Blog – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 04 Sep 2026 16:20:31 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Blog – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Miopia em crianças: quando enxergar de longe começa a ficar difícil https://spsp.org.br/miopia-em-criancas-quando-enxergar-de-longe-comeca-a-ficar-dificil/ Fri, 04 Sep 2026 16:19:03 +0000 https://spsp.org.br/?p=58911 “Meu filho está apertando os olhos para enxergar a lousa.” “Ele quer assistir TV bem próximo da televisão.” “Será que prejudica passar muito tempo no celular?” Essas são dúvidas bastante comuns entre os pais. E podem indicar e ser sinais de que é hora de avaliar a visão da criança. A miopia é uma condição visual na qual a criança consegue ver bem os objetos próximos, mas tem dificuldade para enxergar os que estão mais distantes. Por isso, uma criança míope pode ler um livro ou usar o celular sem problemas, mas ter dificuldade para ver o que está escrito na lousa da escola. A miopia está se tornando cada vez mais comum entre crianças e adolescentes em várias partes do mundo. E isso merece atenção, porque quanto mais cedo a miopia aparece e quanto mais ela aumenta ao longo da infância, maior pode ser o grau no futuro. Altos graus de miopia estão associados a um maior risco de problemas oculares ao longo da vida. Como saber se uma criança está ficando míope? Nem sempre a criança vai chegar aos pais e dizer: “não estou enxergando bem”. Ela pode simplesmente achar que todo mundo enxerga daquele jeito. Por isso, alguns comportamentos podem servir de alerta: É importante lembrar que esses sinais não significam necessariamente que a criança tenha miopia. Eles apenas mostram que vale a pena avaliar a visão. E o celular? Ele causa miopia? Essa é provavelmente uma das perguntas que os pais mais fazem. A resposta não é simplesmente “sim”. O aumento do uso de celulares, tablets e computadores faz parte de uma mudança maior no estilo de vida das crianças. Hoje elas passam mais tempo dentro de casa, realizando atividades de perto (usando celular) e menos tempo brincando ao ar livre. Estudos indicam que passar pouco tempo ao ar livre é um dos fatores mais relacionados ao desenvolvimento da miopia. Atividades de perto por muito tempo, como usar o celular ou ler, também podem estar ligadas ao risco, principalmente quando feitas por longos períodos e muito perto dos olhos. Por isso, mais do que simplesmente proibir o celular, precisamos ajudar as crianças a encontrar um equilíbrio entre atividades de perto e tempo ao ar livre. Brincar ao ar livre faz bem para os olhos. Essa talvez seja uma das recomendações mais simples e importantes. Incentivar a criança a brincar, caminhar, praticar esportes ou simplesmente passar tempo ao ar livre durante o dia – a recomendação é passar entre 90 minutos a 2 horas por dia ao ar livre – pode ajudar a prevenir ou atrasar e reduzir o risco de desenvolver miopia. Não precisa ser uma atividade específica. O importante é sair de casa e passar tempo em ambientes externos, com luz natural. E se a criança já tem miopia? Nesse caso, o acompanhamento é ainda mais importante. Ter miopia não significa apenas precisar de óculos. Em algumas crianças, o grau pode aumentar rapidamente durante os anos escolares. Por isso, o acompanhamento com o oftalmologista é fundamental. Hoje existem diferentes estratégias para o controle da progressão da miopia, incluindo algumas lentes especiais para óculos, lentes de contato específicas e tratamentos medicamentosos, que serão prescritos pelo oftalmologista infantil quando indicado. Seu uso depende da idade da criança, do grau, da velocidade de progressão e de outras características individuais. Por isso, não existe uma única solução que sirva para todas as crianças. O que os pais podem fazer? Algumas atitudes simples podem fazer parte da rotina da família: •Mais tempo ao ar livre: incentive a criança a brincar e praticar atividades fora de casa, se possível todos os dias. •Pausas nas atividades de perto: durante o uso de telas, leitura ou estudos, faça pausas regulares e evite longos períodos contínuos olhando para perto.  •Distância adequada: livros, cadernos e telas não devem ficar excessivamente próximos dos olhos. •Óculos quando prescritos: se a criança precisa de correção, é importante utilizar os óculos conforme a orientação do oftalmologista. Usar óculos não faz a miopia aumentar. •Acompanhamento: crianças com miopia precisam ser acompanhadas regularmente para verificar se o grau está estável ou aumentando. Cuidar da visão é cuidar do futuro. A miopia não deve ser encarada apenas como uma questão de “colocar óculos”. Quando aparece muito cedo ou evolui rapidamente, ela merece acompanhamento porque o aumento excessivo da miopia pode elevar, no futuro, o risco de algumas doenças oculares. A boa notícia é que hoje sabemos muito mais sobre miopia do que sabíamos alguns anos atrás. E algumas medidas são simples, seguras e fazem parte de uma infância mais saudável: menos tempo em atividades de perto, mais brincadeiras ao ar livre e acompanhamento oftalmológico adequado. No fim das contas, cuidar da visão da criança para evitar a miopia é ajudar a montar uma rotina mais equilibrada, com espaço para estudar, brincar, usar a tecnologia, descansar e, claro, garantir momentos ao ar livre, longe das telas. Fontes: Organização Mundial da Saúde (OMS), International Myopia Institute (IMI) e Sociedade Brasileira de Pediatria. Relator:Marcelo Alexandre A. CavalcantePresidente do Departamento Científico de Oftalmologia da SPSP]]>

“Meu filho está apertando os olhos para enxergar a lousa.”

“Ele quer assistir TV bem próximo da televisão.”

“Será que prejudica passar muito tempo no celular?”

Essas são dúvidas bastante comuns entre os pais. E podem indicar e ser sinais de que é hora de avaliar a visão da criança.

A miopia é uma condição visual na qual a criança consegue ver bem os objetos próximos, mas tem dificuldade para enxergar os que estão mais distantes. Por isso, uma criança míope pode ler um livro ou usar o celular sem problemas, mas ter dificuldade para ver o que está escrito na lousa da escola.

A miopia está se tornando cada vez mais comum entre crianças e adolescentes em várias partes do mundo. E isso merece atenção, porque quanto mais cedo a miopia aparece e quanto mais ela aumenta ao longo da infância, maior pode ser o grau no futuro. Altos graus de miopia estão associados a um maior risco de problemas oculares ao longo da vida.

Como saber se uma criança está ficando míope?

Nem sempre a criança vai chegar aos pais e dizer: “não estou enxergando bem”.

Ela pode simplesmente achar que todo mundo enxerga daquele jeito.

Por isso, alguns comportamentos podem servir de alerta:

  • apertar os olhos para enxergar de longe;
  • aproximar-se muito da televisão ou de outros objetos;
  • ter dificuldade para enxergar a lousa na escola;
  • sentar cada vez mais perto da tela;
  • apresentar dores de cabeça ou cansaço visual;
  • perder o interesse por atividades que dependem da visão de longe;
  • apresentar queda no rendimento escolar.

É importante lembrar que esses sinais não significam necessariamente que a criança tenha miopia. Eles apenas mostram que vale a pena avaliar a visão.

E o celular? Ele causa miopia?

Essa é provavelmente uma das perguntas que os pais mais fazem.

A resposta não é simplesmente “sim”.

O aumento do uso de celulares, tablets e computadores faz parte de uma mudança maior no estilo de vida das crianças. Hoje elas passam mais tempo dentro de casa, realizando atividades de perto (usando celular) e menos tempo brincando ao ar livre.

Estudos indicam que passar pouco tempo ao ar livre é um dos fatores mais relacionados ao desenvolvimento da miopia. Atividades de perto por muito tempo, como usar o celular ou ler, também podem estar ligadas ao risco, principalmente quando feitas por longos períodos e muito perto dos olhos.

Por isso, mais do que simplesmente proibir o celular, precisamos ajudar as crianças a encontrar um equilíbrio entre atividades de perto e tempo ao ar livre.

Brincar ao ar livre faz bem para os olhos. Essa talvez seja uma das recomendações mais simples e importantes.

Incentivar a criança a brincar, caminhar, praticar esportes ou simplesmente passar tempo ao ar livre durante o dia – a recomendação é passar entre 90 minutos a 2 horas por dia ao ar livre – pode ajudar a prevenir ou atrasar e reduzir o risco de desenvolver miopia.

Não precisa ser uma atividade específica. O importante é sair de casa e passar tempo em ambientes externos, com luz natural.

E se a criança já tem miopia?

Nesse caso, o acompanhamento é ainda mais importante.

Ter miopia não significa apenas precisar de óculos. Em algumas crianças, o grau pode aumentar rapidamente durante os anos escolares. Por isso, o acompanhamento com o oftalmologista é fundamental.

Hoje existem diferentes estratégias para o controle da progressão da miopia, incluindo algumas lentes especiais para óculos, lentes de contato específicas e tratamentos medicamentosos, que serão prescritos pelo oftalmologista infantil quando indicado. Seu uso depende da idade da criança, do grau, da velocidade de progressão e de outras características individuais.

Por isso, não existe uma única solução que sirva para todas as crianças.

O que os pais podem fazer? Algumas atitudes simples podem fazer parte da rotina da família:

•Mais tempo ao ar livre: incentive a criança a brincar e praticar atividades fora de casa, se possível todos os dias.

•Pausas nas atividades de perto: durante o uso de telas, leitura ou estudos, faça pausas regulares e evite longos períodos contínuos olhando para perto.

 •Distância adequada: livros, cadernos e telas não devem ficar excessivamente próximos dos olhos.

•Óculos quando prescritos: se a criança precisa de correção, é importante utilizar os óculos conforme a orientação do oftalmologista. Usar óculos não faz a miopia aumentar.

•Acompanhamento: crianças com miopia precisam ser acompanhadas regularmente para verificar se o grau está estável ou aumentando.

Cuidar da visão é cuidar do futuro. A miopia não deve ser encarada apenas como uma questão de “colocar óculos”.

Quando aparece muito cedo ou evolui rapidamente, ela merece acompanhamento porque o aumento excessivo da miopia pode elevar, no futuro, o risco de algumas doenças oculares.

A boa notícia é que hoje sabemos muito mais sobre miopia do que sabíamos alguns anos atrás. E algumas medidas são simples, seguras e fazem parte de uma infância mais saudável: menos tempo em atividades de perto, mais brincadeiras ao ar livre e acompanhamento oftalmológico adequado.

No fim das contas, cuidar da visão da criança para evitar a miopia é ajudar a montar uma rotina mais equilibrada, com espaço para estudar, brincar, usar a tecnologia, descansar e, claro, garantir momentos ao ar livre, longe das telas.

Fontes: Organização Mundial da Saúde (OMS), International Myopia Institute (IMI) e Sociedade Brasileira de Pediatria.

Relator:
Marcelo Alexandre A. Cavalcante
Presidente do Departamento Científico de Oftalmologia da SPSP

]]>
Educação é direito e cuidado https://spsp.org.br/educacao-e-direito-e-cuidado/ Tue, 25 Aug 2026 17:37:53 +0000 https://spsp.org.br/?p=58538 Celebrar o Dia Nacional da Educação Infantil, em 25 de agosto, é lembrar que educar não significa apenas transmitir conteúdos. Desde os primeiros anos de vida, educação é cuidado, vínculo, estímulo à curiosidade e oportunidade de desenvolver capacidades físicas, emocionais, sociais e cognitivas. A educação infantil, prevista na Lei de Diretrizes e Bases, deve promover o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade.1 O Brasil tem uma rede ampla e diversa. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo 9,2 milhões na educação infantil e 25,8 milhões no ensino fundamental. Também contabilizou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Esses números revelam avanços, mas não garantem, sozinhos, uma experiência educacional de qualidade. Persistem diferenças importantes entre regiões, cidades, áreas urbanas e rurais, redes públicas e privadas e grupos definidos por renda, raça, deficiência e condições de moradia.2 Na infância, os desafios se tornam ainda mais complexos. Professores e profissionais de saúde acompanham crianças com diferentes ritmos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual, TDAH e dificuldades de linguagem. Identificar sinais precocemente é importante, mas não devemos transformar toda diferença em doença. O caminho é observar, escutar a família, avaliar com cuidado e construir, com a escola, estratégias individualizadas de apoio e inclusão. A criança precisa de recursos e oportunidades, não de rótulos que limitem seu futuro. Outro desafio atual é o uso excessivo de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas até os dois anos e, dos dois aos cinco, limitar seu uso a até uma hora diária, sempre com a presença de um adulto. Mais importante que contar minutos é proteger o sono, as refeições, o movimento, a leitura, o brincar e a convivência olho no olho. A escola também pode estabelecer regras claras, formar educadores e orientar as famílias, sem culpar quem enfrenta rotinas exaustivas ou falta de espaços seguros para brincar.3 Solucionar esses problemas exige investimento contínuo em creches e escolas, valorização e formação dos professores, equipes multiprofissionais, acessibilidade, transporte, alimentação e políticas que reduzam a pobreza. Exige ainda aproximar pediatras, educadores e famílias, compartilhando observações e responsabilidades. Educação de qualidade não é privilégio nem tarefa isolada: é uma construção coletiva e um compromisso com a saúde, a autonomia e a cidadania. Defender esse direito é oferecer a cada criança a possibilidade real de aprender, participar e florescer. Saiba mais: Relator:Fausto Flor CarvalhoVice-Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP]]>

Celebrar o Dia Nacional da Educação Infantil, em 25 de agosto, é lembrar que educar não significa apenas transmitir conteúdos. Desde os primeiros anos de vida, educação é cuidado, vínculo, estímulo à curiosidade e oportunidade de desenvolver capacidades físicas, emocionais, sociais e cognitivas. A educação infantil, prevista na Lei de Diretrizes e Bases, deve promover o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade.1

O Brasil tem uma rede ampla e diversa. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo 9,2 milhões na educação infantil e 25,8 milhões no ensino fundamental. Também contabilizou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Esses números revelam avanços, mas não garantem, sozinhos, uma experiência educacional de qualidade. Persistem diferenças importantes entre regiões, cidades, áreas urbanas e rurais, redes públicas e privadas e grupos definidos por renda, raça, deficiência e condições de moradia.2

Na infância, os desafios se tornam ainda mais complexos. Professores e profissionais de saúde acompanham crianças com diferentes ritmos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual, TDAH e dificuldades de linguagem. Identificar sinais precocemente é importante, mas não devemos transformar toda diferença em doença. O caminho é observar, escutar a família, avaliar com cuidado e construir, com a escola, estratégias individualizadas de apoio e inclusão. A criança precisa de recursos e oportunidades, não de rótulos que limitem seu futuro.

Outro desafio atual é o uso excessivo de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas até os dois anos e, dos dois aos cinco, limitar seu uso a até uma hora diária, sempre com a presença de um adulto. Mais importante que contar minutos é proteger o sono, as refeições, o movimento, a leitura, o brincar e a convivência olho no olho. A escola também pode estabelecer regras claras, formar educadores e orientar as famílias, sem culpar quem enfrenta rotinas exaustivas ou falta de espaços seguros para brincar.3

Solucionar esses problemas exige investimento contínuo em creches e escolas, valorização e formação dos professores, equipes multiprofissionais, acessibilidade, transporte, alimentação e políticas que reduzam a pobreza. Exige ainda aproximar pediatras, educadores e famílias, compartilhando observações e responsabilidades. Educação de qualidade não é privilégio nem tarefa isolada: é uma construção coletiva e um compromisso com a saúde, a autonomia e a cidadania. Defender esse direito é oferecer a cada criança a possibilidade real de aprender, participar e florescer.

Saiba mais:

  1. [gov](https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/saeb/dia-nacional-da-educacao-infantil-e-celebrado-nesta-segunda-25)
  2. [gov](https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-escolar/conheca-o-perfil-dos-46-milhoes-de-estudantes-da-educacao-basica-no-dia-do-estudante/)
  3. [sbp.com](https://www.sbp.com.br/nova-lei-sobre-protecao-digital-reforca-recomendacoes-da-sbp-para-a-primeira-infancia/)

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Vice-Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

]]>
Meu filho está gaguejando – e agora? https://spsp.org.br/meu-filho-esta-gaguejando-e-agora/ Thu, 26 Feb 2026 14:22:32 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=55207 O que é gagueira? é uma alteração da fluência da fala, caracterizada por repetições (por exemplo, “-pa-pa-papai”), prolongamentos de sons (“ssssala”) ou bloqueios (pausas em]]>

O que é gagueira? é uma alteração da fluência da fala, caracterizada por repetições (por exemplo, “-pa-pa-papai”), prolongamentos de sons (“ssssala”) ou bloqueios (pausas em que a palavra não sai). É comum em crianças pequenas, enquanto a fala e o controle da linguagem estão em desenvolvimento. Nem toda gagueira na infância vira gagueira persistente (aquela que acompanha a pessoa por mais tempo).

As causas prováveis, baseadas em evidências, incluem

  1. Alteração ou imaturidade do desenvolvimento neurológico: algumas crianças têm um padrão de desenvolvimento da fala mais sensível; há diferenças na forma como o cérebro processa a linguagem e a coordenação motora da fala.
  2. Genética: estudos mostram maior risco em famílias com histórico de gagueira.
  3. Fatores linguísticos e do ambiente: períodos de rápido ganho de linguagem, falar muito rápido ou frases complexas podem sobrecarregar a criança. Não é culpa dos pais, mas o ambiente pode influenciar a expressão.

Fatores emocionais e de temperamento, ansiedade e frustração, eventos estressantes podem agravar a gagueira, mas não são a causa dela.

Eventos estressantes: grandes modificações na vida da criança (mudança, chegada de irmão) podem coincidir com o início, mas também não são a causa da gagueira.

 

Como agir quando a criança começa a gaguejar

  • Manter a calma: reações de nervosismo ou correção imediata aumentam a pressão sobre a criança.
  • Escutar com atenção e paciência: oferecer tempo para que termine, manter contato visual e não completar as palavras.
  • Reduzir a pressa: falar de forma lenta e relaxada com a criança; usar frases curtas e pausas para modelar o ritmo natural.
  • Evitar cobrar falando: “diga certo” ou corrigir a fala durante a conversa. Elogiar tentativas de comunicação, não a fluência.
  • Criar momentos de interação tranquila: leitura conjunta, brincadeiras que valorizem a comunicação sem pressão.
  • Procurar orientação profissional se houver dúvida: foniatras e fonoaudiólogos.

 

Quando se preocupar (procurar avaliação em curto prazo)

  • Início após os 4–5 anos sem sinais de melhora em 3–6 meses.
  • A criança evita falar em situações sociais, demonstra angústia significativa, ou a gagueira aumenta em frequência/intensidade.
  • Há bloqueios longos, esforço evidente, sons cortados ou tremores na fala.
  • Histórico familiar de gagueira persistente.
  • Desenvolvimento da linguagem atrasado, problemas auditivos ou outras condições neurológicas/psicológicas associadas.

 

Quando é razoável aguardar (observação ativa)

  • Início entre 18 meses e 4 anos, especialmente durante um período de rápido desenvolvimento da linguagem.
  • Gagueira intermitente, com intensidade baixa e sem sinais de angústia ou evitação.
  • Melhora observada em semanas a poucos meses. Nesses casos, acompanhamento cuidadoso (monitoramento por pais e, se possível, por fonoaudiólogo) é apropriado. Manter estratégias de comunicação calmas e apoio emocional costumam ajudar.

 

A gagueira na infância é comum e muitas vezes melhora com apoio e tempo. Agir com calma, oferecer um ambiente de fala seguro e buscar avaliação profissional quando houver sinais de risco são as melhores atitudes.

 

Relatora:

Sulene Pirana

Médica Otorrinolaringologista com Área de Atuação em Foniatria e Medicina do Sono

Membro do Departamento Científico de Otorrinolaringologia da SPSP

Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da SPSP

 

 

]]>
Conhecer, identificar e tratar a dislexia o mais precocemente possível é fundamental para se obter melhores resultados https://spsp.org.br/conhecer-identificar-e-tratar-a-dislexia-o-mais-precocemente-possivel-e-fundamental-para-se-obter-melhores-resultados/ Sun, 16 Nov 2025 10:30:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=54208 16 de novembro é o Dia Nacional de Atenção à Dislexia, uma condição relacionada ao desenvolvimento ]]>

16 de novembro é o Dia Nacional de Atenção à Dislexia, uma condição relacionada ao desenvolvimento do cérebro que torna a leitura mais difícil do que o esperado, mesmo para crianças que têm inteligência normal, motivação e uma boa escolaridade. Na prática, ela causa dificuldades na hora de reconhecer palavras rapidamente, soletrar corretamente e entender o que se está lendo, o que pode ser frustrante, tanto para os pequenos quanto para os adultos.

Por que isso acontece? A dislexia tem uma origem neurológica, ou seja, ela está relacionada a diferenças na estrutura e funcionamento de algumas áreas do cérebro que lidam com a linguagem escrita. Além disso, ela costuma ser herdada, com uma chance de até 70% de passar de geração em geração.

Estudos mostram que a dislexia afeta cerca de 5% a 10% das crianças em idade escolar, podendo chegar a 17,5%, dependendo do grupo estudado. Acomete meninos e meninas, embora meninos sejam mais frequentemente encaminhados para avaliação, devido a outras dificuldades comportamentais que podem estar presentes.

O impacto da dislexia vai além da escola. Crianças e adultos com esse transtorno podem ter mais dificuldades na autoestima, sofrer de ansiedade ou até depressão, e encontrar dificuldades para manter boas relações com colegas, amigos e familiares. Quando o diagnóstico e o início do apoio chegam tarde, essas dificuldades podem se ampliar, levando a desigualdades na educação, problemas emocionais e maior estresse na família.

Por isso, conhecer e identificar a dislexia cedo é fundamental. Quanto mais cedo ela for reconhecida, maiores as chances de se oferecer o suporte adequado, ajudando a pessoa a superar essas dificuldades e a desenvolver todo seu potencial, com mais confiança e bem-estar, na escola e na vida.

Para entender como se identifica e se trata a dislexia, é importante saber que o diagnóstico envolve uma avaliação detalhada, realizada por uma equipe especializada. Essa avaliação inclui conversar com os pais e professores, observar o histórico escolar da criança e aplicar testes padronizados, que avaliam habilidades de leitura, escrita, linguagem e raciocínio. O objetivo é detectar dificuldades específicas na leitura e na escrita, que não sejam apenas decorrentes de questões sensoriais, neurológicas ou falta de oportuna instrução. A equipe recomendada é composta por educadores, psicólogos, fonoaudiólogos e médicos (pediatras, foniatras e neurologistas), trabalhando juntos para uma avaliação que permita identificar a dislexia cedo, oferecendo apoio antes que as dificuldades afetem seu desempenho escolar de forma mais grave.

O tratamento da dislexia é baseado em métodos educacionais desenvolvidos especialmente para cada pessoa. Essas intervenções focam na conscientização fonológica, no entendimento do princípio alfabético, na prática da fonética, na decodificação, na leitura fluente, no fortalecimento do vocabulário e na compreensão do texto. É fundamental que esse trabalho seja feito por profissionais treinados, com prática constante e feedbacks que ajudem a criança a evoluir. Quanto mais cedo a intervenção começar, melhores os resultados. A adaptação escolar também é importante: podem ser necessários tempo extra para provas, uso de tecnologia assistiva e materiais adaptados, tudo com o objetivo de garantir o aprendizado e a inclusão do aluno.

Quando a criança também apresenta dificuldades emocionais, como ansiedade ou depressão, o apoio psicológico pode ser necessário. Além disso, programas de exercícios visuais, atenção e recursos digitais vêm mostrando benefícios no desenvolvimento da fluência de leitura e na compreensão do texto. Vale destacar que, atualmente, não há evidências de que medicamentos ou terapias alternativas sejam eficazes para tratar a dislexia, recomendando-se a combinação de estratégias educativas e apoio terapêutico individualizado.Parte superior do formulário

 

Relatora:

Sulene Pirana
Médica Otorrinolaringologista e Foniatra
Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da SPSP

]]>
Qual o papel do geneticista no diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA)? https://spsp.org.br/qual-o-papel-do-geneticista-no-diagnostico-do-transtorno-do-espectro-autista-tea/ Tue, 05 Aug 2025 19:34:58 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=52598 O diagnóstico do TEA é essencialmente clínico e comportamental. Ainda não existem marcadores bioquímicos ou moleculares que auxiliem ]]>

O diagnóstico do TEA é essencialmente clínico e comportamental. Ainda não existem marcadores bioquímicos ou moleculares que auxiliem no diagnóstico da condição.

Por se tratar de um distúrbio complexo, seu diagnóstico pode implicar numa jornada trabalhosa, realizado por profissionais especializados, que envolve anamnese, avaliação clínica, estudo do histórico familiar, observação do comportamento da criança, avaliação por médico especializado, psicólogo, entrevistas com os pais, terapeutas e a aplicação de instrumentos específicos.

O TEA é causado pela combinação de múltiplos fatores genéticos e ambientais. Os fatores de risco genéticos para TEA se sobrepõem a outros diversos transtornos do desenvolvimento e psiquiátricos.

Estudos científicos com pacientes gêmeos estimam que a herdabilidade do TEA gira em torno de 50% a 90% e que o diagnóstico em irmãos de crianças diagnosticadas seja de 6,1% a 18,7%. É relevante lembrar que a recorrência em irmãos do sexo masculino é mais alta.

Apesar de claramente importantes, os fatores genéticos não atuam sozinhos, sendo sua ação influenciada pelos fatores ambientais e epigenéticos.

Levando todo esse contexto em consideração, o componente genético no TEA pode variar, desde ser a única causa associada à condição (ocorre mais raramente, apenas 1% dos casos), como estar associado em menor grau a uma das causas, conferindo apenas um aumento da suscetibilidade.

É exatamente nesse ponto que o médico geneticista, em parceria com a equipe multidisciplinar, atua na investigação do TEA. O médico geneticista avaliará o paciente e procurará sinais clínicos que indiquem situações em que possíveis causas genéticas possam estar presentes e solicitar os exames genéticos, quando forem aplicáveis.

Nas situações em que é possível estabelecer uma causa genética, pode-se calcular a chance de recorrência na família, diferenciar se a alteração é exclusiva do paciente, ou vem herdada dos pais, e com isso programar próximas gestações e, inclusive, a programação de filhos do próprio paciente quando chegar o momento. Em algumas situações, quando há outros indivíduos descritos com a mesma alteração, é possível estabelecer um paralelo de como é o histórico do transtorno para essas pessoas e prever alguns eventos clínicos para o paciente diretamente.

Somente o médico, com base no histórico pessoal e familiar do paciente, pode avaliar os benefícios e limitações da realização de um teste genético para o Transtorno do Espectro Autista.

O que os exames genéticos podem indicar sobre o futuro?

Considerando todas as ferramentas de investigação genética disponíveis atualmente, é possível, hoje em dia, identificar alterações genéticas que expliquem a etiologia do TEA em aproximadamente 25% dos indivíduos. Esse número tende a aumentar conforme os testes genéticos forem mais utilizados, uma vez que os bancos de dados para interpretação dos resultados vão sendo progressivamente alimentados.

Nos dias atuais muitas pesquisas pelo mundo estão dedicadas a entender as bases genéticas dos TEA. Consórcios de bancos de dados genéticos para investigação do autismo funcionam como plataformas colaborativas que reúnem informações genômicas de indivíduos com autismo, visando identificar padrões genéticos associados ao transtorno. Esses consórcios facilitam o compartilhamento de dados entre pesquisadores, promovendo estudos mais amplos e robustos sobre a genética do autismo e acelerando o desenvolvimento de testes diagnósticos e terapias mais eficazes.

Só para citar alguns exemplos de consórcios:

1. Autism Sequencing Consortium (ASC)

2. EU-AIMS (European Autism Interventions – A Multicentre Study for Developing New Medications)

3. SPARK (Simons Foundation Powering Autism Research for Knowledge)

4. IBIS Network (Infant Brain Imaging Study)

Embora os exames genéticos apresentem limitações, existem muitos benefícios importantes a serem levados em consideração, especialmente nos casos de pacientes com o diagnóstico de TEA e mais outras situações, como:

  • Associação com outras condições neurológicas, especialmente epilepsia de difícil controle
  • Histórico familiar de TEA e/ou histórico familiar de síndrome genética
  • Regressão no desenvolvimento
  • Sinais clínicos de dismorfismos, que são alterações físicas atípicas. Destacamos a medida do perímetro cefálico. Entre 20% e 30% das crianças com TEA apresentam circunferência da cabeça maior que o percentil 97 (macrocefalia). A microcefalia também pode ser um sinal de alerta.

Novamente vale citar que somente o médico, com base no histórico pessoal e familiar do paciente, pode avaliar os benefícios e limitações da realização de um teste genético para o Transtorno do Espectro Autista.

Por fim, é importante que as famílias entendam que um resultado negativo em um exame genético não exclui a possibilidade de autismo. O transtorno é complexo e multifatorial, e muitos fatores ambientais e genéticos ainda não são totalmente compreendidos. E devem sempre procurar o pediatra de seu filho, para que oriente e faça os encaminhamentos necessários.

 

Relatora:
Patrícia Salmona
Médica Pediatra e Geneticista
Presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
O brincar como essência da infância – e da vida https://spsp.org.br/o-brincar-como-essencia-da-infancia-e-da-vida/ Wed, 28 May 2025 11:10:59 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=51541 “A infância é um chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias” Lya Luft 28 de maio é o Dia Internacional do Brincar. Quando falamos sobre o desenvolvimento]]>

“A infância é um chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias”

Lya Luft

 28 de maio é o Dia Internacional do Brincar. Quando falamos sobre o desenvolvimento saudável das crianças, uma palavra se impõe com força e leveza ao mesmo tempo: brincar. Mais do que um passatempo, o brincar é linguagem, é afeto, é descoberta. Ele está presente desde os primeiros dias de vida – no sorriso que provoca o balbucio do bebê, na exploração das mãos, no esconder e aparecer do rosto etc. Cresce com a criança, transforma-se com ela e a acompanha até a vida adulta, ainda que em novas formas e “roupagens”.

Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, nomes como Jean Piaget, Lev Vygotsky e Donald Winnicott ajudaram a consolidar a ideia de que o brincar não é apenas reflexo do desenvolvimento, mas também um motor fundamental para que ele aconteça. Piaget via no jogo simbólico uma forma de construção do pensamento. Vygotsky destacava a importância do faz-de-conta como espaço de criação de sentido e mediação cultural. Já Winnicott nos presenteou com a noção de “espaço potencial”, um território de transição entre o mundo interno e o mundo real, acessado justamente por meio do brincar.

Do olhar da educação, o brincar é campo de aprendizagem rica e espontânea. Crianças aprendem regras, limites, cooperação, criatividade e resiliência ao brincar – aspectos que nenhuma tela é capaz de transmitir com a mesma intensidade. Quando uma criança constrói com blocos, negocia papéis em uma brincadeira de faz-de-conta ou se equilibra em um tronco no parque, ela está desafiando a si mesma, desenvolvendo habilidades cognitivas, sociais e motoras. Aprendendo a viver em sociedade.

Num mundo cada vez mais digital, é urgente lembrar que brincar é também um antídoto. O excesso de telas tem se mostrado nocivo ao desenvolvimento infantil, afetando sono, atenção, linguagem e saúde emocional. Ao incentivar o brincar livre – dentro e fora de casa, com adultos ou com outras crianças – estamos não apenas resgatando a infância, mas oferecendo uma poderosa alternativa para reduzir o tempo de exposição às telas.

É papel de todos nós – pais, pediatras, educadores e profissionais da saúde – proteger esse tempo sagrado do brincar. Isso não exige brinquedos caros nem espaços sofisticados. Brincar pode ser inventar uma história com panos e almofadas, pular corda, criar uma cabana com cadeiras e lençóis ou simplesmente correr descalço no quintal. Mais do que o objeto, é o vínculo, o tempo disponível e o ambiente seguro que fazem do brincar uma experiência transformadora.

O brincar não se esgota na infância. Ele reaparece nas brincadeiras entre adolescentes, nos jogos de tabuleiro em família, no teatro, na música, nas expressões lúdicas da vida adulta. Manter viva essa dimensão do brincar é preservar o que há de mais humano em nós: a capacidade de criar, imaginar e se relacionar de forma genuína.

Em tempos de pressa, agendas cheias e estímulos digitais por todos os lados, brincar é também um ato de resistência, de permitir-se estar presente, de olhar nos olhos, de rir junto, de aprender com o outro.

E para a criança, isso não é um luxo. É uma necessidade.

 

Relator:

Fernando Lamano Ferreira
Presidente do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Entendendo o Transtorno do Espectro Autista (TEA): sinais, causas e a importância da intervenção precoce https://spsp.org.br/entendendo-o-transtorno-do-espectro-autista-tea-sinais-causas-e-a-importancia-da-intervencao-precoce/ Wed, 02 Apr 2025 14:14:37 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50823 No dia 2 de abril celebra-se o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, uma data estabelecida]]>

No dia 2 de abril celebra-se o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, uma data estabelecida pela ONU em 2007. A iniciativa busca promover a compreensão e a empatia em relação às pessoas no espectro autista, além de incentivar a criação de políticas públicas que garantam a inclusão e a proteção desses indivíduos. O símbolo da conscientização, representado por um laço colorido, reflete a diversidade e a importância de apoiar a causa.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição que aparece de várias maneiras, podendo afetar a fala, o comportamento e as habilidades sociais da criança. A partir dos dois anos, os pais começam a notar alguns comportamentos que podem ser sinais do transtorno, como dificuldades para falar, repetir ações constantemente, ter hipersensibilidade a certos estímulos e dificuldades em interagir socialmente. Alguns sinais comuns incluem atraso na fala ou até uma fala muito repetitiva ou sem intenção comunicativa; não manter contato visual; inquietação motora, como balanceio do corpo para frente e para trás, flappings (chacoalhar as mãos ritmicamente). Além disso, é comum a criança rodar objetos, andar na ponta dos pés e a busca por objetos rígidos e aleatórios e brincadeiras que não envolvem um faz de conta.

Muitos desses comportamentos já haviam sido descritos e nomeados de autismo infantil precoce, em 1943, por Leo Kanner, psiquiatra austríaco naturalizado norte-americano.

O autismo se apresenta de formas variadas: pode-se dizer que são vários autismos, ainda que algumas características se apresentem em todos eles. Entendemos que todos os indivíduos são únicos, por isso há uma multiplicidade de fenômenos e várias formas e intensidade em que esses comportamentos se apresentam em cada criança. Assim, faz sentido falar em espectro.

As últimas pesquisas apontam para causas multifatoriais, em que há uma interação de causas orgânicas, genéticas, emocionais e ambientais. E as novas descobertas da Epigenética demonstram uma interação importante entre elementos genéticos e ambientais, chamando a atenção para os fatores que interferem na expressividade genética, sem que haja alterações no DNA. Além disso, a plasticidade neuronal, nos primeiros anos de vida, pode ajudar a modificar padrões neuronais.

Vários estudos já apontam para falhas precoces no desenvolvimento dos bebês, que seriam consideradas “portas abertas” para os TEAs. Assim, se pudermos intervir a tempo, em sessões conjuntas pais-bebê, muitas conquistas significativas podem ser alcançadas, fortalecendo os vínculos afetivos e, desta forma, propiciando um desenvolvimento mais satisfatório das funções psíquicas.

Existem cada vez mais estudos e investigações sobre o desenvolvimento dos bebês e as possíveis falhas nesse processo, se detectadas precocemente e trabalhadas, incidirão positivamente na saúde psíquica, muitas vezes desviando essas crianças de um caminho que as levaria ao autismo, ou ao menos amenizando um quadro que poderia vir a ser mais grave.

Muratori e Apicella, dois pesquisadores do autismo, acreditam que as anormalidades no desenvolvimento motor podem estar relacionadas às atipicidades sociais. Os autores postulam que a presença de habilidades motoras precoces fora do padrão, por exemplo, hipoatividade, repertório motor pobre e assimetria postural, pode ser entendida como possível precursora corporal das dificuldades sociais. Esses pesquisadores também salientaram que as intervenções psicanalíticas nas relações iniciais pais-bebês demonstram ganhos significativos nas funções sociais e cognitivas de crianças autistas, principalmente porque acontecem em um momento de maior plasticidade neuronal.

Ainda que seja importante pensarmos em desenvolvimento cognitivo e nos entraves que possam surgir nesse quesito, é imprescindível atentar ao fato de que o cognitivo se constrói junto ao desenvolvimento psíquico e emocional.

Dessa forma, é cada vez mais necessário o estudo do desenvolvimento psíquico e a maneira como trabalharmos com essas crianças, dentro desse referencial que considera a psique e o emocional. Essa abordagem é mais abrangente do que o mero foco na modificação padronizada de comportamentos sociais não adaptados, pois cada criança é única, tem uma história de desenvolvimento, uma família, um psiquismo que lhe é próprio.

 

Relatora:

Fátima Maria Vieira Batistelli
Psicanalista da SBPSP – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Membro do GPPA – Grupo de Pesquisa e Psicanálise em Autismo.
Membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e criança pequena, da SBPSP.
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Orientação aos pais sobre dislexia: entendendo e apoiando seu filho https://spsp.org.br/orientacao-aos-pais-sobre-dislexia-entendendo-e-apoiando-seu-filho/ Thu, 14 Nov 2024 16:00:54 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48917 A dislexia é um transtorno de aprendizagem que afeta a habilidade de ler e processar a linguagem escrita. De acordo com as diretrizes da Classificação Internacional]]>

A dislexia é um transtorno de aprendizagem que afeta a habilidade de ler e processar a linguagem escrita. De acordo com as diretrizes da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), é categorizada como um transtorno específico de aprendizagem, caracterizando-se por dificuldades significativas na leitura e na ortografia, que não são atribuíveis a outros fatores.

A dislexia é uma condição neurológica que afeta a capacidade de decodificar palavras e compreender textos. Não está relacionada à inteligência. Crianças com dislexia podem ser muito inteligentes e criativas, mas podem encontrar desafios ao lidar com a leitura.

É essencial que as famílias busquem intervenções educacionais precoces e baseadas em evidências. As terapias e programas educacionais devem incluir instrução específica em decodificação, treinamento de fluência, vocabulário e compreensão. A intervenção precoce e a referência a profissionais qualificados são cruciais para alcançar os melhores resultados possíveis.

O ambiente familiar e o estilo parental também desempenham um papel significativo. Um ambiente de alfabetização em casa deve incluir atividades de leitura regulares e de qualidade entre pais e filhos. Estilos parentais que demonstram calor emocional e evitam superproteção e criação ansiosa estão associados a melhores resultados em aprendizagem acadêmica.

Estudos indicam que a dislexia está frequentemente associada a dificuldades no processamento auditivo básico, especialmente na percepção de sons da fala. A integração audiovisual, que envolve a combinação de informações auditivas e visuais, também é prejudicada em indivíduos com dislexia. Esses déficits auditivos podem ser melhorados com treinamento audiovisual, o que sugere uma plasticidade do sistema auditivo em resposta a intervenções específicas.

Portanto, enquanto a dislexia não é causada por problemas visuais, há evidências de que alterações no processamento auditivo desempenham um papel significativo na manifestação dos sintomas da dislexia. Intervenções educacionais baseadas em evidências que abordam essas dificuldades auditivas podem ser benéficas para indivíduos com dislexia.

Além disso, é importante desmistificar a relação entre dislexia e problemas de visão. Embora problemas de visão possam coexistir com a dislexia, eles não são mais prevalentes do que na população geral e não são a causa da dislexia. Terapias visuais, como exercícios oculares, não têm eficácia comprovada no tratamento da dislexia e podem atrasar a aplicação de intervenções eficazes.

Os sinais de dislexia podem aparecer na infância, mas muitas vezes são reconhecidos mais tarde, quando as demandas escolares aumentam.

Sinais comuns de dislexia:

  • Dificuldade em associar sons às letras.
  • Dificuldade em reconhecer letras e palavras.
  • Leitura lenta e com muitos erros.
  • Problemas para compreender o que é lido ou escrito.
  • Dificuldades na soletração e na escrita.
  • Frustrações quando se trata de atividades relacionadas à leitura.

Como apoiar seu filho:

  1. Informe-se: Conheça mais sobre a dislexia, suas causas e como ela se manifesta. O entendimento é fundamental para lidar com a situação de forma adequada.
  2. Busque avaliação profissional: Caso você perceba dificuldades de aprendizagem, é essencial procurar avaliação com um profissional qualificado, converse com seu pediatra, ele pode orientar e encaminhar para uma avaliação foniátrica. Descartar outras causas de transtorno de aprendizagem, como alterações visuais, auditivas e intelectuais é muito importante, pois o diagnóstico preciso ajudará na escolha das melhores intervenções.
  3. Comunique-se com a escola: É importante manter um diálogo aberto com os professores e a escola. Informe-os sobre o diagnóstico e discuta a implementação de estratégias de ensino adaptativas, como o uso de leituras em voz alta ou a utilização de tecnologias assistivas.
  4. Crie um ambiente positivo: Incentive a leitura em casa, oferecendo livros que sejam interessantes para seu filho e tornando a leitura uma atividade agradável. Valorize os esforços e conquistas dele, por menores que sejam.
  5. Mantenha paciência e apoio: O aprendizado pode ser mais desafiador, e pode levar tempo para que seu filho desenvolva habilidades de leitura. Esteja ao lado dele, oferecendo apoio emocional e ajudando-o a lidar com a frustração que pode surgir.

A dislexia é parte da jornada de aprendizado do seu filho, e com as intervenções corretas e o ambiente de apoio, ele pode alcançar seu potencial pleno durante o processo educativo. O amor, a compreensão e a paciência são essenciais enquanto vocês navegam por esse processo.

 

Relatora:
Sulene Pirana

Secretária do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Prevenção da surdez começa no pré-natal https://spsp.org.br/prevencao-da-surdez-comeca-no-pre-natal/ Fri, 08 Nov 2024 12:04:42 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48812 Em 10 de novembro é celebrado o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Surdez. A prevenção da surdez começa no período pré-natal – saber se existe na família algum caso de surdez]]>

Em 10 de novembro é celebrado o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Surdez. A prevenção da surdez começa no período pré-natal – saber se existe na família algum caso de surdez presente ao nascimento; se os pais são parentes entre si (parentesco de primeiro e segundo graus). Para estes casos, a orientação do geneticista pode ser muito útil.

No período gestacional é fundamental a realização das consultas pré-natais. O acompanhamento com o obstetra é importante para garantir uma evolução sadia do seu futuro bebê!

Deve-se fazer os testes sorológicos na gestante para afastar o risco de infecções maternas durante a gestação, que podem passar despercebidas. São elas: toxoplasmose, citomegalovirose, rubéola, herpes, Aids, sífilis, zika vírus, chikungunya, Covid-19.

O período que envolve o parto e a alta hospitalar do bebê são momentos críticos para a audição. Bebês que nascem prematuros e/ou com baixo peso também podem ter risco para a surdez. Internação em UTI por mais de cinco dias, problemas de oxigenação que necessitam de entubação, aumento da bilirrubina em que existe a necessidade de exsanguinotransfusão, uso de antibióticos ototóxicos, meningite, hemorragia periventricular também são fatores de risco.

Deve sempre ser solicitada a avaliação audiológica de seu bebê antes da alta hospitalar – o que é conhecido como o “Teste da Orelhinha”. É seu direito e é lei. Os testes são simples, rápidos, não invasivos, não dolorosos e permitem avaliar com muita precisão se o seu bebê “passou” na triagem auditiva.

Se existe suspeita de falha no “Teste da Orelhinha”, seu bebê deve ser encaminhado para as unidades de referência para confirmação da surdez e se iniciar de forma precoce o processo da reabilitação auditiva.

Quando um diagnóstico e a reabilitação da perda auditiva são feitos de forma precoce, as chances de o recém-nascido desenvolver a fala e a linguagem são muito maiores.

Durante o período pré-escolar e escolar, as infecções de ouvido são mais frequentes e podem causar perda auditiva temporária, que pode afetar o bom desenvolvimento da criança. Por isso o acompanhamento periódico com o pediatra e a realização de avaliações audiológicas seriadas são importantes.

Nas crianças maiores é importante estar atento ao uso de fones de ouvido em volume aumentado. Mesmo a música alta pode causar perda auditiva irreversível.

Que a audição de seu filho não se restrinja apenas ao dia 10 de novembro. A audição que nos permite estar na “presença intelectual dos homens” (Hellen Keller). É graças a audição que iremos desenvolver a fala, a linguagem, que iremos aprender e ensinar.

 

Relator:

Manoel de Nóbrega
Presidente do Departamento Científico de Otorrinolaringologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>
Dia Mundial de Conscientização do Autismo 2024 https://spsp.org.br/dia-mundial-de-conscientizacao-do-autismo-2024/ Tue, 02 Apr 2024 17:41:17 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=44416 “Valorize as capacidades e respeite os limites” é o slogan que marca este ano o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Uma importante recomendação para nos lembrar]]>

“Valorize as capacidades e respeite os limites” é o slogan que marca este ano o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Uma importante recomendação para nos lembrar da importância da singularidade e do respeito às diferenças, que não estão presentes apenas nos transtornos, mas que ganham eloquência quando somos convocados a compreender um universo tão peculiar como o desses indivíduos.

No dia 2 de abril, a temática ganha destaque e com isso diminui o abismo separatista que pode tornar essa vivência ainda mais solitária, numa sociedade que tanto valoriza a adaptação e o desempenho.

Uma das importantes ressalvas é considerar que são “muitos autismos” e que um indivíduo com características de TEA – Transtorno do Espectro Autista precisa ser compreendido em sua individualidade, para que possamos facilitar sua inclusão e socialização. São ações que precisam estar nas prioridades das políticas públicas, mas que não deixam de ser responsabilidade de cada um de nós. E é nessa direção que o slogan nos convoca, para que possamos evitar os preconceitos e os estigmas.

Temos muito ainda a compreender. E muitos equívocos ainda impedem que essas crianças possam se desenvolver de forma mais rica, adquirindo capacidade de subjetivação, que faz com que elas se apropriem de sua existência e desejos. O engodo é muitas vezes se resignar na falsa informação de que é uma criança que só pode ser treinada e tornar-se apenas funcional.

O percurso histórico dos últimos 80 anos nos mostra o quanto já se avançou; mas é o interesse e o empenho de cada um de nós que permitirão que essas crianças que apresentam sinais de risco não sejam condenadas a um viver empobrecido.

O autismo foi primeiramente descrito e nomeado por Leo Kanner, em 1943, a partir da descrição de 11 casos de crianças que apresentavam forte tendência ao retraimento, sem, no entanto, terem características que justificassem um retardo mental. Kanner denominou essa síndrome de “autismo infantil precoce”.

Desde essa época, muitos estudos têm sido feitos com o intuito de compreender a etiologia do que hoje denominamos transtorno do espectro autista.

Pesquisas recentes falam a favor de causas multifatoriais para os TEAs, isto é, muitos são os elementos que podem compor a etiologia desse transtorno. Além de que por meio da epigenética (campo de pesquisa que investiga como os estímulos ambientais podem ativar determinados genes e silenciar outros), os estudos demonstram uma interação importante entre fatores genéticos e ambientais, reforçando consideravelmente o ponto de vista do ambiente da criança, tanto em termos gerais como emocionais.

O transtorno do espectro autista é considerado um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado pelos seguintes comportamentos, iniciados na infância:

  • Dificuldades ou incapacidade de se relacionar, isto é baixa interação social;
  • Ausência ou atraso na aquisição da linguagem;
  • Não dirige o olhar – esse muitas vezes é desviante ou é como se atravessasse o interlocutor;
  • Fala ecolálica, isto é, repetição de palavras ou frases ditas na TV ou em filmes que assiste, sem nenhuma intenção comunicativa;
  • Flappings (balanceio das mãos na altura dos ombros, como asas de pássaros) ou movimentos estereotipados (esses podem ser os mais variados: pular incessantemente, escrever no ar, etc.);
  • Manutenção rígida de rotinas, inclusive na alimentação;
  • Uso não simbólico dos brinquedos, isto é, esses não são usados para brincadeiras de faz de conta e nem utilizados para as funções às quais foram destinados;
  • Uso de pessoas como instrumento. É muito comum que em vez de pedir ajuda, a criança pegue a pessoa pela mão e a leve no lugar onde quer que ela faça alguma coisa. Por exemplo: pegar a mão e levar a uma gaveta ou porta para que seja aberta, sem nenhuma solicitação e nem mesmo um direcionamento de olhares
  • Não responde a um chamado;
  • Gira objetos ou gira em torno do próprio eixo;
  • Bastante sensibilidade a sons altos;
  • Preferência por objetos duros ou que causam sensações, muito mais do que usados com função lúdica

 

Muito tem sido estudado para compreender sua etiologia e saber como ajudar essas crianças e suas famílias. Alguns apontam para falhas precoces no desenvolvimento dos bebês antes mesmo de completarem um ano de idade, que podem ser consideradas portas abertas para os TEAs. No entanto, se detectadas a tempo e trabalhadas preferencialmente em sessões conjuntas pais-bebê, com o apoio de uma equipe multiprofissional, muitas conquistas significativas podem ser alcançadas. Há um fortalecimento dos vínculos, o que propicia um desenvolvimento mais satisfatório. Essa é a conduta adotada pela psicanálise.

Por muitos anos, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) foi o tipo de tratamento indicado para o autismo, por vários profissionais. Essa escolha devia-se à ideia de que o indivíduo dentro do espectro não teria condições de subjetivação, como proposta pela psicanálise, e deveria ser apenas treinado para uma adaptação. No ano passado a AMA (American Medical Association), compreendendo os avanços nas pesquisas psicanalíticas e as evidências de possibilidades de subjetivação e qualidade interativa, retirou seu apoio exclusivo à ABA por falta de evidências e por problemas que foram sendo evidenciados a longo prazo com crianças que haviam sido submetidas ao programa.

Torna-se, assim, imprescindível o estudo do desenvolvimento psíquico e como vamos trabalhar com essas crianças, dentro desse referencial que considera a psique e o emocional. Essa abordagem é mais abrangente do que o mero foco na modificação padronizada de comportamentos sociais não adaptados, pois, como vimos, cada criança é única, tem uma história de desenvolvimento, uma família, um psiquismo que lhe é próprio.

O atendimento dentro do referencial psicanalítico é erroneamente entendido como tratamento que conta apenas com comunicação verbal, uso do divã, análise de sonho, ou, no caso de análise infantil, de jogo simbólico, comunicação verbal. O exercício da psicanálise, principalmente para aqueles pacientes com questões sérias nas áreas emocional e cognitiva, relacionadas aos estágios iniciais do desenvolvimento, vai muito além disso. A ênfase recai sobre a técnica adaptada. O trabalho psicanalítico com crianças dentro do TEA vem sendo estudado e praticado com sucesso por profissionais qualificados, tanto no Brasil como em várias partes do mundo.

O grupo Prisma de Psicanálise e Autismo (GPPA), ligado à Sociedade de Psicanálise de São Paulo, desenvolveu uma pesquisa buscando analisar dados e material clínico do trabalho psicanalítico com crianças que apresentam TEA, avaliando as mudanças e os resultados em um período de 18 meses de tratamento. Ficou demonstrado que o tratamento psicanalítico oferece oportunidades efetivas para o desenvolvimento psíquico e emocional, com ganhos significativos em termos de habilidades sociais, sem treinamentos específicos e padronizado.

 

Saiba mais:

https://www.icdl.com/about/News/ama

 

Relatoras:

Denise de Sousa Feliciano
Psicóloga e Psicanalista pela International Psychoanalytical Association (IPA)
Membro Associado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
Professora e Coordenadora do curso Relação Pais-Bebê: Da Observação à Intervenção (Instituto Sedes Sapientiae)
Presidente do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

Fatima Maria Vieira Batistelli
Psicóloga graduada pela Universidade de São Paulo (USP)
Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
Membro da clínica 0 a 3 Intervenção nas relações iniciais pais\bebê-criança pequena do Centro de Atendimento Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

]]>