Blog – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Wed, 26 Aug 2026 10:18:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Blog – SPSP https://spsp.org.br 32 32 Educação é direito e cuidado https://spsp.org.br/educacao-e-direito-e-cuidado/ Tue, 25 Aug 2026 17:37:53 +0000 https://spsp.org.br/?p=58538 Celebrar o Dia Nacional da Educação Infantil, em 25 de agosto, é lembrar que educar não significa apenas transmitir conteúdos. Desde os primeiros anos de vida, educação é cuidado, vínculo, estímulo à curiosidade e oportunidade de desenvolver capacidades físicas, emocionais, sociais e cognitivas. A educação infantil, prevista na Lei de Diretrizes e Bases, deve promover o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade.1 O Brasil tem uma rede ampla e diversa. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo 9,2 milhões na educação infantil e 25,8 milhões no ensino fundamental. Também contabilizou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Esses números revelam avanços, mas não garantem, sozinhos, uma experiência educacional de qualidade. Persistem diferenças importantes entre regiões, cidades, áreas urbanas e rurais, redes públicas e privadas e grupos definidos por renda, raça, deficiência e condições de moradia.2 Na infância, os desafios se tornam ainda mais complexos. Professores e profissionais de saúde acompanham crianças com diferentes ritmos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual, TDAH e dificuldades de linguagem. Identificar sinais precocemente é importante, mas não devemos transformar toda diferença em doença. O caminho é observar, escutar a família, avaliar com cuidado e construir, com a escola, estratégias individualizadas de apoio e inclusão. A criança precisa de recursos e oportunidades, não de rótulos que limitem seu futuro. Outro desafio atual é o uso excessivo de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas até os dois anos e, dos dois aos cinco, limitar seu uso a até uma hora diária, sempre com a presença de um adulto. Mais importante que contar minutos é proteger o sono, as refeições, o movimento, a leitura, o brincar e a convivência olho no olho. A escola também pode estabelecer regras claras, formar educadores e orientar as famílias, sem culpar quem enfrenta rotinas exaustivas ou falta de espaços seguros para brincar.3 Solucionar esses problemas exige investimento contínuo em creches e escolas, valorização e formação dos professores, equipes multiprofissionais, acessibilidade, transporte, alimentação e políticas que reduzam a pobreza. Exige ainda aproximar pediatras, educadores e famílias, compartilhando observações e responsabilidades. Educação de qualidade não é privilégio nem tarefa isolada: é uma construção coletiva e um compromisso com a saúde, a autonomia e a cidadania. Defender esse direito é oferecer a cada criança a possibilidade real de aprender, participar e florescer. Saiba mais: Relator:Fausto Flor CarvalhoVice-Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP]]>

Celebrar o Dia Nacional da Educação Infantil, em 25 de agosto, é lembrar que educar não significa apenas transmitir conteúdos. Desde os primeiros anos de vida, educação é cuidado, vínculo, estímulo à curiosidade e oportunidade de desenvolver capacidades físicas, emocionais, sociais e cognitivas. A educação infantil, prevista na Lei de Diretrizes e Bases, deve promover o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade.1

O Brasil tem uma rede ampla e diversa. O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica, sendo 9,2 milhões na educação infantil e 25,8 milhões no ensino fundamental. Também contabilizou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Esses números revelam avanços, mas não garantem, sozinhos, uma experiência educacional de qualidade. Persistem diferenças importantes entre regiões, cidades, áreas urbanas e rurais, redes públicas e privadas e grupos definidos por renda, raça, deficiência e condições de moradia.2

Na infância, os desafios se tornam ainda mais complexos. Professores e profissionais de saúde acompanham crianças com diferentes ritmos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual, TDAH e dificuldades de linguagem. Identificar sinais precocemente é importante, mas não devemos transformar toda diferença em doença. O caminho é observar, escutar a família, avaliar com cuidado e construir, com a escola, estratégias individualizadas de apoio e inclusão. A criança precisa de recursos e oportunidades, não de rótulos que limitem seu futuro.

Outro desafio atual é o uso excessivo de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas até os dois anos e, dos dois aos cinco, limitar seu uso a até uma hora diária, sempre com a presença de um adulto. Mais importante que contar minutos é proteger o sono, as refeições, o movimento, a leitura, o brincar e a convivência olho no olho. A escola também pode estabelecer regras claras, formar educadores e orientar as famílias, sem culpar quem enfrenta rotinas exaustivas ou falta de espaços seguros para brincar.3

Solucionar esses problemas exige investimento contínuo em creches e escolas, valorização e formação dos professores, equipes multiprofissionais, acessibilidade, transporte, alimentação e políticas que reduzam a pobreza. Exige ainda aproximar pediatras, educadores e famílias, compartilhando observações e responsabilidades. Educação de qualidade não é privilégio nem tarefa isolada: é uma construção coletiva e um compromisso com a saúde, a autonomia e a cidadania. Defender esse direito é oferecer a cada criança a possibilidade real de aprender, participar e florescer.

Saiba mais:

  1. [gov](https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/saeb/dia-nacional-da-educacao-infantil-e-celebrado-nesta-segunda-25)
  2. [gov](https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-escolar/conheca-o-perfil-dos-46-milhoes-de-estudantes-da-educacao-basica-no-dia-do-estudante/)
  3. [sbp.com](https://www.sbp.com.br/nova-lei-sobre-protecao-digital-reforca-recomendacoes-da-sbp-para-a-primeira-infancia/)

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Vice-Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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As causas das expulsões na educação infantil e os caminhos possíveis https://spsp.org.br/as-causas-das-expulsoes-na-educacao-infantil-e-os-caminhos-possiveis/ Tue, 11 Aug 2026 11:40:26 +0000 https://spsp.org.br/?p=58197 Comportamentos desafiadores na primeira infância podem sinalizar necessidades que ainda não encontram palavras. Antes de afastar uma criança, precisamos compreender o que está acontecendo. Sem esquecer que proteger toda a comunidade escolar também é responsabilidade de todos. Uma criança de três, quatro ou cinco anos pode ser afastada da escola por seu comportamento? A pergunta incomoda. Talvez porque, quando pensamos em suspensão ou expulsão, imaginamos alguém que já deveria compreender regras, controlar impulsos e responder por suas escolhas. Mas estamos falando de crianças pequenas. Crianças que ainda estão aprendendo a esperar, dividir, perder, ouvir “não”, lidar com a frustração e transformar emoções em palavras. A primeira infância é um período de intenso desenvolvimento. Habilidades de autorregulação, linguagem, comunicação e convivência ainda estão em construção. É nesse contexto que precisamos discutir o afastamento de crianças pequenas de creches e pré-escolas em razão de comportamentos considerados difíceis de manejar. Em 2024, a Academia Americana de Pediatria publicou uma declaração de política sobre suspensão e expulsão escolar, incluindo a educação infantil. O documento alerta para os potenciais efeitos negativos de práticas disciplinares excludentes e recomenda estratégias preventivas e alternativas à exclusão. No Brasil, essa discussão precisa ser contextualizada à nossa realidade educacional e ao marco legal de proteção integral da criança. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a proteção integral e assegura à criança o direito à educação, com igualdade de condições para acesso e permanência na escola, além do direito de ser respeitada por seus educadores. Isso não significa que a escola deva ignorar comportamentos que coloquem outras crianças ou adultos em risco. A segurança de toda a comunidade escolar é fundamental. Mas significa que decisões que impliquem o afastamento de uma criança precisam ser analisadas com responsabilidade, considerando não apenas o comportamento apresentado, mas também os direitos da criança, seu estágio de desenvolvimento e as possibilidades de intervenção e suporte. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: Quando uma criança pequena apresenta um comportamento difícil, estamos diante de uma criança que precisa ser afastada ou de uma criança que precisa ser compreendida e ajudada? Antes do comportamento, existe uma criança Uma criança que morde, bate, grita, empurra, entra em crise ou desafia regras pode estar expressando algo que ainda não consegue comunicar de outra maneira. Pode estar frustrada, cansada, assustada, sobrecarregada ou simplesmente sem recursos para lidar com uma situação. Isso não significa que todo comportamento deva ser aceito. Crianças precisam aprender limites. Bater ou machucar alguém não pode ser permitido. Mas também precisam de adultos que as ajudem, progressivamente, a desenvolver outras formas de expressar raiva, medo e frustração. Acolher não é permitir tudo. Estabelecer limites não é excluir. O comportamento infantil também não acontece no vazio. Pode estar relacionado ao desenvolvimento, a dificuldades de linguagem e comunicação, a desafios de autorregulação, a alterações sensoriais ou, em alguns casos, a condições do neurodesenvolvimento. Mas pode refletir também aquilo que acontece fora da escola: uma separação, a chegada de um irmão, uma perda, conflitos familiares, mudanças importantes ou uma experiência potencialmente traumática. Até fatores cotidianos, como privação de sono, fome, excesso de estímulos ou mudanças inesperadas na rotina podem interferir na capacidade de uma criança se autorregular. Por isso, diante de um comportamento que preocupa, precisamos ampliar o olhar. Quando acontece? O que aconteceu antes? O que desencadeia a crise? Como os adultos respondem? Essas perguntas ajudam a compreender a função daquele comportamento. Uma criança que entra em crise sempre que precisa interromper uma brincadeira pode precisar de mais previsibilidade. Outra que se desorganiza em ambientes muito barulhentos pode estar enfrentando uma dificuldade sensorial. Uma criança que parece não obedecer pode não estar compreendendo adequadamente uma instrução. O comportamento é um sinal que merece ser compreendido. Não necessariamente um diagnóstico. E, principalmente, não é uma identidade. Quando é preciso investigar Uma das armadilhas de uma abordagem exclusivamente disciplinar é punir antes de compreender. Uma criança com dificuldades persistentes de comunicação, interação social, atenção, impulsividade ou processamento sensorial pode ser rapidamente classificada como “malcriada”, “agressiva” ou “desobediente”. Mas nem todo comportamento difícil é sinal de um transtorno. E nem todo transtorno explica todo comportamento difícil. Quando os comportamentos são persistentes, intensos ou interferem significativamente na participação da criança, uma avaliação individualizada pode ser necessária. Nesse processo, o pediatra pode ter um papel importante: reunir informações da família e da escola, avaliar o desenvolvimento global, investigar sono, linguagem, comportamento e saúde emocional e, quando necessário, encaminhar para avaliação multiprofissional. Não se trata de procurar um rótulo. Trata-se de compreender melhor para cuidar melhor. A escola também precisa ser olhada Quando uma criança apresenta um comportamento desafiador, olhamos para ela. Precisamos também olhar para o ambiente em que esse comportamento acontece. Estudos mostram que decisões de suspensão e afastamento na educação infantil podem estar relacionadas não apenas ao comportamento da criança, mas também às preocupações com segurança, às políticas disciplinares e à disponibilidade de suporte para lidar com situações complexas. Isso não significa ignorar comportamentos que colocam outras pessoas em risco. Nem significa culpar professores. O professor também precisa de apoio. Uma equipe com formação, suporte e recursos pode ter melhores condições para identificar gatilhos, prevenir crises, mediar conflitos e construir estratégias individualizadas. Talvez, diante de uma criança que apresenta comportamentos desafiadores, precisemos olhar para três histórias ao mesmo tempo: a história da criança, a história da família e a história da escola. Essa visão não retira a responsabilidade de ninguém. Amplia a responsabilidade de todos. E quando existe agressividade? Precisamos ter cuidado para não romantizar o comportamento infantil. Uma criança que machuca outra precisa ser contida. Uma criança que coloca colegas ou adultos em risco precisa de intervenção. A segurança de todos é inegociável. Mas existe uma diferença entre interromper um comportamento perigoso e afastar definitivamente uma criança. A primeira pode ser necessária. A segunda precisa ser cuidadosamente analisada. Pode ser necessário afastar momentaneamente a criança de uma situação de risco, garantir supervisão, mediar o conflito, conversar com a família, investigar os fatores envolvidos e construir um plano...]]>

Comportamentos desafiadores na primeira infância podem sinalizar necessidades que ainda não encontram palavras. Antes de afastar uma criança, precisamos compreender o que está acontecendo. Sem esquecer que proteger toda a comunidade escolar também é responsabilidade de todos.

Uma criança de três, quatro ou cinco anos pode ser afastada da escola por seu comportamento?

A pergunta incomoda. Talvez porque, quando pensamos em suspensão ou expulsão, imaginamos alguém que já deveria compreender regras, controlar impulsos e responder por suas escolhas.

Mas estamos falando de crianças pequenas. Crianças que ainda estão aprendendo a esperar, dividir, perder, ouvir “não”, lidar com a frustração e transformar emoções em palavras.

A primeira infância é um período de intenso desenvolvimento. Habilidades de autorregulação, linguagem, comunicação e convivência ainda estão em construção. É nesse contexto que precisamos discutir o afastamento de crianças pequenas de creches e pré-escolas em razão de comportamentos considerados difíceis de manejar.

Em 2024, a Academia Americana de Pediatria publicou uma declaração de política sobre suspensão e expulsão escolar, incluindo a educação infantil. O documento alerta para os potenciais efeitos negativos de práticas disciplinares excludentes e recomenda estratégias preventivas e alternativas à exclusão.

No Brasil, essa discussão precisa ser contextualizada à nossa realidade educacional e ao marco legal de proteção integral da criança.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a proteção integral e assegura à criança o direito à educação, com igualdade de condições para acesso e permanência na escola, além do direito de ser respeitada por seus educadores.

Isso não significa que a escola deva ignorar comportamentos que coloquem outras crianças ou adultos em risco. A segurança de toda a comunidade escolar é fundamental. Mas significa que decisões que impliquem o afastamento de uma criança precisam ser analisadas com responsabilidade, considerando não apenas o comportamento apresentado, mas também os direitos da criança, seu estágio de desenvolvimento e as possibilidades de intervenção e suporte.

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:

Quando uma criança pequena apresenta um comportamento difícil, estamos diante de uma criança que precisa ser afastada ou de uma criança que precisa ser compreendida e ajudada?

Antes do comportamento, existe uma criança

Uma criança que morde, bate, grita, empurra, entra em crise ou desafia regras pode estar expressando algo que ainda não consegue comunicar de outra maneira.

Pode estar frustrada, cansada, assustada, sobrecarregada ou simplesmente sem recursos para lidar com uma situação.

Isso não significa que todo comportamento deva ser aceito. Crianças precisam aprender limites. Bater ou machucar alguém não pode ser permitido.

Mas também precisam de adultos que as ajudem, progressivamente, a desenvolver outras formas de expressar raiva, medo e frustração.

Acolher não é permitir tudo. Estabelecer limites não é excluir.

O comportamento infantil também não acontece no vazio. Pode estar relacionado ao desenvolvimento, a dificuldades de linguagem e comunicação, a desafios de autorregulação, a alterações sensoriais ou, em alguns casos, a condições do neurodesenvolvimento.

Mas pode refletir também aquilo que acontece fora da escola: uma separação, a chegada de um irmão, uma perda, conflitos familiares, mudanças importantes ou uma experiência potencialmente traumática.

Até fatores cotidianos, como privação de sono, fome, excesso de estímulos ou mudanças inesperadas na rotina podem interferir na capacidade de uma criança se autorregular.

Por isso, diante de um comportamento que preocupa, precisamos ampliar o olhar.

Quando acontece? O que aconteceu antes? O que desencadeia a crise? Como os adultos respondem?

Essas perguntas ajudam a compreender a função daquele comportamento.

Uma criança que entra em crise sempre que precisa interromper uma brincadeira pode precisar de mais previsibilidade. Outra que se desorganiza em ambientes muito barulhentos pode estar enfrentando uma dificuldade sensorial. Uma criança que parece não obedecer pode não estar compreendendo adequadamente uma instrução.

O comportamento é um sinal que merece ser compreendido. Não necessariamente um diagnóstico. E, principalmente, não é uma identidade.

Quando é preciso investigar

Uma das armadilhas de uma abordagem exclusivamente disciplinar é punir antes de compreender.

Uma criança com dificuldades persistentes de comunicação, interação social, atenção, impulsividade ou processamento sensorial pode ser rapidamente classificada como “malcriada”, “agressiva” ou “desobediente”.

Mas nem todo comportamento difícil é sinal de um transtorno. E nem todo transtorno explica todo comportamento difícil.

Quando os comportamentos são persistentes, intensos ou interferem significativamente na participação da criança, uma avaliação individualizada pode ser necessária.

Nesse processo, o pediatra pode ter um papel importante: reunir informações da família e da escola, avaliar o desenvolvimento global, investigar sono, linguagem, comportamento e saúde emocional e, quando necessário, encaminhar para avaliação multiprofissional.

Não se trata de procurar um rótulo. Trata-se de compreender melhor para cuidar melhor.

A escola também precisa ser olhada

Quando uma criança apresenta um comportamento desafiador, olhamos para ela. Precisamos também olhar para o ambiente em que esse comportamento acontece.

Estudos mostram que decisões de suspensão e afastamento na educação infantil podem estar relacionadas não apenas ao comportamento da criança, mas também às preocupações com segurança, às políticas disciplinares e à disponibilidade de suporte para lidar com situações complexas.

Isso não significa ignorar comportamentos que colocam outras pessoas em risco. Nem significa culpar professores.

O professor também precisa de apoio.

Uma equipe com formação, suporte e recursos pode ter melhores condições para identificar gatilhos, prevenir crises, mediar conflitos e construir estratégias individualizadas.

Talvez, diante de uma criança que apresenta comportamentos desafiadores, precisemos olhar para três histórias ao mesmo tempo:

a história da criança, a história da família e a história da escola.

Essa visão não retira a responsabilidade de ninguém.

Amplia a responsabilidade de todos.

E quando existe agressividade?

Precisamos ter cuidado para não romantizar o comportamento infantil.

Uma criança que machuca outra precisa ser contida. Uma criança que coloca colegas ou adultos em risco precisa de intervenção.

A segurança de todos é inegociável.

Mas existe uma diferença entre interromper um comportamento perigoso e afastar definitivamente uma criança.

A primeira pode ser necessária.

A segunda precisa ser cuidadosamente analisada.

Pode ser necessário afastar momentaneamente a criança de uma situação de risco, garantir supervisão, mediar o conflito, conversar com a família, investigar os fatores envolvidos e construir um plano de intervenção.

A criança precisa aprender:

“Eu não posso bater.”

Mas também precisa aprender:

“O que eu posso fazer quando estou com raiva?”

É nessa segunda pergunta que começa o verdadeiro trabalho educativo.

Afastar resolve?

Talvez resolva a crise daquele dia.

A criança sai. A sala fica mais tranquila. O professor retoma a rotina.

Mas o que acontece depois?

A criança leva consigo aquilo que originou o comportamento: a dificuldade de comunicação, a desregulação, a impulsividade, a ansiedade ou a sensação de não pertencer.

E, muitas vezes, o problema reaparece em outro lugar.

A Academia Americana de Pediatria destaca que práticas de suspensão e expulsão podem ter consequências negativas e recomenda estratégias preventivas e alternativas à exclusão.

Os estudos disponíveis vêm, em grande parte, da realidade norte-americana e não podem ser simplesmente transferidos para o Brasil. Mas ajudam a formular uma pergunta necessária:

Estamos certos de que o comportamento é o único problema?

Ou precisamos também olhar para a forma como interpretamos e respondemos a ele?

Antes de afastar, precisamos compreender

Encontrar alternativas não significa aceitar qualquer comportamento.

Significa ampliar o repertório de respostas: avaliar o desenvolvimento, investigar possíveis dificuldades, identificar gatilhos, antecipar mudanças, adaptar a rotina, ensinar habilidades sociais, mediar conflitos e construir estratégias individualizadas.

Pode significar também buscar apoio especializado e envolver o pediatra e outros profissionais da saúde quando necessário.

Nenhum desses caminhos é simples. Nenhum funciona da mesma maneira para todas as crianças.

Mas todos partem de um princípio comum:

antes de afastar, precisamos tentar compreender.

Talvez seja hora de mudar a pergunta.

Em vez de:

“O que há de errado com essa criança?”

Perguntar:

“O que essa criança está tentando nos mostrar?”

E depois:

“O que nós, adultos, podemos fazer diferente?”

Isso não significa retirar da criança a responsabilidade de aprender regras e respeitar limites.

Significa reconhecer que educar é um processo. Que a autorregulação é ensinada. Que habilidades sociais são construídas. E que crianças pequenas precisam de adultos capazes de ensinar tudo isso.

A primeira infância é um período de construção: da linguagem, da autonomia, da autorregulação, das relações e da capacidade de conviver.

Talvez o maior desafio não seja encontrar uma forma de fazer uma criança difícil caber na escola.

Talvez seja construir escolas capazes de acolher diferentes crianças sem abrir mão dos limites, da segurança e do respeito.

Porque educar também é ensinar a conviver.

E, na primeira infância, ensinar a pertencer também faz parte de educar.


Relatora:

Betina Lahterman
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP

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Conexão, oportunidades e a responsabilidade de proteger crianças e adolescentes https://spsp.org.br/conexao-oportunidades-e-a-responsabilidade-de-proteger-criancas-e-adolescentes/ Tue, 30 Jun 2026 17:48:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=57628 ]]>

Celebrado em 30 de junho, o Dia Mundial das Redes Sociais marca uma das maiores transformações da comunicação nas últimas décadas. As redes encurtaram distâncias, aproximaram famílias, ampliaram o acesso à informação e criaram novas formas de aprender, trabalhar e compartilhar experiências.

Hoje, é difícil imaginar a vida sem elas. Para muitos pais, as redes sociais são uma forma de manter contato com amigos e familiares, buscar informações e até encontrar comunidades de apoio. Para adolescentes, representam também espaços de pertencimento, expressão e construção de identidade.

Mas, ao mesmo tempo em que oferecem oportunidades, as redes sociais exigem atenção e responsabilidade, especialmente quando falamos de crianças e adolescentes.

A infância e a adolescência são períodos de intenso desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Nesse contexto, a exposição precoce e excessiva às redes pode trazer impactos importantes, como alterações do sono, redução do tempo dedicado às brincadeiras e às interações presenciais, aumento da ansiedade, comparação constante com padrões irreais de beleza e sucesso, além da exposição a conteúdos inadequados, desinformação e situações de cyberbullying.

É importante lembrar que plataformas digitais são projetadas para captar e manter a atenção dos usuários. Crianças e adolescentes, por estarem em processo de amadurecimento, são mais vulneráveis aos mecanismos de recompensa, às notificações constantes e à busca por aprovação social por meio de curtidas e comentários.

Por isso, o debate não deve ser sobre demonizar a tecnologia, mas sobre promover um uso mais consciente e saudável.

Algumas atitudes podem fazer diferença:

  • Respeitar as classificações etárias das plataformas;
  • Adiar a entrada nas redes sociais sempre que possível;
  • Acompanhar e conversar sobre os conteúdos consumidos;
  • Estabelecer limites de tempo e momentos livres de telas;
  • Valorizar atividades presenciais, esportes, leitura e convivência familiar;
  • Ensinar pensamento crítico e educação midiática desde cedo;
  • Ser o exemplo, já que crianças aprendem observando os adultos.

As redes sociais fazem parte da sociedade atual e vieram para ficar. O grande desafio das famílias, educadores, profissionais de saúde e das próprias empresas de tecnologia é construir ambientes digitais mais seguros e adequados ao desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

Neste Dia Mundial das Redes Sociais, vale celebrar os avanços que elas proporcionaram, mas também reforçar que conexão não deve significar exposição sem limites. Mais do que ensinar nossos filhos a usar a tecnologia, precisamos ajudá-los a desenvolver a capacidade de viver bem com ela.

 

Relatora:
Betina Lahterman
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP

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Jornal Regional (Rádio POP FM) – Campanha Nacional de Multivacinação, com Fausto Flor Carvalho https://spsp.org.br/jornal-regional-radio-pop-fm-campanha-nacional-de-multivacinacao-com-fausto-flor-carvalho/ Fri, 10 Oct 2025 17:34:17 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=53892 Veículo: Jornal Regional (Rádio POP FM)

Data: 10/10/2025

O Ministério da Saúde iniciou campanha de vacinação voltada à proteção de crianças e adolescentes de até 15 anos. Mais de seis milhões de doses foram distribuídas para a ação, que será realizada até o final do mês. Para falar sobre esta iniciativa, o Jornal Regional da Rádio POP FM, de Aparecida, SP, entrevistou Fausto Flor Carvalho, membro do Departamento Científico de Saúde Escolar da SPSP. O médico explicou que a campanha é muito importante, pois serve para corrigir algumas falhas, como por exemplo pais que se esqueceram de levar os filhos para vacinar. Segundo o especialista, o intuito do MS é que a população mantenha a carteira de vacinação de crianças e adolescentes em dia.

Ouça a entrevista: 

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Lanche escolar: atenção para a saúde geral e bucal https://spsp.org.br/lanche-escolar-atencao-para-a-saude-geral-e-bucal/ Mon, 07 Jul 2025 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=52123 Atualmente, a alimentação infantil é motivo de grande preocupação dos pais e profissionais de saúde, devido a um aumento alarmante no consumo de alimentos altamente calóricos]]>

Atualmente, a alimentação infantil é motivo de grande preocupação dos pais e profissionais de saúde, devido a um aumento alarmante no consumo de alimentos altamente calóricos e de baixa qualidade nutricional.

É fundamental estimular a formação de hábitos alimentares saudáveis desde os primeiros anos de vida, para garantir o crescimento e desenvolvimento adequados, a manutenção da saúde e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade e cárie dentária.

Vale lembrar que as crianças não apresentam maturidade e conhecimento suficiente para fazerem suas escolhas alimentares, sendo os pais e cuidadores os principais responsáveis pela escolha, aquisição, preparo e oferta alimentar.

Hábitos alimentares se desenvolvem em casa e são moldados constantemente nos ambientes onde a criança está inserida: escola, casa de amigos e familiares, locais de esporte, praças de alimentação, etc. As preferências alimentares presentes na infância podem se perpetuar na vida adulta. O consumo de carboidratos fermentáveis, em especial a sacarose (açúcar), é um dos fatores que interferem no desenvolvimento de lesões de cáries. O consumo de bebidas e alimentos ácidos em alta frequência pode favorecer a erosão do esmalte dentário, levando à sensibilidade e perda de parte de sua estrutura.

Além das refeições feitas em casa, o lanche escolar, levado de casa ou comprado na escola, também tem um papel muito importante na rotina alimentar. Ele oferece nutrientes e energia para garantir o aproveitamento escolar e permite que a criança chegue com maior controle do apetite na refeição seguinte.

A rotina atarefada das famílias e a crescente seletividade alimentar das crianças têm resultado na confecção de lanches altamente calóricos, compostos na maioria das vezes por alimentos processados e ultraprocessados. A praticidade, durabilidade, alta palatabilidade e embalagens chamativas exercem grande influência no consumo.

É importante destacar que o lanche escolar não precisa ser uma refeição completa, com alimentos de todos os grupos, visto que do ponto de vista energético ele deve representar apenas 10% a 15% do consumo energético diário.

Normalmente o valor energético exibido no pacote de um alimento ultraprocessado refere-se a uma porção muito pequena, que não expressa o tamanho das porções consumidas e confunde o consumidor com frases enganosas, como “Enriquecidos com…”, “Livre de gorduras”, “Zero gorduras trans”, etc.; iludindo os pais em relação à verdadeira composição dos produtos.

Sendo assim, propomos dicas básicas para o seu planejamento:

  • O lanche escolar deve suprir as necessidades nutricionais de cada faixa etária e ser constituído por 2 ou 3 alimentos ou preparações;
  • Alimentos ultraprocessados devem ser evitados;
  • A criança deve ser estimulada a hidratar-se com água. A garrafa de água é item obrigatório e deve ser consumida! Ela pode ser levada cheia e a família deve estimular a criança a tomar com frequência e completar quando acabar;
  • Oferecer frutas em vez de sucos. Elas são importantes fontes de energia, vitaminas, minerais e fibras. As fibras estimulam a mastigação e favorecem o crescimento e desenvolvimento adequado das arcadas dentárias; sendo assim, incluir sempre uma porção de fruta ou hortaliça (tomate, palitos de cenoura e pepino, etc.);
  • Escolher uma fruta prática para ser consumida com casca ou cuja casca possa ser retirada com facilidade (maçã, banana, pera, pêssego, ameixa, morango, mexerica, uva, etc.). Algumas frutas podem ser levadas inteiras, enquanto outras devem ser descascadas e levadas picadas em recipientes com tampa: abacaxi, melão, melancia, manga, etc. Em caso de necessidade de corte, fazê-lo o mais perto possível do consumo. Lembrar que, conforme a idade, frutas como a uva devem ser cortadas, para evitar engasgos, e todos os itens devem ser pré-lavados, secos e bem embalados;
  • Caso a escolha seja suco, sempre eleger o natural ou integral ou 100% da fruta. Vale lembrar que esses sucos não contêm açúcar, mas na maioria dos casos podem ser diluídos na proporção de 2 partes de suco para 1 de água, já que são altamente concentrados. No caso de sucos naturais, preparar bem perto do consumo e lembrar-se que esse tipo de alimento tem quantidade máxima a ser consumida por dia consumo máximo ao dia;
  • Enviar um alimento fonte de proteína: leite, iogurte, queijo, ovo cozido, ovo de codorna (5 unidades = 1 ovo de galinha), crepioca, sanduíche de atum, frango, etc.;
  • Compor com uma fonte de carboidrato: pão francês, pães integrais (aveia, grãos, centeio, integral, preto), pão sírio, torrada integral, torrada, bolo caseiro, tapioca, cereal matinal sem adição de açúcar, pipoca de panela, wrap, cookie integral, panqueca caseira, snack de batata, batata-doce, mandioca, mandioquinha, etc.; restringindo o consumo das versões ultraprocessadas, como bisnaguinha, pão egg sponge, bolinhos prontos, ;
  • Sugestões de recheio: queijo minas, queijo meia-cura, mussarela de búfala, manteiga, requeijão, fritada (ex.: ovo mexido com tomate), patês de ricota temperada, frango, geleia de frutas sem adição de açúcar, pasta de amendoim, etc.;
  • É importante utilizar lancheiras de material térmico ou gelo em placas para manter a qualidade dos alimentos e evitar que gêneros perecíveis fiquem sem refrigeração por mais de três horas.

Alimentos e preparações que não devem entrar na rotina alimentar da criança. Caso algum item seja eleito para o lanche escolar, restringir a oferta para 1 vez por semana:

  • Sucos e refrescos de caixinha;
  • Snacks e salgadinhos de pacote;
  • Leite fermentado, tipo Yakult (EVITAR);
  • Achocolatados prontos (Toddynho e similares);
  • Doces em geral (chocolate, sorvete cremoso, pirulito, balas, etc.);
  • Pães e bolos com recheios e cremes;
  • Pães doces;
  • Salgados fritos (coxinha, risole, bolinha de queijo, etc.) e assados (pão de queijo, enrolado de salsicha, enrolado de frios, empada, croissant, etc.);
  • Bolachas em geral, especialmente as recheadas;
  • Waffle;

Bebidas isotônicas, como Gatorade e similares, são contraindicadas, devido aos altos teores de sódio.

Lembrar que os lanches não consistem em refeições inteiras. Cada item é apenas uma parte do conjunto; então não se deve exagerar nas quantidades.

 

Relatora:
Vera Regina M. Dishchekenian
Especialista em Nutrição Materno-Infantil
Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo

Colaboradoras:
Ana Flavia Calvo
Cristina Giovannetti Del Conte
Patricia Roulet
Núcleo de Estudos de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Comentários sobre IA e violência infantil https://spsp.org.br/comentarios-sobre-ia-e-violencia-infantil/ Wed, 16 Apr 2025 18:07:16 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=51023 No 18º Fórum Paulista de Prevenção de Acidentes e Combate à Violência contra Crianças e Adolescentes, compartilhei os resultados da minha pesquisa e o conteúdo do livro recém-lançado]]>

No 18º Fórum Paulista de Prevenção de Acidentes e Combate à Violência contra Crianças e Adolescentes, compartilhei os resultados da minha pesquisa e o conteúdo do livro recém-lançado, intitulado A Influência das Mídias Digitais na Cultura da Infância.

Os direitos digitais de crianças e adolescentes também estiveram no centro das discussões, voltadas à garantia da proteção integral dessa população no Brasil. Dando continuidade aos debates do Fórum, destaco a preocupação com o uso de tecnologias sem supervisão durante a infância e adolescência, o que motivou, entre outras ações, a discussão sobre a proibição do uso de celulares em escolas como medida protetiva.

Em 5 de dezembro de 2024, foi aprovado o projeto de lei que proíbe o uso de aparelhos celulares por estudantes em escolas públicas e privadas no Estado de São Paulo. Posteriormente, em 20 de fevereiro de 2025, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou novas diretrizes operacionais sobre o uso de dispositivos digitais em espaços escolares e a integração curricular do componente “Educação Digital e Midiática”. Em março, é lançado pelo Governo Federal o documento que traz orientações baseadas em evidências científicas para a criação de um espaço virtual mais saudável e seguro para crianças e adolescentes. As novas diretrizes, válidas para toda a educação básica – da educação infantil ao ensino médio –, entraram em vigor no ano letivo de 2025. O uso de telas está permitido em dois casos específicos: para fins pedagógicos e para estudantes com deficiência ou condições de saúde que demandem suporte tecnológico.

Essas regulamentações representam avanços importantes na ampliação do debate sobre o uso de celulares por crianças e adolescentes, tanto nas escolas quanto em contextos familiares e comunitários. Entendo que tais medidas podem oferecer apoio significativo não só às escolas, mas às famílias e sociedade, e trazem novos desafios para a sua implementação.

  1. Ambiente virtual inseguro: As redes sociais têm se tornado espaços marcados por graves riscos, como a coleta de dados comportamentais para fins publicitários, racismo, misoginia, incitação à violência e discurso de ódio, abuso sexual, automutilação, cyberbullying, jogos de azar e conteúdos relacionados ao suicídio. Esses fatores tornam o ambiente digital extremamente nocivo, especialmente para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, sem a maturidade e sem os recursos necessários para lidar com tais exposições de forma segura.
  2. Necessidade de regulamentação: É urgente demandar das plataformas digitais a implementação de diretrizes éticas que assegurem ambientes virtuais saudáveis e protegidos. Enquanto projetos de lei seguem em tramitação no Senado, é imperativo proteger crianças e adolescentes de interações indevidas, sobretudo nos períodos de não supervisão, como recreios e intervalos escolares. O fácil acesso a conteúdos violentos, apostas ilegais e a possibilidade de manipulação de imagens sem o acompanhamento de adultos representam grande risco ao desenvolvimento de nossas crianças e jovens.
  3. Uso pedagógico mediado: As legislações em vigor reconhecem a importância da mediação adulta no uso pedagógico das tecnologias, por meio da atuação de professores e educadores, em consonância com os projetos político-pedagógicos das instituições escolares.
  4. Educação especial e tecnologias assistivas: As diretrizes garantem o uso de recursos tecnológicos no contexto do Atendimento Educacional Especializado (AEE), assegurando a inclusão de estudantes com deficiência ou outras necessidades específicas.
  5. Educação midiática como eixo formativo: Diante da centralidade das redes sociais, da coleta de dados e da disseminação da inteligência artificial, é fundamental inserir a educação midiática nos currículos escolares e na formação docente. É por meio dela que se promove o uso ético e consciente das tecnologias e se constrói uma cultura de responsabilidade digital. Essa abordagem favorece o desenvolvimento de projetos educativos consistentes e exerce pressão sobre as big techs, como já ocorre em outros países. O controle parental, nesse contexto, deve ser tratado como parte integrante da formação de toda a comunidade escolar.

Enquanto essas políticas públicas não forem plenamente implementadas, é essencial evitar a exposição de crianças e adolescentes a riscos que possam comprometer sua segurança, bem-estar e desenvolvimento. Os danos decorrentes do uso desregulado da tecnologia podem ser irreversíveis.

Por fim, é importante ressaltar que a responsabilização direta de estudantes, como punições ou confisco de aparelhos por parte de professores, inspetores ou diretores, não deve ser o foco das ações escolares. A formação crítica de crianças e adolescentes começa pela leitura do mundo – inclusive do mundo digital. A escola deve ser um espaço educativo que promova interações significativas, brincadeiras, jogos e diálogos “olhos nos olhos”, e não “olhos nas telas”.

Cabe, portanto, cuidar do nosso tempo de tela como adultos também e olhar para a qualidade da relação que estamos construindo. Assim, a escola, as famílias e o poder público podem promover, conjuntamente, a reconstrução de ambientes escolares saudáveis, por meio do planejamento coletivo, da intencionalidade educativa e do cuidado contínuo, convidando todos a se integrarem a essa Rede de Proteção à Infância.

 

Relatora:
Sandra Cavaletti Toquetão
Pesquisadora do Grupo Políticas Públicas da Infância (CRIANDO-PUC/SP) e Linguagem em Atividade no Contexto Escolar (LACE-PUC/SP)
Atua na formação de educadores da infância, ministrando cursos e palestras

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Dia Mundial da Prevenção do Suicídio https://spsp.org.br/dia-mundial-da-prevencao-do-suicidio/ Tue, 10 Sep 2024 17:48:15 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47956 O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio ocorre no dia 10 de setembro e visa ampliar a conscientização da população acerca do tema. Esse debate é cada vez mais importante, sendo essa]]>

O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio ocorre no dia 10 de setembro e visa ampliar a conscientização da população acerca do tema. Esse debate é cada vez mais importante, sendo essa a percepção da Sociedade de Pediatria de São Paulo, pois o suicídio, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma das principais causas de morte em todo o mundo e, entre jovens de 15 a 29 anos, a quarta causa de morte.

De partida, é fundamental reforçar que o suicídio tem causa multifatorial, em que interferem elementos psicológicos, sociais e culturais. Entre os fatores de risco para o suicídio mais conhecidos estão: transtornos mentais, dependências químicas, abusos, traumas, perdas econômicas e tentativas anteriores.

Diante desse cenário, é inevitável nos perguntarmos se é possível falar em efetivas medidas de prevenção. Cuidar da saúde mental, não só da criança, mas de todos que a cercam, é o primeiro passo desse caminho. A saúde mental precisa estar ligada aos cuidados cotidianos, onde a presença do cuidador demanda ser além da presença física, uma presença implicada, emocionalmente presente. Esse primeiro cuidado pode contribuir para que mais tarde, na adolescência, mesmo diante de tantos desafios para crescer e construir sua subjetividade, o jovem encontre amparo psíquico que lhe permita fazer escolhas e suportar as adversidades. Não é incomum que casos de bullying estejam conectados e façam parte do cenário de agravamento da saúde mental de um adolescente. O enfrentamento a essas situações sem dúvida é necessário. Para uma criança ou adolescente que experimenta maior dificuldade no enfrentamento de situações de angústia psíquica, o bullying pode se tornar um excesso impossível de ser suportado.

Vivemos em um país marcado por diferenças sociais e econômicas drásticas, no qual o acesso aos recursos de saúde, educação e moradia são muito desiguais, sendo possível assim imaginar o quão desafiador pode ser para muitas famílias administrarem suas exigentes jornadas de trabalhos e ainda assim cuidarem da saúde e bem-estar de seus vínculos familiares. É um enorme desafio!

Quando assistimos entristecidos os casos de suicídio em jovens, surgem as inúmeras perguntas e apontamentos automáticos, culpas e recomendações. Todo cuidado é pouco ao abordarmos tema tão delicado e complexo. Ao observarmos os fatores de risco para o suicídio, surge a recomendação para que jovens que estejam em evidente sofrimento sejam acompanhados e recebam auxílio psicológico. Porém, quando levamos em consideração a adolescência e a velocidade de transformações que ela imprime no indivíduo, podemos considerar que mesmo um jovem aparentemente ‘’bem-sucedido’’ do ponto de vista dos anseios sociais pode estar sofrendo grande pressão. Somadas a isso temos as crescentes exigências dos mercados de trabalho, os apelos estéticos e de consumo (impulsionados e veiculados pelas redes sociais), encaixando o jovem num ‘‘padrão’’: um aluno de alta performance, por exemplo, mas em franco sofrimento, ainda que não aparente. É importante, nesse sentido, nos atentarmos enquanto pais, profissionais de saúde e de educação, para outras formas de adoecimento menos evidentes, mas com grande potencial de risco. Estas situações descritas já são potencialmente deletérias e vêm moldando a forma de ser e sofrer dos jovens e dos adultos na atualidade. Também observamos, com certa frequência, que tanto os pais quanto os profissionais de saúde e de educação se veem perdidos frente aos seus impactos. Há um esgarçamento social em curso, no qual há carência de recursos de amparo no meio social mais amplo. E no desamparo procuramos e precisamos de amparo.

É importante considerar que o desenvolvimento, desde a infância, não se processa de forma linear e que ao longo da vida crianças e adolescentes podem evoluir ou regredir em função do modo como são cuidados e das adversidades que encontram pelo caminho. Crescimento não significa apenas ganhos e é preciso estar atento, porque eles podem dar sinais sutis de que não estão conseguindo elaborar os desafios e as perdas que o crescimento também implica.

Uma dessas vias de expressão de sofrimento é o corpo, que o adolescente utiliza para várias coisas e que está no cerne de sua relação com o mundo, o que podemos constatar não apenas no modo como a imagem é cultuada, mas também nos comportamentos de autolesão, e em última instância, no suicídio.

Na autolesão, o corpo se torna o cenário de expressão dos conflitos internos e de descarga das experiências emocionais dolorosas, o que propicia um alívio momentâneo, frente a vivência de um caos emocional e da dificuldade de transformá-lo em palavras. Com isso, o jovem continua conseguindo se manter agarrado à vida, à realidade que o circunda e ao grupo ao qual pertence. Mas, como o alívio é transitório, o ato tende se repetir, agravando o sofrimento.

O suicídio é o desfecho mais grave da junção entre um excesso de dor, de perturbação e de pressão emocional, de falta de sentido no viver, e revela um enfraquecimento dos vínculos reais do jovem com as pessoas que lhe são significativas e que poderiam lhe proporcionar os recursos de proteção.

Os recursos de proteção são construídos no meio familiar e social e estão intimamente relacionados com os vínculos afetivos na família, na escola e na comunidade na qual o jovem se insere, mas também estão atrelados às percepções e senso de si que ele constrói desde a infância: os sentimentos de autoestima, autoconfiança, as perspectivas de futuro e as habilidades afetivas, sociais e cognitivas.

O principal fator de proteção é o sentimento de estar conectado, numa relação de intimidade e confiança, bem-estar e apoio, de referência para as escolhas e enfrentamento dos desafios que a vida coloca. Em suma, saber que pode contar com alguém, ao longo do percurso da vida e não apenas nos momentos de crise ou de enorme sofrimento.

Ter um sentido para a vida previne e protege do suicídio.

 

Relatoras:
Cristiane da Silva Geraldo Folino
Flávia Schimith Escrivão
Vera da Penha M. Ferrari Rego Barros
Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo

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Educação Infantil e sua importância https://spsp.org.br/educacao-infantil-e-sua-importancia/ Mon, 26 Aug 2024 14:15:27 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47734 Educação Infantil é o termo usado em nosso tempo para a educação formal realizada antes do período escolar clássico, que começava aos 7 anos, no primeiro ano do ensino fundamental. No Brasil, a educação infantil]]>

            Educação Infantil é o termo usado em nosso tempo para a educação formal realizada antes do período escolar clássico, que começava aos 7 anos, no primeiro ano do ensino fundamental.

            No Brasil, a educação infantil iniciou com as chamadas pré-escolas. Depois foram acrescentadas várias etapas, chamadas de jardim da infância, maternal e berçário. A partir da inserção das mulheres no mercado de trabalho, de modo mais frequente a partir das décadas de 70 e 80 do século passado, houve uma necessidade social nova, de encontrar locais onde as crianças pudessem ser cuidadas.

            A preocupação inicial era mais focada no cuidado alimentar e de higiene. Com o passar do tempo e o desenvolvimento de diversos estudos científicos, especialmente em pré-escolas e jardins da infância, começa-se a olhar para esta época com “outro olhar”.

        A educação infantil deve ser sempre intencional em seu processo educacional, com metas adequadas e suporte pedagógico, apresentação lúdica, que incentive as interações sociais e o desenvolvimento das habilidades motoras, sensórias e cognitivas das crianças. Deve ser inclusiva, democrática, com a construção sendo feita por toda a comunidade escolar. Deve ainda ter um olhar pautado nas necessidades reais das crianças e de suas famílias.

            Portanto, a educação infantil não é feita de depósitos onde crianças são alimentadas e cuidadas, mas sim uma verdadeira extensão do mundo, com estimulação para o desenvolvimento global da criança.

 Infelizmente, há um enorme déficit de vagas em nosso país, além da ausência de uma política pública de valorização dos profissionais e de capacitação pedagógica.

         Por estas razões, faz-se necessário que pediatras e equipe de saúde, professores e equipes escolares, pais e comunidade se aproximem, mantenham um canal de discussão aberto para temas relevantes e busquem soluções para problemas que possam impedir que se atinja o melhor potencial pedagógico das crianças.

 

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Por que falar de bullying? https://spsp.org.br/por-que-falar-de-bullying/ Fri, 20 Oct 2023 18:17:58 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=40290 Chegamos a mais um Dia Mundial de Combate ao Bullying, instituído em 20 de outubro. E por que precisamos de um dia para isto? Por que falar de bullying? Isso não existe desde sempre? Bullying é]]>

Chegamos a mais um Dia Mundial de Combate ao Bullying, instituído em 20 de outubro. E por que precisamos de um dia para isto? Por que falar de bullying? Isso não existe desde sempre?

Bullying é a situação em que uma pessoa promove o abuso de outra através da desigualdade de forças, de papéis, em que o agressor usa força física, ou constrangimento, para receber favores da vítima. Este tipo de situação é bastante frequente no âmbito escolar e não é novidade para ninguém. O bullying existe há muito tempo.

Nas últimas décadas, o assunto tem ganho mais atenção, por estar cada vez mais presente nas escolas e ruas, além de ter ganho uma nova proporção com o “extravasamento” do bullying pelas redes sociais, o chamado cyberbullying.

Esta nova vertente traz um agravamento das consequências para o agredido, pois este fica exposto não apenas nas situações internas da escola, como pode ser vítima de agressão por pessoas desconhecidas.

Traumas psicológicos, baixa autoestima, dificuldade de reconhecimento de sua própria identidade acabam afetando as vítimas, podendo contribuir para situações como autoagressão, depressão e tentativas de suicídio.

Devemos lembrar que o agressor também costuma ser vítima de violência, às vezes em casa ou em outros locais. Por isso é preciso atenção tanto ao agressor quanto à vítima.

A triste realidade é que muitos pais estão fora de casa, trabalhando e acabam desconectados com o que está acontecendo com seus filhos. Os pais precisam participar da vida escolar de seus filhos e frequentar as escolas. As equipes escolares devem estar atentas a sinais de violência e de desigualdade. Propor atividades em grupos, exaltando a importância do companheirismo e da participação pode ajudar a atenuar o problema. Ter canais abertos para denúncias e acolhimento de quem vivencia situações de bullying é essencial para minimizar a questão.

 

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial https://spsp.org.br/dia-nacional-de-combate-a-discriminacao-racial/ Mon, 03 Jul 2023 19:17:16 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=38396 Dia 3 de julho é o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. A data é necessária, pois temos cinco séculos de construção como nação colonizada por]]>

Dia 3 de julho é o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. A data é necessária, pois temos cinco séculos de construção como nação colonizada por brancos europeus, com a escravidão inicial de índios (povos originários) e depois de negros trazidos da África para o trabalho pesado nos engenhos e fazendas.

O bebê não nasce com preconceitos em relação à cor da pele ou tipo de cabelo; pelo contrário, em geral, o bebê se sente atraído por alguém diferente dele e tem muita curiosidade do contato e do relacionamento.

Isso reforça a ideia de que não nascemos racistas ou com preconceitos, mas, sim, somos impactados pelos adultos com quem convivemos. Crianças tendem a imitar seus pais, observando de modo muito atento a tudo o que estes fazem. Deste modo, as pequenas atitudes são fixadas na mente em desenvolvimento da criança, ajudando na construção de seu conjunto de valores.

A convivência com pessoas de diversas etnias e tons de pele é altamente recomendada e pode trazer à criança noções de tolerância, de aceitação e de diversidade. Um ambiente escolar bem diversificado, assim como frequentar parques e locais públicos com diferentes tipos de pessoas é importante ferramenta para este aprendizado.

Um outro aspecto interessante é a participação em brincadeiras, gincanas e esportes coletivos, pois a criança pode interagir com os mais diversos grupos de pessoas e camadas sociais e construir relacionamentos de amizades fora de sua bolha social.

Ensinar à criança a conhecer as pessoas pelo nome próprio e não por características de pele, cabelo, olhos, ajuda a entender a importância de valorizar a pessoa em si e não os detalhes. Contar histórias dos antepassados e ter amigos de diversas raças também ajudam nesta construção de um mundo mais equalitário. Afinal, todos somos da raça humana, sejam pretos, pardos, brancos, amarelos ou vermelhos.

 

Relator:
Fausto Flor Carvalho
Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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