adolescente – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Tue, 16 Jun 2026 15:12:42 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png adolescente – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Quando o corpo diz “não” https://spsp.org.br/quando-o-corpo-diz-nao/ Tue, 16 Jun 2026 15:12:01 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=57471 ]]>

Este mês é dedicado à Conscientização dos Transtornos Alimentares e, no que diz respeito a estas condições, proponho uma reflexão a partir de um caso clínico.

Marina, 15 anos, comparece à consulta acompanhada da mãe, cuja principal preocupação é o fato de a filha ter interrompido os ciclos menstruais há alguns meses. A adolescente veste um moletom largo estampado com o personagem Mickey Mouse. Durante a anamnese alimentar, mãe e filha entram em discussão sobre os hábitos alimentares. Marina acusa a mãe de também restringir a alimentação.

Ao abordar aspectos comportamentais, a mãe relata que Marina tem extrema dificuldade em se posicionar diante dos outros. Na escola, costuma responder “tanto faz” às perguntas e evita expressar preferências ou discordâncias, mesmo em situações que lhe causam sofrimento. Quando pergunto sobre o que vê nas redes sociais, responde sem muita personalidade: “o mesmo que minhas amigas”.

Na segunda parte da consulta, realizada sem a presença da mãe, observa-se uma mudança marcante em sua postura. A adolescente, antes hesitante e pouco assertiva, passa a se expressar de forma rígida e categórica. Ao falar sobre alimentação, afirma: “Não como nada que tenha mais de 200 kcal”. 

Discussão do caso clínico

O caso de Marina suscita uma questão frequente na clínica dos transtornos alimentares: em que medida o sintoma anoréxico pode expressar uma recusa das transformações inerentes à adolescência?

A adolescência exige a elaboração de importantes perdas psíquicas, frequentemente descritas como lutos pelo corpo infantil, pelo lugar protegido da infância e pelos pais idealizados. As transformações da puberdade tornam visível a perda do corpo infantil e anunciam a entrada em um corpo sexuado, submetido a novas e complexas exigências sociais, relacionais e subjetivas. Nesse contexto, o desenvolvimento corporal pode ser vivido não apenas como crescimento, mas também como legitimação da perda do lugar seguro da infância.

No caso de Marina, a amenorreia (falta da menstruação) secundária e os marcadores hormonais pré-púberes permitem pensar o sintoma alimentar como uma tentativa inconsciente de interromper ou retardar esse processo. Ao impedir a maturação corporal, a anorexia preserva características infantis do corpo e afasta, simbolicamente, aspectos da sexualidade e da feminilidade associados à puberdade. Nessa perspectiva, em alguns casos, a recusa alimentar pode ser compreendida como uma recusa do próprio crescimento.

Diante das incertezas próprias da adolescência no contexto de um mundo cheio de contradições e efemeridades, o sintoma alimentar pode funcionar como uma defesa psíquica. Em um momento marcado por mudanças corporais, conflitos de identidade e sentimentos de vulnerabilidade, a restrição alimentar proporciona uma sensação ilusória de controle. Compreender essa dimensão subjetiva não significa desconsiderar os graves riscos clínicos do transtorno, mas sim ampliar o olhar para além do sintoma alimentar, reconhecendo-o como uma expressão complexa do sofrimento psíquico.

A dinâmica familiar observada durante a consulta chama a atenção para a centralidade da alimentação nas relações interpessoais da paciente. O embate entre mãe e filha sobre quem come menos sugere um ambiente em que restrições alimentares e preocupações com peso e dieta desempenham papel relevante. Embora não se possa atribuir causalidade direta, tais modelos familiares podem influenciar a forma como adolescentes percebem alimentação, corpo e controle.

Outro aspecto marcante é a discrepância de comportamento apresentada por Marina na presença e na ausência da mãe. Inicialmente, mostra-se passiva, indecisa e excessivamente preocupada em agradar aos outros. Quando entrevistada sozinha, porém, revela rigidez cognitiva, pensamento obsessivo e regras alimentares extremamente restritivas, expressas na afirmação: “Não como nada que tenha mais de 200 kcal”. Essa mudança evidencia a importância da entrevista individual com adolescentes, permitindo o acesso a conteúdos que muitas vezes não emergiriam na presença dos pais.

Essa dinâmica parece encontrar eco no relato de Marina. Descrita como alguém que tem dificuldade em dizer “não” aos outros e frequentemente se submete às vontades alheias, incapaz de expressar seus desejos nas relações interpessoais. Se, por um lado, temos um apagamento do Eu, por outro, ele compensa quando o tema é alimentação: o que Marina não consegue negar aos outros, ela nega ao próprio corpo.

Assim, através desse caso clínico, entende-se que os transtornos alimentares, especificamente a anorexia, se apresentam como uma formação complexa, na qual se articulam conflitos relacionados ao crescimento, à sexualidade, à autonomia, à dinâmica familiar, ao se colocar perante os outros e ao controle. Mais do que um problema exclusivamente alimentar, os sintomas expressam tentativas singulares de enfrentar os desafios psíquicos impostos pela adolescência.

 

Relatora:

Maíra Terra Cunha Di Sarno
Secretária do Departamento de Adolescência da SPSP
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP

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Diálogo, informação e empatia são o caminho para a prevenção de uma gravidez precoce https://spsp.org.br/dialogo-informacao-e-empatia-sao-o-caminho-para-a-prevencao-de-uma-gravidez-precoce/ Thu, 26 Jun 2025 16:09:24 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=51994 Dia 26 de junho é o Dia Mundial de Prevenção da Gravidez na Adolescência! Muitos acham a adolescência uma fase difícil de lidar e não imaginam]]>

Dia 26 de junho é o Dia Mundial de Prevenção da Gravidez na Adolescência!

Muitos acham a adolescência uma fase difícil de lidar e não imaginam o que podem fazer para que mulheres não engravidem nessa fase.

A gravidez precoce, desejada ou não, tem como definição aquela que ocorre antes dos 20 anos de idade. Uma fase da vida da mulher em que mudanças físicas, psíquicas e aquisições acadêmicas definirão seu futuro.

Para a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), a gravidez precoce continua sendo um dos principais fatores que contribuem para a mortalidade materna e infantil e para o ciclo de doenças e pobreza.

Os fatores de risco para gravidez na adolescência são: baixa escolaridade, menor renda familiar, abandono escolar, falta de companheiro, ausência de planos para o futuro, repetição do padrão familiar (mãe que também engravidou na adolescência), início precoce da atividade sexual, baixa autoestima, abuso de álcool e outras drogas, falta de conhecimento dos métodos contraceptivos, falta de conhecimento a respeito da sexualidade.

A prevenção da gravidez na adolescência começa com educação sexual desde pequenos, dentro da família. A família representa o primeiro núcleo de socialização do indivíduo, de busca de estratégias para resolução de problemas pessoais, financeiros e espirituais; é a primeira fonte de segurança, oferecendo críticas e cobranças que podem ter efeito positivo ou negativo ao longo da vida.

Seguem algumas dicas úteis para pais, responsáveis, professores e educadores:

Em primeiro lugar, sejam empáticos, abertos ao diálogo. Ouçam com atenção o que o adolescente está falando:  deixem que ele/ela fale primeiro e observem o silêncio ou reações quando determinados assuntos aparecem.

Conversem sobre a importância do respeito com o próprio corpo, de construírem a autoimagem, de se aceitarem como são, mudando o que é possível e aceitando o que não se pode mudar, trabalhando assim a resiliência.

Estimule sempre a estudar, fazer planos para o futuro e manter a autoestima elevada.

Sejam claros, sucintos, objetivos nas perguntas e nas respostas. Não inventem, não aumentem, nem menosprezem as informações e os sentimentos.

O adolescente precisa ter direito à informação correta sobre sexualidade e acesso a métodos contraceptivos seguros e eficazes, assim como serviços de saúde confiáveis, confidenciais e acessíveis. E, junto ao médico, podem e devem saber o método de anticoncepção que mais lhes convém.

O envolvimento de pais, mães e responsáveis está ligado ao aumento do bem-estar e da autoestima de crianças e adolescentes, o que previne o consumo de álcool e outras drogas, melhora o desempenho escolar, a capacidade de socialização, diminui o risco de abandono escolar, depressão, pensamentos suicidas e gravidez na adolescência.

Exercer a sexualidade com responsabilidade pode evitar riscos de graus variáveis, como infecções sexualmente transmissíveis e a gravidez precoce. O diálogo, informação, empatia e amor são o caminho para o sucesso!

 

Saiba mais:

Adolescência e sexualidade: visão atual. Coordenadores: Maria Ignez Saito et al. São Paulo: Editora Atheneu, 2016 (Série Atualizações Pediátricas).

Desafios atuais para a saúde e bem-estar dos adolescentes. Editores: Elizete Prescinotti Andrade, Elisiane Elias Mendes Machado, Alexandre Massashi Hirata. 1. edição. Rio de Janeiro: Atheneu, 2024.

 

Relatora:
Elisiane Elias Mendes Machado
Presidente do Departamento Científico de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Dia Mundial da Prevenção do Suicídio https://spsp.org.br/dia-mundial-da-prevencao-do-suicidio/ Tue, 10 Sep 2024 17:48:15 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47956 O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio ocorre no dia 10 de setembro e visa ampliar a conscientização da população acerca do tema. Esse debate é cada vez mais importante, sendo essa]]>

O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio ocorre no dia 10 de setembro e visa ampliar a conscientização da população acerca do tema. Esse debate é cada vez mais importante, sendo essa a percepção da Sociedade de Pediatria de São Paulo, pois o suicídio, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma das principais causas de morte em todo o mundo e, entre jovens de 15 a 29 anos, a quarta causa de morte.

De partida, é fundamental reforçar que o suicídio tem causa multifatorial, em que interferem elementos psicológicos, sociais e culturais. Entre os fatores de risco para o suicídio mais conhecidos estão: transtornos mentais, dependências químicas, abusos, traumas, perdas econômicas e tentativas anteriores.

Diante desse cenário, é inevitável nos perguntarmos se é possível falar em efetivas medidas de prevenção. Cuidar da saúde mental, não só da criança, mas de todos que a cercam, é o primeiro passo desse caminho. A saúde mental precisa estar ligada aos cuidados cotidianos, onde a presença do cuidador demanda ser além da presença física, uma presença implicada, emocionalmente presente. Esse primeiro cuidado pode contribuir para que mais tarde, na adolescência, mesmo diante de tantos desafios para crescer e construir sua subjetividade, o jovem encontre amparo psíquico que lhe permita fazer escolhas e suportar as adversidades. Não é incomum que casos de bullying estejam conectados e façam parte do cenário de agravamento da saúde mental de um adolescente. O enfrentamento a essas situações sem dúvida é necessário. Para uma criança ou adolescente que experimenta maior dificuldade no enfrentamento de situações de angústia psíquica, o bullying pode se tornar um excesso impossível de ser suportado.

Vivemos em um país marcado por diferenças sociais e econômicas drásticas, no qual o acesso aos recursos de saúde, educação e moradia são muito desiguais, sendo possível assim imaginar o quão desafiador pode ser para muitas famílias administrarem suas exigentes jornadas de trabalhos e ainda assim cuidarem da saúde e bem-estar de seus vínculos familiares. É um enorme desafio!

Quando assistimos entristecidos os casos de suicídio em jovens, surgem as inúmeras perguntas e apontamentos automáticos, culpas e recomendações. Todo cuidado é pouco ao abordarmos tema tão delicado e complexo. Ao observarmos os fatores de risco para o suicídio, surge a recomendação para que jovens que estejam em evidente sofrimento sejam acompanhados e recebam auxílio psicológico. Porém, quando levamos em consideração a adolescência e a velocidade de transformações que ela imprime no indivíduo, podemos considerar que mesmo um jovem aparentemente ‘’bem-sucedido’’ do ponto de vista dos anseios sociais pode estar sofrendo grande pressão. Somadas a isso temos as crescentes exigências dos mercados de trabalho, os apelos estéticos e de consumo (impulsionados e veiculados pelas redes sociais), encaixando o jovem num ‘‘padrão’’: um aluno de alta performance, por exemplo, mas em franco sofrimento, ainda que não aparente. É importante, nesse sentido, nos atentarmos enquanto pais, profissionais de saúde e de educação, para outras formas de adoecimento menos evidentes, mas com grande potencial de risco. Estas situações descritas já são potencialmente deletérias e vêm moldando a forma de ser e sofrer dos jovens e dos adultos na atualidade. Também observamos, com certa frequência, que tanto os pais quanto os profissionais de saúde e de educação se veem perdidos frente aos seus impactos. Há um esgarçamento social em curso, no qual há carência de recursos de amparo no meio social mais amplo. E no desamparo procuramos e precisamos de amparo.

É importante considerar que o desenvolvimento, desde a infância, não se processa de forma linear e que ao longo da vida crianças e adolescentes podem evoluir ou regredir em função do modo como são cuidados e das adversidades que encontram pelo caminho. Crescimento não significa apenas ganhos e é preciso estar atento, porque eles podem dar sinais sutis de que não estão conseguindo elaborar os desafios e as perdas que o crescimento também implica.

Uma dessas vias de expressão de sofrimento é o corpo, que o adolescente utiliza para várias coisas e que está no cerne de sua relação com o mundo, o que podemos constatar não apenas no modo como a imagem é cultuada, mas também nos comportamentos de autolesão, e em última instância, no suicídio.

Na autolesão, o corpo se torna o cenário de expressão dos conflitos internos e de descarga das experiências emocionais dolorosas, o que propicia um alívio momentâneo, frente a vivência de um caos emocional e da dificuldade de transformá-lo em palavras. Com isso, o jovem continua conseguindo se manter agarrado à vida, à realidade que o circunda e ao grupo ao qual pertence. Mas, como o alívio é transitório, o ato tende se repetir, agravando o sofrimento.

O suicídio é o desfecho mais grave da junção entre um excesso de dor, de perturbação e de pressão emocional, de falta de sentido no viver, e revela um enfraquecimento dos vínculos reais do jovem com as pessoas que lhe são significativas e que poderiam lhe proporcionar os recursos de proteção.

Os recursos de proteção são construídos no meio familiar e social e estão intimamente relacionados com os vínculos afetivos na família, na escola e na comunidade na qual o jovem se insere, mas também estão atrelados às percepções e senso de si que ele constrói desde a infância: os sentimentos de autoestima, autoconfiança, as perspectivas de futuro e as habilidades afetivas, sociais e cognitivas.

O principal fator de proteção é o sentimento de estar conectado, numa relação de intimidade e confiança, bem-estar e apoio, de referência para as escolhas e enfrentamento dos desafios que a vida coloca. Em suma, saber que pode contar com alguém, ao longo do percurso da vida e não apenas nos momentos de crise ou de enorme sofrimento.

Ter um sentido para a vida previne e protege do suicídio.

 

Relatoras:
Cristiane da Silva Geraldo Folino
Flávia Schimith Escrivão
Vera da Penha M. Ferrari Rego Barros
Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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O que é a Puericultura? https://spsp.org.br/o-que-e-a-puericultura/ Tue, 23 Jul 2024 11:26:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47175 ]]>

Puericultura é a arte de promover e proteger a saúde das crianças, através de uma atenção integral, compreendendo a criança como um ser em desenvolvimento, com suas particularidades. É uma especialidade médica incluída e integrada à Pediatria, que leva em conta a criança, sua família e o entorno, analisando o conjunto biopsicossociocultural.

Este atendimento é sempre realizado pelo pediatra, também chamado de puericultor e destina-se a uma análise de diversos aspectos da saúde da criança ou do adolescente. O atendimento exige mais tempo e o conhecimento global do desenvolvimento nestas faixas etárias. São avaliados itens como condição nutricional, curva de crescimento, estado vacinal, desenvolvimento neuropsicomotor e cuidados domiciliares dispensados à criança. Quando identificados desvios da normalidade, é realizada uma intervenção rápida e eficaz.

As consultas de Puericultura são consultas de rotina, sendo esclarecidas dúvidas aos pais ou responsáveis quanto ao crescimento (peso e altura), vacinas, pressão arterial, desempenho escolar, relacionamento social, hábitos alimentares, sono e prevenção de acidentes. Para que a consulta seja realizada com tranquilidade e maior eficácia, orienta-se o agendamento em um período em que a criança não esteja em tratamento de alguma doença.

Diferentemente do Atendimento de Puericultura, entende-se por consulta tradicional em Pediatria aquela em que há uma queixa específica do paciente e/ou de sua família, ou seja, é uma consulta que avalia o que foi relatado e tomam-se as condutas inerentes à sua resolução. Normalmente não deve ser enquadrada como consulta de rotina, sendo avaliada em conformidade com a premência do problema apresentado, sendo muitas vezes realizada em pronto atendimento.

O pediatra geral, tanto na unidade de saúde pública como no consultório privado, realiza os dois tipos de atendimento, a Puericultura e a consulta tradicional relacionada a uma queixa específica.

O que vem a ser Atendimento Ambulatorial em Puericultura?

Em 2014, a Sociedade Brasileira de Pediatria postulou e conseguiu incluir, junto à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Atendimento Ambulatorial em Puericultura no “rol de cobertura obrigatória” para TODAS as Operadoras de Planos de Saúde (OPS). Tal procedimento já constava para atendimento pediátrico na Classificação Hierarquizada de Procedimentos Médicos da Associação Médica Brasileira (CBHPM – AMB), uma tabela de procedimentos que serve de referência para a inclusão de atos médicos no rol de procedimentos da ANS. A última versão da CBHPM é de 2023 e mantém o Atendimento Ambulatorial em Puericultura, assim como no próprio rol de procedimentos (obrigatórios) da ANS. O Atendimento Ambulatorial em Puericultura refere-se a atendimento em consultórios pediátricos por convênios ou OPS que, por sua vez, estão sob a regulação da ANS. Importante destacar que tal atendimento é diferente do atendimento de patologia aguda ou crônica em Pediatria.

São dois códigos que especificam tais atendimentos no rol da ANS:

Consulta em Pediatria – código 1.01.01.01-2

Atendimento Ambulatorial em Puericultura – código 1.01.06.14-6

Ou seja, o rol da ANS permite ao pediatra e aos pais ou responsáveis pela criança identificar os dois códigos para atendimento pediátrico em convênios e é muito importante que possam usufruir desses benefícios, muitas vezes desconhecidos por ambos.

A complexidade é diferente para cada tipo de consulta, sendo que a CBHPM considera o Atendimento Ambulatorial em Puericultura como porte 3B, de maiores complexidade e valor do que o porte 2B, que se refere à consulta de Pediatria.

Na prática do dia a dia, significa que o atendimento de rotina, na grande maioria das vezes, acontece por meio do Atendimento Ambulatorial em Puericultura, e a consulta, quando a criança apresenta alguma patologia, ocorrerá mediante a consulta em Pediatria, obedecendo a inclusão correta do código para o atendimento do convênio.

O Atendimento Ambulatorial em Puericultura deve ter uma periodicidade, que está na Tabela a seguir:

 

Em alguns momentos poderá haver até dois atendimentos pelo pediatra para um mesmo usuário, pois apresentam códigos distintos para o atendimento. Tal fato contribui muito na assistência pediátrica, por permitir que muitas consultas sejam realizadas pelo pediatra que habitualmente atende a criança, ao invés de ocorrer no pronto atendimento.

Por sua vez, o pediatra deve informar a seus pacientes, familiares e responsáveis a respeito do Atendimento Ambulatorial em Puericultura junto à sua operadora de planos de saúde. Desta forma, terão maior liberdade de atendimento com o seu pediatra, permitindo que este possa atender com maior frequência e sempre que houver necessidade.

A Sociedade de Pediatria de São Paulo entende que esta situação aqui exposta é um direito inalienável das crianças atendidas em consultório pelo seu pediatra, que também terá seu direito preservado.

É nosso desejo que este comunicado alcance os pediatras brasileiros e as crianças, adolescentes e suas famílias assistidos, fazendo valer o propósito da Sociedade Brasileira de Pediatria, quando da implantação deste importante procedimento de Puericultura.

 

Saiba mais:

– https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/sbp-conquista-puericultura-na-saude-suplementar/

https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/puericultura-no-rol-da-ans-esclarecimento/

– https://www.gov.br/ans/pt-br/arquivos/acesso-a-informacao/transparencia-institucional/pareceres-tecnicos-da-ans/2020/parecer_tecnico_no_06_2021_atendimento_ambulatorial_em_puericultura.pdf

 

Relator:
Paulo Tadeu Falanghe
Membro da Diretoria Executiva da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Diretor de Defesa Profissional da SPSP

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Prevenção da obesidade infantil https://spsp.org.br/prevencao-da-obesidade-infantil/ Mon, 04 Mar 2024 12:17:52 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=42878 A Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu 4 de março como o Dia Mundial da Obesidade, com o objetivo de disseminar conhecimentos sobre a doença. Nas últimas décadas, a obesid]]>

A Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu 4 de março como o Dia Mundial da Obesidade, com o objetivo de disseminar conhecimentos sobre a doença. Nas últimas décadas, a obesidade tem sido motivo de grandes discussões em todas as áreas do conhecimento.

Independentemente de se considerar o desenvolvimento de uma região ou país, a prevalência da obesidade vem aumentando de forma alarmante no mundo todo. Essa tendência reflete a maior disponibilidade de energia nos alimentos, ao lado da inatividade física crescente do homem moderno. Para mudar o rumo dessa epidemia é necessário que as estratégias de prevenção sejam aplicadas, reavaliadas e renovadas de forma constante. Projetos que incluam mudanças na qualidade do preparo e ingestão dos alimentos, estímulo à atividade física, e modificações comportamentais devem obrigatoriamente contar com a participação de toda a família, principalmente quando o indivíduo-alvo for uma criança ou um adolescente.

A criança obesa tem grande probabilidade de se tornar um adolescente e, posteriormente, um adulto obeso. A atitude intempestiva de redução drástica da ingestão de energia pode comprometer o seu crescimento e desenvolvimento. Dessa forma, a atenção multidisciplinar faz-se necessária para que a intervenção possa ocorrer sem riscos desnecessários, principalmente nos indivíduos onde o fator genético está presente, favorecendo a maior suscetibilidade à obesidade.

A prevenção tem custo social imenso e implica o gasto progressivo com a saúde, à medida que a obesidade regrida com o progredir da idade, pois as comorbidades que acompanham sua evolução tornam-se irreversíveis e muitas vezes fatais.

Prevenção

O pediatra é  profissional de saúde responsável pela orientação para se atingir o melhor crescimento e desenvolvimento, desde o nascimento até atingir a idade adulta. Deve vigiar o crescimento, fazer o diagnóstico nutricional e implementar medidas preventivas  e terapêuticas quando necessárias. Ainda mais, o pediatra deve coordenar o atendimento efetuado pelos outros profissionais da equipe multidisciplinar envolvidos no tratamento. Junto à família, deve trabalhar na conscientização do diagnóstico e complicações da obesidade, orientando tanto na prevenção como na estratégia do tratamento.

Embora o fator genético, combinado com a programação intrauterina, possa influenciar, de maneira independente da atuação do médico na evolução do indivíduo para o excesso de peso, os aspectos ambientais, os hábitos alimentares, o estilo de vida e a prática de atividade física precisam ser considerados pela família e pela criança ou adolescente, como os grandes fatores a serem analisados em conjunto, para poder modificá-los. Esse envolvimento familiar, ao lado da escola e comunidade, deve fazer parte dos pilares de qualquer programa preventivo da obesidade infantil.

Sugestões práticas são inúmeras, e podem ser propostas conforme a idade da criança e características do meio em que vive, seja a casa, a escola ou a comunidade.

O pediatra pode ainda ter outro tipo de atuação, por exemplo, quando for chamado a participar de decisões relativas ao uso de recursos públicos destinados a programas de prevenção de doenças, educação da saúde e racionalização do uso de novas tecnologias. Nessas situações, o seu papel será o de assumir a orientação científica que possa contribuir para o sucesso das ações conjuntas propostas pela mídia, indústria e órgãos governamentais.

No quadro abaixo estão sugestões que poderão ser avaliadas e discutidas nas diversas áreas envolvidas com a prevenção da obesidade infantil. Cada um dos módulos é acompanhado por muitas controvérsias, até aspectos que muitas vezes são aparentemente intocáveis, como é o caso do fator de proteção que o aleitamento materno representaria contra a obesidade infantil. Existem estudos que mostram que a amamentação indisciplinada do leite materno por mães extremamente ansiosas pode ser um fator de desequilíbrio entre oferta e necessidade nutricional, levando à obesidade da criança.

– GRAVIDEZ –
Iniciar a gravidez com IMC normal
Não fumar
Fazer atividade física moderada e tolerável
Ficar atenta ao diabetes gestacional
– PÓS-PARTO E INFÂNCIA
Aleitamento materno exclusivo no mínimo por 3 meses e idealmente por 6 meses
Retardar a introdução de alimentos sólidos e líquidos doces
FAMÍLIAS
Não insistir, não agradar e não forçar a comer. A consequência será sempre a substituição inadequada.
Dar sempre preferência às grandes refeições, e não aos lanches
Fazer refeições em horários e locais fixos
Não “pular refeições”, especialmente o café da manhã
Oferecer frutas, fibras e evitar sucos na mamadeira
Evitar a TV ou celular durante as refeições
Usar pratos pequenos e travessas pequenas
Evitar molhos, alimentos gordurosos e refrigerantes
Educar quanto ao uso de TV e celular
Vocês são os modelos para os seus filhos (pais e familiares)
ESCOLAS
Eliminar lanches com balas e salgadinhos
Evitar máquinas de alimentos
Ensinar a professores e responsáveis a relação entre nutrição e atividade física
Ter sempre água à disposição
Bons hábitos devem ser sempre ensinados em todas as idades
Aulas de Educação Física – 30 a 45 minutos de exercícios fortes 2 a 3 vezes por semana
Ir a pé para a escola
COMUNIDADES
Vizinhos e amigos devem andar juntos e patrocinar brincadeiras para as crianças
Evitar elevadores e vias fáceis para locomoção
Sempre estar informado sobre onde se compram alimentos saudáveis
BABÁS
Elas precisam saber o que é e o que acontece com a obesidade
Participar com ela do ganho de peso adequado da criança
Apresentar a obesidade, mostrando que é uma doença a ser tratada
INDÚSTRIA
Produtos dirigidos a crianças precisam ter rótulos com informações
Fabricantes de vídeos devem lançar frases que encorajem a atividade física
Consumir alimentos saudáveis e subsidiar programas que incentivem estilo de vida saudável
GOVERNO E ÓRGÃOS REGULADORES
Explicar que obesidade é doença
Taxar comidas e bebidas não saudáveis
Incentivar o desenvolvimento de produtos saudáveis, com informações a esse respeito para o consumidor
Deduzir impostos dos custos de programas saudáveis
Fornecer incentivos para escolas que promovam programas relacionados com atividade física e nutrição
Verbas para construção de ciclovias e pistas para corrida e caminhada
Anúncios de advertência quanto aos tipos de alimentos, tanto para a pré-escola quanto para os mais velhos

Analisando cada um desses módulos, percebe-se que a prevenção da obesidade tem na disciplina e no estilo de vida saudável, quando exercida por uma família disposta a participar, as principais variáveis a serem consideradas.

A escola, os professores e a comunidade, sempre que possível, devem participar dos processos que envolvem medidas positivas em relação ao enfrentamento da epidemia da obesidade infantil.

Embora a tecnologia tenha criado inúmeros entraves para os movimentos das crianças nos últimos anos, tornando as exigências para exercícios cada vez menores, novas brincadeiras e novos métodos precisam ser criados, com mais atividades físicas em escolas e comunidades. Isso implica decisões familiares que obrigatoriamente estarão dirigidas para o estabelecimento de regras mais bem definidas na educação, especialmente nos limites permitidos.

Relator:
Ary Lopes Cardoso
Departamento Científico de Nutrição da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Dia Internacional de Luta Contra o Câncer Infantil https://spsp.org.br/dia-internacional-de-luta-contra-o-cancer-infantil/ Thu, 15 Feb 2024 14:04:28 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=42638 Quinze de fevereiro é o Dia Internacional de Luta Contra o Câncer Infantil. Esta é uma doença rara, grave e curável (em grande parte dos casos)]]>

Quinze de fevereiro é o Dia Internacional de Luta Contra o Câncer Infantil. Esta é uma doença rara, grave e curável (em grande parte dos casos). Os principais sintomas do câncer na criança são comuns a várias doenças da infância; a duração ou persistência desses sintomas é o que deve chamar a atenção das famílias e dos pediatras. A febre, frequente em doenças infecciosas, quando não cessa após tratamentos usuais, e se prolonga por mais de três semanas, demanda maior investigação, inclusive com a realização de exames laboratoriais. A febre persistente é um dos sintomas mais comuns na leucemia, principal câncer da criança abaixo de 14 anos.

A queixa de dor de cabeça, sintoma comum a quadros de infecção de vias aéreas superiores, quando não responde a medicação analgésica, quando interrompe brincadeiras ou acorda a criança, sendo acompanhada ou não de vômitos, ocorre com frequência nos tumores cerebrais, o segundo tipo de tumor mais comum nessa faixa etária.

O aparecimento de gânglios, também conhecidos como ínguas, que não param de crescer, mesmo indolores, e principalmente quando estão em vários locais do corpo, tais como pescoço, axilas, virilhas, é outro sintoma comum em infecções e em alguns tipos de câncer, como leucemia e linfoma.

O aumento da barriga, com ou sem dor, o inchaço nas articulações, como joelho, o crescimento de um caroço embaixo da pele, o aparecimento de algo incomum na criança, como estrabismo, mancha branca no olho, também são sintomas presentes em alguns tipos de câncer infantil.

Não há como prevenir o câncer na criança: esta doença aparece ao acaso, não tem relação com tipo de alimentação ou outros eventos cotidianos. O importante é que os pais, sempre que perceberem algo errado, seja dor, tumoração, ou outro sintoma que não melhora e que progride, atrapalhando a atividade da criança, devem procurar o pediatra o mais breve possível. Esse médico, quando suspeita que pode ser câncer, encaminha o paciente para o oncologista pediátrico, o especialista em tratamento de câncer na criança e no adolescente.

Quando diagnosticado no início, o paciente pediátrico pode ser curado em 70% a 80% dos casos. Em centros de excelência em tratamento de câncer da criança e do adolescente, o paciente realizará exames para que o diagnóstico seja o mais preciso possível, inclusive em nível molecular, o que possibilita um tratamento mais direcionado à doença do paciente.

Quimioterapia, radioterapia e cirurgia são as modalidades terapêuticas mais utilizadas. Além destas, atualmente cresce a importância de novas drogas, que atuam diretamente em alterações moleculares expressas pelas células tumorais. Estas medicações são conhecidas como drogas-alvo, e, em geral, apresentam menos efeitos adversos em relação à quimioterapia. A imunoterapia é outra modalidade que se destaca, com objetivo de melhorar as ações de defesa do paciente contra o tumor. Os pacientes, nesses centros, são atendidos por diversos médicos, além do oncologista, tais como cirurgião pediátrico, oftalmologista, ortopedista. E a criança e o adolescente recebem abordagem da equipe multidisciplinar, que envolve equipe de enfermagem, farmácia, serviço social, fisioterapia, odontologia, fonoaudiologia, nutrição e psicologia. O envolvimento de todos esses profissionais, com suporte tecnológico adequado, possibilita as melhores taxas de cura do câncer infantil.

Relatora:
Ethel Fernandes Gorender
Vice-Presidente do Departamento Científico de Oncologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Dia da “Criança Especial” – quando a terminologia faz a diferença https://spsp.org.br/dia-da-crianca-especial-quando-a-terminologia-faz-a-diferenca/ Thu, 14 Dec 2023 18:46:26 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=42220 No dia 9 de dezembro é celebrado o Dia da “Criança Especial”. Para iniciar este texto, lanço três questões com o objetivo de gerar reflexões sobre as terminolog]]>

No dia 9 de dezembro é celebrado o Dia da “Criança Especial”.

Para iniciar este texto, lanço três questões com o objetivo de gerar reflexões sobre as terminologias e as atitudes que temos em nossas práticas de cuidado em saúde.

Quem são as “crianças especiais”?

Quais características uma criança precisa ter ou adquirir para ser especial?

Em nossa sociedade, as “crianças especiais” são respeitadas e valorizadas?

Os termos “criança especial” e “crianças com necessidades especiais” são utilizados dentro e fora da área da saúde para se referirem a crianças com deficiências, autistas e outras diversidades. Hoje, em 2023, essa terminologia é considerada imprópria, redutora, e até pode ser interpretada como uma forma de preconceito, ao fazer pessoas se tornarem especiais pelo seu diagnóstico e não pelo o que são ou o que fazem em sua trajetória de vida.

Discutir a palavra “especial” e outras terminologias, para o Núcleo de Estudos sobre as Crianças e Adolescentes com Deficiências da Sociedade de Pediatria de São Paulo, é algo fundamental, um ponto de partida, pois acreditamos que respeitar a pessoa com deficiência começa pela forma com a qual nos referimos a elas, pelas nossas atitudes diárias e pela luta contra todas as formas de capacitismo, que é o preconceito contra pessoas com deficiência. E se os próprios sujeitos que vivenciam a condição da deficiência questionam o termo “especial” em suas oratórias, por que nós cuidadores faríamos diferente?

O uso da terminologia correta é uma porta de entrada para o cuidado eficaz. Termos inadequados, desatualizados e discriminatórios podem afastar a pessoa com deficiência e a sua família da relação de cuidado, reduzindo a confiança na equipe de saúde e a aderência ao acompanhamento. Para ter sucesso em nossas orientações e prescrições, é fundamental que seja construída uma relação que compreenda a diversidade, valorize as diferenças, respeite as individualidades e acolha cada sujeito, com ou sem uma deficiência.

As crianças especiais são todas as crianças, com e sem deficiências. Especiais pela sua existência, pela sua capacidade de modificação da sociedade, pela sua curiosidade de explorar o mundo, pelas suas habilidades e potenciais, pela sua forma única de ser. Crianças podem ser especiais para as suas famílias e pessoas que as rodeiam pelo que são, e não por um diagnóstico.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas têm algum tipo de deficiência no mundo, sendo 1 em cada 10, criança. Dados do IBGE de 2010 mostram que o Brasil tem cerca de 4 milhões de crianças de 0 a 14 anos de idade com uma deficiência. Pelo Relatório Mundial sobre a Deficiência da ONU de 2011, em todo o mundo, as pessoas com algum tipo de deficiência ainda apresentam piores perspectivas de saúde, níveis mais baixos de escolaridade, participação econômica menor e taxas de pobreza mais elevadas em comparação às pessoas sem deficiência. Esses dados mostram que as crianças e adolescentes com deficiência ainda têm uma vida de lutas por direitos básicos, garantidos no papel pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI), em uma sociedade que contraditoriamente ainda as chama de “especiais”.

Para avançarmos na temática da criança e do adolescente com deficiência é preciso discutir terminologia, atitude, inclusão, acessibilidade, equidade de cuidados, direitos da pessoa com deficiência, deveres dos profissionais atuantes na infância, capacitismo, individualização da assistência, entre tantas outras temáticas que ainda hoje não são naturalizadas e aplicadas na sociedade em geral, onde se incluem os pediatras e demais profissionais da saúde.

 

Relator:
Fábio Watanabe
Núcleo de Estudos sobre a Criança e o Adolescente com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo 

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Dia Mundial de Prevenção da Gravidez na Adolescência https://spsp.org.br/dia-mundial-de-prevencao-da-gravidez-na-adolescencia/ Tue, 26 Sep 2023 19:40:43 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39475 A gravidez na adolescência ou gravidez precoce, é aquela que ocorre antes dos 20 anos. Independentemente de ser planejada, desejada ou não, causará]]>

A gravidez na adolescência ou gravidez precoce, é aquela que ocorre antes dos 20 anos. Independentemente de ser planejada, desejada ou não, causará sempre repercussões negativas para a saúde física e psíquica da adolescente, repercutindo também no recém-nascido. O ônus de uma gravidez na adolescência, embora recaia tanto para o adolescente quanto para a adolescente, será sempre maior para a gestante e sua família.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, por dia, 1.043 adolescentes se tornam mães no Brasil; por hora, são 44 bebês que nascem de mães adolescentes, sendo que dessas, duas têm idade entre 10 e 14 anos. A taxa está caindo, mas ainda é muito alta.

E por que engravidar antes dos 20 anos causa tantos problemas?

Nessa fase da vida, nosso corpo cresce e se desenvolve, preparando-se para a vida adulta. Usando o cálcio como exemplo: na puberdade ocorre seu acúmulo nos ossos. Caso ocorra uma gravidez, o desenvolvimento do feto ao recrutar o cálcio materno, impedirá que se deposite no osso da adolescente, aumentando o risco de osteoporose quando ela estiver na menopausa. Além disso, as demandas psicológicas, sociais e acadêmicas da adolescência, que não são poucas nesses dias atuais, serão sobrecarregadas pelo estresse de estar grávida. Dessas demandas, a primeira a ser impactada será a acadêmica, expressa pelo abandono escolar. Para a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), a gravidez precoce continua sendo um dos principais fatores que contribuem para a mortalidade materna e infantil e para o ciclo de doenças e pobreza.

Para a mulher, ter um filho antes dos 20 anos se relaciona com uma diminuição na escolaridade em 1,3 anos de estudos. Aumenta a chance de ela entrar para o mercado de trabalho mais precocemente, mas esse ingresso, na grande maioria das vezes, ocorrerá por meio do trabalho informal, que exige menos habilidades e é mais flexível no tempo. No entanto, empregos informais não têm a proteção e os benefícios que os formais têm. Comparando os rendimentos de mães adolescentes com mães que tiveram o primeiro filho após os 20 anos, observa-se uma redução de 28% no salário médio por hora. Ainda, se forem pretas ou pardas, bem como aquelas que vivem nas regiões mais pobres do Brasil, as probabilidades de trabalharem e terem salários significativamente mais baixos serão maiores ainda.

Gestação precoce está associada a riscos obstétricos maiores, principalmente em gestantes com menos de 15 anos. Existem maiores chances de anemia, hipertensão na gestação, incluindo pré-eclâmpsia e eclâmpsia, partos prematuros, recém-nascidos pequenos para a idade gestacional e retardo de crescimento fetal. Para quem engravida antes dos 20 anos e tem um bebê prematuro, a chance de na próxima gravidez isso voltar a acontecer é de 37%, enquanto se isso ocorrer em uma gestante com mais de 20 anos, essa chance é de 8%.

Quanto aos recém-nascidos de mães adolescentes, em decorrência dos problemas acima, eles podem ter nota de nascimento (Apgar) menor que 5, com maior chance de precisarem ficar na UTI neonatal e apresentarem problemas crônicos de saúde, pela prematuridade, baixo peso ou pela necessidade de ventilação mecânica nos primeiros dias de vida. Ainda podem apresentar anomalias ou síndromes congênitas (síndrome de Down, defeitos do tubo neural, gastrosquise entre outras).

Como os pais, professores e a sociedade podem atuar para prevenir a gestação precoce?

Em casa: mantenha diálogo com os filhos sobre sexualidade e meios de prevenção. O ideal é iniciar o tema por volta dos 10 anos, adequando o diálogo à compreensão de seu filho. Os ensinamentos sobre prevenção, para serem mais efetivos, deverão ser feitos antes que o(a) adolescente inicie suas atividades sexuais. Dessa forma, saberão o que e como devem fazer quando chegar a hora de tornar a vida sexual ativa, diferentemente daqueles que não tiveram contato ou conversa nenhuma sobre o assunto. É importante que saibam sobre o risco de infecções sexualmente transmissíveis e como se prevenir. Se os pais não se sentirem seguros para falar sobre o tema com sua filha, deverão conversar com seu pediatra e pedir orientações.

Nas escolas: a educação em sexualidade deve fazer parte do currículo de todas as escolas. Ela possibilita que adolescentes cuidem de sua saúde e façam escolhas saudáveis, que repercutirão para a vida deles e para a sociedade. As escolas podem fazer parcerias com profissionais de saúde, que esclarecerão os riscos da gravidez precoce e poderão falar sobre métodos contraceptivos e prevenção das infecções sexualmente transmissíveis.

Caso uma adolescente engravide, é importante ajudá-la a não abandonar os estudos e protegê-la de bullying, o que é relatado por muitas estudantes que engravidam.

Direitos da gestante que estuda

No Brasil, a Lei nº 6.202/1975 garante à estudante grávida o direito à licença maternidade sem prejuízo do período escolar. A partir do oitavo mês de gestação, a gestante estudante poderá cumprir os compromissos escolares em casa, de acordo com o Decreto-Lei nº 1.044/1969. Além disso, o início e o fim do período de afastamento serão determinados por atestado médico a ser apresentado à direção da escola. E, finalmente, é assegurado às estudantes grávidas o direito à prestação dos exames finais.

Sociedade: O que previne a gravidez precoce de forma mais eficaz é a perspectiva de um futuro feliz. À sociedade, cabe propiciar aos adolescentes a possibilidade de completar os estudos e realizar seus projetos de vida.

Saiba mais:

https://www.paho.org/pt/topicos/saude-do-adolescente

https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/Adolescencia_-_21621c-GPA_-_Prevencao_Gravidez_Adolescencia.pdf

 

Relatores:
Elizete Prescinotti Andrade
Carlos Alberto Landi
Departamento Científico de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

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Dia do Adolescente https://spsp.org.br/dia-do-adolescente-2/ Fri, 22 Sep 2023 11:12:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39416 Acolher, ouvir e dar voz ao adolescente é essencial para garantir seu desenvolvimento saudável e promover uma sociedade mais inclusiva. Um adolescente ouvido é um adolescente]]>

Acolher, ouvir e dar voz ao adolescente é essencial para garantir seu desenvolvimento saudável e promover uma sociedade mais inclusiva.

Um adolescente ouvido é um adolescente que se sente valorizado e compreendido em suas experiências e opiniões. O ato de ouvir atentamente pode fortalecer os laços entre pais e filhos, professores e alunos e amigos. Além disso, a capacidade de ouvir de forma aberta e empática pode contribuir para o crescimento pessoal do adolescente, ajudando-o a desenvolver habilidades de comunicação e empatia.

Que tenhamos tempo para ouvir, verdadeiramente ouvir, e ver como isso pode melhorar a qualidade das nossas interações e fortalecer os vínculos. Todos nós temos algo valioso a dizer, e ao ouvirmos uns aos outros, podemos aprender, crescer e nos tornar pessoas melhores juntos. Vamos ouvir mais com o coração nossos adolescentes!

É também fundamental acolher os adolescentes em nossa sociedade. Eles estão em uma fase de descobertas e transformações intensas e é nosso papel oferecer suporte e compreensão durante esse período. Ao acolher os adolescentes, estamos dando a eles a oportunidade de se expressarem e de se sentirem amados e valorizados. E isso não se trata apenas de abraços e palavras gentis, mas também de oferecer orientação e limites saudáveis.

Acolher o adolescente é abrir espaço para que ele se desenvolva integralmente, contribuindo para que se torne um adulto confiante e seguro de si. Então, vamos acolher a adolescência de braços abertos e ajudar esses jovens a se tornarem a melhor versão de si mesmos!

Dar voz aos adolescentes é uma questão fundamental para garantir que suas perspectivas, ideias e experiências sejam ouvidas e valorizadas. Ao oferecer espaço e oportunidades para que se expressem, estamos não apenas promovendo sua participação ativa na sociedade, mas também enriquecendo nosso próprio entendimento do mundo.

Ao dar voz aos adolescentes, estamos criando um ambiente onde suas vozes são levadas a sério e respeitadas, capacitando-os a se tornarem agentes de mudança em suas próprias vidas e comunidades. Então, vamos dar voz aos adolescentes, porque são eles que moldam o futuro.

A adolescência é uma fase de descobertas, desafios e constantes mudanças. É crucial que nós, adultos, estejamos dispostos a acolher, ouvir e dar voz aos adolescentes, pois isso não apenas fortalece nossa conexão com eles, mas também abre espaço para que expressem suas opiniões, sentimentos e sonhos.

O Dia do Adolescente, instituído em 21 de setembro, é uma oportunidade não só de celebrar essa fase tão importante da vida, mas também de refletir sobre os desafios e conquistas que os adolescentes enfrentam diariamente. É uma chance de reconhecer a importância dos adolescentes na sociedade e de lhes oferecer apoio e encorajamento.

Juntos, podemos criar um mundo onde todos os adolescentes se sintam acolhidos, ouvidos e tenham voz.

Feliz Dia do Adolescente!

 

Relatoras
Maíra Pieri Ribeiro
Maíra Terra Cunha Di Sarno
Médicas Pediatras e Hebiatras
Departamento Científico de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Educação sem violência e a violência na escola https://spsp.org.br/educacao-sem-violencia-e-a-violencia-na-escola/ Fri, 30 Jun 2023 18:52:03 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=38179 Na semana em que se comemora o Dia Nacional da Educação sem Violência, nossa reflexão sobre o tema tem que passar pelas inúmeras formas de violên]]>

Na semana em que se comemora o Dia Nacional da Educação sem Violência, nossa reflexão sobre o tema tem que passar pelas inúmeras formas de violência ocorridas em escolas recentemente.

A escola é um microssistema social e ecológico integrado a todo o restante da sociedade; assim, tudo que acontece no meio social pode impactar e influenciar o ambiente escolar. Muitos têm a ilusão de que dentro dessas quatro tudo é “paz e alegria”. Relatos como homicídios, tentativas de homicídios, agressões entre alunos e à equipe escolar, assim como de atos de tortura a crianças quebram essa imagem. Adolescentes assassinados por um ex-aluno, criança mantida em uma jaula, outra amarrada em uma pilastra. Cenas que não queríamos ver!

Temos, na verdade, uma sociedade adoecida, nesta modernidade fluida, como bem definiu Bauman, na qual as famílias são desestruturadas, crianças e adolescentes são criados sem limites, sem objetivos claros, com cuidado terceirizado e as equipes escolares estão desgostosas, com inúmeras preocupações, sem receberem o devido valor por seu trabalho. Este cenário, associado aos traumas causados pela pandemia, torna-se um caldeirão explosivo em muitas situações.

Como pediatra, penso que precisamos lutar para a criação nas escolas de um ambiente saudável e promotor de paz e não de violência, através do resgate de muitos valores. Primeiro, ensinando em casa, essencialmente através do exemplo, a tolerância com o outro, a ouvir o próximo e aprender a discordar sem se tornar inimigo. Devemos valorizar o trabalho dos professores e da equipe escolar, frequentando a escola, conversando em casa sobre a equipe e ressaltando sua importância. Devemos estimular a autoestima dos filhos, ressaltando suas qualidades, ensinando-os a terem autonomia na resolução de pequenos problemas e valorizando a gentileza. Podemos criar associações de pais que participem das escolas e que conheçam seus dilemas.

Ter canais efetivos para denunciar a violência na escola e em seu entorno também é fundamental para o avanço na questão. Precisamos arregaçar as mangas e agir, pois não é possível mudar sem envolvimento de todos, pais, alunos, professores, equipe escolar e também de saúde.

 

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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