Vovó dizia – SPSP https://spsp.org.br Sociedade de Pediatria de São Paulo Fri, 28 Nov 2025 19:18:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://spsp.org.br/wp-content/uploads/2025/06/cropped-LogoSPSP_circulo-1-32x32.png Vovó dizia – SPSP https://spsp.org.br 32 32 O álbum de fotografias da vovó – O tempo https://spsp.org.br/o-album-de-fotografias-da-vovo-o-tempo/ Fri, 28 Nov 2025 19:12:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=54349 Vó, por que as suas fotografias estão tão amareladas? – É o tempo, meu neto(a), que faz as fotos perderam a cor e o brilho naturais. O tempo não poupa ninguém e nada…]]>

– Vó, por que as suas fotografias estão tão amareladas?

– É o tempo, meu neto(a), que faz as fotos perderam a cor e o brilho naturais. O tempo não poupa ninguém e nada…

– É por causa do tempo que seus cabelos estão ficando branquinhos?

– É, isso mesmo… eu não falei que ele, o tempo, não poupa nada nem

ninguém?! Mas, se você quiser que eu te explique de outro jeito, eu posso dizer, mais ou menos, o que os cientistas – os entendidos no assunto – falam.

– Quero sim, vó.

– Então, o amarelecimento do papel pode ocorrer devido a uma combinação de processos químicos e físicos. Uma das principais causas é a degradação oxidativa, que ocorre quando o papel fica exposto à luz, ao ar, à umidade ou aos poluentes ácidos do ambiente…

– Pode parar, vó! Eu não tenho aula de ciências ainda…

– Essa exposição libera compostos químicos que podem descolorir o papel e amarelar com o tempo.

– Ai, vó! Tá bom… gosto mais da explicação do tempo…

– O relógio marca a passagem do tempo através da contagem dos minutos, dos segundos, das horas. Mas o coração e a memória registram essa passagem através das fotografias… que é mais divertido e emocionante. Não é mesmo?

– Nisso “tamo junto”, vó!

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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O álbum de fotografias da vovó – Seriedade https://spsp.org.br/o-album-de-fotografias-da-vovo-seriedade/ Thu, 13 Nov 2025 13:07:12 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=54123 É um momento de muita alegria para a vovó quando o(a) netinho(a) chega daescola, afoito, para perguntar suplicando: – vovó, você me ajuda a fazer a árvore da família?]]>

É um momento de muita alegria para a vovó quando o(a) netinho(a) chega daescola, afoito, para perguntar suplicando: – vovó, você me ajuda a fazer a árvore da família? Preciso de muitas fotos. Ele(a) bem que tentou falar a palavra complicada – genealógica, mas saiu tropeçando nas letras.

Os diversos álbuns de família são retirados do armário. Parecem muitos aos olhos da avó, mas o(a) netinho(a) comenta: – só tem esses? Eu tenho mais fotos do que você.

Ah! Que delícia para a vovó ir explicando (esse “gerundismo” aqui vai bem!), foto a foto, quem são aqueles personagens exóticos. Tudo parece muito estranho para o(a) netinho(a), mas a vovó pensa e não fala: – “agora, até pra mim parece muito esquisito”.

A vovó aproveita a ocasião e filosofa para o(a) netinho(a): “quando você chegar na mesma idade que eu tenho agora, com certeza você vai rir muito com as suas próprias fotos… elas parecerão tiradas em outro mundo e você parecerá um alienígena”.

Conversa vai, conversa vem…

– Vó, por que todos nessas fotos estão paradinhos e olhando pra frente, sem ninguém dar uma risadinha?

– Você é muito observador(a). É verdade… naquele tempo, para se tirar uma foto tinha que se pensar muito – escolher um local, um cenário de fundo, uma roupa adequada e ficar como estátua, para nada sair errado. Naquela época,

os filmes de fotografia eram muito caros. Os filmes coloridos eram mais caros ainda. Cada rolo de filme dava para 12, 24 ou até 36 fotografias.

Depois de tiradas, tinham que ser levadas para uma loja especializada para revelar o filme: aí é que você via o que saiu. Às vezes, a constatação era muito triste – o filme queimou, ou a fotografia saiu tremida, enfim, ela não servia para nada. A grande maioria dessas fotos carece então de uma coisa

fundamental: a espontaneidade. O riso brota da espontaneidade, dessa liberdade em ser do jeito que se é ou está e de agir como quiser.

– Nossa vó, que chato.

– É, meu neto(a), por isso você tem mais fotos que a vovó. Hoje, as novas tecnologias tornaram esse aspecto da vida muito mais fácil. Todo mundo quer registar tudo em foto. Além disso, querem divulgar por aí nas redes sociais, não é mesmo?

– Claro, vó! Senão, qual é a graça?

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

 

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O álbum de fotografias da vovó – para lembrar quando você esquece https://spsp.org.br/o-album-de-fotografias-da-vovo-para-lembrar-quando-voce-esquece/ Tue, 28 Oct 2025 12:43:45 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=53927 As imagens podem falar mais do que as palavras. Os olhos acreditam no que veem, embora possam se enganar. Às vezes, o silêncio também fala muito. As fotografias não existiam antes]]>

As imagens podem falar mais do que as palavras. Os olhos acreditam no que veem, embora possam se enganar. Às vezes, o silêncio também fala muito. As fotografias não existiam antes de 1826. Elas são uma poderosa linguagem de comunicação e de expressão artística. Um álbum de fotografias pode ser considerado um livro, que em vez de palavras com uma narrativa, possui imagens que contam as mais variadas histórias. O álbum de fotografias é um quadro branco para registros – das fotos. A palavra “álbum” vem do latim album, que significa “branco”. É um arquivo com muito valor, especialmente afetivo.

Os álbuns fotográficos comportam fragmentos da vida através das fotografias. Registram acontecimentos/momentos vividos, que podem estar carregados de emoções agradáveis ou desagradáveis, felizes ou tristes, emocionantes ou assustadoras, reconfortantes ou angustiantes. Têm uma conotação fortemente emocional. Os álbuns são estímulos sensoriais (visuais e táteis) que acionam áreas corticais que envolvem a memória, de tal maneira que “eventos e emoções são armazenados juntos na memória”. Por isso, essas “lembranças fotográficas” mexem com o nosso humor (sentimentos).

O álbum de fotografias ganhou novas versões mais modernas, além do tradicional papel. Pode-se encontrá-lo disponível em forma de: aplicativo de celular de galeria de fotos; álbuns digitais no Facebook ou Instagram; softwares de armazenamento de dados como pen drives ou nuvens, entre outros.

Antes da ascensão da internet e do modo on-line, os álbuns de fotos eram o único meio de se guardar memórias físicas em forma de fotografias, de si mesmo, de lugares, de entes queridos ou de eventos históricos. Os snapshots (fotos ou instantâneos), são para lembrar quando você esquece.

Os avós, em geral, gostam muito de álbuns de fotografias. Volta e meia, estão lá … debruçados em olhar para aquelas fotos estranhas, algumas amareladas. Diante de algumas, parecem se perder em recordações…

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

 

 

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Brincar com as ideias https://spsp.org.br/brincar-com-as-ideias/ Fri, 28 Mar 2025 14:24:23 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50732 ]]>

Os contos de fadas descrevem “estados mentais” por meio de imagens e ações. Basta, por exemplo, dizer que “Cinderela todos os dias ia ao túmulo da mãe e chorava”, para externar o grau de infelicidade; ou, dizer que “o herói estava perdido numa floresta impenetrável e densa, sem saber que caminho tomar, desesperado para encontrar uma saída”, para descrever o estado de desconforto.

Um bom conto de fadas deve ter algumas características essenciais: fantasia, recuperação, escape, ameaça à existência física e moral do herói (ou heroína) e consolo profundo, características salientadas por Tolkien e Bruno Bettelheim*. Os contos de fadas apontam em geral, para uma reviravolta feliz, na qual o herói (ou heroína) se sente recompensado (após tanto desconforto e medo) e a pessoa má encontra a merecida sorte, a punição da maldade, para satisfazer o senso comum de justiça. O consolo se completa com a volta ao lar, com o encontro da(o) amada(o), a posse do reino – onde não há sensação de abandono algum.

Toda criança acredita em magia, mas deixa de fazê-lo quando cresce. Por isso, é infundada a preocupação de alguns pais de que a exposição aos contos de fadas possa levar ao arrebatamento de seus filhos pelas fantasias e que passem a crer em encantamentos. Outros temem que a saturação da mente infantil por contos de fadas as atrapalhe a lidar com a realidade. O oposto é que é verdadeiro: as fantasias contêm, sob a forma de imaginação, uma variedade de questões também encontradas na realidade. As fantasias alimentam o ego,  oferecendo um abundante material com que trabalhar, tornando-se essenciais para a formação da personalidade e ajudam a moldar a forma de como ver o mundo.

Os pensamentos de uma criança pequena não acontecem de um modo ordenado, como os do adulto – as fantasias da criança são seus pensamentos. Quando uma criança tenta entender a si própria e aos outros, ou imaginar quais as consequências possíveis de uma ação, ela tece fantasias em torno dessas questões. É sua maneira de “brincar com as ideias”.

Sem fantasias para nos dar esperanças, não temos força para enfrentar as adversidades da vida. A infância é a época em que essas fantasias precisam ser alimentadas. Os contos de fadas são uma ferramenta extraordinária para atingir esse objetivo.

 

Saiba mais:

– J. R. Tolkien. Tree and leaf. Boston: Houghton Mifflin, 1965.

– De Bettelheim, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2009.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Três desejos https://spsp.org.br/tres-desejos/ Mon, 03 Feb 2025 19:17:58 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=50104 ]]>

“Ah, seu eu tivesse o …”. Nesses três pontinhos – as famosas reticências, se encaixam uma profusão de anelos (desejos intensos) humanos. São tantos e tão diferentes, que o conto de fadas faz uma condição: são apenas três desejos que serão atendidos. O conto original escocês “Três Desejos” talvez seja uma das mais conhecidas histórias sobre desejos.

Se lhe fosse concedido o direito de satisfazer três desejos, quais seriam eles?

Pense bem e não desperdice essa oportunidade rara.

Nesse conto,” um homem recebe esse favor”, só que ele faz pouco caso dele. De volta ao lar, a esposa lhe serve a sopa de todo dia no jantar. “Sopa de novo! Queria um pudim”, diz ele, e prontamente o pudim aparece. A mulher exige saber como isso aconteceu, ele narra sua aventura. Furiosa por ele ter desperdiçado um dos desejos com tal ninharia, ela exclama: “Queria que o pudim estivesse sobre sua cabeça!”, um desejo que é imediatamente satisfeito. “Lá se vão dois desejos! Queria que o pudim não estivesse sobre a minha cabeça”, diz o homem. E lá se foram os três desejos”.

Está implícito, neste conto, que desejar é uma atitude que necessita ser encarada com responsabilidade: afinal, o desejo pode vir a ser realizado. Seja por vias naturais, de esforço pessoal, por dádiva de alguém ou por um poder sobrenatural, como nos contos de fadas.

A vontade de transformar a realidade de maneira súbita, sem esforço, por meio de uma estratégia sobrenatural, está no imaginário das pessoas, movendo-as a apostar na loteria ou participar de programas como o “Big Brother”. O problema é que a felicidade pode não estar na realização de tais desejos. Podemos pedir mal.

Afinal o que é essa tal “felicidade”?

Os contos de fadas podem transmitir algumas lições valiosas para as crianças e para todos nós:

  1. Cuidado com o que deseja. Este conto, em particular, destaca a importância de ser cuidadoso ao pedir algo. As consequências podem ser negativas, devido à forma como o desejo foi expressado.
  2. Gratidão e contentamento. O conto pode ensinar às crianças serem gratas pelo que têm, em vez de sempre desejar mais. Mostra como a ganância e o desejo constante por mais podem levar a problemas.
  1. Responsabilidade. Ao ver os resultados dos desejos dos personagens, as crianças podem aprender sobre responsabilidade e pensar nas possíveis ramificações de suas próprias ações antes de agir.
  2. Valorização das relações. Em alguns contos de fadas os personagens podem desejar riquezas ou poder, mas, eventualmente, percebem que o verdadeiro tesouro está nas relações e nas coisas simples da vida. Isso pode ensinar às crianças a importância da amizade, família e amor.
  3. Autoconhecimento. Às vezes, os personagens descobrem que o que realmente desejam está dentro de si mesmos, como coragem, bondade ou sabedoria. Isso pode inspirar as crianças a buscar autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
  4. Consequências das ações. Os contos de fadas muitas vezes mostram repercussões e impactos tanto para nós mesmos quanto para os outros ao nosso redor.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Tecnologias na Educação – Expectativas e frustrações https://spsp.org.br/tecnologias-na-educacao-expectativas-e-frustracoes/ Thu, 19 Dec 2024 11:00:00 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=49661 A vovó tirou do seu ‘fundo do baú’ histórias interessantes e que parecem, hoje, inacreditáveis. Vejam estas: -Thomas Edison, industrial americano e inventor da lâmpada elétrica]]>

A vovó tirou do seu ‘fundo do baú’ histórias interessantes e que parecem, hoje, inacreditáveis. Vejam estas:

-Thomas Edison, industrial americano e inventor da lâmpada elétrica, disse em 1913: “livros logo se tornarão obsoletos nas escolas (…) Nosso sistema escolar mudará completamente dentro de dez anos”. Parece até atual! O deslumbramento demonstrado por ele dizia respeito às várias potencialidades pedagógicas do cinema, opinião corroborada por muita gente naquela época, que até diziam: “o cinema está destinado a revolucionar nosso sistema educacional e, graças a ele, será possível ensinar todas as ramificações do conhecimento humano”.

-Em 1930, a tecnologia revolucionária foi o rádio e dizia-se sobre ele:  “o rádio está destinado a levar o mundo para a sala de aula, a fim de tornar universalmente disponíveis os serviços dos melhores professores”.

-Em 1960, foi a vez da televisão: “é possível multiplicar nossos melhores instrutores, isto é, selecionar um único professor excelente e oferecer a todos os estudantes os benefícios resultantes de uma instrução de qualidade superior (…) A TV transforma todas as salas de estar, de jantar, sótão, etc., numa sala potencial de aula”.

Percebe-se nesse recordatório, que muita expectativa sempre foi projetada em cada nova tecnologia que ia surgindo como esperança para solucionar os problemas educacionais nos países, pelo mundo afora. Hoje, continua se fazendo a mesma coisa: a televisão foi substituída pelas “tecnologias de informação e de comunicação para o ensino” – as famosas TIC.

Em 2011, um parlamentar alardeou que estas são “como uma resposta adaptada aos desafios da educação do século XXI: lutar contra o fracasso na escola, favorecer a igualdade de oportunidades, devolver aos alunos o prazer de ir à escola e aprender, revalorizar a profissão do magistério, que deve retomar seu lugar com esse papel de ‘diretor de cena’ (…). Pois não será sobre a educação de ontem que edificaremos os talentos de amanhã”.

As muitas expectativas trouxeram muitas frustações. Nem o cinema, nem o rádio ou a televisão resolveram os enormes problemas educacionais na grande maioria dos países. Nem mesmo hoje, a Informatização no ensino, trouxe o ganho tão esperado e propalado.

“A síntese do último relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), solicitado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, enfatiza: “professores são o mais importante recurso nas escolas de hoje…”. Essa afirmação foi feita após os especialistas constatarem que os países que mais investiram em tecnologias digitais foram os que viram a performance de seus alunos diminuir, mais severamente, em matemática, leitura e ciências.

Conclusão final:

“Um Professor qualificado continua sendo uma tecnologia de ensino resiliente e insuperável”.

 

Saiba mais:

  1. Edison T. In: Saettler P. The evolution of American educacional techonology. (S.I.): IAP, 1990.
  2. Darrow B. In: Cuban L. Teachers and the machines. New York: Teachers College Press, 1986.
  3. Wischener G et al. Some thoughts on television as na educacional tool. American Psychologist. 1955;10.
  4. Fourgous J. Oser la pédagogie numérique!. Le Monde, 2011. Disponível em: lemonde.fr. Acesso em: 27 jul. 2021.
  5. Spitzer M. M-learning? When it comes to learning, smartphones are a liability, not an asset. Trends in Neuroscience and Education. 2015;4.
  6. OECD. Effective teacher policies: insights from PISA. OECD, 2018. Disponível em: oecd.org. Acesso em: 27 jul.2021.
  7. OCDE. Connectés pour appendre? Les élèves et les nouvelles technologies (principaux résultats). OCDE, 2015. Disponível em: oecd.org. Acesso em: 27 jul. 2021.

 

Relator:

Fernando MF Oliveira

Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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A psicanálise e os contos de fadas https://spsp.org.br/a-psicanalise-e-os-contos-de-fadas/ Fri, 01 Nov 2024 19:48:49 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48726 ]]>

Vivendo e aprendendo. Quando eu era criança, minha mãe lia histórias infantis e contos de fadas para os filhos. Quando fui pai, repeti com os meus filhos o que aprendi e vivenciei – li livros infantis para eles. Eu sabia que era uma coisa boa e agora a ciência consegue explicar porquê isso é bom.

A criança vivencia o mundo concreto de forma diferente. Às vezes, a mãezinha querida que a acolhe e a enche de beijos e carinho pode se transformar, de repente, na madrasta má, personagem malévola dos contos de fadas, só porque em dado momento a criança se sentiu humilhada por ter recebido uma bronca, por ter molhado acidentalmente as calças, por exemplo. “Como pode a minha própria mãe agir de modo totalmente diferente?” A criança pequena experimenta o mundo como inteiramente gracioso ou como um total inferno; é como ela coloca alguma ordem em sua visão de mundo – dividindo tudo em opostos.

Os contos de fadas podem ajudar a criança na solução de problemas difíceis de entender como este, do exemplo acima. Nesta situação, a criança, ao ouvir a narrativa de uma história, pode criar duas personagens separadas em sua mente: a ‘mãezinha querida’ e a ‘madrasta má’. A fantasia da ‘madrasta má’ não só conserva intacta a mãe boa, como também impede os sentimentos de culpa em relação aos pensamentos e desejos coléricos a seu respeito – uma culpa que interferiria seriamente na boa relação com a mãe.

As crianças consideram as histórias reais, verídicas e acreditam que possam ocorrer de fato. De acordo com Bruno Bettelheim: “os contos de fadas retratam de forma simbólica os passos essenciais para o crescimento e para a aquisição de uma existência independente”. (pg.106)

Os personagens dos contos de fadas são unidimensionais: são a ferocidade encarnada ou a benevolência altruísta. Um animal ou é só devorador ou só prestativo. Isso possibilita à criança compreender com facilidade suas ações e reações, por meio de imagens simples e diretas. Estas histórias ajudam a criança a organizar seus sentimentos complexos e ambivalentes, de modo que cada um começa a ocupar um lugar separado, em vez de serem todos uma grande mistura.

“Até mesmo Freud não encontrou melhor maneira de ajudar a dar sentido à incrível mistura de contradições que coexistem em nossas mentes e vidas interiores do que criar símbolos para aspectos isolados da personalidade. Chamou-os de id, ego e superego. Se nós, como adultos, temos que recorrer à criação de instâncias separadas para trazer alguma ordem sensível ao caos de nossas experiências interiores, quão maior é essa necessidade na criança!”. (pg. 108)

As abstrações criadas por Freud parecem “entidades” separadas, que muitas vezes são contraditórias. Esses conceitos podem ser abstratos e algumas vezes são convenientes para lidar com ideias que, sem serem “colocadas para fora, seriam difíceis de ser compreendidas. Na realidade, não há nenhuma separação entre elas, assim como não há separação entre corpo e mente.

Essas reflexões não são muito diferentes das imagens e símbolos dos contos de fadas.

Saiba mais:

As páginas assinaladas no corpo deste texto se referem ao livro que recomendo fortemente a leitura: A psicanálise dos contos de fadas. Bruno Bettelheim; tradução Arlene Caetano. 44ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Nosso cérebro ancestral https://spsp.org.br/nosso-cerebro-ancestral/ Fri, 04 Oct 2024 19:04:21 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=48315 ]]>

Vovó dizia que ficava toda “pimpona” quando recebia um elogio. Ela gostava muito, pois sentia-se reconhecida, ficava alegre. Se o elogio era feito na presença de alguma testemunha, tinha um sabor muito mais gostoso. Afinal, quem não gosta de um “like”, como os jovens dizem hoje. 

Nossos filhos são jovens, mas o cérebro deles é ancestral. Ele é geneticamente programado para adquirir informação e receber uma “recompensa” – sob a forma de uma pequena dose de dopamina (é um neurotransmissor, uma substância química que transmite informações do cérebro para as demais partes do corpo e é conhecida como um dos “hormônios da felicidade”) – cada vez que consegue. A indústria do setor digital, com absoluta lucidez, explora essa vulnerabilidade da psicologia humana.

Esse sistema de recompensa é que mantém cativos os usuários nas redes sociais. Basta criar um mecanismo de liberação regular de dopamina em seus cérebros. O Facebook faz isso ao estimular o seu like em resposta a uma mensagem ou foto publicada (nós pensamos que fazer isso é uma atitude educada!). Isso retroalimenta o mecanismo, levando-o a contribuir cada vez mais e assim receber mais comentários e likes, um encadeamento sem fim. Sempre é bom recordar que esse mecanismo de recompensa é o mesmo que determina o vício de qualquer outra etiologia (cigarro, drogas, bebida, sexo, etc.).

Athena Chavarria, que trabalhou no Facebook, disse: “Estou convencida de que o diabo mora em nossos smartphones e está destruindo nossos filhos”. O desabafo pode ser exagerado, mas tem o mérito de soar como um alarme necessário.

A cada dia, em média, os indivíduos que possuem smartphones, adultos e adolescentes, submetem-se a algo entre 50 a 129 interrupções em sua atenção, ou seja, uma a cada 7 ou 20 minutos, durante o tempo em que estão acordados. O estímulo para verificar se alguma mensagem chegou ou se há uma informação nova vem do som do aparelho ou, simplesmente, pela vontade interna do usuário em saber o que está acontecendo. A simples presença do aparelho, ao alcance dos olhos, pode gerar essa curiosidade. Inconscientemente, tememos deixar passar uma informação vital, ou apenas queremos nos deleitar com mais uma dose de dopamina. Esse mecanismo, atualmente, recebeu o acrônimo FoMO (Fear of Missing Out – medo de perder alguma coisa).

Uma quantidade crescente de estudos mostra que os comportamentos de multitasking (realização de múltiplas tarefas), associadas às incessantes solicitações do mundo digital (em especial as redes sociais), contribuem negativamente para a fixação de dados na memória, no processo de aprendizagem, déficit de atenção e interferem no estabelecimento de hábitos comportamentais prejudiciais. O cérebro humano fica mais vulnerável quando submetido a esses estímulos continuados, especialmente na infância e adolescência, os quais agem negativamente sobre o desenvolvimento cerebral.

 

Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Contos de fadas – uma dádiva de amor https://spsp.org.br/contos-de-fadas-uma-dadiva-de-amor/ Thu, 05 Sep 2024 15:29:29 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47884 ]]>

Muitos contos de fadas começam com a famosa expressão “Era uma vez…”, acrescida de alguma outra qualificação: “num certo país distante…”, ou “numa época em que os animais falavam…”. “Esses começos sugerem que o que se segue não pertence ao aqui e agora que conhecemos (…) simboliza que estamos deixando o mundo concreto da realidade comum”. A lógica e a causalidade normais estão suspensas. É exatamente por essa peculiaridade que os contos de fadas nos levam, sem nos apercebermos, ao universo do nosso inconsciente, que é igualmente estranho, distante. O conto de fadas leva a criança “para dentro” da história e, através da identificação com algum dos personagens e/ou situações, ocorrem crescimento e amadurecimento.

“Quando todos os anseios da criança passam a ser corporificados numa fada boa; seus desejos destrutivos, numa bruxa má; seus medos, num lobo voraz; as exigências de sua consciência, num homem sábio encontrado numa aventura; sua raiva ciumenta, em algum animal que ataca seus rivais – então ela pode começar a organizar suas tendências contraditórias.” (pg. 95).

O fundador da Psicanálise – Freud, diz “que só o homem consegue extrair um sentido da sua existência”. Isso pressupõe que o mundo real seja reconhecido e identificado, com suas dores e alegrias. Isso vale para crianças, também; entretanto, uma crença prevalente entre os pais é que a criança deve ser poupada, sempre, de situações que lhe tragam desagrado ou dificuldades – é querer que uma criança viva numa bolha de proteção absoluta. É um engano.

“… a mensagem que os contos de fadas transmitem à criança de forma variada é que a luta contra dificuldades na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que, se a pessoa não se intimida e se defronta com as provações, pode conseguir dominar os obstáculos e, ao fim, poderá emergir vitoriosa”. (pg.15)

Por essa razão, Lewis Carrol chamou os contos de fadas de uma “dádiva de amor”.

Ler ou ouvir um conto de fadas tem o poder de incentivar a imaginação da criança. Não é necessário nenhum livro supercolorido, com paisagens em 3D, ou desenhos e mais desenhos. Essa sofisticação pode até roubar aquilo que a própria história poderia suscitar na imaginação da criança.

Siga o gênio!!!

“Se você quer que crianças sejam inteligentes, leia contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Albert Einstein

 

Saiba mais:

As páginas assinaladas no corpo deste texto se referem ao livro, que recomendo fortemente a leitura: A psicanálise dos contos de fadas. Bruno Bettelheim; tradução Arlene Caetano. 44ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

 

Relator:

Fernando MF Oliveira

Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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Efeito Mateus https://spsp.org.br/efeito-mateus/ Mon, 12 Aug 2024 18:56:40 +0000 https://www.spsp.org.br/?p=47514 ]]>

“Sai da frente da TV e vai ver o céu, menino”, conclamava a vovó, incomodada com o tempo que o netinho estava parado diante de uma tela.  Ah! A vovó não aceitava que o neto ficasse “sem gastar energia”, “sem interagir com a natureza”, “sem brincar com os amigos”. Desconfiava que tinha alguma coisa errada: “tem caroço nesse angu”.

Hoje, o caroço nesse angu tem o nome de ‘Efeito Mateus’.

O “Efeito Mateus” é um fenômeno observado em estatísticas e análises econômicas, que descreve como as diferenças e desequilíbrios tendem a se ampliar durante períodos de crescimento econômico ou recuperação após uma crise.

O termo deriva de uma passagem do Novo Testamento da Bíblia cristã, no Evangelho de Mateus, onde Jesus diz: “Pois a quem tem, mais será dado, e terá em abundância. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado”. Essa passagem é frequentemente interpretada como uma reflexão sobre a dinâmica das desigualdades sociais. Em períodos de crescimento econômico as desigualdades podem se agravar, perpetuando um ciclo sem fim e aumentando as disparidades sociais.

Michel Desmurget* aplica esse conceito ao analisar a importância dos efeitos negativos no desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, em especial na idade entre 0 e 6 anos, causados pela exposição inadequada às telas. Nessa faixa etária ocorre um enorme crescimento do tecido neural, extraordinário na formação de sinapses, fundamentais para o processo de aprendizagem e memorização.

A analogia se estabelece ao afirmar que o comprometimento do crescimento e maturação desse sistema, nessa faixa etária, determina um patamar para aquisições futuras aquém do que poderia ter sido estabelecido. Portanto, quaisquer fatores que interfiram nesse desenvolvimento, sequestram oportunidades, são “ladrões de tempo oportuno e insubstituível”.

As telas são descritas como as “grandes vilãs” quanto ao uso desse bem primordial e essencial – o tempo. Elas competem, nas 24 horas do dia, com outras utilizações melhores e mais saudáveis para o desenvolvimento infantil.

 

Esse é o ponto.

 

É uma falácia bastante disseminada que uma criança que é estimulada ao uso precoce das diversas mídias terá uma performance melhor em sua vida futura, tanto acadêmica, quanto profissional. Podemos afirmar, sem risco de errar, que essa melhora, por exemplo com o treinamento continuado nos videogames, produz apenas melhores jogadores de videogames, sem repercutir em outras habilidades.

O que é essencial é a qualidade dos estímulos recebidos por uma criança. Nenhum programa de TV, como Vila Sésamo, Peppa Pig ou equivalente, será um estímulo melhor do que a criança brincar com jogos de encaixar, multicoloridos, contando com a interação de um adulto que as supervisione.

É a tese do livro de Michel Desmurget: “As crianças precisam que falemos com elas, leiamos histórias para elas, que ganhem e leiam livros. Elas precisam se “entediar”, “ter tempo para não fazer nada”, brincar, montar quebra-cabeças, construir casas com blocos, correr, pular, cantar. Elas necessitam desenhar, praticar atividades físicas, ouvir músicas, tocar instrumentos, etc. Todas essas atividades (e muitas outras semelhantes) constroem seu cérebro de forma mais segura e eficaz do que qualquer tela recreativa. Dito de outra maneira, a criança não se tornará um deficiente no mundo digital porque não foi exposta às telas durante os seis primeiros anos de sua vida. Ao contrário. O que ela desenvolverá longe das telas a ajudará a melhor utilizar o que o digital pode oferecer de positivo”.

Há os que subestimam, ou não acreditam nisso. Resgato, como alerta, uma frase veiculada pela Academia Americana de Pediatria: “Se não sabemos que algo é bom e há razões para acreditar que é mau, por que fazê-lo?” (**)

Listo para terminar, os principais problemas médicos, relacionados com a exposição inadequada às telas, que podem afetar a saúde das crianças e adolescentes:

  • Dependência digital e uso problemático das mídias interativas;
  • Problemas de saúde mental: irritabilidade, ansiedade e depressão;
  • Transtornos do déficit de atenção e hiperatividade;
  • Transtornos do sono;
  • Transtornos de alimentação: sobrepeso/obesidade e anorexia/bulimia;
  • Sedentarismo e falta da prática de exercícios;
  • Bullying & cyberbullying;
  • Transtornos da imagem corporal e da autoestima;
  • Riscos da sexualidade, nudez, sexting, abuso sexual, estupro virtual;
  • Comportamentos autolesivos, indução e riscos de suicídio;
  • Aumento da violência, abusos e fatalidades;
  • Problemas visuais, miopia e síndrome visual do computador;
  • Problemas auditivos e PAIR (perda auditiva induzida pelo ruído);
  • Transtornos posturais e musculoesqueléticos;
  • Uso de nicotina, vaping, bebidas alcoólicas, maconha, anabolizantes e outras drogas.

 

Saiba mais:

 

* A Fábrica de Cretinos Digitais: os perigos das telas para nossas crianças. Michel Desmurget. São Paulo: Vestígio, 2023.

** Falck RS et al. What is the association between behaviour and cognitive function? A systematic review. British Journal of Sports Medicine, 2017; 51.

 

Relator:

Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP

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