Os contos de fadas descrevem “estados mentais” por meio de imagens e ações. Basta, por exemplo, dizer que “Cinderela todos os dias ia ao túmulo da mãe e chorava”, para externar o grau de infelicidade; ou, dizer que “o herói estava perdido numa floresta impenetrável e densa, sem saber que caminho tomar, desesperado para encontrar uma saída”, para descrever o estado de desconforto.
Um bom conto de fadas deve ter algumas características essenciais: fantasia, recuperação, escape, ameaça à existência física e moral do herói (ou heroína) e consolo profundo, características salientadas por Tolkien e Bruno Bettelheim*. Os contos de fadas apontam em geral, para uma reviravolta feliz, na qual o herói (ou heroína) se sente recompensado (após tanto desconforto e medo) e a pessoa má encontra a merecida sorte, a punição da maldade, para satisfazer o senso comum de justiça. O consolo se completa com a volta ao lar, com o encontro da(o) amada(o), a posse do reino – onde não há sensação de abandono algum.
Toda criança acredita em magia, mas deixa de fazê-lo quando cresce. Por isso, é infundada a preocupação de alguns pais de que a exposição aos contos de fadas possa levar ao arrebatamento de seus filhos pelas fantasias e que passem a crer em encantamentos. Outros temem que a saturação da mente infantil por contos de fadas as atrapalhe a lidar com a realidade. O oposto é que é verdadeiro: as fantasias contêm, sob a forma de imaginação, uma variedade de questões também encontradas na realidade. As fantasias alimentam o ego, oferecendo um abundante material com que trabalhar, tornando-se essenciais para a formação da personalidade e ajudam a moldar a forma de como ver o mundo.
Os pensamentos de uma criança pequena não acontecem de um modo ordenado, como os do adulto – as fantasias da criança são seus pensamentos. Quando uma criança tenta entender a si própria e aos outros, ou imaginar quais as consequências possíveis de uma ação, ela tece fantasias em torno dessas questões. É sua maneira de “brincar com as ideias”.
Sem fantasias para nos dar esperanças, não temos força para enfrentar as adversidades da vida. A infância é a época em que essas fantasias precisam ser alimentadas. Os contos de fadas são uma ferramenta extraordinária para atingir esse objetivo.
Saiba mais:
– J. R. Tolkien. Tree and leaf. Boston: Houghton Mifflin, 1965.
– De Bettelheim, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2009.
Relator:
Fernando MF Oliveira
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da SPSP