aconselhamento – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Wed, 17 Mar 2021 20:55:57 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png aconselhamento – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Sobre a exposição de crianças nas mídias sociais https://spsp.org.br/sobre-a-exposicao-de-criancas-nas-midias-sociais/ Thu, 22 Oct 2020 19:50:20 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3472 Um vídeo alertando sobre os riscos da depressão e suicídio chamou atenção ao ser protagonizado por duas crianças pequenas, recitando um texto de forte cunho emocional, numa “suposta” promoção da Campanha Setembro Amarelo – Prevenção ao Suicídio, que tem o objetivo de prevenir os casos de suicídio. No vídeo, há uma espécie de imitação do comportamento adulto, realçado por figurinos e penteados que remetem ao filme Pequena Miss Sunshine (2006). Nele, a protagonista, uma menina espontânea e docemente deselegante, aparece em um concurso de miss infantil, competindo com outras meninas caracterizadas como adultas.

aletia | depositphotos.com

Há 2 questões que merecem reflexão ao assistir o vídeo:

A primeira diz respeito à mensagem de que a “solução” para a depressão ou o suicídio é “simples”, quase que mágica. Essa suposta simplicidade, aliada à presença de crianças “fofas”, acaba sabotando o próprio intento de uma campanha de saúde pública sobre um tema de tamanha seriedade. Tornar um assunto mais leve ou digestivo é corriqueiro na linguagem das mídias digitais, porém esse tipo de abordagem afigura-se incompatível com a gravidade do assunto.

A segunda questão é o abismo entre a seriedade e a capacidade de entendimento e processamento emocional da criança.  Expô-las à temas que fogem de sua compreensão caracteriza ato de violência emocional, constrangendo-as a processar conteúdos afetivos para os quais ainda não possuem aparato psíquico suficientemente desenvolvido. Outro aspecto é a desnecessária exposição à dinâmica da contagem de likes e dislikes, somados a todo tipo de incontinência cibernética intrínseca às caixas de comentários.

O ambiente da internet exige um certo norteador ético, quase um manual de etiqueta, de cuidado com os outros e consigo mesmo. Nesse momento de pandemia, crianças e adolescentes estão mais voltados ao ciberespaço.

Ora, se nem nós adultos, descobrimos uma boa forma de lidar com os desafios do ambiente virtual, o que dirá as crianças e os adolescentes, que ainda estão em franca transformação? O alcance do mundo virtual aos jovens é inevitável, mas cabe aos adultos cuidar para que isso não os atinja desnecessariamente com temas e linguagens que eles ainda não podem digerir e traduzir, esse é um desafio que se impõe.

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Relatora:
Flavia Schimith Escrivão
Departamento Científico de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo



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Educação ou violência? https://spsp.org.br/educacao-ou-violencia/ Thu, 15 Oct 2020 11:23:57 +0000 https://www.pediatraorienta.org.br/?p=3450 Bater em crianças fez parte da tradição de educação durante décadas. Não são poucos os livros de autobiografia ou romances que aludem às surras e maus-tratos corporais e psicológicos como tendo marcado de forma duradoura suas memórias, com prejuízos psíquicos e no modo de se relacionarem.

Quando na idade adulta, essas crianças educadas com violência física têm condição de pensar sobre esses episódios, reconhecem com tristeza terem sido vítimas de sofrimento causado por seus próprios pais e professores, que se valiam do endosso cultural e social da suposta “educação” para replicar e descontar em seus filhos os sentimentos de raiva e frustração.

Legenda: fizkes | depositphotos.com

Acreditar que essa atitude faz parte de um passado distante talvez seja um dos grandes equívocos que a pandemia tem revelado, ao se observar o aumento considerável nos índices de violência familiar, trazendo à tona novamente discussões sobre a inadequação desse tipo de conduta e qual o lugar que o poder público deveria ocupar.

Um artigo recém-publicado revelou que, em pleno 2020, muitos países ainda não têm leis de proteção às crianças contra castigos físicos por pais e educadores, considerando não ser atribuição do Estado interferir no modo de educação das famílias. Essa é a realidade de países como Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Rússia e outros, representando ainda uma posição retrógrada que desconsidera que a educação recebida pelas crianças dentro de suas casas repercute no cidadão e na sociedade em geral. Ou seja, é sim assunto do Estado também.

No Brasil, felizmente, desde 2014, é proibido usar de punição física como forma de educação . Portanto, deixar as crianças à própria sorte tem sido uma das grandes preocupações em relação ao fechamento das escolas, que em geral funcionam como “fiscalizadoras” da violência contra crianças e adolescentes, atentas a marcas físicas que possam sugerir espancamento ou estados emocionais que possam revelar angústias e inseguranças.

A educação tem como função primordial oferecer à criança recursos para lidar com as limitações que a sociedade e a convivência com o outro impõem.

Maturidade emocional significa encontrar formas de conter emoções intensas como raiva, frustração, inveja, ciúme, etc. Assim, mesmo diante do sofrimento, o indivíduo é capaz de não reagir com atos de violência e sim encontrar meios de comunicar seus sentimentos através da linguagem.

É importante considerar que o castigo físico está longe de ser uma forma de educação, muito pelo contrário, ao bater em uma criança, o adulto mostra que só sabe resolver os conflitos pela força, sendo que isto não se constitui em aprendizado para conter os impulsos mais primitivos – que são próprios da natureza humana no início de vida.  

Ao se exprimir com violência e crueldade, o adulto mostra sua incapacidade em lidar com limites e frustrações. Além de se revelar imaturo, esta atitude para com a criança impossibilita que ela adquira ferramentas para se desenvolver na vida em comunidade, tornando-a vulnerável emocionalmente e pobre em ter e manter relacionamentos – isso pode ser a raiz de problemas futuros pessoais e sociais.

Ao considerar que nenhum adulto castiga corporalmente uma criança sem que esteja com raiva, frustrado e acuado pela impotência, está exercitando o poder de impor, através da força, a repressão pelo medo e não o de educar a partir do respeito, consideração e empatia pelo outro.

Por outro lado, é importante refletir que há o movimento oposto de crianças que batem em seus pais e fazem deles verdadeiros reféns de suas vontades. Se castigos corporais não são o meio de ajudá-los a se constituir como seres humanos maduros, a permissividade é tão nociva quanto. Esta forma de se expressar nada mais é do que a comunicação e o pedido a um adulto para ajudá-la e ensiná-la a conter seus impulsos.

A ausência de limites na educação muitas vezes é herança de pais que foram vítimas da violência física e, portanto, se abstêm de qualquer forma de contenção. Esta forma de não educar ou “deseducar” está totalmente errada. Como a criança e o adolescente podem se sentir ao serem investidos de poder absoluto? Inseguros e amedrontados! E, pior ainda, é não ter ninguém que possa ajudá-los a entender e aplicar os aspectos éticos da vida em sociedade.

Se o Estado não exerce sua função de legislar sobre a ética das relações em todos os grupos, abre brechas para que adultos imaturos exerçam crueldade para com os mais frágeis. Para nos tornarmos uma civilização madura em desenvolvimento permanente, precisamos de estruturas que garantam e deem acesso às crianças e adolescentes ao direito a ela e as ferramentas que possam sustentá-la.

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Relatora:
Dra. Denise de Sousa Feliciano
Presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da SPSP



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