonar, Hipertensão Pulmonar e, por vezes, sérias complicações advindas destas situações são, frequentemente, consequência de intervenções mal indicadas, a avaliação errada da idade gestacional pode culminar em nascimentos prematuros.

Recentemente, vários estudos vêm encontrando correlação entre esta modalidade de nascimento e ocorrência futura de obesidade, asma, dermatite e diabetes tipo 1, ocorrendo com risco duas vezes maior que em crianças nascidas de parto vaginal (4,8% vs. 2,2%).
Estudos brasileiros indicam prevalência mais elevada (33%) de obesidade em crianças nascidas por cesariana e quase 50% mais alta aos 19 anos, quando comparados com as crianças nascidas de parto vaginal. A flora intestinal dos nascidos por cesariana é menos numerosa em bifidobactérias e mais colonizada por outros patógenos, devido à privação do contato com as bactérias encontradas principalmente no canal de parto e reto maternos, com consequente desbalanço no microbioma (inclusive com uma flora semelhante à que se vê em indivíduos diabéticos) – esta é uma das hipóteses que fundamentam os achados.

Estudos noruegueses sugerem prevalência de asma significativamente mais elevada nos primeiros 36 meses de vida em crianças nascidas por cesariana.

Diante disso, indicações criteriosas devem ser respeitadas e encorajadas, e cesáreas, sem justificativas plausíveis, questionadas, papel este que cabe aos pais e pediatras.

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Relator:
Dr. Paulo Pachi
Departamento Científico de Neonatologia da SPSP.

Publicado em 11/06/2015.
photo credit: GGOMANG | pixabay.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Risco de obesidade infantil pode dobrar com cesárea https://spsp.org.br/risco-de-obesidade-infantil-pode-dobrar-com-cesarea-2/ Fri, 22 Nov 2013 11:00:57 +0000 http://comunidadespsp.wordpress.com/?p=328 A revista Veja divulgou estudo que reafirma a teoria de que crianças nascidas por cesárea têm mais possibilidades de serem obesas. A pesquisa, publicada na revista Archives of Disease in Childhood e realizada no Hospital da Infância de Boston, nos Estados Unidos, acompanhou 1.255 crianças nascidas entre 1999 e 2002 no próprio hospital, desde as 22 semanas de gestação até os três anos, sendo que 284 nasceram por cesárea. Dos bebês nascidos por parto natural, apenas 7,5% sofriam de obesidade aos três anos; dos nascidos por cesárea, 15,7% eram obesos nessa idade. De acordo com os pesquisadores, isso se deve às diferenças na composição da flora intestinal entre os nascidos por parto natural ou por cesárea – há uma maior incidência de bactérias ‘firmicutes’ no grupo de bebês de cesariana. Segundo outros estudos, essa bactéria está presente nos intestinos de pessoas que sofrem de obesidade e é considerada uma das responsáveis pelo ganho de peso de forma descontrolada. Além disso, outro motivo deve ser levado em consideração: as cesarianas são mais frequentes entre mães obesas e isso também poderia facilitar o sobrepeso dos filhos. FONTE: Veja, 24 de maio de 2012 http://veja.abril.com.br/noticia/saude/cesarea-pode-dobrar-risco-de-obesidade-infantil-diz-estudo Comentário: Dra. Valdenise Martins Laurindo Tuma Calil Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SPSP. Esta pesquisa mostrou que, aos três anos de idade, havia uma probabilidade duas vezes maior de desenvolver obesidade nas crianças nascidas por parto cesárea em relação às nascidas por parto normal. Resultado semelhante foi encontrado em vários outros estudos, um dos quais coordenado pelo Prof. Marco Barbieri, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), nas décadas de 70 e 80. A causa pode ser a diferença na composição da flora intestinal das crianças nascidas por cesárea. Este tipo de parto não permite o contato do recém-nascido com a flora vaginal materna, que parece ser importante para a formação da flora intestinal da criança. Algumas bactérias presentes no canal de parto poderiam exercer estímulo benéfico sobre o sistema de defesa do ser humano em desenvolvimento; ao contrário, a falta desse estímulo afetaria seu metabolismo energético, favorecendo o aparecimento da obesidade. Pior ainda, as alterações na flora intestinal podem estar ligadas a algumas condições inflamatórias crônicas, incluindo obesidade, alergias, doença de Crohn e diabetes tipo 1. Assim a elevada porcentagem de bactérias “Firmicutes” na flora intestinal predispõe à obesidade por alguns mecanismos distintos. O primeiro tem a ver com a melhora da capacidade de extrair energia doa alimentos, pois essas bactérias são capazes de quebrar longas moléculas de açúcares (polissacarídeos indigeríveis dietéticos), que de outro modo não seriam absorvidas. Em segundo lugar, tais microrganismos contribuem para o desenvolvimento de uma inflamação sutil da mucosa intestinal, típica da obesidade. O terceiro mecanismo seria a possibilidade de regulação do material genético do indivíduo pelas bactérias intestinais, balanceando o gasto e o armazenamento de energia. Como a obesidade materna é um fator que dificulta o parto normal, realmente ocorre maior número de cesáreas em mães obesas. Mas o ganho ponderal materno excessivo durante a gestação pode ser mais prejudicial para o recém-nascido do que a obesidade materna pré-existente, pois favorece maior acúmulo de gordura pela criança. Os recém-nascidos mantidos em aleitamento materno exclusivo certamente terão menor possibilidade de desenvolver obesidade, mesmo quando nascidos por parto cesárea. Os mecanismos que determinam essa proteção ainda não estão totalmente esclarecidos, mas já se conhece alguns deles. Assim, sabe-se que a composição de nutrientes do leite humano é a ideal para suprir as necessidades do lactente. Outro fator coadjuvante é o gasto energético envolvido no ato de sugar o seio materno; enquanto o leite administrado por mamadeira é ingerido praticamente pela ação da força da gravidade, a amamentação requer esforço de toda a musculatura facial, o que contribui também para a oclusão dentária e para prevenir distúrbios da fala. Crianças em aleitamento materno param de mamar quando ficam satisfeitas, enquanto aquelas em aleitamento artificial costumam sugar até esgotar o conteúdo da mamadeira, perdendo a capacidade de atingir naturalmente a saciedade; isso pode se relacionar a episódios mais tardios de compulsão alimentar. Há ainda a questão emocional: a autoestima de crianças em aleitamento materno é sabidamente mais desenvolvida, o que reduz a ansiedade e contribui para a formação de melhor hábito alimentar futuro. Tem-se estudado, nos últimos anos, o chamado “imprinting metabólico”, segundo o qual as primeiras experiências nutricionais do indivíduo podem afetar sua suscetibilidade para doenças crônicas na idade adulta, tais como obesidade, hipertensão arterial, doença cardiovascular e diabetes tipo 2. Fica evidente, portanto, a grande contribuição do aleitamento materno nos primeiros meses de vida para a prevenção de doenças futuras, fato que precisa ser bastante divulgado. ___ Publicado no site da SPSP em 25/10/2012. photo credit: Ryzhov Sergey | Dreamstime.com Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos. Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.]]>

dreamstime_xs_13499837A revista Veja divulgou estudo que reafirma a teoria de que crianças nascidas por cesárea têm mais possibilidades de serem obesas. A pesquisa, publicada na revista Archives of Disease in Childhood e realizada no Hospital da Infância de Boston, nos Estados Unidos, acompanhou 1.255 crianças nascidas entre 1999 e 2002 no próprio hospital, desde as 22 semanas de gestação até os três anos, sendo que 284 nasceram por cesárea. Dos bebês nascidos por parto natural, apenas 7,5% sofriam de obesidade aos três anos; dos nascidos por cesárea, 15,7% eram obesos nessa idade. De acordo com os pesquisadores, isso se deve às diferenças na composição da flora intestinal entre os nascidos por parto natural ou por cesárea – há uma maior incidência de bactérias ‘firmicutes’ no grupo de bebês de cesariana. Segundo outros estudos, essa bactéria está presente nos intestinos de pessoas que sofrem de obesidade e é considerada uma das responsáveis pelo ganho de peso de forma descontrolada. Além disso, outro motivo deve ser levado em consideração: as cesarianas são mais frequentes entre mães obesas e isso também poderia facilitar o sobrepeso dos filhos.

FONTE: Veja, 24 de maio de 2012
http://veja.abril.com.br/noticia/saude/cesarea-pode-dobrar-risco-de-obesidade-infantil-diz-estudo

Comentário:
Dra. Valdenise Martins Laurindo Tuma Calil
Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SPSP.

Esta pesquisa mostrou que, aos três anos de idade, havia uma probabilidade duas vezes maior de desenvolver obesidade nas crianças nascidas por parto cesárea em relação às nascidas por parto normal. Resultado semelhante foi encontrado em vários outros estudos, um dos quais coordenado pelo Prof. Marco Barbieri, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), nas décadas de 70 e 80.

A causa pode ser a diferença na composição da flora intestinal das crianças nascidas por cesárea. Este tipo de parto não permite o contato do recém-nascido com a flora vaginal materna, que parece ser importante para a formação da flora intestinal da criança. Algumas bactérias presentes no canal de parto poderiam exercer estímulo benéfico sobre o sistema de defesa do ser humano em desenvolvimento; ao contrário, a falta desse estímulo afetaria seu metabolismo energético, favorecendo o aparecimento da obesidade.

Pior ainda, as alterações na flora intestinal podem estar ligadas a algumas condições inflamatórias crônicas, incluindo obesidade, alergias, doença de Crohn e diabetes tipo 1. Assim a elevada porcentagem de bactérias “Firmicutes” na flora intestinal predispõe à obesidade por alguns mecanismos distintos. O primeiro tem a ver com a melhora da capacidade de extrair energia doa alimentos, pois essas bactérias são capazes de quebrar longas moléculas de açúcares (polissacarídeos indigeríveis dietéticos), que de outro modo não seriam absorvidas. Em segundo lugar, tais microrganismos contribuem para o desenvolvimento de uma inflamação sutil da mucosa intestinal, típica da obesidade. O terceiro mecanismo seria a possibilidade de regulação do material genético do indivíduo pelas bactérias intestinais, balanceando o gasto e o armazenamento de energia.

Como a obesidade materna é um fator que dificulta o parto normal, realmente ocorre maior número de cesáreas em mães obesas. Mas o ganho ponderal materno excessivo durante a gestação pode ser mais prejudicial para o recém-nascido do que a obesidade materna pré-existente, pois favorece maior acúmulo de gordura pela criança.

Os recém-nascidos mantidos em aleitamento materno exclusivo certamente terão menor possibilidade de desenvolver obesidade, mesmo quando nascidos por parto cesárea. Os mecanismos que determinam essa proteção ainda não estão totalmente esclarecidos, mas já se conhece alguns deles. Assim, sabe-se que a composição de nutrientes do leite humano é a ideal para suprir as necessidades do lactente. Outro fator coadjuvante é o gasto energético envolvido no ato de sugar o seio materno; enquanto o leite administrado por mamadeira é ingerido praticamente pela ação da força da gravidade, a amamentação requer esforço de toda a musculatura facial, o que contribui também para a oclusão dentária e para prevenir distúrbios da fala. Crianças em aleitamento materno param de mamar quando ficam satisfeitas, enquanto aquelas em aleitamento artificial costumam sugar até esgotar o conteúdo da mamadeira, perdendo a capacidade de atingir naturalmente a saciedade; isso pode se relacionar a episódios mais tardios de compulsão alimentar. Há ainda a questão emocional: a autoestima de crianças em aleitamento materno é sabidamente mais desenvolvida, o que reduz a ansiedade e contribui para a formação de melhor hábito alimentar futuro.

Tem-se estudado, nos últimos anos, o chamado “imprinting metabólico”, segundo o qual as primeiras experiências nutricionais do indivíduo podem afetar sua suscetibilidade para doenças crônicas na idade adulta, tais como obesidade, hipertensão arterial, doença cardiovascular e diabetes tipo 2. Fica evidente, portanto, a grande contribuição do aleitamento materno nos primeiros meses de vida para a prevenção de doenças futuras, fato que precisa ser bastante divulgado.

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Publicado no site da SPSP em 25/10/2012.
photo credit: Ryzhov Sergey | Dreamstime.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Esta obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.

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