Amizade – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 31 Jul 2026 18:27:11 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Amizade – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Aprender a ser amigo é aprender a ser humano https://spsp.org.br/aprender-a-ser-amigo-e-aprender-a-ser-humano/ Thu, 30 Jul 2026 18:25:11 +0000 https://spsp.org.br/?p=57999 “Ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que possuísse todos os outros bens” (Aristóteles). Essa observação permanece atual para qualquer indivíduo em todas as idades. A amizade é uma das experiências mais importantes do desenvolvimento humano. Se a família representa o primeiro espaço de acolhimento, é na amizade que a criança e o adolescente aprendem a construir relações escolhidas, baseadas na confiança, na reciprocidade e no respeito. O amigo é muito mais do que um companheiro de brincadeiras. É alguém com quem a criança aprende a dividir, esperar sua vez, negociar regras, lidar com frustrações, pedir desculpas e perdoar. Essas experiências, aparentemente simples, constituem um verdadeiro laboratório para o desenvolvimento das habilidades sociais e emocionais. É brincando com outras crianças que ela aprende a reconhecer emoções, desenvolver empatia e compreender que o mundo não gira apenas em torno de seus desejos. Durante essa fase, a amizade também exerce um papel protetor. Crianças que possuem vínculos afetivos consistentes tendem a apresentar maior autoestima, melhor adaptação escolar, menor risco de ansiedade e isolamento – sua sensação de pertencimento é fortalecida. A amizade também favorece o desenvolvimento cognitivo. Conversar, brincar, discutir ideias, resolver conflitos e cooperar em tarefas escolares estimulam linguagem, criatividade, pensamento crítico e capacidade de resolver problemas. Na adolescência, a amizade adquire um significado ainda mais profundo. Enquanto a família continua sendo a principal referência de segurança, os amigos tornam-se parceiros na construção da identidade. É entre os pares que o adolescente experimenta ideias, valores, opiniões e projetos de vida. Compartilha dúvidas, medos, sonhos e descobertas que, muitas vezes, não consegue expressar aos adultos. Naturalmente, nem toda influência dos amigos é positiva. O grupo pode favorecer comportamentos de risco, especialmente quando há necessidade excessiva de aceitação. Entretanto, amizades saudáveis funcionam justamente no sentido contrário: promovem apoio emocional, estimulam escolhas responsáveis, reduzem sentimentos de solidão e ajudam o jovem a enfrentar situações difíceis. Vivemos, contudo, um tempo em que as amizades enfrentam novos desafios. As redes sociais permitem manter muitos contatos, mas nem sempre aprofundam vínculos. Crianças e adolescentes podem acumular centenas de “amigos” virtuais e, paradoxalmente, sentir-se profundamente sozinhos. A verdadeira amizade exige tempo, presença, escuta, confiança e disponibilidade – elementos que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente. É fundamental que pais e educadores criem oportunidades para que crianças e adolescentes convivam, brinquem, conversem e desenvolvam amizades presenciais. Essa participação ativa e amorosa dos adultos, nesse processo, os ajudará a reconhecer relações tóxicas, lidar com conflitos e cultivar amizades baseadas no respeito mútuo. A melhor maneira de comemorar o Dia Internacional da Amizade, instituído em 30 de julho, é celebrar a vida entre amigos. Relator: Fernando MF OliveiraCoordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP]]>

“Ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que possuísse todos os outros bens” (Aristóteles). Essa observação permanece atual para qualquer indivíduo em todas as idades.

A amizade é uma das experiências mais importantes do desenvolvimento humano. Se a família representa o primeiro espaço de acolhimento, é na amizade que a criança e o adolescente aprendem a construir relações escolhidas, baseadas na confiança, na reciprocidade e no respeito. O amigo é muito mais do que um companheiro de brincadeiras. É alguém com quem a criança aprende a dividir, esperar sua vez, negociar regras, lidar com frustrações, pedir desculpas e perdoar. Essas experiências, aparentemente simples, constituem um verdadeiro laboratório para o desenvolvimento das habilidades sociais e emocionais. É brincando com outras crianças que ela aprende a reconhecer emoções, desenvolver empatia e compreender que o mundo não gira apenas em torno de seus desejos.

Durante essa fase, a amizade também exerce um papel protetor. Crianças que possuem vínculos afetivos consistentes tendem a apresentar maior autoestima, melhor adaptação escolar, menor risco de ansiedade e isolamento – sua sensação de pertencimento é fortalecida. A amizade também favorece o desenvolvimento cognitivo. Conversar, brincar, discutir ideias, resolver conflitos e cooperar em tarefas escolares estimulam linguagem, criatividade, pensamento crítico e capacidade de resolver problemas.

Na adolescência, a amizade adquire um significado ainda mais profundo. Enquanto a família continua sendo a principal referência de segurança, os amigos tornam-se parceiros na construção da identidade. É entre os pares que o adolescente experimenta ideias, valores, opiniões e projetos de vida. Compartilha dúvidas, medos, sonhos e descobertas que, muitas vezes, não consegue expressar aos adultos.

Naturalmente, nem toda influência dos amigos é positiva. O grupo pode favorecer comportamentos de risco, especialmente quando há necessidade excessiva de aceitação. Entretanto, amizades saudáveis funcionam justamente no sentido contrário: promovem apoio emocional, estimulam escolhas responsáveis, reduzem sentimentos de solidão e ajudam o jovem a enfrentar situações difíceis.

Vivemos, contudo, um tempo em que as amizades enfrentam novos desafios. As redes sociais permitem manter muitos contatos, mas nem sempre aprofundam vínculos. Crianças e adolescentes podem acumular centenas de “amigos” virtuais e, paradoxalmente, sentir-se profundamente sozinhos. A verdadeira amizade exige tempo, presença, escuta, confiança e disponibilidade – elementos que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente. É fundamental que pais e educadores criem oportunidades para que crianças e adolescentes convivam, brinquem, conversem e desenvolvam amizades presenciais. Essa participação ativa e amorosa dos adultos, nesse processo, os ajudará a reconhecer relações tóxicas, lidar com conflitos e cultivar amizades baseadas no respeito mútuo.

A melhor maneira de comemorar o Dia Internacional da Amizade, instituído em 30 de julho, é celebrar a vida entre amigos.

Relator:

Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Amizade: hábito do afeto, laço que vira virtude https://spsp.org.br/amizade-habito-do-afeto-laco-que-vira-virtude/ Wed, 30 Jul 2025 15:45:14 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=52522 Na semana retrasada, no dia 20 de julho, comemoramos o Dia do Amigo no Brasil. Hoje, 30 de julho, celebramos o Dia Internacional da Amizade. Curiosamente, é a única data]]>

Na semana retrasada, no dia 20 de julho, comemoramos o Dia do Amigo no Brasil. Hoje, 30 de julho, celebramos o Dia Internacional da Amizade. Curiosamente, é a única data comemorativa no calendário que se repete em um intervalo tão curto. Simbólico nos tempos atuais, pois deveríamos celebrar a amizade todos os dias, como um hábito cultivado com energia e constância.

Construir uma amizade — assim como adquirir um novo hábito — exige tempo, trabalho e disponibilidade afetiva. Isso desafia a lógica da chamada “Sociedade Adolescente”, termo que descreve o nosso modo de viver atual em busca de soluções instantâneas e baixa tolerância à frustração. Nessa dinâmica social, os vínculos se afrouxam, muitas vezes reduzidos às interações rasas com emojis sorridentes, foguinhos e cancelamento, através de bloqueio e delete de quem não é mais amigo ou pensa diferente.

Essa fragilidade do laço social é um dos pilares da crise de saúde mental que atinge crianças e adolescentes.  Na última Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, 30% dos adolescentes achavam que ninguém se preocupava com eles.  E a angústia avança… e se torna ainda mais profunda do que não ter nem um amigo para se apoiar. Há também uma crítica à qualidade das relações: uma das perguntas que crianças e adolescentes têm mais se perguntado ao ChatGPT é “Por que me sinto tão sozinho(a) mesmo com amigos?”.

Esses dados apontam para uma conexão direta entre o sofrimento psíquico e a falta de interlocução. Uma pesquisa recente publicada pela Harvard Business Review mostrou que, de 2024 para 2025, a busca por companhia e terapia no ChatGPT saltou de segundo para primeiro lugar entre os usos da Inteligência Artificial (IA). Diante desse cenário, nosso papel – como pediatras, hebiatras, psicanalistas – é ajudar o paciente a transferir as angústias humanas endereçadas ao robô para um Outro que o enlace nos vínculos reais e identificações que o sustente psiquicamente como sujeito.

Incentivar a amizade verdadeira é mais do que promover saúde mental — é uma aposta no outro. Exige cuidado e resiliência. É ter a capacidade de suspender momentaneamente nossas verdades para escutar ativamente às do outro. É sobre concordar em discordar. É movimento, dança; expressão, resistência. Um exercício de humanidade que vai muito além da capacidade “apaziguadora” que a IA tem a nos oferecer. Segundo o filósofo Roman Krznaric, a amizade é mais do que ter compaixão pelo outro: é ter empatia, pois trata-se de tentar ver o mundo sob a perspectiva do outro, compreendendo não apenas o que a pessoa sente, mas também por que ela sente e de que forma ela sente.

Convido o leitor, neste Dia Internacional da Amizade, a não se limitar ao 30 de julho. Que essa data se transforme em um hábito diário “de bem agir” — aquilo que Aristóteles chamava de Virtude. No século IV a.C., o filósofo grego já definia a amizade como uma virtude essencial à vida: os bens que ela proporciona — como riqueza, prestígio ou sucesso — não podem ser plenamente desfrutados ou sustentados sem a presença de amigos.          

 A amizade é uma experiência de Ser, não de ter. Como canta Emicida, “Quem tem um amigo tem tudo”.

 

Saiba mais:

 

  • BAGWELL, C. L.; SCHMIDT, M. E. The nature of friendship. In: ______. Friendships in Childhood and Adolescence. ed. New York: Guilford Press, 2011. cap. 1, p. 3–29
  • KLEIN, Marina Vasques. Adolescer: a dor e a delícia. Porto Alegre: Artmed, 2011
  • BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar: 2019. Rio de Janeiro: IBGE, 2021. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101852.pdf. Acesso em: 26 jul. 2025.
  • ZAO‑SANDERS, Marc. How People Are Really Using Gen AI in 2025. Harvard Business Review, 9 abr. 2025.
  • KRZNARIC, Roman. O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo. São Paulo: Zahar, 2015. 262 p. ISBN 978‑8537814567
  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. 6. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores).
  • Quem tem um amigo (tem tudo). Participação: Zeca Pagodinho, Tokyo Ska Paradise Orchestra, Prettos. In: AmarElo [CD]. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2019.
  • VIBES EM ANÁLISE (Podcast). Episódio “Da Rixa ao Ranço”. Apresentação: André Alves e Lucas Liedke. São Paulo: Floatvibes / Dia Estúdio, 5 jun. 2025. Disponível em: Spotify e Apple Podcasts. Acesso em: 26 jul. 2025

 

Relatora
Maíra Terra Cunha Di Sarno
Médica Pediatra e Hebiatra e Psicanalista
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo   

 

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Dia Internacional da Amizade https://spsp.org.br/dia-internacional-da-amizade-2/ Tue, 30 Jul 2024 13:43:49 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47320 Relator: Fernando MF OliveiraCoordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP]]>

No Dia Internacional da Amizade – 30 de julho – “trago à lembrança o que pode nos dar esperança”: o “Caramelo”.

“Caramelo” é o nome do cavalo símbolo da resiliência e solidariedade do povo gaúcho. Ele foi resgatado, bastante debilitado, do telhado de uma casa ilhada pelas águas do transbordamento dos rios Gravataí e Sinos, na cidade de Canoas. Permaneceu imóvel naquele lugar durante quatro dias. A imagem é marcante – é uma cena que dificilmente se apagará da memória. Igualmente incrível foi o seu resgate. Mobilizou muita gente. Houve necessidade de planejamento cuidadoso. Não faltou envolvimento nem empenho.

“Caramelo” é o símbolo do que há de melhor no ser humano – que aflorou em uma situação de tragédia: a empatia, a solidariedade, a capacidade de trabalhar em harmonia e em conjunto, a generosidade.

Essas são virtudes tão humanas quanto aqueles comportamentos recrimináveis que os humanos também são capazes de fazer. Virtudes necessitam de exemplos. Precisam ser ensinadas e estimuladas. Precisam ser cultivadas. “Ser humano significa ser consciente e ser responsável”, afirmou Viktor Frankl, criador da Logoterapia.

“Caramelo” é uma mensagem simbólica para um mundo fraturado. É também uma sinalização para todos que se importam pelo que acontece ao seu redor, pois, como recorda Jonathan Sacks: “Somente quem pergunta se o mundo deveria ser como é tem a capacidade de mudá-lo”.

Relator:

Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

 

 

 

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30 de julho – Dia Internacional da Amizade https://spsp.org.br/30-de-julho-dia-internacional-da-amizade/ Mon, 31 Jul 2023 19:49:53 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=38843 “Amigo é coisa para se guardarDebaixo de sete chavesDentro do coração” (Canção da América – Milton Nascimento) A amizade é um tesouro que descobrimos ao long]]>

“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração” (Canção da América – Milton Nascimento)

 

A amizade é um tesouro que descobrimos ao longo da jornada da vida e sua importância já começa na infância.

A amizade na infância proporciona um ambiente seguro e estimulante, para que as crianças explorem o mundo ao seu redor. Ao interagir com seus pares, elas aprendem importantes habilidades sociais, como compartilhar, colaborar, negociar e resolver conflitos. Essas interações promovem o desenvolvimento da empatia, do respeito mútuo e da capacidade de compreensão sob diferentes perspectivas.

A amizade é um alicerce importante para o desenvolvimento da autoestima e da confiança das crianças. Ao se sentirem aceitas e valorizadas por seus amigos, elas ganham segurança para explorar suas próprias habilidades, expressar suas opiniões e serem autênticas. A amizade também estimula a autoexpressão e a criatividade, uma vez que as crianças se sentem encorajadas a compartilhar ideias e brincar de forma imaginativa juntas.

Os amigos são parceiros de aventuras e cúmplices nas descobertas do mundo. Através das brincadeiras em grupo, as crianças aprendem a trabalhar em equipe, a desenvolver habilidades de liderança e a lidar com situações desafiadoras. A amizade também promove a resiliência emocional, pois os amigos estão presentes para apoiar uns aos outros nos momentos difíceis, ajudando a superar obstáculos e enfrentar adversidades com mais confiança.

As amizades na infância são um fator crucial para o desenvolvimento da linguagem e do pensamento. Ao se envolverem em conversas e trocas de ideias com os amigos, as crianças expandem seu vocabulário, aprimoram suas habilidades de comunicação e aprendem a construir argumentos e defender seus pontos de vista. Também estimulam a curiosidade intelectual, já que as crianças compartilham conhecimentos, exploram interesses comuns e descobrem novas informações juntas.

A amizade desempenha um papel fundamental na formação da identidade e do bem-estar emocional das crianças. Através da interação com amigos, as crianças aprendem a se conhecer melhor, a compreender suas emoções e a desenvolver habilidades sociais que lhes permitirão estabelecer relacionamentos saudáveis ao longo da vida.

A amizade desempenha um papel importante no ambiente educacional. A presença de amigos na sala de aula cria um ambiente acolhedor e estimulante, onde as crianças se sentem mais motivadas a participar ativamente das atividades, compartilhar ideias, colaborar em projetos conjuntos e buscar soluções criativas para os desafios propostos.

A amizade também é um elemento-chave para a promoção de uma atmosfera de respeito e inclusão. Quando as crianças desenvolvem amizades diversificadas, aprendem a valorizar as diferenças, a aceitar a individualidade de cada um e a combater o preconceito e a exclusão. A presença de amigos verdadeiros contribui para a construção de uma comunidade escolar mais solidária e empática, onde todos se sentem pertencentes e valorizados.

A amizade precisa ser cuidada e cultivada, nutrida ao longo do tempo. A amizade verdadeira é construída com base na paciência, na compreensão e no perdão. É um tesouro valioso que requer cuidado e dedicação para se manter viva e florescer.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Dia Internacional da Amizade https://spsp.org.br/dia-internacional-da-amizade/ Fri, 29 Jul 2022 12:24:47 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=33521 ]]>

 “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinícius de Moraes)

Para lembrar o Dia Internacional da Amizade, que é comemorado em 30 de julho, tenho que falar sobre como é a amizade para a criança: faz amigos com facilidade, com naturalidade. Às vezes, basta ter um brinquedo qualquer para iniciar uma comunicação, estabelecer uma troca relacional.  Nunca se viram antes, mas quando os pais perguntam quem é esse seu coleguinha, a resposta vem logo: “é meu amigo”. Amigos para o agora. 

Mas é na infância que muitos dos “Amigos para sempre” são angariados. Importante ressaltar que na grande maioria das vezes os amigos das crianças estão relacionados ao cotidiano delas, ou seja, são amigos da escola, da vizinhança, de bairros próximos, de clubes, da igreja, etc. Isso explica porque as brincadeiras são um fator fundamental para o estabelecimento desses vínculos tão fundantes da personalidade e para a maturação do desenvolvimento psicoemocional das crianças e adolescentes. A brincadeira é a forma de apresentar o mundo e a realidade às crianças. Fica patente que as amizades entre as crianças precisam de uma certa “aproximação” para se desenvolverem – brincar juntos, fazerem coisas juntos.  

O conceito de amizade vai se alterando ao longo do processo de desenvolvimento, partindo de uma ideia simplista e egocêntrica e indo até um ideal de empatia e companheirismo. A importância social das amizades é inequívoca. Sofre transformações que acompanham as mudanças sociais, culturais, econômicas, ambientais. É impactada pelos avanços tecnológicos e ganha características próprias ao longo do tempo. A amizade desempenha um papel muito importante na vida das pessoas. Esses laços de afeto nos dão conforto nos momentos tristes, e amplificam as nossas alegrias porque as dividimos.

A amizade permite que a criança desenvolva o autoconhecimento ao interagir com crianças da mesma idade, na troca de experiências e sentimentos. Nessa interação ela compreenderá melhor o que lhe agrada, do que gosta, quais brincadeiras e atividades a divertem e que tipo de pessoas ela quer manter proximidade ao longo de sua vida. Esse interagir permite, também, que desenvolva habilidades interpessoais essenciais para a vida em coletividade, aprendendo como deve se comunicar e resolver conflitos, superar adversidades, então, começa a ganhar noção de limites, da necessidade de entender a vez do outro, noção de partilha e passa a lidar com a competitividade, com as diferenças de opiniões, percebendo o conceito de lealdade e firmando confiança. Naturalmente, vai desenvolvendo o senso de comunidade, de pertencimento a algum grupo. É nesse espaço que se cultiva e se aprende a empatia, o se colocar no lugar do outro, a sentir a dor do outro. Esse espaço proporciona o aflorar da criatividade e o soltar da imaginação. Lugar onde se ganha autoestima. Na adolescência, a amizade ganha novas camadas, mais densidade e estabilidade, favorecendo um maior apoio emocional, o coleguismo, conversas mais amplas e profundas.

Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga, por isso Rubem Alves diz que: “Sabemos que estamos com um amigo quando o silêncio é confortável, quando não precisamos fingir estar bem e quando estar vulnerável não é ameaçador”.

Essa importância foi “cantada” de forma magistral pela nossa inesquecível Elis Regina, interpretando a composição de Tavito e Zé Rodrix – Uma casa no campo: “Eu quero uma casa no campo/ Do tamanho ideal, pau a pique e sapê/Onde eu possa plantar meus amigos/ Meus discos e livros e nada mais.” 

Seguindo o mesmo entendimento diz Bem Sira, no livro Sabedoria: “Um amigo fiel é um abrigo seguro; aquele que o encontrar, terá encontrado um tesouro”.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: alebloshka I depositphotos.com

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