catástrofes – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Thu, 24 Mar 2022 12:53:40 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png catástrofes – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Por quem os sinos dobram? https://spsp.org.br/por-quem-os-sinos-dobram/ Thu, 24 Mar 2022 12:51:42 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=31718 O poeta John Donne escreveu: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como na casa de teus amigos]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 24/03/2022


O poeta John Donne escreveu: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa de teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntem por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. 

É tempo de prantear. É tempo de tristeza. É tempo de não se conformar. É tempo de esperançar.

Guerras deixam invariavelmente rastros de sangue e violência. Deixam vidas interrompidas e atingem, de forma cruel, crianças nas fases mais sensíveis do desenvolvimento biológico e psicológico do ser humano. Em tempos de guerra, os direitos das crianças são ostensivamente violados, pois são separadas de suas famílias, deixam de frequentar a escola, são impedidas de brincar em liberdade nos espaços públicos, deixam de ser cuidadas adequadamente quando doentes e correm o risco de morrer ou se ferir durante um ataque. Assim, inexoravelmente, sua integridade física e mental é agredida. Muitas vezes, a agressão sexual é também perpetrada.

Nesta guerra na Ucrânia, 7,5 milhões de crianças estão sendo afetadas. No mundo todo, segundo relatório da ONU de 2021, a guerra espalhada em cerca de 61 países repercute na vida de mais de 450 milhões de crianças.

Cabe-nos, como sociedade representativa dos profissionais médicos que cuidam das crianças e adolescentes, divulgar e reafirmar o que tratados e convenções internacionais preconizam como dever legal de proteger as crianças nas áreas de conflito. Esse processo compreende:

  • acabar com ataques deliberados e indiscriminados que matam e mutilam inocentes, entre eles crianças, e atacam os serviços dos quais elas dependem;
  • acabar com ataques a escolas, incluindo ataques e ameaças a alunos e professores, bem como o uso das mesmas para fins militares;
  • acabar com ataques a profissionais de saúde, hospitais e unidades de saúde;
  • acabar com ataques a instalações de água e saneamento;
  • defender os compromissos globais para entregar um mundo livre da ameaça de minas terrestres, restos explosivos de guerra e artefatos explosivos improvisados;
  • acabar com o recrutamento e uso de crianças e adolescentes pelas forças e grupos armados;
  • acabar com a detenção de crianças supostamente associadas às forças ou a grupos armados;
  • acabar com toda forma de violência, incluindo a sexual, contra crianças;
  • permitir que organizações humanitárias atuem em áreas de conflito, dando assistência à população civil (às crianças e suas famílias), e acolhendo refugiados.

Há uma cultura de morte vigente no mundo – enquanto ela persistir e as armas forem utilizadas como política de segurança ou de resolução de conflitos, nenhuma criança estará segura ou protegida.  Não podemos ser coniventes com governos defensores da violência e da morte.

Apesar do desencontro de informações, a guerra na Ucrânia já provocou a morte de centenas de civis (há estimativa de mais de 2,5 mil civis mortos só em Mariupol) e causou um enorme êxodo de mais de 2,8 milhões de ucranianos em busca de refúgio em outros países.  E tudo isso pra que mesmo? Segundo Freud, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela.

Queremos, como pediatras, fazer parte desse contingente de inconformados sonhadores.

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: mysokol | depositphotos.com

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As crianças e as catástrofes https://spsp.org.br/as-criancas-e-as-catastrofes/ Wed, 23 Mar 2022 13:10:20 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=31690 Nestes tempos de intensa e veloz comunicação, em que o mundo se tornou uma verdadeira “aldeia global”, como na profecia de Marshall MaCluhan, somos massacrados constantemente por notícias e imagens de tragédias naturais.]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 23/03/2022


Nestes tempos de intensa e veloz comunicação online, em que o mundo se tornou uma verdadeira “aldeia global”, concretizando a profecia feita antes por Marshall MaCluhan, somos massacrados constantemente por notícias e imagens de tragédias naturais e por aquelas provocadas pela espécie humana: guerras, crimes, atos terroristas, etc.

A mídia, no intuito de aprofundar o senso de tragédia ou de inconformismo, ressalta os números e as cenas em que as crianças são vítimas.

Choca. Dói na alma. Atiça a raiva. Aumenta o lamento. E também mobiliza as melhores qualidades humanas: compaixão, solidariedade, altruísmo, amor…e outras.

Por que as notícias sobre o sofrimento e mortes de crianças têm esse poder enorme de tocar o mais profundo dos nossos corações?

Muito já se disse e muito ainda se pode dizer. Acrescento, abaixo, alguns argumentos:

  1. Porque temos a necessidade de lamentar o nosso novo fracasso como espécie, uma vez, que cada criança que se perde é a possibilidade criativa do novo e a esperança de transformações, que se perdeu;
  2. Porque geramos filhos para a vida e não para a morte prematura ou sem sentido (qual o sentido da morte? Deixo para cada um a busca por essa resposta);
  3. Porque criamos filhos para a alegria e desejamos que encontrem felicidade ao construírem o seu caminho;
  4. Porque as nossas utopias de paz, de alegria total e plena, de necessidades satisfeitas para todos, de fraternidade, de liberdade e igualdade, esboroam-se num átimo;
  5. Porque temos necessidade de expiar a nossa culpa, de alguma forma, os guardiões das crianças indefesas, que ainda não têm a capacidade plena de discernimento e de autonomia;
  6. Porque não conseguimos ser mais inocentes, mais genuínos, mais intensos e puros de intenções, mais singelos nas necessidades, mais sinceros conosco mesmos, assim como são as crianças que perdemos;
  7. Porque nos perdemos em nossa busca de poder, em nossa ganância, em nossa falta de propósito para a vida;
  8. Porque estamos ofuscados em nossa miopia quanto ao tempo, quanto as essências da vida, incapazes de enxergar o que realmente importa.

 

O mundo não é justo. O mundo não é perfeito. Só nos resta cultivar, com vontade, a esperança, imitando uma “qualidade” da criança: a teimosia (insistência obstinada em querer o que acredita, que deseja ou que acha que é o certo a fazer).

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

Foto: hay dmitriy | depositphotos.com

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