Blog – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Thu, 10 Sep 2026 19:56:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Blog – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Um chamado à escuta e à conexão https://spsp.org.br/um-chamado-a-escuta-e-a-conexao/ Thu, 10 Sep 2026 19:56:56 +0000 https://spsp.org.br/?p=58975 Dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio e assistimos, entristecidos, a um aumento de casos entre jovens. Pensando nesse cenário, é importante refletirmos tanto sobre os sinais de atenção que devemos perceber quanto a respeito das ações que possam contribuir para a transformação desse quadro atual. De partida, é fundamental esclarecer que o suicídio tem causa multifatorial. Trata-se de um fenômeno complexo que não pode ser reduzido a explicações únicas e simplistas. Diante da dor que causa tanto ao sujeito quanto a todos que fazem parte de sua vida, é um tema que exige extrema delicadeza ao ser abordado. Todo respeito ao tema, porém, não deve afastar a importância de tratarmos dele. Pensar sobre o assunto é uma tentativa de avançarmos socialmente em um diálogo que, de tão sensível, historicamente permanece entre as subnotificações de causa mortis. O que já era delicado adquiriu caráter ainda mais desafiador nos tempos atuais, ao assistirmos, nos meios digitais e redes sociais, jovens criando fóruns de compartilhamento de conteúdo que vão desde o incentivo a desafios potencialmente mortíferos até transmissões ao vivo de suicídio. Diante desse cenário sócio-histórico, refletir sobre a sua prevenção, torna-se ainda mais urgente. Existem sinais de alerta e fatores associados a um maior risco de suicídio de forma geral, como tentativas anteriores, dependência ou abuso de álcool e drogas, comportamento autolesivo, histórico de abusos e traumas e transtornos mentais. É fundamental alertar que nenhum desses sinais, isoladamente, sentencia que algo dessa ordem acontecerá; eles podem, apenas, ser tomados como sinalizadores para um maior cuidado. A adolescência é um período em que ocorrem transformações velozes e grandiosas na vida de uma pessoa, tanto do ponto de vista biológico quanto psíquico. As transformações do corpo caminham de mãos dadas com a necessidade de maturidade psíquica para lidar com o complexo mundo dos relacionamentos e com as expectativas da futura vida adulta – com todos os desafios que ela envolve: a dimensão da vida sexual, os relacionamentos interpessoais mais refinados com os pares, a escolha da futura profissão e as exigências acadêmicas. O adolescente é convidado pelo mundo a abandonar seus aspectos infantis e seguir rumo a uma jornada da qual ele ainda tem poucas respostas. Ele experimenta um luto pela criança que foi e tem diante de si indagações sobre quem será. Junto desse processo de luto e transformações, é esperado – ainda que transitoriamente – que ele experiencie oscilações de sentimentos diante do turbilhão que vive. Nesse sentido, é fundamental estarmos atentos às conexões que o jovem estabelece com várias dimensões de sua vida, observando suas interações sociais de forma geral. É preciso ir além do âmbito do rendimento escolar e estar atento também aos engajamentos em grupos sociais (sejam amigos, esportes, música ou religião). São justamente essas conexões afetivas e sociais os grandes fatores de proteção nessa etapa da vida. Durante a adolescência, a noção de pertencimento ao grupo ganha uma importância enorme. Estar engajado com seus pares e ter ideais pelos quais se sinta conectado é o que contribuirá para que o jovem se sinta amarrado ao seu futuro e aos sonhos que eleger sonhar. De outro lado, existem situações que, quando presentes, exigem um olhar mais atento. Embora façam parte do período de experimentações de qualquer adolescência, podem traduzir uma expressão de sofrimento maior: isolamento súbito ou excessivo, compulsões em geral (por comida, telas, jogos, álcool ou drogas), praticar ou sofrer bullying, colocar-se constantemente em situações de risco e transtornos alimentares. Por ser a adolescência um período tão desafiador e importante, é fundamental olhar e acolher com atenção esses sinais quando surgem, interpretando-os como oportunidades de cuidado. Um sofrimento psicológico não precisa ser agravado para que possa ser acolhido como demanda de cuidado. Criar oportunidades de escuta ativa e qualificada para as angústias e desafios dessa fase da vida, portanto, é um elemento protetor quando pensamos em prevenção ao suicídio. Quando um sujeito se sente acompanhado e compartilha suas angústias, já não está mais só. Isso, em situações-limite de grande angústia, pode fazer toda a diferença no desfecho de um período de maior sofrimento. Pensando em elementos que contribuam para a prevenção ao suicídio entre os jovens, é interessante refletir como os tempos atuais e as configurações sociais a que estamos expostos impõem um grande desafio a essa discussão. Vivemos em uma era de extrema aceleração, em que os cuidadores de crianças e adolescentes, na maioria das configurações familiares, trabalham. Quando a família se reúne no fim do dia, em geral todos estão conectados em mídias digitais, muito cansados e atarefados, e invariavelmente não compartilham vivências e angústias uns com os outros. As muitas ferramentas digitais e sociais se tornaram incontornavelmente parte da vida de todos, inclusive de crianças e adolescentes. Se a escuta do sofrimento é parte fundamental da prevenção, devemos estar atentos ao tipo de escuta que podemos ter e oferecer a eles. Buscar conexões com os filhos, nesse sentido, é elemento fundamental nessa equação. É um desafio no nosso cenário sócio-histórico, porém essencial. Essa conexão pode não ser de longas horas diárias, mas deve se traduzir em uma busca por interesse mútuo, na criação de um espaço de diálogo e de algum prazer que possam usufruir juntos. A escola também terá papel fundamental se puder proporcionar espaços de conexão e reflexão entre os adolescentes sobre seus sentimentos e desafios. Ampliar todas essas redes de apoio faz com que o jovem não fique restrito à versão única que ele eventualmente possa encontrar em interações potencialmente nocivas nas mídias digitais, como os tais fóruns de incentivo a toda sorte de crueldades e situações perigosas. Por fim, e não menos importante, é fundamental ampliarmos a discussão sobre políticas públicas que respaldem as famílias nesse cuidado e na proteção digital dos jovens, com o intuito de evitar situações de risco como as que temos assistido atualmente. É igualmente importante que as redes de atenção em saúde mental forneçam informações pertinentes sobre a prevenção ao suicídio de forma permanente, disponibilizando dados sobre os locais...]]>

Dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio e assistimos, entristecidos, a um aumento de casos entre jovens. Pensando nesse cenário, é importante refletirmos tanto sobre os sinais de atenção que devemos perceber quanto a respeito das ações que possam contribuir para a transformação desse quadro atual.

De partida, é fundamental esclarecer que o suicídio tem causa multifatorial. Trata-se de um fenômeno complexo que não pode ser reduzido a explicações únicas e simplistas. Diante da dor que causa tanto ao sujeito quanto a todos que fazem parte de sua vida, é um tema que exige extrema delicadeza ao ser abordado. Todo respeito ao tema, porém, não deve afastar a importância de tratarmos dele. Pensar sobre o assunto é uma tentativa de avançarmos socialmente em um diálogo que, de tão sensível, historicamente permanece entre as subnotificações de causa mortis.

O que já era delicado adquiriu caráter ainda mais desafiador nos tempos atuais, ao assistirmos, nos meios digitais e redes sociais, jovens criando fóruns de compartilhamento de conteúdo que vão desde o incentivo a desafios potencialmente mortíferos até transmissões ao vivo de suicídio. Diante desse cenário sócio-histórico, refletir sobre a sua prevenção, torna-se ainda mais urgente.

Existem sinais de alerta e fatores associados a um maior risco de suicídio de forma geral, como tentativas anteriores, dependência ou abuso de álcool e drogas, comportamento autolesivo, histórico de abusos e traumas e transtornos mentais. É fundamental alertar que nenhum desses sinais, isoladamente, sentencia que algo dessa ordem acontecerá; eles podem, apenas, ser tomados como sinalizadores para um maior cuidado.

A adolescência é um período em que ocorrem transformações velozes e grandiosas na vida de uma pessoa, tanto do ponto de vista biológico quanto psíquico. As transformações do corpo caminham de mãos dadas com a necessidade de maturidade psíquica para lidar com o complexo mundo dos relacionamentos e com as expectativas da futura vida adulta – com todos os desafios que ela envolve: a dimensão da vida sexual, os relacionamentos interpessoais mais refinados com os pares, a escolha da futura profissão e as exigências acadêmicas.

O adolescente é convidado pelo mundo a abandonar seus aspectos infantis e seguir rumo a uma jornada da qual ele ainda tem poucas respostas. Ele experimenta um luto pela criança que foi e tem diante de si indagações sobre quem será. Junto desse processo de luto e transformações, é esperado – ainda que transitoriamente – que ele experiencie oscilações de sentimentos diante do turbilhão que vive.

Nesse sentido, é fundamental estarmos atentos às conexões que o jovem estabelece com várias dimensões de sua vida, observando suas interações sociais de forma geral. É preciso ir além do âmbito do rendimento escolar e estar atento também aos engajamentos em grupos sociais (sejam amigos, esportes, música ou religião). São justamente essas conexões afetivas e sociais os grandes fatores de proteção nessa etapa da vida. Durante a adolescência, a noção de pertencimento ao grupo ganha uma importância enorme. Estar engajado com seus pares e ter ideais pelos quais se sinta conectado é o que contribuirá para que o jovem se sinta amarrado ao seu futuro e aos sonhos que eleger sonhar.

De outro lado, existem situações que, quando presentes, exigem um olhar mais atento. Embora façam parte do período de experimentações de qualquer adolescência, podem traduzir uma expressão de sofrimento maior: isolamento súbito ou excessivo, compulsões em geral (por comida, telas, jogos, álcool ou drogas), praticar ou sofrer bullying, colocar-se constantemente em situações de risco e transtornos alimentares.

Por ser a adolescência um período tão desafiador e importante, é fundamental olhar e acolher com atenção esses sinais quando surgem, interpretando-os como oportunidades de cuidado. Um sofrimento psicológico não precisa ser agravado para que possa ser acolhido como demanda de cuidado. Criar oportunidades de escuta ativa e qualificada para as angústias e desafios dessa fase da vida, portanto, é um elemento protetor quando pensamos em prevenção ao suicídio. Quando um sujeito se sente acompanhado e compartilha suas angústias, já não está mais só. Isso, em situações-limite de grande angústia, pode fazer toda a diferença no desfecho de um período de maior sofrimento.

Pensando em elementos que contribuam para a prevenção ao suicídio entre os jovens, é interessante refletir como os tempos atuais e as configurações sociais a que estamos expostos impõem um grande desafio a essa discussão. Vivemos em uma era de extrema aceleração, em que os cuidadores de crianças e adolescentes, na maioria das configurações familiares, trabalham. Quando a família se reúne no fim do dia, em geral todos estão conectados em mídias digitais, muito cansados e atarefados, e invariavelmente não compartilham vivências e angústias uns com os outros.

As muitas ferramentas digitais e sociais se tornaram incontornavelmente parte da vida de todos, inclusive de crianças e adolescentes. Se a escuta do sofrimento é parte fundamental da prevenção, devemos estar atentos ao tipo de escuta que podemos ter e oferecer a eles. Buscar conexões com os filhos, nesse sentido, é elemento fundamental nessa equação. É um desafio no nosso cenário sócio-histórico, porém essencial. Essa conexão pode não ser de longas horas diárias, mas deve se traduzir em uma busca por interesse mútuo, na criação de um espaço de diálogo e de algum prazer que possam usufruir juntos.

A escola também terá papel fundamental se puder proporcionar espaços de conexão e reflexão entre os adolescentes sobre seus sentimentos e desafios. Ampliar todas essas redes de apoio faz com que o jovem não fique restrito à versão única que ele eventualmente possa encontrar em interações potencialmente nocivas nas mídias digitais, como os tais fóruns de incentivo a toda sorte de crueldades e situações perigosas.

Por fim, e não menos importante, é fundamental ampliarmos a discussão sobre políticas públicas que respaldem as famílias nesse cuidado e na proteção digital dos jovens, com o intuito de evitar situações de risco como as que temos assistido atualmente. É igualmente importante que as redes de atenção em saúde mental forneçam informações pertinentes sobre a prevenção ao suicídio de forma permanente, disponibilizando dados sobre os locais disponíveis para acolhimento e escuta em situações-limite. Um jovem cercado de múltiplas referências, conexões e possibilidades de escuta terá maiores chances de ser acolhido em um eventual momento de maior desamparo.

Relatora:

Flavia Schimith Escrivão
Psicóloga e Psicanalista
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP

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Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio https://spsp.org.br/dia-mundial-de-prevencao-ao-suicidio-2/ Mon, 11 Sep 2023 18:40:41 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=39255 O dia 10 de setembro é destinado mundialmente à prevenção do suicídio. Conscientizar a população e os profissionais de saúde é importante pois, segundo dados da OMS – Organização]]>

O dia 10 de setembro é destinado mundialmente à prevenção do suicídio. Conscientizar a população e os profissionais de saúde é importante pois, segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, em 2018, o suicídio foi a causa de 56% das mortes violentas no mundo, sendo que, no Brasil, entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio figura como segunda maior causa de morte. Outro recorte, pertinente ao Município de São Paulo, recentemente publicado no jornal Folha de S. Paulo, na edição de 25/8/2023, dá conta de que, no primeiro semestre deste ano, o número de tentativas de suicídio e casos de autoagressão foi 82% maior se comparado ao mesmo período no ano de 2019. Essas transformações tornaram o dia a dia dos profissionais de saúde mais desafiador, tornando o suicídio uma questão de saúde pública.

O suicídio é um acontecimento de extrema complexidade e de causa multifatorial. O que observamos no dia a dia da clínica em saúde mental é que é um tema que não admite respostas óbvias e uniformes. Atribuir o suicídio a um evento único na vida da pessoa, como, por exemplo, ao término de um relacionamento, é uma leitura ingênua. Podemos elencar alguns fatores correlacionados a maior risco de suicídio: tentativas anteriores, dependência química, transtornos mentais, histórico de abusos e traumas.  

Não é possível antever um suicídio, mas podemos auxiliar a todos que estão envolvidos na vida das crianças e adolescentes a cuidarem, desde o início da infância, preventivamente, de situações que levem a pessoa a um momento de tamanha dor, a ponto de ela sentir que está “sem saída”, enxergando no suicídio a única opção para lidar com suas angústias. O Estado, a escola, as famílias, pediatras e os profissionais de saúde mental se tornam, nesse sentido, as redes de proteção e auxílio aos jovens, contribuindo para que eles lidem melhor com as adversidades inerentes ao seu desenvolvimento.

Pensando nos aspectos de prevenção, famílias e pediatras podem observar com atenção situações durante a infância indicativas de um maior sofrimento mental, que podem ganhar expressão em sintomas tais como as compulsões (por comida, jogos, uso de telas, uso de álcool, cigarro e outras drogas), comportamentos autolesivos, transtornos alimentares e de ansiedade, desinvestimento e isolamento excessivo da própria família e de amigos, envolvimento em bullying, tanto como autor, quanto como vítima. Esses sinais podem ganhar colorido mais intenso na adolescência, período que envolve uma série de transformações de ordem física e mental. Aumento da impulsividade de forma geral, somado a maior exigência em demandas acadêmicas (vestibular, escolha da futura profissão), bem como as descobertas e vivências sexuais, todas situações que, concomitantes, demandam, em um curto espaço de tempo, uma transformação e maturidade enormes.

Todos os sintomas elencados acima podem ser interpretados como dificuldade de elaboração de sentimentos, os quais indicam a ocorrência de um sofrimento maior. Uma importante orientação aos pais, em relação à prevenção das situações-limite em saúde mental, é que não deixem para depois esse tipo de cuidado: não esperem até que uma situação se agrave para contarem com ajuda de profissionais de saúde mental. Não é possível, a nenhuma família, impedir um filho de viver as adversidades inerentes e que surgem na vida de qualquer criança, porém é possível ajudá-lo a construir recursos para lidar com suas angústias de uma maneira mais saudável.

É importante ressaltar que uma tentativa de suicídio pode representar não apenas a vontade de colocar fim a um sofrimento extremo, como também a comunicação de um sofrimento, um pedido urgente de ajuda. A todos os envolvidos em situações-limite como essas, sejam famílias, pediatras ou escola, é fundamental cuidar para também não se moverem por angústia, não fazerem movimentos bruscos e impulsivos, algo que esse tipo de situação grave inevitavelmente mobiliza.

É também necessário cuidar para que um jovem que passou por tal situação não seja estigmatizado, pois isso pode contribuir para uma maior dificuldade em se conectar com aqueles que estão lhe oferecendo ajuda, aumentando seu isolamento e desespero. O maior fator de contribuição nesses casos é cuidar inicialmente para que essa pessoa seja amparada e esteja fora de risco, para que então, estabilizada a situação, seu sofrimento seja devidamente escutado.

Quem passa por tal experiência deve ter a oportunidade de se conectar a profissionais de saúde que o auxiliem, construindo novas possibilidades de enfrentamento de suas dores, transtornos mentais e sintomas. É fundamental que a família da pessoa que tentou suicídio seja incluída no tratamento pós-evento, pois os familiares também precisarão construir outros caminhos, novas formas de ajudar e reconhecer os sinais de sofrimento de seus filhos, além de lidar com a própria angústia e sofrimento que tais situações geram neles.

 

Relatora:
Flavia Schimith Escrivão
Psicóloga Especialista em Psicologia Clínica e Psicanalista.
Membro dos Núcleos de Estudos de Saúde Mental e de Depressão entre Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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A criança e a depressão em tempos de pós-isolamento https://spsp.org.br/a-crianca-e-a-depressao-em-tempos-de-pos-isolamento/ Tue, 10 May 2022 12:52:23 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=32444 A depressão infantil afeta exatamente as condições e situações por meio das quais a criança é estimulada a crescer, a aprender, a se fortalecer, a construir suas habilidades e competências.]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 10/05/2022


 

Nestes tempos pós-quarentena, vimos várias alterações no comportamento das crianças ao retomarem uma rotina de vida mais próxima da que levavam antes das restrições e do “Fique em casa!”.

Algumas dessas mudanças tiveram início já durante o isolamento pela própria condição de vulnerabilidade trazida pelo medo do contágio pela covid-19 e pelo clima assustador que se instalou frente à impossibilidade de controlar a situação, mesmo por parte dos adultos.

Todos, indistintamente, tinham possibilidade de serem contaminados e adoecerem gravemente e isso, muito frequentemente, agravou o medo das crianças por fantasiarem a perda dos pais, justo estes que deveriam sempre protegê-los.

As crianças também tiveram uma quebra importante nas oportunidades de encontros e interações enriquecedores com indivíduos da própria idade e com os outros adultos que são significativos em sua vida, como avós, tios, professores.

E, dois anos parece uma eternidade para uma criança…

No retorno às atividades, muitas crianças se sentiram receosas com a possiblidade de não conseguirem se “enturmar”, de não saberem como reatar as amizades ou fazer novos amigos, um abalo na autoestima por se verem inseguras quanto as suas capacidades e competências.

Em outras, a dificuldade ou impossibilidade em acompanhar o aprendizado online produziu uma ansiedade muito grande pelo receio de não “conseguir mais aprender”, de tirar notas baixas, de repetir o ano ou decepcionar os pais, e que só foi sentido no retorno às aulas presenciais.

Então, vamos percebendo crianças ansiosas, inquietas, agitadas, irritadiças, agressivas, tristes, com dificuldade em se concentrar, com reações inesperadas, às vezes desproporcionais às circunstâncias, mais isoladas ou caladas, mais apegadas aos pais, com insônia ou dificuldade para dormir, sem nenhum apetite ou com muito apetite, com queixas constantes de dores no corpo ou cansaço para fazer qualquer coisa, sejam as tarefas da escola ou brincar e se divertir.

Os pais podem verbalizar que essas atitudes, esses comportamentos e sentimentos estão relacionados com o estresse, a incerteza e o desconhecido que atravessou a vida das famílias de forma geral e das crianças, em particular. E estão corretos.

Podem acreditar que é só uma fase e que com paciência tudo volta ao normal.

Aí, já precisamos ter mais cuidado e estar muito atentos.

E por quê?

Porque a pandemia e o isolamento alteraram todos os pontos de referência e de segurança que as crianças tinham e que lhes davam a sensação de controle, de que podiam prever como iria ser o seu dia seguinte e se preparar para ele, dormir e acordar como todos os dias e de que podiam cuidar das coisas que faziam parte de sua rotina – escola, amigos, pais, irmãos, diversão…

E, de pronto, não havia nada para reassegurar a criança de que tudo iria ficar bem de novo.

Então, pode não ser apenas uma fase.

Os pais precisam prestar muita atenção para o caso dessas queixas persistirem, de piorarem ao invés de diminuírem, de que a criança não consiga ou não queira aumentar o contato com os amigos ou mesmo sair e brincar mais tempo fora de casa ou, ainda, voltar a ter comportamentos e atitudes muito infantis para a idade.

Porque um combinado de comportamentos ou sentimentos, de modo muito duradouro, que modificam e prejudicam muito a interação da criança com as coisas e pessoas que fazem parte de seu mundo, podem sinalizar que estamos frente a um quadro de depressão infantil, que traz muito sofrimento emocional, com consequências importantes para o desenvolvimento da criança.

A depressão infantil afeta exatamente as condições e situações por meio das quais a criança é estimulada a crescer, a aprender, a se fortalecer, a construir suas habilidades e competências em todos os campos.

Nestes casos, é importante que a criança possa ser avaliada para confirmar o que exatamente está acontecendo com ela e para que os pais possam ser auxiliados quanto ao que podem ou precisam fazer para ajudá-la.

Os pais não devem hesitar em procurar auxílio.

Podem falar com a orientadora da escola da criança e solicitar orientação e apoio. Podem buscar atendimento pediátrico e psicológico em alguma unidade da Rede Básica de Saúde. Podem, ainda, conversar com o pediatra da criança, se a criança dispuser de um médico que a acompanhe.

O mais importante é entender que a criança faz parte de uma família e que, juntos, fica mais fácil encontrar uma forma de ajudá-la a tratar essas dificuldades, superá-las e retomar o curso de sua vida novamente.

Relatora:
Vera Ferrari Rego Barros
Presidente do Núcleo de Estudo sobre Depressão entre Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Ficar isolado: o que isso significa para o adolescente? https://spsp.org.br/ficar-isolado-o-que-isso-significa-para-o-adolescente/ Wed, 26 May 2021 13:19:24 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=28467 Quando pensamos em adolescente e isolamento, logo recordamos daquele indivíduo que fica o tempo todo no quarto com a porta fechada e quando sai de lá, troca 4 ou 5 palavras com o resto da casa e volta para seu refúgio.]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 26/05/2021


Quando pensamos em adolescente e isolamento, logo recordamos daquele indivíduo que fica o tempo todo no quarto com a porta fechada e quando sai de lá, troca 4 ou 5 palavras com o resto da casa e rapidamente já volta para seu refúgio, e que, no geral, odeia ser interrompido.

Na era pós-Covid-19, essa imagem mudou. Antes esse ser se isolava da família, mas estava extremamente conectado e presente na vida dos seus pares, seja na escola, na comunidade ou até mesmo nas redes sociais. Hoje em dia, esses ambientes estão resumidos à tão infame tela, à escola, à família, às amizades, todo meio social e as relações afetivas estão acontecendo no meio virtual.

É muito nítida, compreendida e trabalhosa a transformação do bebê na criança que corre, lê, opina e distribui abraços, mas quando pensamos na evolução de uma criança em um adulto confiante, responsável, autônomo e com um futuro profissional, na maioria das vezes torcemos o nariz…é o tal adolescente. Essa trajetória igualmente trabalhosa, além de ser um momento de muitas transformações corporais, é também quando lidamos com a aquisição de novas habilidades intelectuais, capacidade de lidar com abstrações, autocontrole e da troca ou amadurecimento dos papéis sociais e sedimentação da identidade que caracterizam essa fase do desenvolvimento. É um momento em que todos os sentimentos são intensos, nada fica no meio termo: a raiva é muita raiva, o amor é eterno, o carinho é infinito e o cansaço, exaustão. Lidar com tudo isso e ainda estar em isolamento social, restrito as telas, distante dos colegas, da escola e de todos os ambientes tão fundamentais para que essas novas aquisições sejam descobertas, experimentadas, testadas e amadurecidas, somadas a atual vivência de algo que jamais foi esperado, torna tudo muito mais complicado.

É esperado que, nesse momento único na vida dos filhos associado a atual instabilidade externa, o estresse intensifique as emoções do medo e da ansiedade. Se isso está acontecendo, um caminho para dar vazão a esses sentimentos e sensações se torna necessário. Mas como fazer isso? Restringir o tempo de telas? Proibir de jogar videogame? Como lidar com o tédio, o isolamento do adolescente da família e as consequências do excesso ou do mau uso das telas? Além disso, sabendo da função do social para o bem-estar dos adolescentes, como manter contatos saudáveis, ainda que a distância?

Conecte-se, qual será o interesse atual dele? Procurando momentos improváveis, mantenha os espaços para conversas abertos, seja no carro, no jantar, durante um jogo em família ou enquanto fazemos uma faxina. Pergunte a opinião dele sobre uma notícia. Conte como era a sua vida naquela idade, como se virava sem celular ou internet (sem fazer julgamentos se era melhor ou pior), o que fazia de errado, quais as enrascadas que você escapou? Seja sincero! Se o excesso de informações sobre o coronavírus estiver causando muitas angústias, limite o acesso para todos em casa.

Tendo em vista que ainda somos o exemplo a ser seguido e contestado, tente fazer uma rotina familiar coletiva, dividindo os afazeres da casa, da escola e do trabalho com o tempo de tela e para o lazer. Procure incorporar alguns combinados entre a família, seja para melhorar o sono, a alimentação; reconheça as falhas quando acontecerem e tente de novo, colaborando entre si, demostrando insegurança, raiva e frustração ou orgulho nas pequenas conquistas.

Continue encarando esse momento como difícil e desgastante para todos, as incertezas e as questões financeiras podem estar tornando o ambiente mais propício para que ocorram conflitos, intolerâncias e para as emoções serem ignoradas. Respire, tente identificar e lidar com as emoções, faça seu melhor, ou faça simplesmente o possível, mas não deixe de pelo menos tentar e sempre busque ajuda quando não souber o que fazer. Isolamento não é sinônimo de solidão e tristeza muito menos de doença.

 

Relatora:
Gabriella Lube
Núcleo de Estudos da Depressão entre Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

 

Foto: hay dmitriy | depositphotos.com

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Resiliência: construindo a capacidade de enfrentamento https://spsp.org.br/resiliencia-construindo-a-capacidade-de-enfrentamento/ Tue, 18 May 2021 17:39:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=28418 A jornada da vida, desde sua “aurora” até seu último instante, traz permanentes desafios. O processo de desenvolvimento da criança e do adolescente, e o viver adulto, envolvem muitos ganhos e várias perdas. ]]>

Sociedade de Pediatria de São Paulo
Texto divulgado em 18/05/2021


A jornada da vida, desde sua “aurora” até seu último instante, traz permanentes atravessamentos e desafios. O próprio processo de desenvolvimento da criança e do adolescente, e o viver adulto, envolvem muitos ganhos e várias perdas. Sem falar das inúmeras vezes em que somos confrontados com situações potencialmente traumáticas, como as que temos vivido durante os tempos de pandemia com todas as reverberações envolvidas.

Para lidarmos com as experiências, necessitamos ao longo da vida construir instrumentos para enfrentarmos as várias situações difíceis que a vida nos confronta.

Resiliência psicológica pode ser considerada uma capacidade de enfrentamento bem-sucedido que sobrevém às situações traumáticas ou às condições muito difíceis. Vale ressaltar que essa construção implica em um processo permanente e deve ser germinada no início da vida. Principalmente a partir das relações de qualidade que se estabelecem com quem cuida da criança, nas quais a confiança possa ser ingrediente básico, tecidas junto a um apego seguro, que ajudará a criança a construir uma boa autoestima, uma capacidade de confiar em si mesma e ter esperança quando algo não vai bem.

Ao dispensarmos cuidados ao bebê, estamos o auxiliando na construção de instrumentos fundamentais, para gradativamente ele poder lidar com afetos de qualidades distintas. Poder tolerar momentos difíceis no início da vida e ser ajudado nessa tarefa cria condições para lidar com a vida.

E se essa potencialidade de “enfrentar tormentas” e depois poder reagir saudavelmente não foi facilitada na infância? Alguém que funcione como um farol no mar escuro poderá ajudar nessa navegação, mas não podemos esquecer que a capacidade de construir possibilidades e instrumentos para enfrentarmos algo difícil está diretamente ligada à capacidade de elaborarmos psiquicamente os impactos, perdas e separações aos quais estamos permanentemente sujeitos.

Podemos querer fazer desaparecer algo que dói e nos faz sofrer. Apesar de muitas vezes essa opção trazer certo alívio momentâneo, não costuma ser um bom negócio a médio e longo prazos. Se usarmos esse mecanismo repetidas vezes, podemos nos afastar cada vez mais das nossas reais emoções e a de nossos filhos, não as legitimando, dificultando e muitas vezes criando obstáculos para o reconhecimento delas, tornando muito difícil um caminho de enfrentamento.

Um exemplo útil ocorre quando uma criança cai ou um adolescente briga com sua namorada e dizemos algo como: “Não foi nada!”. Não acolhemos dentro de nós mesmos e ajudamos a criar um espaço para o que está sendo experimentado e está doendo no outro. Ao reagirmos como se nada tivesse acontecido não estamos ajudando a construir capacidades para encontrar caminhos genuínos. Colocar a “poeira debaixo do tapete”, acaba por passar uma mensagem que emoções e sentimentos são uma bobagem e que não devemos nos dedicar a eles.  

Quanto mais deixamos as experiências intocáveis, negando ou evitando senti-las, mais suas forças originais são conservadas, sem a possibilidade de transformar a dor em crescimento.

Apesar de difícil, o contato com nossas emoções e interioridade pode fornecer uma possibilidade de suportar os afetos desagradáveis: poder compartilhar as emoções com um outro pode fazer a diferença no entendimento das próprias emoções e na descoberta de saídas dos afetos não agradáveis. Uma das coisas mais importantes para o ser humano é ser escutado verdadeiramente e ser refletido pelo outro, mesmo que em alguns momentos essa imagem refletida seja a de dor.

Espaços solitários podem ser importantes para entrar em contato com nosso interior, mas também encontrar no outro um espaço de escuta e acolhimento verdadeiro, no qual haja uma troca fértil, pode ajudar a construir sementes de boas capacidades resilientes, nos servindo de farol em momentos de mar escuro e de tormenta.

Relatora:

Cristiane da Silva Geraldo Folino

Núcleo de Estudos da Depressão entre Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Foto: fizkes | depositphotos.com

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